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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSADORES 


PLATÃO 


DEFESA DE SÓCRATES 


XENOFONTE 


DITOS E FEITOS 
MEMORÁVEIS DE SÓCRATES 


* 


CA POLOCIASDE SOCRATES 


ARISTÓFANES 


“AS NUVENS 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


Títulos originais: 


'Amohoyia rod Ewxpárous (Defesa de Sócrates) 

'Aroumuoveúuara (Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates) 
“Asrohoyia rob Bwepárous (Apologia de Sócrates) 
Nepéxal (As Nuvens) 


1.3 edição — Dezembro 1972 


o - Copyright desta edição, 1972, 
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 
Traduções publicadas sob licença de: 
Editora Cultrix Ltda.. São Paulo (Defesa de Sócrates) 
Cia. Brasil Editora, Rio de Janeiro (Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates 
e Apologia de Sócrates) 
Difusão Européia do Livro, São Paulo (As Nuvens) 


iss SUMARIO 


DERES OE S OCR AE a o RE eg da AR o SR da 9 
Diros EFEITOS MEMORÁVEIS DE SÓCRATES ..liiiiciiiiii o de 
APOLO RIU DEDOCRATES | ac unas fo cu ada A Desen a RR qua o 


As NUVENS 


Nora DO EDITOR 


Sócrates não deixou nenhum escrito. Tudo o que sabemos sobre ele — sobre 
sua vida e sobre seu pensamento — provém de depoimentos de discípulos ou de 
adversários. Os historiadores da filosofia são unânimes em considerar que os 
principais testemunhos sobre Sócrates são fornecidos por Platão e Xenofonte, 
que o exaltam, e por Aristófanes, que o combate e satiriza. Do confronto desses 
diferentes retratos é que se pode tentar extrair a verdadeira fisionomia de 
Sócrates. 

Como outros textos de escritores antigos, os de Platão, Xenofonte e Aristó- 
fanes são tradicionalmente divididos em passagens identificadas, em todas as 
edições, através de números e/ou letras colocadas nas margens laterais. 


PLATÃO 


a DERESA. ves, 
E Db E SOCRATES | 


Tradução de JAIME BRUNA 


I7a. 


I 


Exórdio 


Não sei, Atenienses, que influência 
exerceram meus acusadores em vosso 
espírito; a mim próprio, quase me fize- 
ram esquecer quem sou, tal a força de 
persuasão de sua eloguência. Verdade. 
porém, a bem dizer, não proferiram 
nenhuma. Uma, sobretudo, me assom- 
brou das muitas aleivosias que assaca- 
ram: a recomendação de cautela para 
não vos deixardes embair pelo orador 
formidável que sou. Com efeito, não 
corarem de me haver eu de desmentir 
prontamente com os fatos, aos mos- 
trar-me um orador nada formidável, 
eis O que me pareceu o maior de seus 
descaramentos, salvo se essa gente 
chama formidável a quem diz a verda- 
de; se é o que entendem, eu cá admiti- 
ria que, em contraste com eles, sou um 
orador. Seja como for, repito-o, verda- 
de eles não proferiram nenhuma ou 
quase nenhuma; de mim, porém, vós 
ides ouvir a verdade inteira. Mas não, 
por Zeus, Atenienses, não ouvireis dis- 


cursos como os deles, aprimorados em. 


nomes e verbos, em estilo florido; 
serão expressões espontâneas, nos ter- 
mos que me ocorrerem, porque depo- 


sito confiança na justiça do que digo; 
nem espere outra coisa quem quer de 
vós. Deveras, senhores, não ficaria 


bem, a um velho como eu, vir diante de 
vós plasmar seus discursos como um 
rapazola. Faço-vos, no entanto, um 


pedido, Atenienses, uma súplica pre- 
mente; se ouvirdes, na minha defesa, a 
mesma linguagem que habitualmente 
emprego na praça, junto das bancas, 
onde tantos dentre vós me tendes escu- 
tado, e noutros lugares, não a estra- 
nheis nem vos amotineis por isso. 
Acontece que venho ao tribunal pela 
primeira vez aos setenta anos de idade; 
sinto-me, assim, completamente es- 
trangeiro à linguagem do local. Se eu 
fosse de fato um estrangeiro, sem dúvi- 
da me desculparíeis o sotaque e o lin- 


guajar de minha criação; peço-vos. 


nesta ocasião a mesma tolerância, que 
é de justiça a meu ver, para minha lin- 
guagem — que poderia ser talvez pior, 
talvez melhor — e que examineis com 
atenção se o que digo é justo ou não. 
Nisso reside o mérito de um juiz; o de 
um orador, em dizer a verdade. 


Duas Classes de Acusadores 


Cumpre, Atenienses, me defenda, acusadores; depois, das recentes e dos 


em primeiro lugar, das primeiras alei- 
vosias contra mim e dos primeiros 


recentes. Com efeito, muitos acusado- 
res tenho junto de vós, hã muitos anos, 


I8a 


b 


12 PLATÃO 


que nada dizem de verdadeiro. A esses 
tenho mais medo que aos da roda de 
Ânito!, posto que estes também são 
temíveis. Mais temíveis, porém, senho- 
res, sao aqueles, que, encarregando-se 
da educação da. maioria de vós desde 
meninos, fizeram-vos crer, com acusa- 
ções inteiramente falsas, que existe 
certo Sócrates, homem instruído, que 
estuda os fenômenos celestes, que 
investigou tudo o que há debaixo da 
terra e que faz prevalecêr a razão mais 
- fraca. Por terem espalhado esse boato, 
Atenienses, são esses os meus acusado- 
res temíveis, porque os seus ouvintes 
acham que os investigadores daquelas 
matérias não crêem tampouco nos deu- 
ses. Depois, esses acusadores são nu- 
merosos. e vêm acusando hã muito 
tempo; mais ainda, falavam convosco 
na idade em que mais crédulos podiíeis 
ser, quando alguns de vós éreis crian- 
ças ou rapazes, € a acusação era feita a 
inteira revelia, sem defensor algum. De 
tudo, o que tem menos sentido é não se 
poderem dizer nem saber os seus 


* Ânito, rico industrial e político, fracassou como 
general no ano 409 a.C. e, processado por isso, sal- 
vou-se corrompendo os juízes. Passando ao partido 
popular, cooperou na derrubada da tirania dos Trin- 
ta e tornou-se muito influente. Figura, com Meleto e 
Licão, entre os acusadores de Sócrates no processo. 
(N. do T.) 


| 


nomes, salvo quando se trata, porven- 
tura, de um autor de comédias. Os que, 
por inveja, ou malquerença, vos procu- 
ravam convencer, mais os que, conven- 
cidos, por sua vez convenciam a 
outros, todos esses são os mais emba- 
raçosos; nem sequer é possível citar 
aqui em juízo nenhum deles e refutá-lo; 
o defensor é inevitavelmente obrigado 
a combater como que sombras, a repli- 
car sem tréplica. Em conclusão, con- 
cordai comigo em que meus acusado- 
res são de duas classes: os que acabam 
de acusar-me e os de antanho, a quem 
aludi; admiti, também, que destes me 
deva defender em primeiro lugar, pois 
que a suas acusações destes ouvido 
primeiro e muito mais que às dos 
últimos. 


Bem, Atenienses, é mister que apre- 
sente minha defesa, que empreenda 
delir em vós os efeitos dessa calúnia, a 
que destes guarida por tantos anos, e 
isso em prazo tão curto. Eu .quisera 
que assim acontecesse, para o meu e 
para o vosso bem, e que lograsse êxito 
a minha defesa; considero, porém, a 
empresa dificil e não tenho a mínima 
ilusão a esse respeito. Seja como for, 
que tomem as coisas o rumo que 
aprouver ao deus, mas cumpre obede- 
cer à lei e apresentar defesa. 


“Acusações Antigas 


Recapitulemos, portanto, desde o 
começo, qual foi a acusação donde 
procede a calúnia contra mim, dando 
crédito à qual, me moveu Meleto? o 
presente processo. Vejamos: que é 
mesmo o que afirmam os caluniadores 


2 Meleto, ou Melito, poeta de segunda ordem, cuja 
obra não chegou até nós. (N. do T.) 


em sua difamação? Como se faz com o 
texto das acusações, leiamos o das 
suas: “Sócrates é réu de pesquisar 
indiscretamente o que há sob a terra e 
nos céus, de fazer que prevaleça a 
razão mais fraca e de ensinar aos ou- 
tros o mesmo comportamento.” É mais 
ou menos isso, pois é o que vós pró- 


19a 


DEFESA DE SÓCRATES 13 


prios víeis na comédia de Aristófanes? 
— um Sócrates transportado pela 
cena, apregoando que caminhava pelo 
ar e proferindo muitas outras sandices 
sobre assuntos de que não entende 
nada. Dizendo isso, não desejo menos- 
cabar tais conhecimentos, se é que os 
possui alguém — não será desse crime 
que me há de processar Meleto — mas 
a verdade é que não tenho deles, 
Atenienses, a mais vaga noção. Invoco 
o testemunho da maioria de vós mes- 
mos, pedindo que vos informeis mu- 
tuamente e digam aqueles que alguma 
vez ouviram minhas conversas — hã 
muitos deles entre vós. Dizei-o, pois, 


mutuamente, a ver se algum de vós me - 


ouviu alguma vez discorrer, por pouco 
que fosse, sobre tais assuntos. Assim 
ficareis sabendo que é do mesmo esto- 


fo tudo o mais que por aí se fala de 
mim. 

“Na realidade, não têm fundamento 
nenhum essas balelas; tampouco falará 
verdade quem vos disser que ganho 
dinheiro lecionando. Sem embargo, 
acho bonito ser capaz de ensinar, 
como Górgias de Leontino *, Pródico 


3 Aristófanes, célebre e grande comediógrafo; 
punha em cena personagens e temas da época, pole- 
mizando a respeito de política, costumes e idéias. 
Na comédia das Nuvens, ridiculariza e calunia a 
Sócrates, apresentando-o como um charlatão. (N. 
do T.) 

* Górgias, Pródico e Hípias eram sofistas, isto é, 
professores; propunham-se a tornar seus discípulos 
sophói, ou seja, hábeis, preparados. O primeiro 
ensinou filosofia e retórica; o segundo, moral e 
gramática; o terceiro, de tudo. (N. do T.) 


de Ceos e Hípias de Élis. Cada um 
deles, senhores, é capaz de ir de cidade 
em cidade, persuadindo os moços — 
que podem fregientar um de seus 
concidadãos a sua escolha e de graça 
-—— a deixarem essa companhia e virem 
para a sua, pagando e ficando-lhes, 
anda, agradecidos. Por sinal, encon- 
tra-se entre nós outro sábio, um de 
Paros; veio para uma temporada 
segundo soube. Fui, por acaso, visitar 
um homem, que tem pago a sofistas 
mais dinheiro que todos os outros reu- 
nidos; trata-se de Cálias, filho de 
Hiponico. Eu lhe perguntava (ele tem 
dois filhos): “Cálias, dizia eu, se teus 
filhos fossem potros ou garrotes, sabe- 
riamos a quem ajustar como treinador 


para lhes aprimorar as qualidades ade- . 


quadas; seria um adestrador de cava- 
los ou um lavrador; como, porêm, eles 
são homens, quem pensas tomar como 


seu treinador? Quem é mestre nas qua- 
lidades de homem e de cidadão? Supo- 
nho que pensaste nisso, por teres 
filhos. Existe algum, — dizia eu — ou 
não existe? — Existe, sim, — disse ele. 
— Quem é? — tornei eu; de onde é? 
quanto cobra? — É Eveno, ó Sócrates, 
— respondeu ele — de Paros, por 
cinco minas.” Fiquei, então, com inve- 
ja desse Eveno, se é que é senhor dessa 
arte e leciona a tão bom preço. Por 
mim, bem que me orgulharia e enso- 
berbeceria de ter a mesma ciência! 
Pena é que não a tenho, Atenienses. 


20 


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14 PLATÃO 


Ciência e Missão de Sócrates 


Um de vós poderia intervir: “Afinal, 
Sócrates, qual é a tua ocupação? 
Donde procedem as calúnias a teu res- 
peito? Naturalmente, se não tivesses 
uma ocupação muito fora do comum, 
não haveria esse falatório, a menos que 
praticasses alguma extravagância. Di- 
ze-nos, pois, qual é ela, para que não 
façamos nós um Juízo precipitado.” 
Teria razão quem assim falasse; tenta- 
rei explicar-vos a procedência dessa 
reputação caluniosa. Ouvi, pois. Al- 
guns de vós achareis, talvez, que estou 
gracejando, mas não tenhais dúvida: 
eu vos contarei toda a verdade. Pois 
eu, Atenienses, devo essa reputação 
exclusivamente a uma ciência. Qual 
vem a ser a ciência? A que é, talvez, a 
ciência humana. É provável que eu a 
possua realmente, os mestres mencio- 
nados há pouco possuem, quiçá, uma 
sobre-humana, ou não sei que diga, 
porque essa eu não aprendi, e quem 
disser o contrário me estará calu- 
niando. Por favor, Atenienses, não vos 
amotineis, mesmo que eu vos pareça 
dizer uma enormidade; a alegação que 
vou apresentar nem é minha; citarei o 
autor, que considerais idôneo. Para 
testemunhar a minha ciência, se é uma 
ciência, e qual é ela, vos trarei o deus 
de Delfos 5. Conhecestes Querefonte, 
decerto. Era meu amigo de infância e 
também amigo do partido do povo e 
seu companheiro naquele exílio de que 


5 Em Delfos havia um templo, onde Apolo dava 
oráculos, predizendo o futuro. A alusão é ao exílio 
sofrido pelos partidários da democracia, no ano 404 
a.C., quando se instalou em Atenas a tirania dos 
Trinta. (N. do T.) 


voltou conosco. Sabeis o tempera- 
mento de Querefonte, quão tenaz nos. 
seus empreendimentos. Ora, certa vez, 
indo a Delfos, arriscou esta consulta 
ao oráculo — repito, senhores; não 
vos amotineis — ele perguntou se 
havia alguém mais sábio que eu; res- 
pondeu à Pítiaê que não havia nin- 
guém mais sábio. Para testemunhar 
isso, tendes aí o irmão dele, porque ele 
já morreu. 

Examinai por que vos conto eu esse 
fato; é para explicar a procedência da 
calúnia. Quando soube daquele orácu- 
lo, pus-me a refletir assim: “Que quere- 
rã dizer o deus? Que sentido oculto 
pôs na resposta? Eu cá não tenho 
consciência de ser nem muito sábio 
nem pouco; que quererá ele, então, sig- 
nificar declarando-me o mais sábio? 
Naturalmente, não está mentindo, por- 
que isso lhe é impossível.” Por longo 


tempo fiquei nessa incerteza sobre o 
sentido; por fim, muito contra meu 
gosto, decidi-me por uma investigação, 
que passo a expor. Fui ter com um dos 
que passam por sábios, porquanto, se 
havia lugar, era ali que, para rebater o 
oráculo, mostraria ao deus: “Eis aqui 
um mais sábio que eu, quando tu dis- 
seste que eu o era!” Submeti a exame 
essa pessoa — é escusado dizer o seu 
nome; era um dos políticos. Eis, 
Atenienses, a impressão que me ficou 
do exame e da conversa que tive com 
ele; achei que ele passava por sábio 
aos olhos de muita gente, principal- 


8 Assim se chamava a sacerdotisa do templo de 
Delfos, que formulava as oráculos. (N. do T.) 


DEFESA DE SÓCRATES 15: 


mente aos seus próprios, mas não Oo 
era. Meti-me, então, a explicar-lhe que 
supunha ser sábio, mas não o era. A 
consequência foi tornar-me odiado 
dele e de muitos dos circunstantes. 

Ao retirar-me, ia concluindo de mim 
para comigo: “Mais sábio do que esse 
homem eu sou; é bem provável que ne- 
nhum de nós saiba nada de bom, mas 
ele supõe saber alguma coisa e não 
sabe, enquanto eu, se não sei, tam- 
pouco suponho saber. Parece que sou 
um nadinha mais sábio que ele exata- 
mente em não supor que saiba o que 
não sei.” Daí fui ter com outro, um dos 
que passam por ainda mais sábios e 
tive a mesmissima impressão; também 
ali me tornei odiado dele e de muitos 
outros. 

Depois disso, não parei, embora 
sentisse, com mágoa e apreensões, que 
me ia tornando odiado; não obstante, 
parecia-me imperioso dar a máxima 
innportânéia ao serviço do deus. Cum- 
pria-me, portanto, para averiguar O 
sêntido do oráculo, ir ter com todos os 
que passavam por senhores de algum 
saber. Pelo Cão, Atenienses! Já que 
vos devo a verdade, juro que se deu co- 
migo mais ou menos isto: investigando 
de acordo com o deus, achei que aos 
mais reputados pouco faltava para 
serem os mais desprovidos, enquanto 
outros, tidos como inferiores, eram os 
que mais visos tinham de ser homens 


de senso. Devo narrar-vos os meus vai- 


véns nessa faina de averiguar o orácu- 
lo. 

Depois dos políticos, fui ter com os 
poetas, tanto os autores de: tragédias 
como os de ditirambos e outros, na 
esperança de aí me apanhar em fla- 
grante inferioridade cultural. Levando 
em mãos as obras em que pareciam ter 
posto o máximo de sua capacidade, 
interrogava-os minuciosamente sobre 
o que diziam, para ir, ao mesmo 


tempo, aprendendo deles alguma coisa. 
Pois bem, senhores, coro de vos dizer a 
verdade, mas é preciso. A bem dizer, 
quase todos os circunstantes poderiam 
falar melhor que eles próprios sobre as 
obras que eles compuseram. Assim, 
logo acabei compreendendo que tam- 


pouco os poetas compunham suas 
obras por sabedoria, mas por dom 
natural, em estado de inspiração, como 
os adivinhos e profetas. Estes também 
dizem muitas belezas, sem nada saber 


do que dizem; o mesmo, apurei, se dá 
com os poetas; ao mesmo tempo, notei 
que, por causa 'da poesia, eles supõem 
ser os mais sábios dos homens em ou- 
tros campos, em que não o são. Saí, 


pois, acreditando superá-los na mesma 
particularidade que aos políticos. 


Por fim, fui ter com os artífices; 


tinha consciência de não saber, a bem 
dizer, nada, e certeza de neles desco- 


brir muitos belos conhecimentos. 
Nisso não me enganava; eles tinham 
conhecimentos que me faltavam; eram, 


assim, mais sábios que eu. Contudo, 
Atenienses, achei que os bons artesãos 
têm o mesmo defeito dos poetas; por 


praticar bem a sua arte, cada qual ima- 
ginava ser sapientissimo nos demais 
assuntos, os mais dificeis, e esse enga- 
no toldava-lhes aquela sabedoria. De 
sorte que perguntei a mim mesmo, em 


nome do oráculo, se preferia ser como 
sou, sem a sabedoria deles nem sua 
ignorância, ou possuir, como eles, uma 


e outra; e respondi, a mim mesmo € ao 
oráculo, que me convinha mais ser 
como sou. 


Dessa investigação é que procedem, 
Atenienses, de um lado, tantas inimiza- 
des, tão: acirradas e maléficas, que 
deram nascimento a tantas calúnias, e, 
de outro, essa reputação de sábio. E 
que, toda vez, os circunstantes supõem 


23a 


16 PLATÃO 


que eu seja um sábio na matéria em 
que confundo a outrem. O provável, 
senhores, é que, na realidade, o sábio 
seja o deus e queira dizer, no seu orá- 
culo, que pouco valor ou nenhum tem 
a sabedoria humana; evidentemente se 
terá servido deste nome de Sócrates 
para me dar como exemplo, como se 
dissesse: “O mais sábio dentre vós, 
homens, é quem, como Sócrates, com- 


preendeu que sua sabedoria é verdadei- 
ramente desprovida do mínimo valor.” 
Por isso não parei essa investigação 
até hoje, vagueando e interrogando, de 
acordo com o deus, a quem, seja cida- 


dao, seja forasteiro, eu tiver na conta 
de sábio, e, quando julgar que não o é, 
coopero com o deus, provando-lhe que 
não é sábio. Essa ocupação não me 
permitiu lazeres para qualquer ativi- 
dade digna de menção nos negócios 
públicos nem nos particulares; vivo 
numa pobreza extrema, por estar ao 
serviço do deus. 


Além disso, os moços que esponta- 
neamente me acompanham — e são os 
que dispõem de mais tempo, os das 
famílias mais ricas — sentem prazer 
em ouvir o exame dos homens; eles 
próprios imitam-me muitas vezes; nes- 
sas ocasiões, metem-se a interrogar os 


outros; suponho que descobrem uma 
multidão de pessoas que supõem saber 
alguma coisa, mas pouco sabem, quiçã 
nada. Em consequência, os que eles 
examinam se exasperam contra mim e 
não contra si mesmos, e propalam que 


existe um tal Sócrates, um grande 
miserável, que corrompe a mocidade. 
Quando se lhes pergunta por quais 
atos ou ensinamentos, não têm o que 
responder; não sabem, mas, para não 
mostrar seu embaraço, aduzem aque- 
las acusações contra todo filósofo, 
sempre à mão: “os fenômenos celestes 
— o que há sob a terra —a descrença 
dos deuses — o prevalecimento da 
razão mais fraca”. Porque, suponho, 
não estariam dispostos a confessar a 
verdade: terem dado prova de que fin- 
gem saber, mas nada sabem. Como 
são ciosos de honrarias, tenazes, e 
numerosos, persuasivos no que dizem 
de mim por se confirmarem uns aos 
outros, não é de hoje que eles têm 
enchido vossos ouvidos de calúnias 
assanhadas. Dai a razão de me ataca- 
rem Meleto, Ânito e Licão — tomando 
Meleto as dores dos poetas; Anito, as 
dos artesãos e políticos; e Licão, as 
dos oradores. Dessarte, como dizia ao 
começar, eu ficaria surpreso se logras- 
se, em tão curto prazo, delir em vós os 
efeitos dessa calúnia assim avolumada. 
Ai tendes, Atenienses, a verdade; em 
meu discurso não vos oculto nada que 
tenha alguma importância, nada vos 
dissimulo. Sem embargo, sei que me 
estou tornando odioso por mais ou 
menos os mesmos motivos, o que com- 
prova a verdade do que digo, que é 
mesmo essa a calúnia contra mim € 
são mesmo essas as suas causas. É o 
que haveis de descobrir, se investi- 
gardes agora ou mais tarde. 


2d4a 


DEFESA DE SÓCRATES 17 


A Denúncia de Meleto 


Nada mais preciso dizer para defen- 
der-me, diante de vós, das mentiras de 
meus primeiros acusadores. Tentarei, 
em seguida, defender-me de Meleto, 
esse honrado e prestante cidadão, 
como se proclama, e dos acusadores 
recentes. Novamente, já que se trata de 
outros acusadores, tomemos também o 
texto de sua acusação. Reza ele mais 
ou menos assim: “Sócrates é réu de 
corromper a mocidade e de não crer 
nos deuses em que o povo crê e sim em 
outras divindades novas.” Essa a natu- 
reza da queixa; examinemo-la parte 
por parte. 


Diz que sou réu de corromper a 
mocidade. Mas eu, Atenienses, afirmo 
que Meleto é réu de brincar com assun- 
tos sérios; por leviandade, ele traz a 
gente à presença dos juízes, fingindo-se 
profundamente interessado por ques- 
tões de que jamais fez o mínimo caso. 
Vou também procurar demonstrar-vos 
que assim é. 


— Dize-me cá, Meleto: Dás muita 
importância a que os jovens sejam 
quanto melhores? 

— Dou, sim. 

— Faze, então, o favor de dizer a 
estes senhores quem é que os torna 
melhores; evidentemente o sabes, pois 
que te importa. Descoberto o corrup- 
tor, segundo afirmas, tu me conduzes à 
presença destes senhores e me acusas; 
portanto, faze o favor de dizer quem os 
torna melhores; conta-lhes quem é. 
Estás vendo, Meleto, que te calas e não 


sabes o que dizer? Com efeito, não 
achas que isso é feio e prova que não 


fazes o mínimo caso, como eu disse? 
Vamos, bom rapaz, fala; quem é que 
os tona melhores”? 

— São as leis. 

— Não é isso o que estou pergun- 
tando, excelente rapaz; pergunto que 
homem é, o qual, para começar, sabe 
exatamente isso, as leis. 

— Às pessoas presentes, Sócrates; 
OS Juízes. 

—— Que dizes, Meleto? Os presentes 
são capazes de educar os moços e os 
tornam melhores? 


— Sem dúvida. 

— Todos? Ou uns sim e outros 
não? 

— "Todos. 

— Boa notícia nos dás, por Hera! 
Sobejam os benfeitores! Que mais? E 
esses da assistência os tornam melho- 
res ou não? 

Eles também. 

Que dizer dos conselheiros? 
Também os conselheiros. 

Mas, então, Meleto, acaso os 
homens da assembléia, os eclesiastas 
corrompem a mocidade? Ou eles todos 


- também a tornam melhor? 


— Também eles. 

— Logo, não é assim? todos os ate- 
nienses a tornam gente de bem, menos 
eu; eu sou o único a corrompê-la! É 
isso O que dizes? 

— Exatamente isso é o que digo. 

— Que imensa desdita apontas em 
mim! Responde também a esta per- 
gunta: no teu entender, com os cavalos 
sucede o mesmo? Toda gente os 
melhora e um só os vicia? Ou se dá 


250 


18 PLATÃO 


inteiramente o contrário: quem os sabe 
melhorar é um só, ou muito poucos, os 
adestradores; a maioria, quando trata 
de cavalos e os monta, vicia-os? Não é 
assim, Meleto, com os cavalos e com 
todos os outros animais? Sem dúvida, 
quer o negueis tu e Ânito, quer o afir- 
meis. Que bom para os moços, se há 
um só a corrompê-los e os outros todos 
a fazer-lhes bem! Ora, Meleto, estás 
dando provas acabadas de que nunca 
te preocupaste com a mocidade e reve- 
lando claramente a tua indiferença 
para com o crime de que me acusas! 
Por Zeus, Meleto, dize-nos mais uma 


coisa; é melhor habitar entre cidadãos 
prestimosos ou entre daninhos? Meu 
caro, responde; minha pergunta é faci- 
lima! Não é verdade que sempre os 


daninhos acabam fazendo mal a quem 
estã perto, e os prestimosos algum 
bem? 

— Decerto. 

— Haverá, então, quem queira re- 
ceber de seus companheiros antes 


danos que beneficios? Responde, bom 
homem; a lei manda que respondas. 
Há quem prefira o dano? 

— Não, é claro. 

— Adiante. Trouxeste-me aqui 
como alguém que corrompe e perverte 
a mocidade por querer ou sem querer? 

— Por querer, ora essa! 


— Como assim, Meleto? Tu na tua 
idade me superas tanto a mim na 
minha, que tu sabes que os maus sem- 
pre acabam fazendo algum mal a seus 
mais próximos e os bons algum bem, e 
eu sou tão ignorante que nem mesmo 
sei que, se tornar malfazejo alguém do 
meu convívio, me arrisco a receber 
dele algum dano? E, segundo dizes, 
tamanho mal eu o faço por querer? A 
mim não me convences disso, Meleto; 


nem creio que convenças outra pessoa. 


26: Não; Ou não corrompo, ou, se corrom- 


po, é sem querer; numa suposição 
como na outra, estás mentindo. Se, 
porém, corrompo sem querer, a lei não 
manda trazer-me aqui por semelhante 
erro involuntário, mas tomar-me de 


parte, ensinar-me, ralhar comigo; evi- 


dentemente, depois de aprender, deixa- 
rei de fazer o que sem querer ando 


fazendo. Tu, porém, evitaste, não esta- 
vas disposto a ajudar-me com teus 
ensinamentos e me trouxeste aqui, para 
onde a lei manda trazer quem precisa 
de castigo e não de lições. Ora, 
Atensenses, está demonstrado o que eu 
dizia: Meleto jamais fez o mínimo caso 
dessa questão. Sem embargo, dize-nos, 
Meleto: por que processo corrompo eu 


4 


a mocidade, segundo afirmas? Ou é 
claro que, segundo a tua denúncia, 
ensinando-os a não crer nos deuses em 


que o povo crê e sim em outras divin- 
dades novas? Não afirmas que os cor- 
rompo ensinando isso? 


— E exatamente isso que proclamo 
em alto e bom som. 


— Então, Meleto, por esses mes- 


mos deuses de que agora se trata, fala 


com mais clareza ainda, a mim e a 
estes senhores; não consigo entender se 


afirmas que ensino a crer na existência 
de certos deuses — nesse caso admito 
a existência de deuses, absolutamente 


não sou ateu, nem é esse o meu crime, 
se bem que não sejam os deuses do 
povo, mas outros, e por serem outros é 


que me processas — ou se afirmas que 
não creio mesmo em deus nenhum €& 
ensino isso aos outros. 


— Isso é o que afirmo, que não crês 
mesmo em deus nenhum. 


— Meleto, tu és um assombro! 
Com que intuito dizes isso? Então eu 
não creio, como toda gente, que o sol e 
a lua são deuses? 

— Por Zeus, senhores juízes, ele 


27ar 


DEFESA DE SÓCRATES 19 


não crê, pois afirma que o sol é pedra e 
a lua é terra. 

— Tu supões estar acusando o 
Anaxágoras”, meu caro Meleto ! Dessa 
forma, subestimas os presentes, julgan- 
do-os tão iletrados que ignorem que os 


“livros de Anaxágoras de Clazômenas é 


que andam cheios dessas teorias. Logo 
de mim é que os moços aprendem liga- 
ções que eles podem, vez por outra, 
comprar na orquestra, quando muito 
por três dracmas e depois rir de Sócra- 
tes se as quiser impingir como suas, 
tanto mais umas tão originais! Enfim, 
por Zeus, é isso o que pensas de mim? 
que não creio em deus algum? 

— Não crê, por Zeus; ele não crê 
em deus algum ! 

-— Tu não mereces fé, Meleto, nem 
mesmo a tua própria, ao que parece. 
Este homem, Atenienses, acho que é 
por demais temerário e estouvado e me 
fez esta denúncia apenas por temeri- 
dade e estouvamento de juventude; ele 
dá a impressão de estar propondo uma 
adivinha para me experimentar: “Será 
que o sábio Sócrates vai perceber que 
estou brincando e me contradizendo, 
ou será que o vou lograr com os de- 
mais ouvintes?” Penso que ele se con- 
tradiz na denúncia, como se dissesse: 
“Sócrates é réu de crer nos deuses em 
vez de crer nos deuses.” Isso é de quem 
está brincando. | 

Examinai comigo, senhores, por que 
penso que ele diz isso; tu, -Meleto, 
responde-nos. Vós, de vossa parte, 
lembrai-vos do que vos pedi no come- 
ço e não vos amotineis se eu arranjar a 
discussão à minha maneira-habitual. 

Existe, Meleto, uma pessoa que 


7 Anaxágoras, filósofo da escola jônica, mestre e 
conselheiro de Péricles, célebre por ter concebido a 


- existência duma Mente, Nous, ordenadora do Uni- . 


verso. Por dar explicações naturalistas dos fenôme- 
nos celestes, foi condenado por impiedade a exilar- 
se de Atenas em 432 a.C. Suas obras, como as de 


outros autores, podiam ser compradas no local do : 


teatro destinado ao coro, denominado orquestra. 
(N. do To) 


acredite na existência de coisas huma- 
nas e não na dos homens? Que ele res- 
ponda, senhores, e não levante protes- 
tos sobre protestos! Há alguém que 
não acredite em cavalos e sim na equi- 
tação? não creia em flautistas, e sim na 
arte de tocar flauta? Não há, excelente 


- homem; se não queres tu responder, eu 


o direi a ti e aos demais presentes. Res- 
ponde, porém, à pergunta que vem, 
após aquelas: há quem acredite em 
poderes demoníacos, mas não que exis- 


“tam demônios? 


— Não há. 

— Obrigado por teres respondido, 
embora contrariado, sob a coação: do 
tribunal. Por conseguinte, afirmas que 
eu acredito e ensino que há poderes 
demoniacos; sejam novos, sejam anti- 
gos, segundo dizes, acredito em pode- 
res demoniacos; foi o que juraste na 
denúncia. Ora, se acredito em seus 
poderes, força é concluir que acredito 
em demônios. Não é assim? Sem dúvi- 
da; faço de conta que concordas, já 
que não respondes. Os demônios, não é 
verdade que os consideramos deuses 
ou filhos de deuses? Sim ou não? 


— Por certo. | 
— Logo, se acredito em demônios, 
estes ou são uma sorte de deuses — e 


eu teria razão afirmando que estás pro- 
pondo uma adivinha por brincadeira, 
dizendo que eu creio em deuses em vez 
de crer em deuses, pois que acredito 
em demônios — ou são filhos de deu- 
ses, uma sorte de bastardos, nascidos 
de ninfas ou de outras mulheres a 
quem os atribui a tradição — e que 
homem pode acreditar em filhos de 
deuses e não em deuses? Seria a 
mesma aberração de quem acreditasse 


“Serem os machos filhos de éguas e 


jumentos, sem crer em éguas e jumen- 
tos. Não, Meleto, não é admissível que 
tenhas apresentado essa denúncia sem 
o propósito de nos pôr à prova, salvo 
se foi à falta de um crime real por que 


28a 


20 


me processes; de convenceres alguém, 
por estúpido que seja, de que uma 
mesma pessoa possa acreditar em 
poderes demoníacos e divinos, mas 
sem acreditar em demônios, deuses e 
heróis, não existe a mínima possibili- 
dade. Por conseguinte, Atenienses, a 
ausência da culpa a mim imputada na 
denúncia de Meleto não parece deman- 
dar longa defesa; basta o que foi dito. 


PLATÃO 


Ficai, porém, certos de que é verda- 
de o que eu dizia há pouco, que muita 
gente me ficou querendo muito mal. O 
que me vai condenar, se eu for conde- 
nado, não é Meleto, nem Ânito, mas a 
calúnia e o rancor de tanta gente; é o 
que perdeu muitos outros homens de 


bem e ainda os hã de perder, pois não é 
de esperar que pare em mim. 


Justificação de Sócrates 


Alguém, talvez, pergunte: “Não te 
pejas, ó Socrates, de te haveres dedi- 
cado a uma ocupação que te põe agora 
em risco de morrer?” Eu lhe daria esta 
resposta justa: “Estás enganado, 
homem, se pensas que um varão de 
algum préstimo deve pesar as possibili- 
dades de vida e morte em vez de consi- 
derar apenas este aspecto de seus atos: 
se o que faz é justo ou injusto, de 
homem de brio ou de covarde. No teu 
entender, não teriam méritos os semi- 
deuses que pereceram em Tróia; entre 
eles o filho de Tétis?, que desdenhava 
tanto o perigo em confronto com o 
passar por uma vergonha. Querendo 
ele matar a Heitor, sua mãe, uma 
deusa, lhe disse parece que mais ou 
menos estas palavras: “Filho, se mata- 
res a Heitor para vingar a morte de teu 
amigo Pátroclo, tu próprio morrerás; 


pois, dizia ela, o teu destino te espera: 


logo depois de Heitor.” Ele, apesar de 
ouvir a advertência, fez pouco caso do 
perigo de morte e, porque temia muito 
mais viver com desonra, respondeu: 


8 Tétis, nereida, divindade' marinha, foi mãe de 
Aquiles, herói da Ilíada; aqui, alude-se a uma cena 
do canto XVIII, desse poema. (N. do T.) 


“Morra eu assim que castigue o culpa- 
do, mas não fique por aqui, alvo de 
risos junto das curvas naus, como um 
fardo da terra.” Cuidas que ele se preo- 
cupou com o perigo de morte?” A ver- 
dade, Atenienses, é esta: quando a 
gente toma uma posição, seja por a 
considerar a melhor, seja porque tal foi 
a ordem do comandante, aí, na minha 
opinião, deve permanecer diante dos 
perigos, sem pesar o risco de morte ou 
qualquer outro, salvo o da desonra. 

Grave falta, Atenienses, teria come- 
tido eu, que, em Potidéia, em Anfípolis 
e Délio, permaneci, como qualquer 
outro, no posto designado pelos chefes 
por vós eleitos para me comandar e ali 
enfrentei a morte, se, quando um deus, 
como eu acreditava e admitia, me 
mandava levar vida de filósofo, subme- 
tendo a provas a mim mesmo e aos 
outros, desertasse o meu posto por 
temor da morte ou de outro mal qual- 
quer. Seria grave e então deveras côm 
Justiça me haveriam trazido ao tribu- 
nal pelo crime de não crer nos deuses, 
pois teria desobedecido ao oráculo por 
temor da morte e supondo ser sábio 
sem que o fosse. 


29a 


DEFESA DE SÓCRATES 21 


Com efeito, senhores, temer a morte 
é o mesmo que supor-se sábio quem 
não o é, porque é supor que sabe o que 
não sabe. Ninguém sabe o que é a 
morte, nem se, porventura, será para O 
homem o maior dos bens; todos a 
temem, como se soubessem ser ela o 
maior dos males. A ignorância mais 
condenável não é essa de supor saber o 
que não sabe? É talvez nesse ponto, 
senhores, que difiro do comum dos 
homens; se nalguma coisa me posso 
dizer mais sábio que alguém, é nisto 
de, não sabendo o bastante sobre o 
Hadesº, não pensar que o saiba. Sei, 
porém, que é mau e vergonhoso prati- 
car o mal, desobedecer a um melhor do 
que eu, seja deus, seja homem; por 
isso, na alternativa com males que 
conheço como tais, Jamais fugirei de 
medo do que não sei se será um bem. 

Portanto, mesmo que agora me 
dispensásseis, desatendendo ao parecer 
de Ânito, segundo o qual, antes do 
mais, ou eu não devia ter vindo aqui, 
ou, já que vim, é impossível deixar de 
condenar-me à morte, asseverando ele 
que, se eu lograr absolvição, logo 
todos os vossos filhos, pondo em prá- 
tica os ensinamentos de Sócrates, esta- 
rão inteiramente corrompidos; mesmo 
que, apesar disso, me  dissésseis: 
“Sócrates, por ora não atenderemos a 
Ânito e te deixamos ir, mas com a con- 
dição de abandonares essa investiga- 
ção e a filosofia; se fores apanhado de 
novo nessa prática, morrerás”; mesmo, 
repito, que me dispensásseis com essa 
condição, eu vos responderia: 
“Atenienses, eu vos sou reconhecido e 
vos quero bem, mas obedecerei antes 
ao deus que. a vós; enquanto tiver alen- 


º Segundo criam os gregos, após a morte, iam as 
almas para o Hades, espécie de limbo, lugar escuro 
e frio, situado no âmago da terra, onde continuavam 
a viver, como sombras. (N. do T.) 


to e puder fazê-lo, jamais deixarei de 
filosofar, de vos dirigir exortações, de 
ministrar ensinamentos em toda oca- 
sião àquele de vós que eu deparar, 
dizendo-lhe o que costumo: “Meu caro, 
tu, um ateniense, da cidade mais 
importante e mais reputada por sua 
cultura e poderio, não te pejas de cui- 
dares de adquirir o máximo de rique- 
zas, fama e honrarias, e de não te 
importares nem cogitares da razão, da 
verdade e de melhorar quanto mais a 
tua alma? ? E se algum de vós redar- 
guir que se importa, não me irei embo- 
ra deixando-o, mas o hei de interrogar, 
examinar e confundir e, se me parecer 
que afirma ter adquirido a virtude e 
não a adquiriu, hei de repreendê-lo por 
estimar menos o que vale mais e mais 
o que vale menos. É o que hei de fazer 
a quem eu encontrar, moço ou velho, 
forasteiro ou cidadão, principalmente 
aos cidadãos, porque me estais mais 
próximos no sangue. Tais são as or- 
dens que o deus me deu, ficai certos. E 
eu acredito que jamais aconteceu à ci- 
dade maior bem que minha obediência 
ao deus. 


Outra coisa não faço senão andar 
por aí persuadindo-vos, moços e ve- 
lhos, a não cuidar tão aferradamente 
do corpo e das riquezas, como de 
melhorar o mais possível a alma, 
dizendo-vos que dos haveres não vem 
a virtude para os homens, mas da vir- 
tude vêm os haveres e todos os outros 
bens particulares e públicos. Se com 
esses discursos corrompo a mocidade, 
seriam nocivos esses preceitos; se 
alguém afirmar que digo outras coisas 
e não essas, mente. Por tudo isso, 
Atenienses, diria eu, quer atendais a 
Ânito, quer não, quer me dispenseis, 
quer não, não hei de fazer outra coisa, 
anda que tenha de morrer muitas 
vezes. 


30a 


22 PLATÃO 


Quem Perderia Mais com a Condenação 


Não vos amotineis, Atenienses; 
mantende o favor que vos pedi, não 
vos amotinando com o que digo, mas 
ouvindo-me; acredito que ouvir-me vos 
serã realmente proveitoso. Estou, é 
verdade, para dizer outras coisas que 
talvez vos façam gritar, mas não façais 
isso de modo algum. Ficai certos de 
uma coisa: se me condenardes por ser 
eu como digo, causareis a vós próprios 
maior dano que a mim. A mim dano 
algum podem causar Meleto e Ânito; 
eles não têm forças para tanto; não 
creio que os céus permitam que um 
homem melhor sofra danos de um pior. 
Eles podem, sim, mandar-me matar, 
exilar-me, privar-me dos direitos; tal- 
vez eles e outros pensem que essas são 
grandes desgraças; eu não; eu penso 
que muito pior é fazer o que ele está 
fazendo, tentando a execução injusta 
de um homem. Neste momento, Ate- 
nienses, longe de atuar na minha defe- 
sa, como poderiam crer, atuo na vossa, 
evitando que, com a minha condena- 
ção, cometais uma falta para com a 
dádiva que recebestes do deus. Se me 
matardes, não vos será fácil achar 
outro igual, outro que — embora seja 
engraçado dizê-lo — por ordem divina 
se aferre inteiramente à cidade, como a 
um cavalo grande e de raça, mas um 
tanto lerdo por causa do tamanho e 
precisado de um tavão que o espevite; 
parece-me que o deus me impôs à cida- 


de com essa incumbência de me assen- 
tar perto, em toda parte, para não ces- 
sar de vos despertar, persuadir e 
repreender um por um. Outro igual 
não tereis facilmente, senhores, mas, se 
me crerdes, vós me poupareis. Bem 
pode ser que, aborrecidos como quem 
dormia e foi despertado, deis ouvidos a 
Ânito e, repelindo-me, me condeneis 
levianamente à morte; depois, passa- 
reis o resto da vida a dormir, salvo se o 
deus, cuidadoso de vós, vos enviar 
algum outro. Podeis reconhecer que 
sou bem um homem dado pelo deus à 
cidade por esta reflexão: não é con- 
forme à natureza do homem que eu 
tenha negligenciado todos os meus 
interesses, sofrendo, hã tantos anos, as 
consequências desse abandono do que 
é meu, para me ocupar do que diz res- 
peito a vós, dirigindo-me sem cessar a 
cada um em particular, como um pai 
ou um irmão mais velho, para o per- 
suadir a cuidar da virtude. Se auferisse 
proveito, se meus conselhos fossem 
pagos, meu procedimento teria outra 
explicação; mas vós mesmos o estais 
vendo: meus acusadores, tão descara- 
dos em todas as outras acusações, não 


foram capazes da extrema impudência 


de exibir testemunha de que alguma 
vez tenha recebido ou pedido remune- 
ração. Porque da verdade de minhas 
alegações exibo, suponho, uma prova 
cabal: minha pobreza. 


3la 


J2a 


DEFESA DE SÓCRATES 23 


Abstenção da Política 


Pode parecer esquisito que eu me 
azafame por todo canto a dar conse- 
lhos em particular e não me abalance a 


subir diante da multidão para dar con- 
selhos públicos à cidade. A razão disso 
em muitos lugares e ocasiões ouvistes 


em minhas conversas: uma inspiração . 


que me vem de um deus ou de um 
gênio, da qual Meleto fez caçoada na 
denúncia. Isso começou na minha 
infância; é uma voz que se produz e, 
quando se produz, sempre me desvia 
do que vou fazer, nunca me incita. Ela 


é que me barra a atividade política. E 
barra-me, penso, com toda razão; ficai 
certos, Atenienses: se há muito eu me 


tivesse votado à política, há muito 
estaria morto e não teria sido nada útil 
a vós nem a mim mesmo. Por favor, 


não vos doam as verdades que digo; 
ninguém se pode salvar quando se 
opõe bravamente a vós ou a outra mul- 


tidão qualquer para evitar que aconte- 
çam na cidade tantas injustiças e ilega- 
lidades; quem se bate deveras pela 


Justiça deve necessariamente, para 
estar a salvo embora por pouco tempo, 
atuar em particular e não em público. 


Disto vos posso dar provas valiosas; 
não argumentos, mas fatos, que é o que 
acatais. Ouvi o que me sucedeu, para 
saberdes que não tenho, por medo da 
morte, transigência nenhuma com a 
injustiça e que, por não ceder, teria 
perecido. O que vou dizer é banal, é de 
leguleio, mas é verdade. 

Com efeito, Atenienses, jamais exer- 


ci um cargo público; apenas fiz parte 


do Conselho. Calhou que a pritania!º 
coube à minha tribo, a Antióquida, 
quando do processo dos dez capitães 


que deixaram de recolher os mortos da 
batalha naval; vós os querieis julgar 


em bloco, o que era ilegal, como todos 
reconhecestes depois. Naquela ocasião 


fui o único dos prítanes que me opus a 
qualquer ação ilegal vossa, votando 


contra; os oradores estavam prontos a 
processar-me, a mandar-me prender; 


vós os incitáveis a isso aos brados. 
Embora! Achei de meu dever correr 


perigo ao lado da lei e da justiça, em 
vez de estar convosco numa decisão 
injusta, por medo da prisão ou da 
morte. 


Isso foi ainda no regime democrá- 
tico. Doutra feita, após a instauração 
da oligarquia, fui chamado com outros 
quatro à Rotunda pelos Trinta e estes 


nos ordenaram que fôssemos a Sala- 
mina buscar a Leão Salamínio para 
morrer; a muitas outras pessoas eles 


davam ordens semelhantes, no intuito 
de comprometer o maior número pos- 


sível. Nessa ocasião, de novo, por atos, 
não por palavras, demonstrei que à 
morte — desculpai a rudeza da expres- 
são — não ligo mais importância que 
a um figo podre, mas a não cometer 
nenhuma injustiça ou impiedáde, a isso 
sim dou o máximo valor. A mim, aque- 


1º Os delegados das tribos, em que se dividia o 
povo ateniense, ao Conselho dos Quinhentos, espé- 
cie de câmara deliberativa, chamavam-se pritanes. 
Alude-se ao processo dos comandantes da batalha 
naval de Arginusas, em 406 a.C. (N. do T.) 


24 PLATÃO 


le governo, poderoso como era, não 
conseguiu forçar-me a uma injustiça; 
ao deixarmos a Rotunda, os quatro 
seguiram para Salamina e trouxeram 


Leão, mas eu voltei para casa. Bem 
podia ter morrido por isso, se aquele 


governo tardasse a cair. Há muitas 


testemunhas desses fatos. Pensais, 
acaso, que eu teria vivido tantos anos, 


se houvesse tomado parte na política e, 
obrando como homem de bem, me 


houvesse batido pela justiça, dando a 


essa atitude a máxima importância que 
lhe é devida? Que esperança, Atenien- 
ses! Nem “eu, nem outro homem 
nenhum! Pois bem, em toda minha 
vida, em minha pouca intervençã. nos 
negócios públicos, deixei patente que 
sou assim, como também sou assim 
nos negócios. particulares, jamais as- 
sentindo com quem quer que seja no 
que quer que seja fora dos limites da 
Justiça, principalmente com qualquer 
daqueles que os caluniadores chamam 
discípulos meus. 


A Escola de Sócrates 


Eu nunca fui mestre de ninguém, 
conquanto nunca me opusesse a moço 
ou velho que me quisesse ouvir no 
desempenho de minha tarefa. Tam- 
pouco falo se me pagam, e se não 
pagam, não; estou igualmente à dispo- 
sição do rico e do pobre, para que me 
interroguem ou, se preferirem ser inter- 
rogados, para que ouçam o que digo. 
Se algum deles vira honesto ou não, 
não é justo que eu responda pelo que 
jamais prometi nem ensinei a ninguém. 


Quem afirmar que de mim aprendeu | 


ou ouviu em particular alguma coisa 
que não todos os demais, estai certos 
de que não diz a verdade. 

Então, por que será que alguns gos- 
tam de se entreter comigo tanto 
tempo? Vós o ouvistes, Atenienses; eu 
vos disse toda a verdade; eles gostam 
de me ouvir examinar os que supõem 
ser sábios e não o são; e isso não deixa 
de ter o seu gosto. Mas, repito, faço-o 
por uma determinação divina, vinda 


não só através do oráculo, mas tam- 
bém de sonhos e de todas as vias pelas 


“quais O homem recebe ordens dos deu- 


ses. É fácil de comprovar essa verdade; 
se hã moços que estou corrompendo e 
outros que já corrompi, forçosamente, 
decerto, alguns deles já amadurecidos 
compreenderam que outrora, na sua 
mocidade, eu lhes dera maus conselhos 
e podem levantar-se para me acusar e 
punir; se não o quiserem eles fazer, 
alguém da família, o pai, os irmãos, 
outros parentes, se os seus familiares 
sofreram qualquer má influência 


minha, podem lembrá-la agora e pu- 
nir-me. Há um bem grande número 
deles que estou vendo aqui, a começar 
por Criton, que é da minha idade e do 
meu bairro, pai de Critobulo aqui pre- 
sente; em seguida, Lisânias de Esfetos, 
pai Je Ésquines, que aí está; depois, 
Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes; 
aí estão outros, cujos irmãos freqiien- 
taram aqueles entretenimentos: Nicós- 


33a 


Jda 


DEFESA DE SÓCRATES 25 


trato, filho de Teozótides e irmão de 
Teódoto — Teódoto, por sinal, morreu 
e não poderia estorvá-lo com sua inter- 
cessão; há mais Páralo, filho de Demó- 
doco, de quem era irmão Teages; esse 
outro é Adimanto, filho de Aristão, de 
quem é irmão Platão aqui presente; 
esse é Ajantodoro, de quem é irmão 
Apolodoro, também presente. Posso 
citar muitas outras pessoas, uma das 
quais de preferência devia Meleto ter 
apresentado como testemunha da acu- 
sação; se então se esqueceu, faça-o 


agora, com minha licença, e diga se 
tem algum testemunho daquela nature- 
za. Bem ao contrário, senhores, acha- 
reis todos prontos a acudir-me a mim, 
o corruptor, que faço mal a seus paren- 
tes no dizer de Meleto e Anito. Talvez 
tivessem razões para me apoiar os 
corrompidos; mas os que não corrom- 
pi, já mais idosos, parentes daqueles, 
que motivo terão para apoiar-me, 
senão o reto e justo de reconhecerem 
que Meleto mente e eu digo a verdade? 


O Estilo da Defesa 


Basta, senhores; o que eu poderia 
alegar em minha defesa é, em suma, 
isso mesmo e quiçá argumentos do 
mesmo gênero. Algum de vós talvez se 
indigne com a recordação do seu caso, 
se ele próprio, às voltas com uma lide, 
embora menos grave que esta, teve de 
pedir, de suplicar aos juizes com lâgri- 
mas copiosas, de trazer, para melhor 
movê-los à piedade, os filhos, outros 
parentes, muitos amigos, ao passo que 
eu — não é? — não vou fazer nada 
disso, apesar de estar correndo, como 
posso imaginar, o extremo perigo. 
Pode ser que alguém, com esse senti- 
mento, seja mais duro para comigo e, 
raivoso do contraste, dê um voto de 
raiva. Se algum de vós estiver nesse 
caso — o que não creio — mas se esti- 
ver, eu me acharia no direito de lhe 
dizer: “Eu também, meu caro, não 
deixo de ter parentes.” Como lá diz 
Homero, 


não nasci dum carvalho ou dum penedo, 
mas de seres humanos; portanto, Ate- 
nienses, tenho parentes e filhos; estes 
são três, um já taludo e dois pequeni- 
nos. Não obstante, não trouxe nenhum 
deles para aqui com o fito de vos pedir 
absolvição. Por que razão não hei de 


' fazê-lo? Não por presunção, Atenien- 


ses, nem por menosprezo vosso; minha 
calma ou perturbação em face da 
morte é questão à parte; mas em face 
da honra, minha, vossa e de toda a 
cidade, eu considero uma nódoa aquele 
procedimento na minha idade e com a 
reputação adquirida; certa ou errada, 
sempre é opinião corrente que Sócrates 
nalguma coisa se distingue do comum 
dos homens. Se, quem passa por distin- 
guir-se entre vós pela sabedoria, pela 
coragem ou qualquer outro mérito, é 
uma pessoa daquelas atitudes, que ver- 
gonha! Como vi tantas vezes pessoas, 
embora tidas como homens de valor, 


SJsa 


26 — PLATÃO 


fazer em juizo cenas de causar espan- 
to, persuadidos de que seria um horror 
terem de morrer, como se houvessem 
de ser imortais se vós não os condenás- 
seis à morte; eles são, a meu ver, uma 
vergonha para a cidade, dando ao 


forasteiro a impressão de que os ho- 
mens distinguidos entre os atenienses 
pelos seus merecimentos e escolhidos 
por eles para o governo e cargos hono- 
ríficos em nada diferem das mulheres. 
Nós que passamos; não importa como, 
por ter algum valor, não devemos, 
Atenienses, adotar aquele procedi- 
mento, nem deveis vós consentir nele, 
caso o adotemos, e sim mostrar-vos 
mais decididos a condenar quem, ence- 
nando desses dramas lamurientos, 
lança o ridículo sobre a cidade, do que 
um de comportamento decente. 


À parte a questão da honra, senho- 
res, não me parece justo pedir e obter 


ce dos juízes a absolvição, em vez de 


informá-los e corvencê-los. O juiz não 
toma assento para dispensar o favor da 


Justiça, mas para julgar; ele não jurou: 


favorecer a quem bem lhe pareça, mas 
Julgar segundo as leis. Nós não vos 
devemos habituar ao perjúrio, nem vós 
deveis contrair esse vício; seria impie- 
dade nossa e vossa. Portanto, Atenien- 
ses, não pretendais que eu pratique 
diante de vós o que não consideró belo, 
nem justo, nem pio, sobretudo, por 
Zeus, quando aí está Meleto acusan- 
do-me de impiedade! Evidentemente, 
se, com a força de persuasão de mi- 
nhas súplicas, vos levasse ao perjúrio, 
eu vos estaria ensinando a não crer na 
existência dos deuses e, com tal defesa, 
simplesmente me estaria acusando de 
não crer em deuses. Muito ao contrá- 
rio, Atenienses, eu acredito como ne- 
nhum de meus acusadores e espero de 
vós e da divindade que vossã sentença 
a meu respeito seja a melhor para mim 
e para vós. 


e 


J6a 


a! 


27 


Análise da Votação 


Para que eu me conforme com o 
resultado, a minha condenação, con- 
correm muitas razões; entre elas, a de 
não se tratar de fato inesperado. Muito 
mais me espanta o número de votos 
contados de cada parte. Eu imaginava 
que a decisão seria essa, não por 
pequena, mas por grande margem; no 


entanto, parece, com uma transposição 
de apenas trinta votos, estaria absolvi- 
do. No tocante a Meleto, acho que fui 
absolvido; mais do que isso, quem 


quer pode ver que, não fosse subirem 


Anito e Licão para acusar-me, ele seria 
multado em mil dracmas, por não ter 
colhido um quinto dos sufrágios. 


Discussão das Penas 


Ora, o homem propõe a sentença de 
morte. Bem; e eu que pena vos hei de 
propor em troca, Atenienses? A que 
mereço, não é claro? Qual será? Que 
sentença corporal ou pecuniária mere- 
ço eu que entendi de não levar uma 
vida quieta? Eu que, negligenciando o 
de que cuida toda gente — riquezas, 
negócios, postos militares, tribunas e 
funções públicas, conchavos e lutas 
que ocorrem na política, coisas em que 
me considero de fato por demais 
pundonoroso para me imiscuir sem me 
perder — não me dediquei áquilo, a 
que se me dedicasse, haveria de ser 
completamente inútil para vós e para 


mim? Eu que me entreguei à procura 
de cada um de vós em particular, a fim 
de proporcionar-lhe o que declaro o 
maior dos benefícios, tentando persua- 
dir cada um de vós a cuidar menos do 
que é seu que de si próprio para vir a 
ser quanto melhor e mais sensato, 
menos dos interesses do povo que do 
próprio povo, adotado o mesmo princi- 
pio nos demais cuidados? Que sen- 
tença mereço por ser assim? Algo de 
bom, Atenienses, se há de ser a sen- 
tença verdadeiramente proporcionada 
ao mérito; não só, mas algo de bom 
adequado a minha pessoa. O que é: 
adequado a um benfeitor pobre, que 


37a 


28 - PLATÃO 


precisa de lazeres para vos viver exor- 
tando? Nada tão adequado a tal 
homem, Atenienses, como ser susten- 
tado no Pritaneu; muito mais do que a 
um de vós que haja vencido, nas Olim- 
piadas, uma corrida de cavalos, de 
bigas ou de quadrigas. Esse vos dá a 
impressão da felicidade; eu, a felici- 
dade; ele não carece de sustento, eu 
careço. Se, pois, cumpre que me sen- 
tenciem com justiça e em proporção ao 
mérito, eu proponho o sustento no 
Pritaneu. 

Dizendo isso pode parecer, como foi 
a respeito das lamúrias e súplicas, que 
falo presunçosamente. Não é assim, 
Atenienses; mas é que estou conven- 
cido de que não faço mal a ninguém 
por querer. mas não consigo conven- 
cer-vos disso. É que conversamos 
durante pouco tempo; se fosse norma 
entre vós, como em outros povos, não 
decidir um processo capital num dia 
só, mas em muitos, suponho que vos 
teria convencido; infelizmente, não é 
fácil em tempo exíguo escoimar-se de 
calúnias tão fortes. Convencido, por- 
tanto, de que não faço mal a ninguém, 
muito menos o farei a mim próprio; 
não direi eu próprio contra mim que 
mereça algum mal, nem proporei pena 
alguma. Que posso temer? Sofrer a 
pena proposta por Meleto, que declaro 
ignorar se é um bem, se é um mal? Hei 
de preferir e propor em troca uma 
daquelas que sei que são males? Por- 
ventura a prisão? Para que hei de viver 
na cadeia, escravizado ao comando 
sempre reformado dos Onze!'? Ou 
uma multa, permanecendo preso até 


1 Os Onze eram autoridades policiais eletivas. (N. 
do T.) 


pagá-la toda? Daria na mesma, pois, 


como disse há pouco, não tenho bens 
com que pagar. Proporei, então, o des- 
terro, a que possivelmente me senten- 
ciaríeis? Muito amor à vida deveria eu 
ter para ficar tão estúpido que não 
compreendesse que, se vós, sendo meus 
concidadãos, não pudestes aturar mi- 
nhas conversas e assuntos, tão impor- 
tunos e odiosos para vós, que neste 
momento vos estais procurando livrar 
deles, outros hão de aturá-los melhor? 
Que esperança, Atenienses! 

Bela vida seria a minha se, homem 
da minha idade, partisse daqui para 
viver expulso de cidade em cidade! 
Estou certo de que, aonde quer que vá, 
os moços me virão ouvir, como aqui; 
se os repelir, eles mesmos darão ouvi- 
dos aos mais velhos para me expulsar; 
se não os repelir, hão de expulsar-me 
por causa deles seus pais e parentes. 

Pode alguém perguntar: “Mas não 
serás capaz, ó Sócrates, de nos deixar € 
viver calado e quieto?” De nada eu 
convenceria alguns dentre vós mais 
dificilmente do que disso. Se vos disser 
que assim desobedeceria ao deus e, por 
isso, impossível é a vida quieta, não me 
dareis fé, pensando que é ironia; dou- 
tro lado, se vos disser que para o 
homem nenhum bem supera o discor- 
rer cada dia sobre a virtude e outros 
temas de que me ouvistes praticar 
quando examinava a mim mesmo e a 
outros, e que vida sem exame não é 
vida digna de um ser humano, acredi- 
tareis ainda menos em minhas pala- 
vras. Digo a pura verdade, senhores, 
mas convencer-vos dela não me é fácil. 
Acresce que não estou habituado a jul- 
gar-me merecedor de mal nenhum. 


J8a 


DEFESA DE SÓCRATES 29 


Propõe Sócrates uma Muita 


Se tivesse dinheiro, estipularia uma 
multa dentro de minhas posses; não 
sofreria nada com isso. Infelizmente, 
não tenho mesmo, salvo se quiserdes 
estipular tanto quanto possa pagar. 
Talvez vos possa pagar uma mina de 


“prata; é quanto estipulo, portanto. Mas 


aí está Platão, Atenienses, com Criíton, 
Critobulo e Apolodoro., mandando que 
estipule trinta minas, sob sua fiança. 
Estipuio, pois, essa quantia; serão fia- 
dores da soma essas pessoas idôneas. 


c 


WI 
Aos que o Condenaram 


Por não terdes esperado mais um 
pouco, Atenienses, aqueles que deseja- 
rem injuriar a cidade vos lançarão a 
fama e a acusação de haverdes matado 
Sócrates, um sábio. Sim, dir-me-ão 
sábio, embora não o seja, os que vos 
quiserem malsinar. Se aguardásseis 
mais algum tempo, a natureza mesma 
satisfaria a vossa vontade. Bem vedes 
a minha idade, já distante da vida e 
próxima da morte. Não dirijo essas, 
palavras -a todos vós, mas aos que 
votaram pela minha morte. 

Para esses mesmos, acrescento o 


seguinte: talvez imagineis, senhores, 


que me perdi por falta de discursos 
com que vos poderia convencer, se na 
minha opinião se devesse tudo fazer e 
dizer para escapar à justiça. Engano! 
Perdi-me por falta, não de discursos, 
mas de atrevimento e descaro, por me 
recusar a proferir o que mais gostais de 
ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e 
dizendo uma multidão de coisas que 
declaro indignas de mim, tais como 
costumais ouvir dos outros. Ora, se 
antes achei que o perigo não justifi- 
cava nenhuma indignidade, tampouco 
me pesa agora da maneira por que mê 
defendi; ao contrário, muito mais folgo 
em morrer após a defesa que fiz, do 
que folgaria em viver após fazê-la 
daquele outro modo. Quer no tribunal, 


quer na guerra, não devo eu, não deve 
ninguém lançar mão de todo e qual- 
quer recurso para escapar à morte. 
Com efeito, é evidente que, nas bata- 
lhas, muitas vezes se pode escapar à 
morte arrojando as armas e suplicando 
piedade aos perseguidores; em cada 
perigo, tem muitos outros meios de 
escapar à morte quem ousar tudo fazer 
e dizer. Não se tenha por difícil esca- 
par à morte, porque muito mais difícil 
é escapar à maldade; ela corre mais 
ligeira que a morte. Neste momento, 
fomos apanhados, eu, que sou um 
velho vagaroso, pela mais lenta das 
duas, e os meus acusadores, ágeis e 
velozes, pela mais ligeira, a malvadez. 
Agora, vamos partir; eu, condenado 
por vós à morte; eles, condenados pela 
verdade a seu pecado e a seu crime. Eu 
aceito a pena imposta; eles igualmente. 
Por certo, tinha de ser assim e penso 
que não houve excessos. 

Sobre o futuro, porém, desejo fazer- 
vos um vaticínio, meus condenadores; 
com efeito, eis-me chegado aquele 
momento em que os homens vaticinam 
melhor, quando estão para morrer. Eu 
vos afianço, homens que me mandais 
matar, que o castigo vos alcançará 
logo após a minha morte e será, por 
Zeus, muito mais duro que a pena 
capital que me impusestes. Vós o fizes- 


J9a 


40a 


32 | PLATÃO 


tes supondo que vos livraríeis de dar 


boas contas de vossa vida; mas o resul- 
tado será inteiramente oposto, eu vo-lo 
asseguro. Serão mais numerosos os 
que vos pedirão contas; até agora eu os 
continha e vós não o percebieis; eles 
serão tanto mais importunos quanto 
são mais jovens, e vossa irritação será 
maior. Se imaginais que, matando 


Ãos que O 


Com os que votaram pela absolvi- 
ção, gostaria de conversar a respeito 
do que se acaba de passar, enquanto 
estão ocupados os magistrados e antes 
de seguir para onde devo morrer. Por- 
tanto, senhores, ficai comigo mais um 
pouco; nada impede que nos entrete- 
nhamos enquanto dispomos de tempo. 
Quero explicar-vos, como a amigos, O 
sentido exato do que me sucedeu 
agora. 

O que me aconteceu, senhores juízes 
— a vós é que chamo com acerto juí- 
zes — foi uma coisa prodigiosa. A 
inspiração costumada, a da divindade, 
sempre foi rigorosamente assídua em 
opor-se mesmo a ações mínimas, quan- 
do eu ia cometer um erro; agora, 
porém, acaba de suceder-me o que vós 
estais vendo, o que se poderia conside- 
rar, € há quem o faça, como o maior 
dos males; mas a advertência divina 
não se me opós de manhã, ao sair de 
casa, nem enquanto subia aqui para O 


tribunal, nem quando ia dizer alguma . 


coisa; no entanto, quantas vezes ela me 
conteve em meio de outros discursos! 
Mas hoje não se me opôs nenhuma vez 
no decorrer do julgamento, em nenhu- 


homens, evitareis que alguém vos 
repreenda a má vida, estais enganados; 
essa não é uma forma de libertação, 
nem é inteiramente eficaz, nem honro- 


- sa; esta outra, sim, é a mais honrosa e 


mais fácil; em vez de tapar a boca dos 
outros, preparar-se para ser o melhor: 
possível. Com este vaticínio, despeço- 
me de vós que me condenastes. 


Absolveram 


ma ação ou palavra. À que devo atri- 
buir isso? Vou dizer-vos: é bem possí- 
vel que seja um bem para mim o que 
aconteceu e não é forçoso que acerte- 
mos quantos pensamos que a morte é 
um mal. Disso tenho agora uma boa 
prova, porque a costumada adver- 
tência não poderia deixar de opor-se, 
se não fosse uma ação boa o que eu es- 
tava para fazer. 

Façamos mais esta reflexão: hã 
grande esperança de que isto seja um 
bem. Morrer é uma destas duas coisas: 
ou o morto é igual a nada, e não sente 
nenhuma sensação de coisa nenhuma; 
ou, então, como se costuma dizer, tra- 
ta-se duma mudança, uma emigração 
da alma, do lugar deste mundo para 
outro lugar. Se não há nenhuma sensa- 
ção, se é como um sono em que o 
adormecido nada vê nem sonha, que 
maravilhosa vantagem seria a morte! 

Bem posso imaginar que, se a gente 
devesse identificar uma noite em que 
tivesse dormido tão profundamente 
que nem mesrno sonhasse e, contra- 
pondo a essa as demais noites e dias de 
sua vida, pensar e dizer quantos dias e 
noites de sua existência viveu melhor é 


sla 


DEFESA DE SÓCRATES 33 


mais agradavelmente do que naquela 
noite, bem posso imaginar que, já não 
digo um particular, mas o próprio rei 
da Pérsia acharia fáceis de enumerar 
essas noites entre as outras noites e 
dias. Logo, se a morte é isso, digo que 
é uma vantagem, porque, assim sendo, 
toda a duração do tempo se apresenta 
como nada mais que uma noite. Se, do 
outro lado, a morte é como a mudança 
daqui para outro lugar e está certa a 
tradição de que lá estão todos os mor- 
tos, que maior bem haveria que esse, 
senhores juízes? 

Se, em chegando ao Hades, livre 
dessas pessoas que se intitulam juízes, 
a gente vai encontrar os verdadeiros 
juízes que, segundo consta, lá distri- 
buem a justiça, Minos!2?, Radamanto, 
Éaco, Triptólemo e outros semideuses 
que foram justiceiros em vida, não 
valeria a pena a viagem? Quanto não 
daria qualquer de vós para estar na 
companhia de Orfeu!?, Museu, He- 
siodo e Homero? Por mim, estou pron- 
to a morrer muitas vezes, se isso é ver- 
dade; eu de modo especial acharia lá 
um entretenimento maravilhoso, quan- 
do encontrasse Palamedes! *, Ajax de 
Telamão e outros dos antigos, que te- 
nham morrido por uma sentença iní- 
qua; não me seria desagradável com- 
parar com os deles os meus 
sofrimentos e, o que é mais, passar O 
tempo examinando e interrogando os 
de lã como aos de cá, a ver quem deles 
é sábio e quem, não o sendo, cuida que 


'2 Minos, rei de Creta, Radamanto, Éaco, Triptó- 


lemo, heróis mitológicos, foram, segundo a tradição . 


conservada nos ritos secretos dos chamados Misté- 


“rios, designados juízes das almas no outro mundo. 


(N. do T.) 

13 Orfeu e Museu são autores lendários dos hinos e 
cânticos dos ritos dos Mistérios. (N. do T.) 

14 Palamedes e Ájax são figuras lendárias; o pri- 
meiro teria morrido apedrejado, vítima duma calú- 
nia, no acampamento dos gregos em Tróia; o segun- 
do, herói duma tragédia de Sófocles, além de o ser 
da Ilíada, suicidou-se por ter sido fraudado na 
herança das armas de Aquiles, que deviam caber ao 
mais valoroso dos guerreiros. (N. do T.) 


é. Quanto não se daria, senhores jui- 
zes, para sujeitar a exame aquele que 
comandou a imensa expedição contra 
Tróia, .ou Ulisses,, ou Sísifo — 
milhares de outros se poderiam no- 
mear, homens e mulheres, com quem 
seria uma felicidade indizível estar 
Junto, conversando com eles, sujeitan- 
do-os a exame! Os de lá absoluta- 
mente não matam por uma razão des- 
sas! Os de lá são mais felizes que os de 
càã, entre outros motivos, por serem 
imortais pelo resto do tempo, se a tra- 
dição está certa. 

Vós também, senhores juízes, deveis 
bem esperar da morte e considerar 
particularmente esta verdade: não há, 
para o homem bom, nenhum mal, quer 
na vida, quer na morte, e os deuses não 
descuidam de seu destino. O meu não é 
efeito do acaso; vejo claramente que 
era melhor para mim morrer agora € 


ficar livre de fadigas. Por isso é que a: 


advertência nada me impediu. Não me 
insurjo absolutamente contra os que 
votaram contra mim ou me acusaram. 
Verdade é que não me acusaram e con- 
denaram com esse modo de pensar, 
mas na suposição de que me causavam 
dano: nisso merecem censura. Contu- 
do, só tenho um pedido que lhes faça: 
quando meus filhos crescerem, ,casti- 
gai-os, atormentai-os com os mesmis- 
simos tormentos que eu vos infligi, se 
achardes que eles estejam cuidando 
mais da riqueza ou de outra coisa que 


da virtude; se estiverem supondo ter 


um valor que não tenham, repreendei- 
Os, como vos fiz eu, por não cuidarem 
do que devem e por suporem méritos, 
sem ter nenhum. Se vós o fizerdes, eu 
terei recebido de vós justiça; eu, e 
meus filhos também. 

Bem, é chegada a hora de partirmos, 
eu para a morte, vós para a vida. 
Quem segue melhor rumo, se eu, se 
vós, é segredo para todos, menos para 
a divindade. 


2a 


XENOFONTE 


DITOS E FEITOS 
MEMORÁVEIS 
DE SÓCRATES 


Tradução de LÍBERO RANGEL DE ANDRADE através da versão francesa de Eugêne Talbot 


a 


CAPÍTULO I 


Admirou-me muitas vezes por que 
argumentos, afinal, lograram os acu- 
sadores! de Sócrates persuadir os ate- 
nienses de que ele merecia a morte por 
crime contra o Estado. Com efeito, eis 
pouco mais ou menos os termos da 
acusação: Sócrates é culpado de não 
preitear os deuses que cultua o Estado 
e introduzir extravagâncias demonia- 
cas. Culpado ainda de corromper os 
jovens. 

A que testemunho, afinal, recorre- 
ram para provar que ele não honrava 
os deuses do Estado; se fazia sacrifi- 
cios frequentes às abertas, ora em sua 
casa, ora nos altares públicos; se 
praceiramente recorria à arte divina 
tória? Corria a voz, ateada pelo pró- 
prio Sócrates, de que o inspirava um 
demônio?: eis, sem dúvida, por que o 
criminaram de introduzir extrava- 
gâncias demoniacas. No entanto, não 
introduzia ele mais novidades do que 
todos aqueles que crêem na adivinha- 
ção e interrogam o vôo das aves, as 
vozes, OS signos e as entranhas das vi- 
timas: não supõem nas aves nem 
naqueles com que se encontram o 
conhecimento do que buscam, mas 
acreditam que por seu intermédio lho 


1 O poeta Meleto, o curtidor Ânito e o orador 
Licão. (N. do E.) 

2 Demônio: gênio bom ou divindade, e não o senti- 
do posterior de gênio do mal. (N. do E.) 


a 


revelam os deuses; Sócrates também 
pensava o mesmo. Diz o vulgo que as 
aves e os encontros nos advertem se 
devemos prosseguir ou retroceder no 
que temos de olho: Sócrates falava o 
que sentia, dizendo-se inspirado por 
um demônio. E de acordo com as reve- 
lações desse demônio aconselhava aos 
amigos o fazer certas coisas, o abster- 
se de outras. Só tinham a ganhar os 
que o ouviam. Arrependiam-se os que 
nele não acreditavam. Claro que não 
havia de querer passar por imbecil nem 
por impostor aos olhos de seus disci- 
pulos. E imbecil e impostor ter-se-ia 
tornado, se predissesse coisas como 
reveladas por um deus e em seguida 
fosse desmentido. Evidente, portanto, é 
que se absteria de predizer caso não 
estivesse certo de falar verdade. Ora, o 
que lhe inspiraria esta certeza senão 
um deus? E se tinha fé nos deuses, 
como poderia negar-lhes a existência? 
Por outro lado, eis como se portava 
para com os amigos. Em se tratando 
de coisas de resultado certo, aconse- 
lhava-os a procederem da maneira que 
melhor lhe parecia. Quanto às coisas 
de êxito duvidoso, mandava-os consul- 
tarem os oráculos. Há mister ajudar-se 
da adivinhação, dizia, para bem gerir 
as casas e os Estados. A arquitetura, a 
metalurgia, a agricultura, a política e a 
teoria das ciências que tais, o cálculo, 


H 


40 XENOFONTE 


a economia, e todos os conhecimentos 


congêneres estão, opinava, ao alcance ' 


da inteligência humana, porém, agre- 
gava, o que de mais eminente encerram 
estas ciências encofram-no os deuses 
para si, sequer entremostrando-o aos 
olhos dos homens. Com efeito, ignora 
aquele que bem plantou um vergel 
quem lhe colherá os frutos. Quem a 
capricho construiu uma casa não sabe 
quem a habitará. Tampouco sabe o 
general se lhe será vantajoso coman- 
dar. Tampouco sabe o político se lhe 
aproveitará governar o Estado. Tam- 
pouco sabe aquele que, esperando ser 
feliz, esposa uma bela mulher, se ela 
não será seu tormento. Tampouco sabe 
aquele que se alia aos poderosos do 
Estado se dia virá em que por eles seja 
banido. Insensatos chamava Sócrates 
aos que em tudo isso não vêem provi- 
dência divina e tudo sujeitam à inteli- 
gência humana. Por igualmente insen- 
satos, porém, havia os que consultam 
os oráculos sobre coisas que os deuses 
nos deram a faculdade de saber por 
nós próprios. Como se lhes perguntás- 
semos a quem confiar nosso carro, a 
cocheiro hábil ou inapto. A quem 
entregar nosso navio, a bom ou mau 
piloto. Ou sobre coisas que podemos 
saber por meio do cálculo, da medida 
ou da balança. Reputava impiedade 
consultar os deuses sobre coisas tais: 
aprendamos o que nos conferiram os 
deuses a faculdade de aprender, dizia, 
e deles procuremos saber o que nos é 
velado. Porque eles o revelam aos que 
distinguem com seus favores. 

No mais, Sócrates sempre viveu à 
luz pública. Pela manhã saía a passeio 
e aos ginásios, mostrava-se na ágora à 
hora em que regurgitava de gente e 
passava o resto do dia nos locais de 
maior concorrência, o mais das vezes 
falava, podendo ouvi-lo quem quisesse. 
Viram-no ou ouviram-no alguma vez 
fazer ou dizer algo contrário à moral, 


ou à religião? Abstendo-se, ao revés da 
maioria dos outros filósofos, de disser- 
tar sobre a natureza do universo, de 
indagar a origem espontânea do que os 
sofistas chamam “cosmos” e a que leis 
fatais obedecem os fenômenos celestes, 
ia a ponto de demonstrar a loucura dos 
que vacam a semelhantes especula- 
ções. Antes de tudo examinava se eles 
presumiam ter aprofundado suficiente- 
mente os conhecimentos humanos para 
se ocuparem de tais assuntos, ou se 
achavam razoável pôr de parte o que 
está ao alcance do homem para intro- 
meter-se no que aos deuses pertence. 
Admirava-se de que não vissem serem 
tais segredos intangíveis ao homem, de 
vez que, longe de concordarem entre si, 
aqueles mesmos que se gabam de me- 
lhor falar sobre eles se têm mutua- 
mente na conta de loucos. EFfetiva- 
mente, entre os loucos, uns não temem 
o que é temível, outros temem o que 
não é de temer. Uns acham poder-se 
sem pejo tudo dizer e tudo fazer em pú- 
blico, outros, dever-se fugir todo co- 
mércio com os homens. Uns não res- 
peitam nem templos nem altares, nem 
nada do que é divino, outros reveren- 
ciam ag pedras € as primeiras árvores e 
animais que lhes aparecem pela frente. 
Quanto aos que se preocupam com a 
natureza do universo, estes afirmam a 
unidade do ser, aqueles sua multipli- 
cidade infinita. Uns crêem os corpos 
em perpétuo movimento, outros em 
inércia absoluta. Aqui se pretende que 
tudo nasce e tudo morre, ali que nada 
se criou e nada deve ser destruído. Per- 
guntava Sócrates ainda se, assim como 
estudando o que concerne ao homem 
se espera auferir desse estudo proveito 
para si e para outros, não imaginam os 
que estudam o que pertence aos deu- 
ses, uma vez instruídos nas leis fatais 
do mundo poder produzir a seu capri- 
cho os ventos, a chuva, as estações e 
tudo o de que venham a precisar no gê- 
t 


12 


Js 


17 


18 


MEMORÁVEIS-I 41 


nero ou se, sem se abalançarem a 


"tanto, contentar-se-ão de saber como 


se processa cada um desses fenômenos. 
Eis .o que dizia dos que Se ingerem 


nesta sorte de indagações. Quanto a, 


ele, discutia constantemente tudo o que 
ao homem diz respeito, examinando o 
que é o piedoso e o ímpio, o belo e o 
vergonhoso, o justo e o injusto, a sabe- 
doria e a loucura, o valor e a pusilani- 
midade, o Estado e o homem de Esta- 
do, o governo e o governante e mais 
coisas deste jaez, cujo conhecimento 
lhe parecia essencial para ser virtuoso 
e sem o qual se merece o nome de 
escravo. 

Não admira, pois, que seus juízes se 
hajam enganado quanto a seus pensa- 
mentos íntimos. Porém o que todos 
sabiam, não é de estranhar que o te- 
nham sobreolhado? Membro do sena- 
do, proferira Sócrates o juramento que 
aos senadores se exige de desincum- 
bir-se de suas funções de conformidade 
com as leis. Eleito epistata do con- 
gresso popular e querendo o povo, 
contrariamente: às leis, condenar à 


morte, coletivamente e por um único 
voto, nove generais, entre os quais Tra- 
silo e Erasínides, recusou a votação, 
não obstante a cólera do povo e as 
ameaças de muitos poderosos. Preferiu 
manter-se fiel ao juramento a cometer 
uma injustiça para comprazer à multi- 
dão e pór-se a coberto de ameaças. É 
que, embora diversamente da maneira 
como crê a maior parte dos homens, 
acreditava que os deuses têm olhos 
fitos nas ações humanas. Crê a média 
dos homens que os deuses sabem cer- 
tas coisas e ignoram outras. Achava 
Sócrates que de tudo estão ao corrente 
—— palavras, ações, pensamentos secre- 
tos — que estão em toda parte e tudo 
nos revelam que seja de nossa alçada. 

Admira-me, pois, hajam crido os 
atenienses alimentasse Sócrates opi- 
niões extravagantes sobre os deuses, 
ele que jamais coisa alguma disse nem 
praticou de ímpio, ele cujas palavras e 
ações sempre foram tais que quem 
falasse e se portasse do mesmo modo 
seria reputado o mais pio dos huma- 
nos. 


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20 


CAPÍTULO II 


O que igualmente me assombra é o 
haver-se embrechado em certos espíri- 
tos que Sócrates corrompia a juventu- 
de, Sócrates que, à parte o que foi dito, 
era 6 mais reportado dos mortais nos 

prazeres dos sentidos como da mesa, o 
“mais endurecido contra o frio, o calor, 
as fadigas de toda espécie e tão sóbrio 
que lhe sobrebastava seu minguado 
pecúlio. Com tais qualidades, como 
poderia ter desencaminhado os outros 
à impiedade, à libertinagem, à indolên- 
cia? Pelo contrário, não. divertiu mui- 
tos homens desses vícios, fazendo-os 
amantes da virtude e infundindo-lhes a 
esperança de, mediante a fiscalização 
de si mesmos, virem a ser um dia vir- 
tuosos? Nunca se disse, contudo, mes- 
tre de sabedoria, posto com seu proce- 
dimento fizesse esperar aos que o 
frequentaram o dele se aproximarem 
imitando-o. Não descurava do corpo 
nem aprovava os que o fazem. Rejei- 
tava o comer com excesso para ao de- 
pois fatigar-se outro tanto, recomen- 
dando um repasto regulado pelo 
apetite e seguido de exercício modera- 
do. Este regime — dizia — conserva a 
saúde do espírito. Ao demais, não era 
afetado nem refinado, fosse no vestir, 
fosse no calçar, fosse em toda a sua 
maneira de viver. Tampouco fazia de 
seus discípulos homens cúpidos, pois 
curando-os das outras paixões não 


pedia a menor paga aos que lhe procu- 
ravam a companhia. Cria, com esta 
abstenção, melhor resguardar a pró- 
pria liberdade, chamando escraviza- 
dores de si mesmos os que reclamam 
salário por suas palestras, visto se 
imporem a obrigação de conversar 
com os que lhes pagam. Admirava-se 
de que um homem que fizesse profis- 
são de ensinar a virtude exigisse remu- 
neração e que em vez de ver na aquisi- 
ção de um amigo virtuoso a maior das 
recompensas, temesse que um coração 
tonverso à virtude não pagasse O 
maior dos benefícios com o maior 
reconhecimento. Aliás, Sócrates nunca 
prometeu nada de semelhante a nin- 
guém. Porém abrigava a certeza de 
ganhar, naqueles que lhe seguiam os 
princípios, bons amigos que o ama- 
riam e se estimariam reciprocamente 
para o resto da vida. Como, pois, 
corromperia um homem desses a ju- 
ventude? A menos que o incitamento à 
virtude seja meio de corrupção. 

Mas, por Júpiter! — diz o acusador 
— instigava seus discípulos ao des- 
prezo das leis estabelecidas, tachando 
de estupidez o escolher com uma fava 
os magistrados de uma república, 
quando ninguém tiraria à sorte um 
piloto, um arquiteto, um tocador de 
flauta, etc., cujos erros são, no entanto, 
muito menos prejudiciais que os da- 


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44 


queles que governam os Estados. Tais 
falas — acresçenta — inspiram nos jo- 


vens o menosprezo da constituição em. 


vigor e os tornam violentos. De mim 
penso que os que praticam a sabedoria 
e se crêem capazes de dar conselhos 


úteis a seus concidadãos de modo ne- 


nhum são violentos, visto saberem que 
a violência atiça o ódio e acarreta peri- 
go, enquanto a persuasão elimina os 
riscos e não prejudica a perfeição.: De 
fato, o homem a quem constrangemos 
nos odeia como se o houvéssemos lesa- 
do. Aquele a quem persuadimos nos 
preza como se lhe tivéssemos feito um 
benefício. Não dos que praticam a 
sabedoria, pois; é própria a violência, 
porém, dos que'têm força mas não têm 


razão. Além do que, na violência hão: 


mister numerosos auxiliares. Para per- 
suadir não se precisa de ninguém: sozi- 
nho pode-se convencer. Demais, nunca 
tais homens mancharam as mãos de 
sangue. Quem preferiria matar seu 
semelhante a deixá-lo viver e lhe ser 
útil pela persuasão? 

Todavia — prossegue o acusador 
— Críitias e Alcibiades, que foram 
discípulos de Sócrates, causaram o 
maior mal ao Estado. Crítias foi o 
mais cúpido, violento e sanguinário 
dós oligarcas. Alcibiades o mais in- 
temperante e insolente dos democratas. 
Longe de mim, se estes dois homens 
fizeram algum mal à pátria, o propó- 


sito de justificá-los. Quais foram suas 


relações com Sócrates, eis o que desejo 
esclarecer. Eram eles, por natureza, Os 
mais ambiciosos de todos os atenien- 
ses. Queriam tudo feito por eles, que 
seu nome não tivesse par. Sabiam Só- 
crates contente de pouco, senhor abso- 
luto de todas as suas paixões e capaz 
de acaudilhar a seu talante o espírito 
daqueles com que falava. Sabedores 
disso e com o caráter que já lhes perfi- 
lei, crerá alguém fosse pelo desejo de 
imitar a vida de Sócrates e sua tempe- 


XENOFONTE 


rança que lhe solicitavam a conversa- 
ção, ou na esperança de, frequentan- 
do-o, tornarem-se bons oradores e 
nábeis políticos? A mim me quer pare- 
cer que se um deus lhes houvesse dado 
a escolher entre o viver a vida inteira 
como viam viver Sócrates ou morrer, 
teriam preferido a morte. Desembu- 
çou-os seu procedimento. Assim se jul- 
garam superiores aos companheiros, 
abandonaram Sócrates para abraçar a 
política, móvel de sua ligação com ele. 
Objetar-me-ão, talvez, que Sócrates 
não deveria ter ensinado política aos 
que com ele privavam antes de ensi- 
nar-lhes a sabedoria. Não o nego. 
Vejo, porém, que todos aquejes que 


ensinam praticam o que ensinam afim. . 
de edificar pelo exemplo os que apren+ - 


dem, a passo igual que os estimulam 
pela palavra. Sei que Sócrates era para 
seus discípulos modelo vivo de virtuo- 
sidade e que lhes administrava as mais 
belas lições acerca da virtude e o mais 
que ao homem concerne. Sei que Cr- 
tias e Alcibiades se portaram prudente- 
mente enquanto conviverám com Sé- 
crates. Não que temessem ser por ele 


castigados ou batidos, mas por crerem. 


então ser a tudo preferível o hábito de 
virtude. 
Quiçã sustentem muitos de nossos 
pretensos filósofos que o homem justo 
jamais se torna injusto nem o sábio 
insolente. Que urna vez de posse de 


uma ciência nunca mais se esquece o: 


que se aprendeu. De minha parte, estou 
longe de pensar como eles. Vejo, em 
efeito, que se não se exercita o corpo a 
gente se torna inapto para os trabalhos 
corporais, e que, igualmente, se não se 
exercita o espirito se torna incapaz dos 
trabalhos espirituais, não se podendo 
fazer o que se deve nem se abster do 
que se deve evitar. Eis por que os pais, 
seja qual for a sabedoria de seus filhos, 
os afastam dos homens perversos, con- 
victos de que o comércio dos bons 


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MEMORÁVEIS-I 45 


alenta a virtude, e cresta-a o dos maus. 
Testemunham-no os versos do poeta: 

Os homens de bem te ensinarão 

boas coisas. 

Os maus te farão perder a prt 

ria razão. 

irestoutro: 

Às vezes o sábio é bom, às vezes 

mau. 

A esses testemunhos ajunto o meu. 
Pois vejo que, se pela falta de exercício 
se eBquecem os versos, não obstante o 
recufso da medida, da mesma forma se 
esquece a palavra do mestre, por causa 
da negligência. Ora, quando se esque- 
cem estas exortações, se esquecem 
também as impressões que induzem a 
alma a desejar a sabedoria. E olvida- 
das tais impressões, não admira que se 


2 olvide a própria sabedoria. Noto ainda 


que aqueles que se entregam ao vinho e 
capitulam dos prazeres dos sentidos 
são. menos capazes de fazer o que 
dever e de resguardar-se do que cum- 
pre evitar. Muitos há que antes de 


“amar sabiam administrar seus bens. 


Amando, já não o sabem. E perdidos 


-« seus haveres, já não se esguardam de 


-.B 


24 


ganhos de que se mantinham castos 
por considerá-los vergonhosos. Impli- 


- Cará tontradição, pois, que o sábio de 


ontem já não o seja hoje, que o justo se 
tenha feito injusto? Por mim periso que 
todas as virtudes requerem a prática, 
notadamente a temperança. Inatas na 
alma com o corpc, as paixões incitam 
a pôr de lado a sabedoria e a satisfazer 


“O mais presto os apetites sensuais. 


Enquanto conviveram com Sócra- 
tes, 
puderam, graças ao seu auxílio, sopear 
as más paixões. Uma vez longe dele, 
Crítias, refugiado na Tessália, viveu 
em companhia de homens mais afeitos 
à ilegalidade que à justiça. Perseguido, 


- por causa de sua beleza, por uma mul- 


tidãao de mulheres da mais alta catego- 
ria, corrompido por causa do crédito 


tanto Crítias como Alcibiades ' 


de que gozava assim na república como 
nas cidades aliadas, por um enxame de 
hábeis aduladores, honrado pelo povo, 
alcançando sem esforço o primado do 
poder, Alcibíades relaxou-se tal esses 
atletas que, triunfando facilmente em 
todas as lutas, descuidam de todo exer- 
cício. Depois, orgulhosos de seu nasci- 
mento, soberbos de sua riqueza, ébrios 
do próprio poder, amolentados por 
uma turba de indulgentes, corrompidos 
de tantos lados ao mesmo tempo, ad- 
mira que sua insolência haja trans- 
posto todos os limites? E a Sócrates é 
que acha o acusador de imputar as fal- 
tas que cometeram?! Entretanto, 
quando eram jovens, numa idade em 
que mais que nunca deveriam ter sido 
desregrados e intemperantes, Sócrates 
conteve-os na moderação: o que o acu- 
sador não acha digno do menor lou- 
vor. Não é esta a praxe do julgador. 
Onde-o flautista, o citarista ou o mes- 
tre qualquer a quem se reproche o fato 
de seus discípulos, uma vez formados, 
se tornarem maus sob outros mestres? 
Onde o pai cujo filho, prudente en- 
quanto manteve relações com um 
amigo, se haja pervertido na sociedade 
de outro, que se lembre de acusar o pri- 
meiro amigo? Pelo contrário, não o 
elogiará tanto mais quanto míais vicio- 
so se tenha tornado seu filho com o 
segundo? Os próprios pais não são 
responsáveis, ainda que a seu pé, seus 
filhos enveredem pela senda do mal, 
uma vez que só lhés dêem bons exem- 
plos. Eis como se devia julgar Sócra- 
tes. Cometeu ele próprio algum mal? 
Merece ser tratado como perverso. 
Porém, se jamais deixou de ser homem 
de bem, será justo acusá-lo de uma 
depravação que não lhe cabe? Se, em- 
bora abstêmio do mal, houvesse assis- 
tido sem desaprová-los aos atos vergo- 
nhosos dos outros, estaria no 
direito de censurá-lo. Mas, tendo per- 
cebido que Critias, enamorado de Euti- 


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3! 


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46 XENOFONTE 


demo, queria gozá-lo à maneira dos 
que abusam do próprio corpo para 
satisfazer seus desejos amorosos, for- 
cejou por demovê-lo de semelhante 
intento, dizendo-lhe indigno de homem 
livre e indecente a amigo da virtude ir 
como mendicante solicitar algo do ob- 
jeto amado, junto ao qual cumpre 
sobretudo fazer-se valer, e ainda mais 
solicitar coisa oprobriosa. Crítias fazia 
ouvidos de mercador e não dava de si. 
Então se pretende haver Sócrates dito 
ante numerosa assistência e em pre- 
sença de FEutidemo que Crítias lhe 
parecia ter tal ou qual semelhança com 
um porco, pois queria esfregar-se em 
Eutidemo como se esfregam os porcos 
nas pedras. Desde então Crítias se tor- 
nou inimigo jurado de Sócrates. No- 
meado um dos Trinta e monoteta com. 
Cáricles, guardou-lhe rancor e proibiu 
por lei o ensino da oratória. Assim ata- 
cava Sócrates. Não tendo de que acu- 
sá-lo; carregava-o com a censura que 
de comum se insimula aos filósofos e 
caluniava-o junto à opinião pública. 
Porque de mim nunca ouvi Sócrates 
dizer o que quer que fosse que autori- 
zasse semelhante acusação nem sei de 
ninguém que diga tê-lo ouvido. Que a 
lei de Crítias era petardo endereçado 
contra Sócrates, de sobejo o provaram 
os acontecimentos. Haviam os Trinta 
feito morrer grande número de cida- 
daãos dos mais ilustres e desgarrado ou- 
tros tantos da trilha da justiça. Disse 
Sócrates, de uma feita, que muito 
estranharia que o guarda de um reba- 
nho que fizesse seus bois diminuírem 
de número e emagrecerem, não se reco- 
nhecesse mau pastor. Mas que mais 
estranharia ainda se um homem colo- 
cado à testa de um Estado e cujos cida- 
dãos tornasse menos numerosos e pio- 
res não se envergonhasse de seus atos e 
não conviesse ser mau magistrado. 
Indo estas palavras ter aos ouvidos de 
Crítias e Cáricles, estes chamaram Só- 


crates a sua presença, mostraram-lhe a 
lei e proibiram-lhe toda palestra com 
os jovens. Perguntou-lhes Sócrates se 
lhe era permitido interrogá-los sobre o 
que nessa proibição se lhe afigurava 
obscuro, e à sua resposta afirmativa: 
— Estou pronto — disse — a obe- 
decer às leis. Mas. para que não me 
aconteça infringi-las por ignorância, 


34 


eis o que claramente desejo saber de - 


vós. Que entendeis, quando lhe proibis 
a prática, por arte da palavra? O mal 
ou o bem falar? Porque se vos referis à E 
arte de bem falar, evidente é dever abs- 
ter-se de bem falar. Mas se tendes em 
vista a má oratória, claro é dever esfor- 
çar-se por bem falar. 

— De vez que és tão bronco, ó Só- 
crates — repostou Caricles Rolanco: 
— anterdizemos-te expressamente, O 
que é mais claro, o conversar com Os 
moços. 

— Para evitar — volveu Sócrates 


— que por equívoco não observe o que - 


me é defeso, dizei-me até que idade 
deve ter-se os homens por moços. 

— Enquanto não tiverem acesso ao 
senado — respondeu Cáricles, à min- 
gua de razão suficiente. — Não fales, 
pois, com os jovens de menos de trinta 
anos. 

— Então se quiser comprar alguma 
coisa de homem de menos de trinta 
anos não poderei perguntar-lhe: Quan- 
to custa isso? 

— Sim, isso se te permite — assen- 
tiu Cáricles. — Mas tens a mania, Só- 
crates, de viver fazendo perguntas 
sobre coisas que sabes, e isso é que te 
proibimos. | 

— Quer dizer que não poderei res- 
ponder a um jovem que me perguntar: 
Onde mora Cáricles? Onde estã Cri- 
tias? 

— Ainda isso se te permite — disse 
Cáricles. 

— Sim, Sócrates — interferiu Cri- 
tias — é preciso deixar em paz os 


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MEMORÁVEIS-I 47 


sapateiros, carpinteiros e ferreiros. 
Eles estão fartos das tuas parolagens. 
— Como! exclamou Sócrates 
— devo, pois, renunciar às conclusões 
de justiça, piedade, etc., que deles 


tirava? 
— Sim, por Júpiter! — respondeu 
Cáricles. —- E 'renuncia também aos 


teus vaqueiros. De outra forma arris- 
cas. diminuir por tua vez o número dos 
bois. 

Estas palavras denotam claramente 
que haviam sido inteirados do propó- 
sito sobre os bois e estavam abespi- 
nhados com Sócrates. 


Vimos, pois, quais eram as relações 
entre Crítias e Sócrates e suas disposi- 
ções mútuas. Eu não hesito em dizer 
impossível aprender com mestre que 
não nos agrade. Ora, Crítias e Alci- 
biades frequentavam Sócrates, não 
porque este lhes agradasse, mas por 
abrigarem a esperança de governar o 
Estado. Enquanto se mantiveram a seu 
lado, procuraram aproximar-se sobre- 
tudo dos que se achavam ligados aos 
negócios políticos. Assim, diz-se que 
Alcibiades, antes dos vinte anos de 
idade, teve com Péricles seu tutor e pri- 
meiro cidadão de Atenas, esta con- 
versa em torno das leis: 

— Diz-me, Péricles, 
nar-me o que é uma lei? 

— Naturalmente — respondeu Pé- 
ricles. 

— Ensina-me então, em nome dos 
deuses — tornou Alcibíades. — Pois 
ouço elogiarem certos homens por seu 
respeito às leis e me parece que sem 


podes ensi- 


saber o que seja uma lei jamais se 


poderia merecer tal encômio. 


— Se é isso o que desejas saber, 
facil é satisfazer-te, Alcibíiades 
disse Péricles —: Chama-se lei toda 
deliberação em virtude da qual o povo 
reunido decreta o que se deve fazer ou 
não. 


— E que ordena ele que se faça, o 
bem ou o mal? 

— O bem, 
nunca o mal. 

— E quando, em lugar do povo, é, 
como numa oligarquia, uma reunião 
de algumas pessoas que decreta o que 
se deva fazer, como se chama isso? 

— Tudo o que após deliberação or- 
dena o poder que dirige um Estado se 
chama lei. 

— Mas se um tirano que governa 
um Estado ordena aos cidadãos fazer 
tal ou qual coisa, trata-se ainda de lei? 

— Sim, tudo o que ordena um tira- 
no que detém o poder se chama lei. 

— Que é então, Péricles, a violên- 
cia e a ilegalidade? Não é o ato pelo 
qual o mais forte, em vez de persuadir 
o mais fraco, constrange-o a fazer o 
que lhe apraz? 

— Essa a minha opinião — con- 
veio Péricles. 

— Portanto, toda vez que, em lugar 
de usar da persuasão, um tirano força 
os cidadãos por um decreto, será 
legalidade? 

— Ássim o creio. Errei, pois, dizen- 
do sejam leis as ordens de um tirano 
que não emprega a persuasão. 

— E quando a minoria não usa da 
persuasão junto à multidão, mas abusa 
de seu poder para forjar decretos, cha- 
maremos a isso violência ou não? 

— Tudo o que se exige de alguém 
sem empregar a persuasão, trate-se ou 
não de um decreto, pila me antes 
violência que lei. 

— E tudo o que, exercendo o poder, 
impuser a multidão aos ricos sem o 
emprego da persuasão será ainda antes 
violência que lei? 

— Bravos! Alcibiades! — excla- 
mou Péricles. — Nós também, na tua 
idade, éramos hábeis em semelhantes 
matérias. Tomávamo-las por tema de 
declarações € argumentações, tal como 
presentemente fazes comigo. 


rapaz, por Júpiter! e 


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so 


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48 XENOFONTE 


— Lamento, Péricles, não ter podi- 
do palestrar contigo nessa época em 
que ganhavas a mão a ti mesmo! — 
rematou Alcibiades. 

Apenas se julgaram mais hábeis que 
os administradores da cidade, Criítias e 
Alcibiades deixaram a companhia de 
Sócrates, com quem nunca simpati- 
zaram e que os feria fazendo-lhes sen- 
tir as próprias faltas, e abraçaram a 
política, motivo de sua ligação com 
ele. Já Criton, Querefonte, Querécra- 
tes, Hermócrates, Símias, Cebes, 
Fédon e tantos outros de seus discí- 
pulos dele se acercaram, não para se 
formarem na elogiúência da ágora ou 
do tribunal, mas para se tornarem ho- 
mens virtuosos e conhecerem seus 
deveres para com sua família, seus 
parentes, servidores, amigos, pátria, 
concidadãos: e jamais nenhum deles, 
nem na juventude nem em idade mais 
avançada, praticou o mal nem disso foi 
acusado. 

Mas Sócrates — diz seu acusador 
— destruía nas criançás o respeito 
filial, convencendo seus discípulos de 
que os tornava mais hábeis que seus 
pais, dizendo-lhes que a lei permite 
encarcerar o pai convicto de loucura, 
para provar o que dizia que ao homem 
instruído assiste o direito de encadear 
o ignorante. Longe disso, achava Só- 
crates que o indivíduo que sob capa de 
ignorância acorrentasse outro, merecia 
ser acorrentado a seu turno pelo pri- 
meiro que soubesse mais que ele. Eis 


por que examinava de cotio em que di- 


fere a ignorância da loucura, parecen- 
dolhe não se proceder erradamente 
encarcerando os loucos — em seu pró- 
prio interesse e de seus amigos — ao 
passo que os ignorantes devem apren- 
der o de que necessitam da boca dos 
que sabem. 

Não só aos pais — prossegue o acu- 
sador — «mas também aos outros 
parentes ensinava Sócrates seus disci- 
pulos a desrespeitarem, dizendo que 


quando se está doente ou empenhado 
num processo de nada valem os paren- 
tes e sim os médicos ou os advogados. 
Do mesmo modo, falando dos amigos, 
dizia que de nada nos serve sua 
benevolência, se não nos aproveita. 
Que só merecem nossa estima os que 
sabem o que é preciso saber e no-lo 
podem ensinar. E como persuadia os 
Jovens de que era muito sábio e muito 
hábil em tornar os outros sábios, 
convencia-os, em proveito próprio, a 
não agasalharem a menor estima a 
seus semelhantes. Não ignoro usasse 
Sócrates dessa linguagem ao falar dos 
pais, parentes «e amigos: aventava que 
após a deserção da alma devemos 
apressar-nos em fazer desaparecer o 
corpo do ente inda o mais querido, 
pois unicamente naquela reside a inte- 
ligência. Enquanto vivo — dizia — o 
homem corta com as próprias mãos ou 
faz cortar por outrem o que em seu 
corpo, objeto de sua mais viva afeição, 
lhe parece inútil e supérfluo. Assim os 
homens cortam de vontade própria as 
unhas, os cabelos, as calosidades. 
Entregam-se aos médicos para que os 
cortem e queimem, com dores e sofri- 
mentos indizíveis e ainda se crêem na 
obrigação de recompensá-los. Afinal 
cospem a saliva o mais longe possível 
da boca, porque de nada lhes serve o 
guardá-la, sendo até prejudicial. Assim 
falando, não exortava a enterrar o pai 
vivo nem cortar-se a si mesmo em 
pedaços, mostrando que o que é inútil 
deve ser desprezado, instava seus disci- 
pulos a envidarem todos os esforços 
por tornar-se o mais sóbrios €e úteis 
possível, a fim de que, se desejassem 
granjear a estima dos pais, irmãos ou 
não importa quem, não se fiassem ape- 
nas nos liames parentescos, mas pro- 
curassem ser úteis âqueles cuja estima 
ambicionassem. 

Pretende o acusador que Sócrates 
escolhesse os trechos mais perigosos 


dos grandes poetas e os utilizasse 


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só 


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a 


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MEMORÁVEIS-I 49 


como argumentos para formar seus 
discípulos no crime e na violência. 
Assim, quando citava este verso de 
Hesíodo: Não a ação, mas a inação é 
que-é vergonhosa, seria para mostrar o 
poeta animando a não deixar passar 
nenhuma oportunidade, justa ou injus- 
ta, e de tudo aproveitar-se. Longe disso 
a verdade. Reconhecendo ser a ação 
útil e honrosa ao homem e a inação 


» prejudicial e vergonhosa, uma um bem 
“ty PESE 

ie a outra um mal, dizia que aqueles 
“que praticam o bem agem e agem 


como deve agir-se, enquanto chamava 
ociosos os que jogam dados ou se dedi- 


cam a outras ocupações condenáveis e . 


funestas. Assim compreendido, nada 
mais verdadeiro que o verso: Não a 
ação, mas a inação é que é vergonhosa. 
Acrescenta ainda o acusador que Só- 
crates citava frequentemente estés ver- 
sos de Homero, onde se diz de Ulisses 
que Quando via um rei, um herói de 
escol, detinha-o com palavras de lison- 
ja: “Filho dos deuses, não fujas como 
um covarde, senta-te e faze sentar tua 
grosseira falange”. Mas se topava com 
um reles soldado a vociferar, batia-lhe 
com o cetro e rude e altivamente lhe 
dizia: “Senta-te! mísero, ouve a pala- 
vra de quem vale mais que tu, raça inú- 
til e frívola, covarde no combate, zero 
no conselho!” Tais versos explicá-los- 
ia Sócrates como se o poeta tivesse 
aprovado que se maltratasse aos ple- 
beus e aos pobres. A verdade, porém, é 
que Sócrates nunca disse semelhante 
coisa, do contrário teria crido se deves- 
se maltratá-lo a ele próprio: dizia que 
os homens que nada valem tanto no 
conselho como na ação, incapazes, 
quando necessário, de prestar seu con- 
curso ao exército, ao Estado, à nação 
e, não obstante, prenhes de atrevi- 
mento, devem ser reprimidos por todos 
os meios, inda que ricos. Muito pelo 
contrário, Sócrátes mostrava-se aber- 
tamente amigo do povo e filantropo. 
De feito, cercado de numerosos discí- 


pulos, atenienses e estrangeiros, jamais 
auferiu proveito algum desse comércio, 
transmitindo a todos e sem reserva o 
que sabia. Alguns deles venderam 
caríssimo a outros o que dele haviam 
recebido gratuitamente e não foram 
como ele amigos do povo, atento have- 
rem recusado suas lições aos que não 
lhas podiam pagar. Assim, muito mais 
exaltou Sócrates a nossa República 
que Licas a dos lacedemônios. Licas 
tinha sua mesa aberta aos forasteiros 
que as gimnopédias atraíam à Lacede- 
mônia. Sócrates, espargindo seu tesou- 
ro durante todo o curso de sua vida, 
prestou o maior dos serviços a todos 
os que dele quiseram quinhoar, devol- 
vendo melhores os que o procuravam. 
Senhor de tal caráter, minha convic- 
ção é que Sócrates merecia de nossa ci- 
dade não a morte, porém, honras. Jul- 
gai o fato à luz das leis e haveis de 
concordar comigo. Passível da pena de 
morte, segundo as leis, é quem for 
surpreendido roubando, furtando rou- 
pas, cortando bolsas, arrombando pa- 
redes, vendendo seus semelhantes, pi- 
lhando templos: todos crimes de que 
mais que ninguém se absteve Sócrates. 
Excitou sedições ou ocasionou derro- 
tas? Maculou-se em alguma traição ou 
outro crime qualquer? Esbulhou al- 
guém de seus haveres? Lançou alguém 
na desgraça? Não, jamais foi acusado 
de nenhum destes crimes. Como, 
então, poderia ser submetido a julga- 
mento, ele que, longe de pretender a 


inexistência dos deuses, como o incri- 


mina o auto de acusação, mais que 


“ninguém foi respeitoso da divindade? 


Longe de corromper os jovens, como 
lhe censura a acusação, extirpava. aos 
olhos de todos as paixões de seus discí- 
pulos e trabalhava por inspirar-lhes o 
amor à virtude, essa deidade tão bela e 
tão sublime que fez florescerem as 
cidades e os lares. Assim procedendo, 
como não mereceu as maiores honras 
de sua pátria? 


61 


62 


63 


64 


A RO E EESC E E SAE = = a | 


ty 


CaríTruLO II 


Como Sócrates me parecia ser útil a 
seus discípulos, já pelo procedimento, 
já pela palavra, eis o que passo a rela- 
tar, alinhavando o melhor que possa 
minhas recordações. No que se refere 
aos deuses, havia-se e falava de confor- 
midade com as respostas que dá a Pítia 
aos que interrogam sobre como se deve 
proceder em relação aos sacrifícios, às 
honras que é vezo render aos antepas- 
sados, etc. Declara a Piítia, por um orá- 
culo, que quem quer que sobre esse 
ponto proceda conformemente às leis 
da pátria procede piedosamente. Ora, 
assim procedia e instigava Sócrates os 
outros a que procedessem, tendo todos 
aqueles que se portassem diferente- 
mente na conta de indivíduos excên- 
tricos e insensatos. Pedia aos deuses 
simplesmente que lhe concedessem os 
bens, convicto de que melhor que nós 
sabe a divindade quais são eles: pedir- 
lhes ouro, dinheiro, poder e o mais que 
por aí segue, seria o mesmo, dizia, que 
indagar-lhes o resultado de um lanço 
de dados, de um combate ou coisas 
incertas que tais. Modesto em suas ofe- 
rendas, modestos como eram seus 
haveres, nem por isso julgava ficar 
abaixo dos ricos que, senhores de lar- 
gas posses, ofertam vítimas de avanta- 
jado tamanho e em grande número. 
Indigno dos deuses, dizia, seria aceita- 
rem as grandes benesses com maior 


prazer que as pequenas, pois assim 
mui frequentemente as dádivas dos 
maus lhes seriam mais gratas que as 
dos bons. Por sua vez, o homem esti- 
maria a vida bem pouca coisa, se os 
dons das pessoas virtuosas fossem 
menos agradáveis aos deuses que os 
dos maus. Ao contrário, achava: ele 
serem as oferendas das pessoas mais 
piedosas as que melhor sabem à divin- 
dade. Por isso louvava este verso: 

Ofertai aos deuses imortais segundo 
vossas posses. E pretendia ser este um 
excelente preceito quê observar para 
com os amigos, os hóspedes e em todas 
as circunstâncias da vida: “.. .ofertai 
segundo vossas posses”. Se lhe parecia 
receber algum aviso dos deuses, seria 
mais fácil decidi-lo a tomar por guia 
um cego ignorante do caminho em vez 
de um homem clarividente e conhece- 
dor do itinerário que fazê-lo proceder 
contrariamente a esse aviso. Loucos 
chamava aos que, para pôr-se ao abri- 
go-da má opinião dos homens, vão de 
encontro aos avisos dos deuses, os 
quais tinha em muito maior conta que 
tudo o que parte do homem. Afizera o 
corpo a regime tal que, tirante o caso 
de intervenção do Alto, quem o se- 
guisse viveria completamente isento de 
inquietudes e perigos, tendo sempre 
com que ocorrer a suas modestas 
necessidades. Era tão frugal que não 


10 


52 XENOFONTE 


sei de pessoa que não pudesse traba- 
lhar o bastante para ganhar o que con- 
tentava Sócrates. Não comia senão 
enquanto tivesse prazer, fazendo-o 
com disposição tal que o apetite lhe 
servia de condimento. Toda bebida lhe 
sabia agradavelmente, porque jamais 
bebia sem ter sede. Se, convidado, ia a 
um banquete, facilimo lhe era observar 
o que à maior parte dos homens se 
antolha tão penoso, o não entregar-se a 
excessos. Aos que não eram capazes 
de fazer outro tanto, aconselhava não 
comer sem apetite nem beber sem sede. 
Sao tais demasias — aditava — que 
fazem mal ao estômago, cabeça e espi- 
rito. E ajuntava, brincando, que Circe* 
empregava a abundância de iguarias 
para transformar os homens em por- 
cos, e que aos conselhos de Mercúrio, 
à sua natural temperança e à absti- 
nência dos excessos da mesa devera 
Ulisses o haver-se furtado à metamor- 
fose. Assim casava o chistoso ao sério. 

No tocante ao amor, aconselhava a 
fugir resolutamente a sociedade das 
pessoas belas. Não é fácil — dizia — 
manter-se prudente em seu comércio. 
Vindo a saber, certa vez, que Critobu- 
lo, filho de Criton, roubara um beijo 
ao filho de Alcibíades, mancebo de 
rara formosura, teve com Xenofonte, 
em presença de Critobulo, esta entrefa- 


la: 
-— Dize-me, Xenofonte, não tinhas 


Critobulo na conta de jovem sábio 
antes que de amoroso indiscreto, 
homem prudente antes que insensato e 
temerário? 

— Certamente — conveio Xeno- 
fonte. 


— Pois bem, considera-o, dora- 
vante como o mais impulsivo e arro- 
jado dos homens, capaz de desafiar o 
ferro e afrontar o fogo. 

— Que o viste fazer — indagou 


3 Cf. a narração de Homero na Odisséia, canto X. 
(N. do E.) 


“ 


Xenofonte — para acusá-lo dessa 
maneira? 

— Pois não teve a temeridade de 
furtar um beijo ao filho de Alcibiades, 
jovem de tamanha beleza e frescor? 

— Ora, isso é ato de temerário! — 
retrucou Xenofonte. — Estou que eu 
próprio bem poderia cometer seme- 
lhante temeridade. 


— Desgraçado! — exclamou Só- 
cratêés. — Imaginas o que te sucederia 
se beijasses uma pessoa jovem e bela? 


Ignoras que de livre, num momento te 
tornarias escravo? Que pagarias caro 
prazeres perigosos? Que já não terias 
ânimo de perquirir o que é o belo e o 
bem? Que haverias de dar cabeçadas 
como um louco? 


— Por Hércules! — retrucou Xe- 
nofonte — que terrível poder empres- 
tas a um beijo! 

— Admira-te? — perguntou Sócra- 
tes. — Não sabes que as tarântulas, 
que não são maiores que u'a moeda de 
meio óbolo 4, com o só tocar os lábios 
causam ao homem dores tremendas e 
privam-no da razão? 


— Por Júpiter! bem o sei: — repli- 


cou Xenofonte — mas é que ao picar a 
carne as tarântulas insinuaram-lhe um 
não sei quê. 

— Insensato! — bradou Sócrates 
— não desconfias haver no beijo de 
uma pessoa jovem e bela algo que teus 
olhos não vêem? Ignoras que esse 
monstro que se chama uma pessoa 
louçã e formosa é tanto mais temível 


que a tarântula, quanto esta fere tocan- 
do ao passo que a outra, sem tocar, 
mas, pelo só aspecto, lança à distância 
um não sei quê que põe em delírio? 
Talvez até seja porque os jovens belos 
firam de longe que se dá o nome de 
archeiros aos amores. Aconselho-te, 


* Moeda ateniense com o valor de 1/6 da dracma, 
pesando 72 centigramas. (N. do E.) 


12 


MEMORÁVEIS-I 53 


pois, Xenofonte, que quando vires uma 
pessoa bela, fujas, sem sequer te volta- 
res. E a ti, Critobulo, receito-te viajar 
um ano inteiro: todo este tempo mal 
dará para curar tua picada. 

Era pois de parecer, em amor, que 
aqueles que não pudessem reprimir seu 
ardor o mitigassem como a tudo a que 
o espírito só atende em caso de impe- 
riosa necessidade do corpo, necessi- 
dade cuja satisfação não deve, todavia, 
impor à alma o menor constrangi- 


mento. Quanto a ele, estava tão bem 
armado contra tais delírios, que se 
afastava das pessoas jovens e bonitas 
com mais facilidade que outros das 
pessoas feias e disformes. 

Eis como se portava em face do 


beber; do comer e dos prazeres dos 


sentidos. E além de expor-se muito 
menos aos sofrimentos, cria experi- 
mentar tanto prazer em satisfazer-se 
como os que compram o gozo ao preço 
de mil tormentos. 


15 


CarpíTuULO IV 


Se, coma por conjetura muitos es- 
crevem e dizem, crê alguém possuisse 
Sócrates o maior talento para convidar 
os homens a ingressarem na senda da 
virtude, porém fosse incapaz de os 
fazer trilhá-la, que examine não só as 
questões por que confundia, à guisa de 
correção, os que pretendiam tudo 
saber, como também as práticas que 
diariamente entretinha com seus disci- 
pulos, e então, julgue se era ou não 
capaz de tornar melhores os que com 
ele tratavam. Referirei, de começo, a 
conversa que lhe ouvi acerca da divin- 
dade com Aristodemo, por alcunha o 
Pequeno. Soubera ele que Aristodemo 
não oferecia aos deuses sacrifícios nem 
preces, que não se socorria da adivi- 
nhação e até chufeava dos que obser- 
vam tais práticas. 

|. — Dize-me, Aristodemo — inter- 
pelou-o — haverã homens que admires 
pelo talento? 

— Por certo. 

— Nomeia-os. 

— Na poesia épica admiro sobre- 
tudo Homero, no ditirambo Melanípe- 
des, na tragédia Sófocles, na estatuária 
Policleto, na pintura Zêuxis. 

— Quais são, a teus olhos, mais 
dignos de admiração, os artistas que 
fazem imagens sem razão e sem movi- 
mento ou os artistas que criam seres 
inteligentes e animados? 


— Por Júpiter! os que criam seres 
animados, desde que tais seres não 
sejam obra do acaso, mas uma inteli- 
gência. 

— Das obras sem destinação mani- 
festa e daquelas cuja utilidade é incon- 
testável, quais consideras como produ- 
to do acaso ou de uma inteligência? 

— Justo é perfilhar a uma inteli- 
gência as obras que tenham fim de 
utilidade. 

— Não te parece então que aquele 
que, desde que o mundo é mundo, 
criou os homens lhes haja dado, para 
que lhes fossem úteis, cada um dos ór- 
gãos por intermédio dos quais experi- 
mentam sensações, olhos para ver O 
que é visível e ouvidos para ouvir os 
sons? De que nos serviriam os olores 
se não tivéssemos narículas? Que idéia 
teriamos do doce, do amargo, de tudo 
o quê agrada ao paladar, se não exis- 
tisse a língua para os discernir? Ao 
demais, não achas dever olhar-se como 
ato de previdência que sendo a vista 
um órgão frágil, seja munida de pálpe- 
bras, que se abrem quando preciso e se 
fecham durante o sono; que para pro- 
teger a vista contra o vento, estas pál- 
pebras sejam providas de um crivo de 
cílios; que os supercílios formem uma 
goteira por cima dos olhos, de sorte 
que o suor que escorra da testa não 
lhes possa fazer mal; que o ouvido re- 


10 


56 | XENOFONTE 


ceba todos os sons sem jamais encher- 
se; que em todos os animais os dentes 
da frente sejam cortantes e os molares 
aptos a triturar os alimentos que 
daqueles recebem; que a boca, desti- 
nada a receber o que excita o apetite, 
esteja localizada perto dos olhos e das 
narículas, de passo que as dejeções, 
que nos repugnam, têm seus canais 
afastados o mais possível dos órgãos 
dos sentidos? Trepidas em atribuir a 
uma inteligência ou ao acaso todas 
essas obras de tão alta previdência? 

— Não, por Júpiter! — respondeu 
Aristodemo — parece, sem dúvida, 
tratar-se da obra de algum artífice 
sábio e amigo dos seres que respiram. 

— E o desejo inspirado às criaturas 
de se reproduzirem, e o desejo inspi- 
rado às mães de alimentarem o próprio 
fruto, e neste fruto o maior amor à vida 
e o mais profundo temor da morte? 

— Evidentemente tudo isso são 
obras de um ente que decidira existis- 
sem animais. 

— Crês-te um ser dotado de certa 
inteligência e negas existir algo inteli- 
gente fora de ti, quando sabes não teres 
em teu corpo senão uma parcela da 
vasta extensão da terra, uma gota da 
massa das águas, e que tão-somente 
uma parte ínfima da imensa quanti- 
dade dos elementos, entra na organiza- 
ção do teu corpo? Pensas haver açam- 
barcado uma inteligência que 
conseguintemente inexistiria em qual- 
quer outra parte, e que esses seres infi- 
nitos em relação a ti em número e 
grandeza sejam mantidos em ordem 
por força ininteligente? 

— Sim, por Júpiter! pois não lhes 
vejo os autores como vejo os artífices 
das nossas obras. 

— Tampouco vês tua alma, senho- 
ra de teu corpo: de sorte que poderias 
dizer nada fazeres com inteligência, 
mas tudo fazeres ao acaso. 


Aristodemo: Claro, Sócrates, 


que não desprezo a divindade. Mas 


creio-a muito grande para ter necessi-: 


dade de meu culto. 

— Contudo — retorquiu Sócrates 
— quanto maior for o ente que se 
digna de tomar-te sob sua tutela tanto 
mais lhe deves homenagens. 

— Pois olha, se achasse que os deu- 
ses se ocupam dos homens, não os 
negligenciaria. 

— Como! Julgá-lo que não, se, 
antes de mais nada, só ao homem, den- 
tre todos os animais, concederam a 
faculdade de se manter de pé, postura 


que lhe permite ver mais longe, con-. 


templar os objetos que lhe ficam acima 
e melhor guardar-se dos perigos! Na 
cabeça colocaram-lhe os olhos, os 
ouvidos, a boca. E enquanto aos ou- 
tros animais davam pés que só lhes 
permitem mudar de lugar, ao homem 
presentearam também com mãos, com 
o auxílio das quais realizamos a maior 
parte dos atos que nos tornam mais 
felizes que os brutos. Todos os animais 
têm língua: a do homem é a única que, 
tocando as diversas partes da boca, 
articula sons e comunica aos outros 
tudo o que queremos exprimir. Deverei 
falar dos prazeres do amor, cuja facul- 
dade,-restrita para todos os outros ani- 
mais a uma estação do ano, para nós 
se estende ininterruptamente até a 
velhice? Nem se satisfez a divindade 
em ocupar-se do corpo do homem, 
mas, o que é o principal, deu-lhe a 
mais perfeita alma. Efetivamente, qual 
o outro animal cuja alma seja capaz de 
reconhecer a existência dos deuses, 
autores deste conjunto de corpos imen- 
sos e esplêndidos? Que outra espécie 
além da humana rende culto à divinda- 
de? Qual o animal capaz tanto quanto 
o homem .de premunir-se contra a 
fome, a sede, o frio, O calor, curar as 


doenças, desenvolver as próprias for- ” 


ças pelo exercício, trabalhar por adqui- 
rir a ciência, recordar-se do que viu, 


13 


lá 


15 


16 


 MEMORÁVEIS-I 57 


ouviu ou aprendeu? Não te parece evi- 
dente que os homens vivem como deu- 
ses entre os outros animais, superiores 
pela natureza do corpo como da alma? 
Com o corpo de um boi e a inteligência 
de um homem não se estaria em me- 
lhor condição que os seres apercebidos 
de mãos mas desprovidos de inteli- 


gência. Tu, que reúnes essas duas van- 


tagens tão preciosas, não crês que os 
deuses se carpem de ti? Que será preci- 
so então que façam para convencer-te? 

— Que me enviem, como dizes que 
te enviam, avisos sobre que deva ou 
não fazer. 

— Quando faiam aos atenienses 
que os interrogam por meio da adivi- 
nhação, julgas que não falam a ti tam- 
bém? Da mesma forma, quando por 
prodígios manifestam sua vontade aos 
gregos, a todos os homens, serás tu o 


único esquecido? Pensas que se não. 


tivessem poder para tanto, os deuses 
teriam incutido nos homens a crença 
de poderem distribuir o bem e o mal, e 
que os homens, por eles enganados hã 
tantos séculos ainda não o teriam per- 
cebido? Não vês que as instituições 
humanas mais antigas e mais sábias 
— estados e nações — são também as 
mais religiosas, que as épocas mais lú- 
cidas são também as de maior pieda- 
de? Saiba, meu caro, que tua alma 
aposentada em teu corpo, governa-o 


como lhe apraz. Mister é acreditar, 
portanto, tudo dispor a seu grado a 
inteligência que habita o universo. 
Quê! tua vista pode abranger um raio 
de vários estádios e os olhos da divin- 
dade não poderiam tudo abarcar ao 
mesmo tempo! Teu espírito pode ocu- 
par-se simultaneamente do que se 
passa aqui, no Egito, na Sicília, e a 
inteligência da deidade não seria capaz 
de em tudo pensar a um só tempo! 
Certo, se obsequiando os homens, 
aprendes a conhecer os que também 
são suscetíveis de obsequiar-te; se 


prestando-lhes serviços, vês os que por 
seu turno estão dispostos a retribuir-te; 
se deliberando com eles, distingues os 
que são dotados de prudência: assim 
também, rendendo homenagem aos 


deuses, verás até que ponto estão dis- 
postos a esclarecer os homens sobre o 
que nos ocultaram, conhecerás a natu- 
reza e a grandeza dessa divindade que 


tudo pode ver e ouvir contemporanea- 
mente, estar presente em toda parte e 
de tudo ocupar-se ao mesmo tempo. 


Tenho para mim que, assim falando, 
Sócrates ensinava seus discípulos a se 
absterem de toda a ação ímpia, injusta 
e reprovável, não somente em presença 
dos homens como também na soleda- 
de, visto convencê-los de que nada do 
que fizessem escaparia aos deuses. 


18 


! 


CAPÍTULO V 


Se a temperança é para o homem 
uma bela e útil aquisição, vejamos se a 
ela não exortava Sócrates quando 
dizia: “Cidadãos, se nos sobreviesse 
uma guerra € quiséssemos escolher um 
homem capaz antes de tudo de salvar- 
nos e subjugar o inimigo, escolhe- 
riamos alguém que soubéssemos escra- 
vo do próprio estômago, do vinho, dos 
prazeres do amor, da moleza e do 
sono? Como poderíamos esperar que 
semelhante homem nos salvasse e 
triunfasse do inimigo? Se ao termo da 
existência desejássemos confiar a al- 
guém a educação de nossos filhos, a 
honra de nossas filhas, a adminis- 
tração de nossos bens, veriamos o 
intemperante digno de tal confiança? 
Entregariamos a um escravo intempe- 
rante a guarda de nossos rebanhos, de 
nossos celeiros, a gerência de nossos 
trabalhos? Aceita-lo-iamos ainda que 
gratuitamente como intendente e pro- 
vedor? E se não quereriamos nem se- 
quer um escravo intemperante, como 
não temermos parecer com ele? De 
fato não se pode dizer que, da mesma 
forma que esbulhando os outros de 
seus bens crê o avaro enriquecer, seja o 
intemperante prejudicial aos outros 


mas útil a si próprio: ao contrário, se 
faz mal aos outros mais ainda o faz a 
si mesmo, pois o que é mais pernicioso 
que arruinar, ao mesmo tempo que sua 
casa, o corpo e a alma? No comércio 
da vida, quem gostaria de um homem 
que a seus amigos prefere o vinho e a 
boa mesa, a seus companheiros as 


mulheres prostituídas? Não é um 
dever, para todo aquele que saiba ser a 
temperança o cimento da virtude, o 
encastoá-la antes de tudo na própria 
alma? Sem ela, como discernir o bem e 


praticá-lo dignamente? O escravo das 
próprias paixões não degrada vergo- 
nhosamente o corpo €e o espírito? Pare- 
ce-me, por Juno!, que todo homem 
livre deve pedir aos deuses não venha a 
ter um escravo tal, e todo escravo das 
próprias paixões encontre bons senho- 
res;-do contrário estará perdido”. Eis o 
que dizia, e suas ações mais que suas 
palavras testemunhavam sua tempe- 
rança: sobranceiro não somente aos 
prazeres dos sentidos como também ao 
que busca a riqueza, achava que rece- 
ber dinheiro do primeiro que aparece é 
comprar um senhor e sujeitar-se à mais 
ignominiosa servidão. 


CarpíruLo VI 


Convém não calar a conversação 
que teve com o sofista Antifão. Certo 
dia Antifão, que queria tomar a Sócra- 
tes seus discípulos, interpelou-o e dis- 
se-lhe na presença deles: 

— Eu pensava, Sócrates, que os 
que professam a filosofia, fossem mais 
felizes. Muito outro, porém, parece ser 
o fruto que colhes da filosofia. Vives 
de tal guisa que não há escravo que de- 
seje viver sob tal senhor. Alimentas-te 
das viandas mais grosseiras, bebes as 
mais vis beberagens. Cobre-te um 
manto chamboado, que te serve no 
verão como no inverno. Não tens cal- 
çado nem túnica. Sem embargo, não 
aceitas nenhum oferecimento de di- 
nheiro, por agradável que seja recebê- 
lo e muito embora proporcione vida 
mais independente e aprazível. Se, 
pois, como todos os mestres formas os 
teus discípulos à tua semelhança, 
podes considerar-te um professor de 
miséria. 

Ao que Sócrates respondeu — 
Fazes, creio, Antifão, tão triste idéia 
de minha existência, que preferirias 
morrer a viver como eu. Ora bem, exa- 
minemos por que achas minha vida tão 
penosa. Será porque, ao contrário dos 
que, exigindo salário, são obrigados a 
fazer o que lho rende, eu que nada re- 
cebo não sou forçado a falar com 
quem não queira? Achas minha vida 


miserável por que minha alimentação 
seja menos sã ou menos nutritiva que a 
tua? Porque meus alimentos sejam 
É difíceis de obter que os teus, os 
quais são mais raros e mais delicados? 
Porque os mranjares que preparas te 
saibam melhor ao paladar que os meus 
a mim? Não sabes que quem come 
com apetite não tem necessidade de 
condimento, que a quem bebe com pra- 
zer, fácil é prescindir da bebida que 
não tem? Quanto às vestes, sabes que 
quem as muda não o faz senão por 
causa do frio e do calor; que se se cal- 
çam sapatos, é para que os pés não 
sejam impedidos no andar pelo que os 
possa ferir. Viste-me alguma vez ento- 
cado em casa por causa do frio? dispu- 
tar, no verão, a sombra a alguém, ou 
impossibilitado de ir aonde quisesse 
por ter os pés feridos? Ignoras que gra- 
ças a certos exercícios pessoas fracas 
de corpo se tornam mais fortes e os 
suportam mais facilmente do que aque- 
las que, nascidas mais fortes, foram 
descuidadas? Não crês que eu, que 
avezei meu corpo a resistir a todas as 
influências, não sofra melhor que tu, 
que não te exercitaste? Se não sou 
escravo do ventre, do sono, da volúpia, 
é porque conheço prazeres mais doces 
que não deleitam apenas no momento, 
mas fazem esperar vantagens conti- 
nuas. Sabes que sem a esperança do 


62 XENOFONTE 


sucesso nenhum prazer experimen- 


tamos, de passo que, se se pensa lograr ' 


bom êxito, seja na agricultura, seja na 
navegação, seja em outra profissão 
qualquer, a ela nos dedicamos com 
tanto júbilo como se já houvéssemos 
triunfado. Pois bem, julgas que esta 
felicidade iguale a que nos dá a espe- 
rança de nos tornarmos melhores a nós 
próprios e aos nossos amigos? Tal e: 
contudo, a opinião em que persisto ! Se 
for preciso servir aos amigos, ou à pá- 
tria, quem para tanto terá mais lazer, 
aquele que vive como eu ou aquele que 
esposa o gênero -de vida de que te 


vanglorias? Quem fará a guerra mais a 
seu grado, aquele que não pode dispen- 
sar u'a mesa suntuosa ou aquele que 
se contenta com o que tenha à mão? 


Quem capitulará mais depressa, aquele. 


que tem necessidade de iguarias difi- 
ceis de obter ou aquele que se contenta 
com os alimentos mais triviais? Pare- 
ces, Antifão, colocar a felicidade nas 
delícias e na magnificência. De mim, 
penso que de nada necessita a divinda- 
de. Que quanto menos necessidades se 
tenha, mais nos aproximamos dela. E 
como a divindade é a própria perfei- 
ção, quem mais se avizinhar da divin- 


“dade, mais próximo estará da perfei- 


ção. 

De outra feita, disse Antifão a 
Sócrates. 

— Sócrates, creio-te justo, mas não 
de todo sábio. Aliás parece-me comun- 
gares comigo nesta opinião. Não acei- 
tas dinheiro por tuas lições. Entre- 
tanto, a ninguém darias nem venderias 
por preço inferior ao que valem teu 
manto, tua casa nem nada do que pos- 
suis e que reputas de algum valor. 
Claro é que, se estimasses igualmente 
tuas lições, far-te-jas pagar o que 
valem. És, portanto, honesto, de vez 


que não enganas por cupidez, porém 


não sábio, já que nada sabes que valha 


o que quer que seja. | 

Ao que Sócrates respondeu 

— Antifão, não é coisa corrente 
entre nós poder fazer-se tanto da bele- 
za quanto da sabedoria emprego honesto 
ou vergonhoso? Quem chatina com a 
beleza com quem lha queira pagar se 
chama um prostituido. Mas aquele 
que, conhecendo um homem amante 
da virtude, procura fazer-se seu amigo, 
consideram-no sensato. O mesmo su- 
cede em relação à sabedoria: os que 
com ela traficam com quem lha queira 
pagar se chamam sofistas ou prosti- 
tuídos. Aquele, porém, que reconhe- 
cendo em outrem um bom caráter lhe 
ensina tudo o que sabe de bem e se faz 
seu amigo, reputam-no fiel aos deveres 
do bom cidadão. Assim, Antifão, ao 
passo que outros gostam de possuir um 
bom cavalo, um cão, um pássaro, 
gosto eu e muito mais, de ter bons ami- 
gos. Ensino-lhes tudo o que sei do bem, 
aditando tudo o que os possa ajudar a 
se fazerem virtuosos. Os tesouros que 
nos legaram os antigos sábios em seus 
livros, percorro-os de conversa com 
meus amigos. Se encontramos alguma 
coisa boa, recolhemo-la e regozijamo- 
nos de ser úteis uns aos outros. 

Ouvindo estas palavras, eu via em 
Sócrates um homem feliz que virtuosos 
fazia OS que o escutavam. 

De outra vez, perguntando-lhe Anti- 
fão por que razão, se se gloriava de 
tornar os outros hábeis na política, não 
se ocupava ele próprio desta ciência, 
que pretendia conhecer: 

“Que será preferível, Antifão, res- 
pondeu Sócrates, consagrar tão-so- 
mente a minha pessoa à política ou 
dedicar meus cuidados a tórnar grande 
número de indivíduos capazes de a ela 
vacarem??” 


CarpíruLo VII 


Vejamos ainda se, ao desviar seus 
discípulos da fatuidade, Sócrates os le- 
vava à prática da virtude. Pois costu- 


mava dizer que-não há mais belo cami- 
nho para a glória que um homem de 
bem ser o que realmente deseja pare- 
cer. Assim provava a verdade de sua 
asserção: 

Imaginemos — dizia — um indivi- 
duo que quisesse passar por bom toca- 
dor de flauta sem o ser de fato. Que 


faria? Não deveria macaquear os bons 
flautistas em tudo o que forma o exte- 
ror da sua arte? Primeiro, como os 
bons artistas possuem belos instrumen- 
tos, e cercam-se de numerosos acólitos, 
ele faria o mesmo. Depois, como 
numerosos encomiadores lhes cele- 
bram os talentos, procurar-sé-ja gran- 
de número de encomiadores. Que 
nunca, porém, se metesse a tocar flau- 
ta, do contrário pronto se cobriria de 
ridiculo e todos se capacitariam ser 
não somente mau artista como impos- 
tor. E se despendesse muito, nada 


ganhasse e de inhapa ainda perdesse a 
reputação, não viveria vida miserável, 
inútil e ridícula? Da mesma forma, se 


um homem quisesse passar por hábil 
piloto e bom general sem o ser real- 
mente, vejamos o que lhe aconteceria. 
Querendo passar por homem capaz de 
preencher tais funções e.não conse- 
guindo convencer ninguém, não seria 
infeliz? E convencendo, não o seria 
mais anda? Com efeito, encarregado 
do comando de um navio ou posto à 
cabeça de um exército, perderia aque- 
les mesmos que quisera salvar e se reti- 
raria coberto de vergonha e desprezo. 

Demonstrava Sócrates igualmente 
nada haver mais perigoso para um 
homem que dar-se por mais rico, mais 
forte, mais corajoso do que realmente 
é. Se lhe confiam encargos que desbor- 
dam de suas forças, não podendo exe- 
cutar o de que parecia ser capaz não 
fará jus à menor indulgência. Insigne 
embusteiro chamava aquele que se 
apodera do dinheiro ou o que quer que 
lhe tenham confiado, mas embusteiro 
maior anda o homem sem valor que 
empreende convencer os outros de ser 
capaz de dirigir o Estado. Excelente 
para afastar seus discípulos do charla- 
tanismo se me afigurava a linguagem 
de Sócrates. 


LIVRO II 


1 


CAPÍTULO I 


Antolhava-se-me, ademais, que com 
semelhantes discursos Sócrates afazia 
seus discípulos à abstinência em face 
da boa carne, do vinho, da lubricidade, 
do sono, e à resistência ao frio, ao 
calor, à fadiga. Sabedor de que um 
deles.se entregava a rédeas soltas a 
todos esses excessos. 

— Dize-me, Aristipo — interpe- 
lou-o — se te cometessem a educação 
de dois jovens, um para se tornar apto 
a governar, outro para ser simples 
cidadão, como formarias um e outro? 
Queres que comecemos nosso exame 
pela alimentação, isto é, pelos primei- 
ros elementos? 

— Naturalmente  — respondeu 
Aristipo — porquanto a alimentação 
me parece ser o princípio da educação; 
sem alimento, impossível viver. 

— Provavelmente, então à hora das 
refeições ambos pediriam de comer? 

— Não resta a menor dúvida. 

— Qual habituariamos, pois, a ocu- 
par-se de um negócio urgente antes de 
satisfazer o apetite? 

— Por Júpiter! o destinado a go- 
vernar, a fim de que os negócios do. Es- 
tado não -se paralisassem durante sua 
gestão. 

— E quando quisessem beber, não 
seria ainda a esse que acostumaríamos 
a resistir à sede? 

— Seguramente. 


— E se fosse preciso vencer o sono, 
ser capaz de deitar tarde, levantar cedo 
e velar, a qual dos dois o ensina- 
riamos? 

— Ainda ao mesmo. 

— Pois bem, a quem ensinariamos 
a abster-se dos prazeres do amor, para 
que não o impedissem de agir no 
momento necessário? 

— Sempre ao mesmo. 

— Qual afariamos a não fugir ao 
trabalho, mas enfrentá-lo com gosto? 

— O educado para governar, evi- 
dentemente. 

— Ora, vejamos, se há uma ciência 
que ensine a triunfar dos adversários, a 
quem conviria ensiná-la? 

— Por Júpiter !. ao que se destinasse 
a mandar. Porque sem tal ciência de 
nada lhe valeriam as outras. 

— Não te parece então que um 
homem assim educado estaria muito 
menos «exposto a se deixar prender 
pelos inimigos do que o estão os ani- 
mais? Efetivamente, uns, engodados 
pela gulodice, atraídos, a despeito de 
sua desconfiança, pelo desejo e pelo 
cevo, lançam-se sobre a isca e são pre- 
sos. Outros: encontram armadilhas na 
água onde vão beber. 

-—— De fato — conveio Aristipo. 

— Outros, vítimas de seu calor 
amoroso, como as codornizes e as per- 
dizes, aliciados à voz da fêmea pelo de- 


68 XENOFONTE 


sejo e a esperança do prazer, perdem e 
caem nos laços. 

— Ainda é verdade. 

— Não te parece uma vergonha 
rebaixar-se o homem à condição dos 
mais estúpidos animais? Por exemplo, 
os adúlteros, que penetram em aposen- 
tos fechados, muito embora saibam 
expor-se o delinquente à ameaça da lei, 
a embarrancar-se em uma armadilha, a 
ver-se cobrir de infâmia. A despeito 
destes males e deste opróbrio reser- 
vado ao adultério, a despeito de todos 
os meios por que podem mitigar sem 
risco seus apetites amorosos, atiram- 
se, cabeça baixa, ao perigo. Não é pro- 
ceder como verdadeiro doido? 

— Ássim penso. 

— De vez que a maior parte das 
ocupações obrigatórias do homem se 
exercem ao ar livre, como a guerra, a 
agricultura e outras igualmente impor- 
tantes, não achas desmarcada negli- 
gência o não se endurecerem muitos 
homens contra o frio e o calor. 

— Certamente. 

— Quer dizer que quem queira 
mandar deve afazer-se a suportar sem 
pena um e outro? Indubitavelmente. 
Então, se alinhamos entre os homens 
capazes para mandar os que sofrem 
com constância todas essas incomodi- 
dades, não devemos classificar as pes- 
soas incapazes de fazê-lo entre as inap- 
tas para o mando? 

— De acordo. 

— Pois bem, já que conheces o 
lugar que merece cada uma dessas 
duas classes de homens, já examinaste 
em qual delas te colocarias? 

— Quanto a mim — disse Aris- 
tipo — estou longe de formar entre os 
que aspiram ao mando. Quando já é 
tão penoso provermos a nossas pró- 
prias necessidades, parece-me redonda 
insensatez o não nos contentarmos 
com isso e ainda nos impormos o fardo 
de prover às de nossos concidadãos. 


Recusar-se a si mesmo tantas coisas 
que se desejam e por-se à cabeça do 
Estado para depois ser chamado à 
barra do tribunal por não se fazer tudo 
o que quer a cidade, não é o cúmulo da 
loucura? Porque, ao cabo de tudo, pre- 
tendem as cidades servir-se de seus 
governantes comio eu de meus escra- 
vos. Quero que meus escravos me pre- 
parem com abundância tudo o que me 
é necessário, mas que ém nada toquem. 
Acham as cidades deverem os gover- 
nantes procurar-lhes toda sorte de 
bens, de que eles próprios se absterão. 
Aqueles, pois, que querem dar-se a um 
mundo de serviços e oferecê-los aos 
outros, formá-los-ei como dissemos e 
os alinharei entre as pessoas aptas a 
mandar. Quanto a mim, formo com 
aqueles cujo desejo é levar a vida mais 
doce e agradável. 

Então Sócrates: 

— Queres, pois, examinemos quem 
leva vida mais agradável, governantes 
ou governados? 

— Com todo o gosto — respondeu 
Aristipo. 

— Primeiramente, dentre os povos 
que conhecemos, na Ásia os persas 
mandam, OS sírios, frígios e lídios obe- 
decem. Na Europa mandam os citas, 
os meotos lhes estão sujeitos. Na Líbia 
governam os carfagineses, os líbios são 
governados. Desses povos, quais julgas 
vivam mais agradavelmente? E dentre 
Os gregos, entre os quais te encontras, 
quais parecem levar vida mais agradá- 
vel, os que mandam ou os que obede- 
cem? 

— Mas — disse Aristipo — tam 
pouco entendo reduzir-me à escravi- 
dão. Parece-me existir um caminho 
intermédio, que forcejo por trilhar, 
entre o poder e a servidão: a liberdade, 
que mais seguramente conduz à felici- 
dade. 

— Muito bem — disse Sócrates. — 
Se esse caminho que não passa entre o 


MEMORÁVEISAI 69 


poder e a servidão tampouco passasse 
através dos homens, talvez tivesse 
algum valor o que dizes. Mas se, viven- 
do entre os homens, não quiseres nem 
mandar, nem obedecer, nem servir de 
bom grado os que mandam, penso não 
ignorares que os mais fortes sabem 
fazer gemerem os mais fracos, seja em 
massa, seja um a um, € escravizá-los. 
Não vês os que colhem as searas que 
outros semearam, cortam as árvores 
que outros plantaram, infligem toda 
espécie de violência aos fracos e aos 
que recusam servir, até fazê-los prefe- 
rir a escravidão à luta com mais for- 
tes? E entre os particulares, não sabes 
que os corajosos e os fortes avassalam 
a seu proveito os poltrões e os impo- 
tentes? 

— Para não passar por isso não me 
fixo em nenhuma cidade, mas em toda 
parte sou estrangeiro. 

Então Sócrates: 

— Propoões-me, certo, um artifício 
maravilhoso. Porque desde que Sinis, 
Cirão e Procusto morreram, os foras- 
teiros não são maltratados por nin- 
guém. Mas hoje os governantes dão 
leis a sua pátria para se porem ao abri- 
go da injustiça. Criam, além do que se 
chamam os laços naturais, amigos que 
lhes servem de auxiliares. Cintam as 
cidades de muralhas, reúnem exércitos 
para repelir as agressões injustas e até 
cuidam de alianças no exterior: não 
obstante nem todas estas precauções 
os preservam do insulto. E tu que nada 
disso tens, que passas quase todo o 
tempo nos longos caminhos onde se 
comete o maior número de assaltos, tu 
que em qualquer cidade a que chegues 
és mais pequeno que o último dos cida- 
dãos, tu que enfim te encontras numa 
situação em que mais que em outra 
qualquer a gente está exposto à injusti- 
ça, imaginas a ela subtrair-te graças a 
tua qualidade de forasteiro? Será por- 
que as cidades te assegurem publica- 


mente o direito de entrar e sair que 
acalentas essa confiança? Ou crês que 
a nenhum senhor seria útil um escravo 
de tua espécie? Quem quereria, com 
efeito, ter em casa um homem que 
nada quer fazer e se compraz com a 
vida mais suntuosa? Vejamos, a pro- 
pósito, como procedem os senhores em 
relação a tais servidores. Não lhes cor- 
rigem a gulodice pela fome? Não os 
impedem de furtar pondo sob chave 
tudo o que poderiam surrupiar? De 
fugir, carregando-os de cadeias? A 
preguiça não a reduzem ao trabalho a 
chicotadas? Que fazes tu mesmo quan- 
do percebes ter um doméstico dessa 
laia? 

— Inflijo-lhe todas as correções até 
constrangê-lo a servir-me. Mas Sócra- 
tes, os que são educados para o ofício 
de rei, que pareces considerar a felici- 
dade, em que diferem dos que padecem 
por necessidade, se voluntariamente se 
condenam a suportar a fome, a sede, o 
frio, as vigílias e outras fadigas? Por 
mim não vejo que diferença há entre 
ter eu a pele rasgada por um vergalho 
a bem ou a mal de meu grado, e que 
meu corpo, queira-o eu ou não, padeça 
toda espécie de violências. Não é ser 
além de louco fazer voluntariamente 
cabeça baixa a estes sofrimentos? 

— Com que então, Aristipo —, vol- 
veu Sócrates — não vês esta diferença 
entre os males voluntários e os que não 
o são, que aquele que consente em pas- 
sar fome desde que o queira pode 
comer, que quem se condena à sede 
desde que o queira pode beber, e assim 
para o mais que segue, de passo que O 
homem que padece por necessidade, 
poderá ele, quando o quiser, cessar de 
sofrer? Demais, quem sofre voluntaria- 
mente se consola de seus males com 
uma doce esperança, como vemos os 
caçadores suportarem bizarramente as 
fadigas pela esperança de uma captura. 
Semelhante recompensa é bem pouca 


20 


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70 


coisa para suas penas. Mas os que tra- 
balham para ter bons amigos ou para 
triunfar dos inimigos, para robustecer 
o corpo e a alma e assim bem gerir sua 
casa, fazer bem aos amigos, prestar 
serviços à pátria, como não crer que 
com tais alvos diante dos olhos supor- 
tem com prazer todas as fadigas e 
vivam felizes, contentes de si próprios, 
louvados e invejados dos outros ho- 
mens? Mais: os hábitos de indolência e 
os prazeres fáceis não podem, no dizer 
dos ginastas,:dar boa compleição ao 
corpo nem fazer penetrar no espirito 
nenhum conhecimento apreciável. Ao 
invés, OS exercícios que querem cons- 
tância nos conduzem à prática de belas 
e boas ações, como dizem os grandes 
homens. Disse algures Hesiodo*: O 
vício é sedutor e fácil, seu caminho 
lhano e breve. Antes da virtude, porém, 
colocaram os deuses o suor, e a vereda 
que leva ao cimo é áspera, fragosa e 
árdua: ganhando-se o alto, todavia, 
aplaina-se o caminho. 


O mesmo testemunho presta Epi- 
carmo neste verso: 4 felicidade é um 
bem que nos vendem os deuses. Diz 
ainda alhures: Malvado, foge à indo- 
lência ou teme a dor. 


As mesmas idéias exprime o sábio 
Pródico sobre a virtude em sua obra 
sobre Hércules, de que fez diversas lei- 


turas públicas. Eis, ao que me lembra, 
pouco mais ou menos o que diz. Conta 
que Hércules, apenas dobrara a infân- 
cia, nessa idade em que os jovens, já 
senhores de si, deixam ver se entrarão 
na vida pelo caminho da virtude ou do 
vício, retirou-se para a solidão e sen- 
tiu-se incerto quanto à via a escolher. 
Duas mulheres de avantajada estatura 
apresentaram-se-lhe ao olhar: uma de- 


* Poeta dos meados do século VIII a. C.; com sua 
poesia didática de inspiração religiosa (Teogonia) e 
moral (Trabalhos e Dias) exerceu profunda in- 
fluência no mundo grego dos séculos seguintes. 


XENOFONTE 


cente e nobre, o corpo ornado de sua 
natural pureza, os olhos grávidos de 
pudor, o exterior modesto, as vestes 
brancas; a outra toda nediez e moleza, 
a pele caiada a fim de aparentar cores 
mais brancas e mais vermelhas, procu- 
rando, na postura, parecer mais esbelta 
do que naturalmente o era, os olhos 
escancelados; um adereço estudado 
pára realçar seus encantos, mirando-se 
sem cessar, observando se a contem- 
plavam e a todo momento voltando a 
cabeça para admirar a própria sombra. 
Aproximando-se de Hércules, en- 
quanto a primeira conservava o 
mesmo andar, a segunda, querendo 
antecedê-la, correu para 'o jovem herói 
e disse-lhe: 

“Vejo-te, Hércules, incerto do cami- 
nho a seguir na vida. Se me quiseres 
tomar por amiga, conduzir-te-ei pela 
estrada mais agradável e fácil, prova- 
rás todos os prazeres e viverás livre de 
pena. Primeiro não te ocuparás de 
guerras nem negócios, mas não cessa- 
rás de examinar que iguarias e que 
bebidas melhor te sabem ao paladar, 
os objetos que possam deleitar-te os 
olhos e os ouvidos, acariciar-te o olfa- 
to ou o tato, que afeição terá mais 
encantos para ti, como dormirás mais 
docemente, como poderás procurar 
todos estes prazeres com o menor 
esforço. Se receias venha a faltar-te o 
necessário para te dares tais doçuras, 
não temas que eu te obrigue a traba- 
lhar e a penar de corpo e espirito para 
os adquirires; aproveitarás do trabalho 
alheio e não te absterás do que quer 
que possa proporcionar-te ganho: por- 
que dou aos que. me seguem a facul- 
dade de em toda parte obter vanta- 
gens”. 
Hércules, após ouvir estas palavras, 
indagou-lhe: 

“Mulher, qual é teu nome?” 

“Meus amigos — respondeu ela 
— chamam-me a Felicidade, e meus 


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MEMORÁVEISTI n 


inimigos, para dar-me nome odioso, 
chamam-me a Perversidade”. 

Ai a outra mulher, adiantando-se, 
disse-lhe: 

“Eu também venho a ti, Hércules; 
conheço os que te deram à luz e desde 
tua infância penetrei-te o caráter. 
Assim espero que se tomares o cami- 
nho que traz a mim, serás um dia autor 
ilustre de belos e gloriosos feitos e eu 
própria me verei mais honrada e consi- 
derada dos homens virtuosos. Não te 


“iludirei com promessas de prazeres: 


expor-te-ei o que existe com verdade e 
tal qual o dispuseram os deuses. Do 
que há realmente honesto e belo, nada 
concedem os deuses aos homens sem 
sacrifício e diligência. Queres que os 
deuses te sejam propícios? Preiteia-os. 
Ambicionas a estima de teus amigos? 
Beneficia-os. Desejas que uma nação 
te honre? Serve-a. Queres que a Grécia 
inteira admire teu valor? Procura ser- 
lhe útil. Desejas que a terra te prodiga- 
lize seus frutos? Cultiva-a. Preferes 
enriquecer com rebanhos? Apascenta- 
os. Aspiras a fazer-te grande pela guer- 
ra? queres tornar livres teus amigos e 
triunfar de teus inimigos? Aprende a 
arte da guerra com aqueles que a 
conhecem, exercita-te em pór-lhes em 
prática as lições. Desejas adquirir 
força fisica? Habitua o corpo ao impé- 
rio da inteligência e tempera-o no tra- 
balho e no suor”. 

Aí a Perversidade retomando, no 
dizer de Pródico: 

“Compreendes, Hércules — disse- 
lhe — quão penoso e longo é o cami- 
nho da felicidade que te propõe essa 
mulher? Enquanto eu, é por estrada 
fácil e breve que te conduzirei à ventu- 
ras 
Então a Virtude: 

“Miísera! — exclamou — que bens 
possuis? Que prazeres podes conhecer, 
tu que nada queres fazer para comprá- 
los? Sequer deixas nascer o desejo: 


farta de tudo antes de ter desejado 
coisa alguma, comes antes da fome, 
bebes antes da sede. Para comer com 
prazer, vives à caça de cozinheiros. 
Para beber com prazer, procuras beber 
vinhos caríssimos e no verão corres a 
toda parte em busca de neve. Para dor- 
mir agradavelmente, procuras cobertas 
macias e leitos flexíveis. Porque não é 
o cansaço e sim a ociosidade que te faz 
desejar o sono. Em amor, provocas a 
necessidade antes de senti-la, usas de 
mil artifícios e te serves tanto de ho- 
mens como de mulheres. Assim é, em 
verdade, que formas teus amigos. À 
noite os degradas e de dia os adorme- 
ces durante os instantes mais precio- 
sos. Imortal, foste rechaçada pelos 
deuses e os homens de bem te despre- 
zam. Nunca te acariciou os ouvidos o 
mais adulador dos sons, o de um lou- 
vor, nem jamais contemplaste uma boa 
ação praticada por ti. Quem daria fé a 
tuas palavras? Quem te socorreria na 
precisão? Qual o homem de bom senso 
que ousaria misturar-se a teu bulhento 
cortejo? Os que te seguem, se jovens, 
são impotentes de corpo; velhos, têm a 
alma embrutecida. Nédios na juventu- 
de, por via da ociosidade, emagrecem 
ao peso de trabalhosa velhice. Enver- 
gonhados do que fizeram, atormen- 
tados do que têm de fazer, borbole- 
tearam na primavera da vida de prazer 
em prazer e diferiram as penas para o 
outono da existência. Eu, ao contrário, 
estou com os deuses, estou com os ho- 
mens de bem: entre os deuses como 
entre os mortais nenhuma bela ação se 
faz sem mim. Mais que ninguém, rece- 
bo eu dos deuses e dos homens legiíti- 
mas honras, companheira querida que 
sou do trabalho do artesão, guardiã fiel 
da casa do senhor, protetora benévola 
do servidor, gentil associada nos traba- 
lhos da paz, aliada constante nas labu- 
tas da guerra, intermediária devotada 
da amizade. Meus amigos saboreiam 


3! 


33 


pe XENOFONTE 


com prazer e sem confeição alimentos 
e bebidas, porque esperam o desejo 
para comer e beber. O sono lhes é mais 
agradável que aos ociosos; interrom- 
pem-no sem pesar e não lhe sacrificam 
seus negócios. Jovens, sentem-se feli- 
zes dos elogios dos anciãos. Velhos, 
recebem ditosos os respeitos da juven- 
tude. Recordam com deleite as ações 
pretéritas e realizam prazerosos o que 
lhes resta fazer. Por virtude minha, são 
amados dos deuses, caros aos amigos, 
honrados da pátria. Ao soar a hora 
fatal, não dormem em olvido sem 


honra, mas sua memória esplende cele- 


- brada de evo em evo. Ai está, Hércu- 


les, filho de pais virtuosos, como, 
trabalhando, podes alcançar a suma 
felicidade”. 


Eis pouco mais ou menos como 
narra Pródico a lição dada a Hércules 


pela Virtude, conquanto ornasse seus 
pensamentos de expressões mais no- 


bres que as por mim usadas neste 
momento. Reflete, Aristipo, e trabalha 


por gizar a conduta que observarás 
para o resto da existência. 


34 


CaPpÍíTULO II 


Tendo percebido que Lâmprocles, o 
mais velho de seus filhos, andava às 
testilhas com a mãe: 

— Dize-me, filho — perguntou-lhe 
-— sabes existirem certos homens a que 
se chama ingratos? 

— Sei — respondeu o jovem. 

— Sabes também por que recebem 
este nome? 

— Sim. Chamam-se ingratos aque- 
les que receberam benefícios e que, 
podendo-o não testemunham reconhe- 
cimento. 

— Não sabes que se classificam os 
ingratos entre os homens injustos? 

— Sei-o. 

— Por ventura te perguntaste a ti 
mesmo, se assim como é injusto escra- 
vizar Os amigos e justo avassalar os 
inimigos, será injusto ser ingrato para 
com os amigos e justo sê-lo aos 
inimigos? 

— Naturalmente. E tenho por in- 
justo quem não se esforça por dar 
prova de reconhecimento a um benfei- 
tor, seja amigo ou inimigo. 

Pois bem! se assim é, então a 
ingratidão é pura injustiça. 

Lâmprocies conveio. 

— E não será um homem tanto 
mais injusto quanto mais ingrato se 
mostrar ao receber mais benefícios? 

Ainda uma vez Lâmprocles concor- 
dou. 


— Pois bem! quem mais cumulado 
de benefícios que os filhos o são dos 
pais? São os pais que os fazem transi- 
tar do nada ao ser, ao espetáculo de 
tantas maravilhas, à fruição de tantos 
bens com que nos presentearam os 
deuses: bens que se nos figuram tão 
preciosos que nosso maior temor é 
perdê-los. Por isso estatuíram as cida- 
des a pena de morte contra os maiores 
crimes, como o castigo mais tremendo 
para suster a injustiça. Sem dúvida não 
crerás ser unicamente pelos prazeres 
do amor que os homens procuram ter 
filhos, pois as ruas e as casas regurgi- 
tam de meios de se satisfazerem. 
Longe disso, vêem-nos considerar quais 
as mulheres que nos darão os mais 
belos filhos, e é a elas que nos unimos 
para realizar nossa esperança. Então o 
esposo tem de sua mão aquela que o 
ajuda a tornar-se pai; acumula previa- 
mente para os futuros filhos tudo o que 
crê lhes seja útil na vida, fazendo a 
mais ampla provisão possível. A mu- 
lher recebe e carrega esse fardo que a 
faz pesada e lhe põe os dias em perigo; 
dá ao filho parte da própria substân- 
cia; depois, ao cabo de gestação e de 
parto cheio de dores, cria-o e desvela- 
se, sem nenhuma tenção, sobre um 
filho que não sabe de quem lhe vêm 
tais cuidados que sequer pode dar a 
entender o de que necessita, de passo 


74 XENOFONTE 


que a mãe procura adivinhar o que lhe 
convém, o que pode agradá-lo, e que 
ela fomenta dia e noite, ao preço.de mil 
fadigas e sem saber qual será a paga de 
seus sofrimentos. E não é só o alimen- 
to: Logo que os julgam em idade de 
aprender alguma coisa, comunicam- 
lhes os pais todos os conhecimentos - 
úteis que possam ou os confiam aos 
cuidados de alguém que creiam mais 
capazes de ensiná-los, não poupando 
despesas nem cuidados para que seus 
filhos se tornem os melhores possíveis. 

Ao que retorquiu o jovem: 

— Sim, certo ela fez tudo isso e atê 
mil vezes mais. Porém não há quem 
lhe suporte o mau humor. 

Volveu Sócrates: 

— Não achas o humor selvagem de 
uma besta mais insuportável que o de 
u'a mãe? 

— Não, pelo menos de mãe qual a 
minha. 

— Terá te mordido ou dado algu- 
ma patada, como soem fazer as bes- 
tas? 

— Mas, por Júpiter ! diz coisas que 
nem ao preço da vida se quereriam 
ouvir. 

A SE Eh disse Sócrates 
— quantos dissabores insuportáveis 
não lhe causaste desde a infância, já 
com palavras, já com atos, ora de dia, 
ora de noite? Quantas aflições não lhe 
deram tuas doenças? 

— Pelo menos nunca lhe disse nem 
fiz nada de que ela tivesse de corar. 

— Quê! ser-te-á mais penoso ouvir 
o que ela diz do que aos comediantes 
ouvir as injúrias que mutuamente se 
prodigalizam nas tragédias? 

— Mas, penso, como não julgam 
que aquele que os ofende o faça por 
mal, nem que aquele que os ameaça os 
ameace seriamente, facilmente supor- 
tam o que lhe dizem. 

— E tu, que sabes muito bem que 
tua mãe, diga-te o que te disser, não o 


diz por mal, mas quereria ver-te feliz 
como ninguém, te irritas contra ela? 
Pensas então seja tua mãe para ti uma 
inimigá? 

— Claro que não. 

Aí Sócrates: 

— Então, esta mãe que te ama, que 
quando enfermas te dispensa todos ós 
cuidados para devolver-te à saúde, que 
se desvela para que nada te falte, que 
pede aos deuses te prodigalizem seus 
benefícios e cumpre os votos que por ti 
fez, queixas-te de seu mau humor? 
Quero crer que se não suportas seme- 
lhante mãe o próprio bem te é insupor- 
tável. Mas dize-rne, achas que se deva 
ter atenções para com todos ou não 
procurar comprazer a ninguém, a nin- 
guém obedecer, nem a um estratego 
nem a não importa que magistrado? 

— Por Júpiter ! há obedecer. 

— Pois bem — disse Sócrates — 
sem dúvida quererás agradar teu vizi- 


nho para que, em caso de necessidade, 


te acenda o fogo, te faça bons ofícios, 
em caso de acidente, acuda de bom 
grado em teu socorro? 

— Está visto. 

— Será indiferente termos por ami- 
gos ou inimigos um companheiro de 
viagem, de navegação ou qualquer que 
seja? Ou achas que nos devamos dar 
ao trabalho de ganhar-lhe as graças? 

— Claro que sim. 

— Como! estás pronto a ter aten- 
ções para com todos esses estranhos e 
não crês devê-las à tua mãe, que te 
quer mais que a ninguém! Ignoras que 
o Estado faz vista grossa a todas as 
outras ingratidões, não as persegue e 
deixa impunes os obrigados mal agra- 
decidos, porém castiga aquele que não 
respeita os pais, o degrada e exclui das 
magistraturas, persuadido de que se- 
melhante indivíduo jamais seria capaz 
de oferecer com santidade os sacrifi- 
cios públicos nem praticar boa e hon- 
rada ação? E, por Júpiter ! se um cida- 


MEMORÁVEISAII 75 


dão não honrou o túmulo dos pais 
mortos, pede-lhe contas o Estado nos 
inquéritos abertos sobre os futuros 
magistrados. Se, pois, és prudente, 
filho meu, temeroso que as deidades te 
olhem como ingrato e te recusem seus 
favores, rogar-lhes-ás te perdoem as 
ofensas à tua mãe. Quanto aos ho- 


mens, cuidarás em que, sabedores de 


tua falta de respeito para com teus 


pais, não te desprezem todos e te dei- 
xem sem amigos. Porque se suspei- 
tassem foras ingrato para com teus 
pais, quem te creria capaz de reconhe- 
cer um benefício? ; 


to 


CaríruLO III 


Querefonte e Querécrates, dois ir- 
mãos, conhecidos seus, não iam lã 
muito um com o outro. Tendo-o nota- 
do e topando certo dia com Querécra- 
tes, interrogou-o: 

— Dize-me, Querécrates, acaso 
não serias desses homens que reputam 
as riquezas mais estimáveis que os 
irmãos, muito embora às riquezas fale- 
ça razão, enquanto um irmão é ser 
razoável; elas precisam ser defendidas, 
ao passo que ele pode defender-nos; 
elas são em número infinito e ele 
único? Coisa não menos estranha é 
crer-se alguém esbulhado por não pos- 
suir cs bens dos irmãos, quando nin- 
guém considera dano as riquezas dos 
concidadãos, por não possui-las. Prefe- 
re-se viver cercado de amigos e gozar, 
sem temor, de recursos suficientes do 
que viver só e fruir na insegurança as 
posses de todos os concidadãos:: a 
tanto, ao tratar-se de irmãos, desco- 
nhece-se esta verdade. De outra parte, 
os que o podem compram escravos 
para ajudar-se de seus trabalhos, bus- 


"cam amigos para ter apoio, porém 


negligenciam os irmãos, como se fosse 
possível encontrar amigos entre patrí- 
cios e não o fosse entre os irmãos. Sem 
embargo, que melhor título para a ami- 
zade que haver nascido juntos, se até 
os animais têm uma espécie de ternura 


para os que se alimentaram do mesmo , 


leite? Quando por mais não fosse, os 
homens respeitam mais e mais receiam 
ofender aqueles que têm irmãos do que 
os que não os têm.. 

Ripostou Querécrates: 

— Certo, Sócrates, se a desinteli- 
gência fosse pequena, seria justo su- 
portar o irmão e dele não se afastar 
por motivos insignificantes: porque 
como dizes, grande bem é um irmão, 
quando tal qual deve ser; mas quando 
falta a todos os deveres, quando se 
mostra de todo em todo o contrário do 
que é de esperar, como tentar o 
impossível? 

— Vejamos, Querécrates — tornou 
Sócrates —, Querefonte desagrada a 
toda gente como a ti ou há pessoas a 
quem compraza? 

— Precisamente por isso, Sócrates, 
tenho razão de odiá-lo: sabe agradar 
os outros ao passo que a mim em vez 
de me ser útil só sabe desgostar-me 
com atos e palavras. 

— Não será — prosseguiu Sócra- 
tes — que tal o corcel que derruba o 
cavaleiro inábil que tenta montá-lo, re- 
fuga um irmão ao irmão sem tato que 
dele intenta servir-se? 

— Como — replicou Querécrates 
— não saberia eu lidar com meu 
irmão, se a boas palavras sei responder 
com boas palavras, a bons ofícios com 
bons oficios? Todavia, se alguém toma 


78 XENOFONTE 


a assinatura contra mim não sei dizer- 
lhe-palavra de agrado nem prestar-lhe 
um benefício, e sequer o tento. 

Ao que respondeu Sócrates: 

— Estranho tuas palavras, Queré- 
crates. Se tivesses um cb, guarda fiel 
de teus rebanhos, que festejasse teus 
pastores mas rosnasse à tua aproxima- 
ção, em lugar de te pores colérico 
procurarias amansá-lo com bons tra- 
tos; e teu irmão, que reconheces gran- 
de bem desde que bem disposto para 
contigo, tu que campas de reto no falar 
e obrar não procuras concitar-lhe a 


afeição? 
— Receio, Sócrates — disse Que- 
récrates — não ser suficientemente 


hábil para bem animá-lo em relação a 
mim. 

— Entretanto — volveu Sócrates 
-— parece-me não haver necessidade 
de empregares artifícios numerosos e 
extraordinários. Os que conheces serão 
bastante para ganhar-lhe a estima. 

— Possuirei eu, sem o BaDeTo algum 
filtro para isso? 

— Dize-me, que farias se quisesses 
que alguém de teu conhecimento, ofe- 
recendo um sacrifício, te convidasse 
para jantar? 

— Evidentemente começaria eu 
próprio por convidá-lo, quando sacrifi- 


* casse. 


— E se quisesses levar um de teus 
amigos a gerir teus negócios quando 
viajasses, que farias? 

— Quando se ausentasse, seria o 
primeiro a encarregar-me dos seus. 

— E que farias, se quisesses dispor 
um estrangeiro a receber-te quando 
fosses a sua cidade? 

— Obviamente seria o primeiro a 
dar-lhe acolhida quando viesse a Ate- 
nas; e se quisesse que me auxiliasse a 
despachar os negócios para que fora a 
sua terra, evidentemente seria o pri- 
meiro a fazer-lhe outro tanto. 

— Como? conheces todos os filtros 


4 


de que dispõem os homens e deles 
fazes mistério há tanto tempo! Será 
que crerias descnrar-te, prevenindo teu 
irmão com bons tratos? Entretanto, 
olha-se como homem digno de todos 
os elogios o que sabe ser o primeiro em 


estorvar os inimigos e servir os ami- 


gos. Julgasse eu Querefonte mais apto 
que tu a dar o exemplo destas boas 
disposições, e tê-lo-ia induzido a dar os 
primeiros passos para conquistar tua 
amizade; tenho-te, porém, por mais 
capaz de encetar esta obra. 

Retorquiu Querécrates: 

— Francamente; Sócrates, teus 
conselhos me admiram. Dizes coisas 
indignas de ti: queres que eu, o mais 
Jovem, tome a iniciativa. No entanto, 
entre todos os povos o contrário é que 
voga. Em tudo tem o mais velho o pri- 
meiro passo, seja para a ação, seja 
para a palavra. 

— Quê! — exclamou Sócrates — 
consoante o uso universalmente esta- 
belecido não é o mais jovem que deve 
ceder o caminho ao mais velho, levan- 
tar-se se sentado, dar-lhe a honra de 
um leito mais macio e deixá-lo falar 
primeiro? Não tergiverses, meu caro. 
Trata de adoçar teu irmão, que pronto 
se renderáã. Não vês como ele é nobre e 
generoso? As almas tacanhas com- 
pram-se com presentes. As almas gene- 
rosas conquistam-se com mostras de 
amizade. 

Fen E 

— E se apesar disso ele não se tor- 
nar melhor para comigo? 

— Que arriscas com isso? — reto- 
mou Sócrates — se não mostras que és 
um espírito nobre e bom irmão en- 
quanto ele é vil e indigno de afeto? 
Mas não creio que nada disso aconte- 
ça.. Apenas se sinta provocado a esta 
luta ele forcejará por vencer-te em 
generosidade. De feito, ora estás como 
estariam as duas mãos, feitas pelos 
deuses para se ajudarem  reciproca- 


15 


17 


MEMORÁVEISAI 79 


mente, se esquecessem esta destinação 
para se atrapalharem uma a outra, ou 
como estariam os dois pés, pela provi- 
dência feitos para trabalhar de concer- 
to, se ao revés deste fim procurassem 
entravar-se mutuamente. Não seria o 
cúmulo da ignorância e demência 
mudar em detrimento nosso o que se 
fez para nossa utilidade? Parece-me 
que os deuses, em criando dois irmãos, 
tiveram em vista sua utilidade reci- 
proca mais ainda que a das mãos, dos 
pés, dos olhos e do mais de que deram 
aos homens a parelha fraternal. As 


mãos não poderiam pegar ao mesmo 
tempo duas coisas distantes mais de 
uma toesa, uma da outra, nem os pés 
separar-se um do outro mais de uma 
toesa*. Os próprios olhos, que se nos 
afiguram dé alcance muito mais exten- 
so, não podem ver simultaneamente de 
frente e de trás os objetos mais próxi- 
mos. Porém dois irmãos que se amem, 
seja qual for a distância que os separe, 
podem obrar de mão comum e servir- 
se mutuamente. 


ê Antiga medida de 6 pés, ou seja 1,98 m. (N. do 
E.) SP 


) 


CapíTULO IV 


De outra feita falando Sócrates da 
amizade, ouvi-lhe dizer coisas utilís- 
simas para aprender a adquirir amigos 
e com eles tratar. Dizia ouvir muita 
gente estribilhar ser um amigo seguro e 
virtuoso o mais precioso de todos os 
bens, mas de tudo se ocuparem menos 
da aquisição de amigos. Via, dizia, 
toda gente empenhar-se em adquirir 
casas, campos, escravos, rebanhos, 
móveis e esforçar-se por conservar o 
que possui. Mas um amigo, que se diz 
o mais precioso de todos os bens, não 
via ninguém cuidar de adquirilo e, 
uma vez adquirido, de conservá-lo. 
Adoecesse um escravo, via, dizia, man- 
darem buscar médicos e tudo fazerem 
para volvê-lo à saúde. Enfermasse um 
amigo, não moviam-uma palha. Mor- 
resse um escravo, choravam-no e olha- 
vam-lhe a morte como uma perda. 
Morresse um amigo e nada creriam ter 
perdido. Não descuram nenhum de 
seus bens, porém negligenciam os ami- 
gos que necessitam de seus cuidados. 
Agregava a isto que a maior parte dos 
homens conhece muito bem, por exten- 
so que seja, o rol de tudo o que pos- 
suem; quanto aos amigos, por poucos 
que sejam, não só lhes ignoram o nú- 
mero, mas quando se lhes pergunta 


quantos têm, embaraçam-se na enume- 
ração, tanto se importam com os ami- 
gos! No entanto, qual o bem compa- 


rável a um amigo sincero? Qual o 
cavalo, qual a parelha tão útil como 
um bom amigo? Qual o escravo tão 
devotado, tão fiel? Qual o bem tão 
proveitoso? Um bom amigo está sem- 
pre pronto a substituir-se ao amigo em 
tudo o que preciso for, seja na gestão 


de seus negócios particulares, seja nos 
assuntos do Estado; queira este prestar 
um serviço a alguém, ele lhe vem em 


auxílio; possua-o algum temor, acode 
em seu socorro, contribuindo para 
suas despesas e com ele laborando, de 
concerto com ele empregando a per- 
suasão ou a violência, deleitando-o no 
abatimento. Os serviços que a cada um 
de nós nos prestam as mãos, o que são 
os olhos para o ver, os ouvidos para O 
ouvir, os pés para o andar, não sobe- 
jam ao que faz um amigo delicado. E 
muita vez o que nós mesmos não fize- 
mos, não vimos, não ouvimos, fá-lo 
um amigo por nós. Homens há, não 
obstante, que por causa do fruto se 
consagram de corpo e alma à cultura 
de árvores, sobreolhando, indolentes, o 
mais frutuoso dos bens — o amigo. 


1 


| CAPÍTULO V 


Outro dia, ouvi-o usar de linguagem . 
“capaz de fazer o ouvinte entrar em si 


mesmo e considerar qual o grau de es- 
tima que merecia de seus amigos. 
Sabedor de que um de seus discípulos 
abandonava um amigo na indigência, 
dirigiu-se a Antístenes em presença 
desse amigo indigno e de muitas outras 


pessoas: k : 
— Dize-me,  Antistenes, haverá 


preço para os amigos como o há para 


os escravos? Entre os escravos um vale 
duas minas”, outro nem meia; esta 


vale cinco, aquele seis. Diz-se até que 
Nícias, filho de Nicerato pagou um 
talento? pelo intendente de suas minas 
de prata. Vejamos, pois, se assim como 
existe preço para os escravos, existe 
para os amigos. 

— Claro que sim — disse Antiste- 


7 Mina: moeda de 100 dracmas; 10 minas de-prata 
fazem 1 mina de ouro; 60 minas de prata, 1 talento. 
(N. do E.) 

s Cf. nota 7. (N. do E.) 


nes. — Hã tal homem cuja amizade eu 
preferiria a duas minas, outro por 
quem não daria meia mina, outro por 
quem daria até dez minas, outro por 
quem daria todas as minhas riquezas e 
rendas. 

— Assim sendo — respondeu Só- 
crates —, bem seria que cada um exa- 
minasse a que preço deve ser estimado 
pelos amigos e se esforçasse por valer: 
o mais possível, a fim de correr menos 
o risco de ser abandonado. A todo ins- 
tante ouço dizer a um que o amigo o 
traiu, a outro que por uma mina se viu 
desprezado pelo homem que julgava 
amigo. À vista de tudo isso, pergunto- 
me a mim mesmo se, da mesma forma 
que se vende um mau escravo pelo 
preço que se encontra, não se deve pôr 
à venda e vender um mau amigo desde 
que ofereçam mais do que vale. Vejo, 
porém, que nunca se vendem os bons 
escravos e jamais se abandonam os 
bons amigos. 


) 


yo 


CaríruLo VI 


Plenos de bom senso me pareciam 
também os conselhos que dava acerca 
dos predicados que se devem procurar 
nos amigos, quando dizia: 

— Dize-me, Critobulo, se precisás- 
semos de um bom amigo, o que deve- 
riamos considerar em primeiro lugar? 
Antes de tudo, não deveríamos procu- 
rar um homem que soubesse dominar o 
próprio ventre, o desejo da bebida, da 
lubricidade, do sono, da indolência? 
Porque aquele que obedece a todos 
estes pendores nada faz de útil nem a si 
mesmo nem a um amigo. 

— Por Júpiter ! seria incapaz. 

— Não achas, pois, que se deva 
fugir de homem escravizado por tais 
paixões? 

— Acho. 

— O perdulário incapaz de bastar- 
se a si mesmo, sempre necessitado dos 
outros, que pede emprestado e não 
paga, que se ofende se não lhe empres- 
tam, não te parece também amigo 
muito incômodo? 


— Certamente. 

— Deveriamos, pois, afastar-nos 
igualmente de tal homem? 

— Deveriamos. 


— E aquele que sabe aumentar seus 
haveres, mas desejoso de' entesourar 
grande riqueza e por isso mesmo difícil 
de tratar nos negócios, mais amigo de 
receber que de devolver? 


— Parece-me pior ainda que o 
anterior — disse Critobulo. 

— E o aurissedento cuja única 
preocupação é excogitar meios de 
ganho? 

— Acho que também deve ser evi- 
tado, pois seria inútil a um amigo. 

— E o rixoso pronto a criar para os 
amigos uma legião de inimigos? 

— E homem de fugir, por Júpiter ! 

— E o homem que, sem ter nenhum 
desses defeitos, deixa que lhe façam o 
bem sem lembrar-se de retribuir? 

— Também seria inútil. Mas então, 
Sócrates, quem devemos procurar para 
amigo? 

— Aquele, penso, que tenha as qua- 
lidades contrárias: senhor dos apetites 
sensuais, fiel a seus juramentos, con- 
descendente nos negócios, que não 
fique atrás dos que o beneficiem, pron- 
to a servir quem o sirva. 

— Mas como, Sócrates, nele reco- 
nhecer tais qualidades antes de pô-lo a 
prova? 

— Para julgar os estatuários — 
disse — não vamos atrás de suas pala- 
vras: fiamo-nos em quem haja execu- 
tado belas estátuas, certos de que ou- 
tras fará igualmente belas. 

— Queres dizer que se um homem 
proceder bem com os amigos que já 
teve, de certo procederá da mesma 
forma com os que vier a ter? 


da 


1 


86 XENOFONTE 


— Sim. Um picador que eu visse 
montar bem alguns cavalos, cré-lo-ia 
capaz de com outros fazer outro tanto. 

— Seja. Mas tendo um homem nos 
parecido digno de nossa amizade, 
como fazé-lo amigo? 

— Antes de mais nada — disse Só- 
crates — há mister consultarmos os 
deuses e ver se nos aconselham a fazê- 
lo nosso amigo. 

— Pois bem — prosseguiu Crito- 
bulo — uma vez -confirmada nossa 
escolha pelo consentimento dos deu- 
ses, poderás dizer-me como caçaremos 
nosso amigo? 

— Por Júpiter! não será nem cor- 
rendo-lhe no encalço, como à lebre, 
nem com reclamo, como aos pássaros, 
nem de força, como aos inimigos: 
árdua tarefa seria conquistar um 
amigo contra sua vontade. Nem que o 
encadeássemos qual escravo, logra- 
riamos retê-lo. Semelhante tratamento 
criar-nos-ia antes inimigos que amigos. 

— Como, então, conseguir amigos? 

— Dizem existir. certas palavras 
mágicas, que, sabidas e pronunciadas, 
fazem amigos nossos quem quer que 
queiramos, filtros cujo conhecimento 
serve para fazer-se amar de quem se 
queira. g 

— Qnde aprender essas receitas? 

— Disse-te Homero as palavras 
mágicas que a Ulisses disseram as 
sereias. Principiam mais ou menos 
assim: Aproxima-te, ilustre Ulisses, 
honra dos aqueus. 

— Mas, Sócrates, não é o canto 
com que as sereias retinham os outros 
homens e os impediam de fugir-lhes às 
seduções? 

— Não. Este canto só o endere- 
çavam aos amigos da virtude. 

— Pareces-me dizer dever-se en- 
cantar os homens com palavras tais 
que não lhes pareça mofa os louvores 
que ouçam. De outra forma .ganha- 
ramos um inimigo e seríamos repeli- 


dos, se, para louvá-lo, fôssemos dizer a 
um homem que se saiba pequeno, feio 
e fraco, que é belo, grande e robusto. 
Mas não conheces outros amavios? 

— Não. Ouvi dizer, porém, que Pé- 
ricles conhecia muitos, que usava para 
fazer-se amado de seus concidadãos. 

'— E Temistocles, como fez para 
conquistar-lhes a amizade? 

— Por Júpiter ! não foi com feitiços 
mas cumulando-os de benefícios. 

— Sem dúvida, Sócrates, queres 
dizer que, se quisermos adquirir um 
bom amigo, devemos ser igualmente 
honestos de palavras e atos? 

— Pensavas então — disse Sócra- 
tes — pudesse homem improbo procu- 
rar amigos virtuosos? 

— É que vi — disse Critobulo — 
maus retóricos amigos de oradores dis- 
tintos, homens sem conhecimentos mi- 
litares intimamente ligados aos mais 
hábeis generais. 

— Mas, voltando ao nosso propó- 
sito, conheces homens inúteis que te- 
nham sido capazes de granjear amigos 
úteis? 

— Não, à.verdade. Todavia, se ao 
perverso é impossível travar amizade 
com pessoas honestas, gostaria de 
saber se será fácil, sendo a gente 
honesto, encontrar amigos entre os ho- 
mens virtuosos. 

— O que te embaraça, Critobulo, é 
veres muitas vezes pessoas que prati- 
cam o bem e se abstêm do mal, longe 
de amigos, atacarem-se umas às outras 
e tratarem-se rnais indignamente que 
os últimos dos homens. 

— E não são os particulares — 
disse Critobulo — que assim proce- 
dem. As cidades, até as que mais 
amam tudo o que é belo e mais abomi- 
nam tudo o que é vergonhoso, freguen- 
temente estão em guerra umas com as 
outras. Quando penso nisso, desespero 
completamente de poder adquirir ami- 
gos. Vejo que os maus não podem 


14 


20 


22 


23 


MEMORÁVEISAI 87 


amar-se uns aos outros: efetivamente, 
como poderiam seres ingratos, negli- 
gentes, cúpidos, sem fé e sem freio tor- 
nar-se amigos? Os maus foram feitos 
antes para odiar-se mutuamente que 
para amar-se. De mais a mais, como tu 
próprio o dizes, impossível formarem 
os maus concerto amistoso com os 
bons, pois qual a amizade possível 
entre os que fazem o mal e os-que o 
detestam? E se até os homens que pra- 
ticam a virtude se dividem para os pri- 
meiros postos das cidades, se a mútuo 
ódio os arrasta a inveja, onde encon- 
trar amigos? em quem a benevolência 
e a fidelidade? 

— Há em tudo isso, Critobulo — 
contestou Sócrates — diversas manei- 
ras de encarar os fatos. Os homens têm 
naturalmente o sentimento da amizade. 
Necessitam uns dos outros, capitulam 
à piedade, socorrem-se mutuamente, 
compreendem-se e se mostram gratos. 
Mas têm também o sentimento da ini- 
mizade. Quando suas idéias sobre os 
bens e os prazeres são as mesmas, 
lutam por alcançá-los. Quando dividi- 
dos pelas opiniões, combatem-se uns 
aos outros: a guerra nasce da disputa e 
da cólera; a malevolência, dos desejos 
ambiciosos; o ódio, da inveja. Porém a 
amizade vence todos os obstáculos 
para unir os corações virtuosos: é que, 
graças à virtude, preferem os homens 
possuir em paz haveres moderados a 
tudo dominar pela guerra. Com fome 
ou sede, cordialmente dividem os ali- 
mentos e a bebida. Cobiçosos de um 
belo objeto, sabem resistir a si próprios 
para não afligir aqueles que devem res- 
peitar. Não tomam das riquezas senão 
sua parte legítima, sem nenhuma idéia 
de cupidez, e demais auxiliam-se uns 
aos outros. Sabem resolver suas diver- 
gências não somente sem prejudicar- 
se, mas ainda com mútua vantagem, e 
impedir a cólera de ir até o rompi- 
mento. Enfim, repartindo suas riquezas 


com os amigos e olhando os bens dos 
outros como os seus próprios, dirimem 
todo pretexto de inveja. Não é, pois, 
natural que, galgando os cargos do 
Estado, longe de se prejudicarem, se 
sirvam mutuamente os homens virtuo- 
sos? Os que desejam as honras e a 
autoridade em sua pátria, a fim de pi- 
lhar livremente os fundos públicos, 
violentar os cidadãos e viver na indo- 
lência, são corações injustos, perver- 
sos, incapazes de qualquer afeição. 
Mas o homem que busca as dignidades 
para pór-se ao abrigo de toda injustiça 
e prestar legitimo apoio aos amigos; 
que, feito magistrado, se esforça por 
ser útil à pátria, então este homem será 
incapaz de entender-se com outro cida- 
dão virtuoso como ele? Cercado de ho- 
mens virtuosos, ser-lhe-ã menos fácil 
servir. aos amigos? Apoiado pelos 
cidadãos honestos, será menos pode- 
roso para fazer bem à pátria? Evidente 
é que, se nos combates gimnicos fosse 
permitido aos mais fortes reunir-se 
contra os mais fracos, sairiam vence- 
dores em todas as lutas e obteriam 
todos os prêmios. Ora, isso não se per- 
mite. Mas se nas lutas políticas, em 
que os virtuosos levam a palma, não se 
impede um cidadão de unir seus esfor- 
ços aos de outro para o bem da pátria, 
como não ser vantajoso, quando se 
tem parte no governo, cercar-se de 
excelentes amigos e em tudo tê-los 
antes por associados e colaboradores 
que por antagonistas? Não menos evi- 
dente é que se há lutas há mister alia- 
dos, e tantos mais quanto se tenha de 
combater contra homens de mérito e 
virtude. Ora, necessário é fazer bem 
aos que queiram tornar-se nossos alia- 
dos, a fim de dar-lhes coragem; e antes 
beneficiar poucos homens virtuosos 
que um exército de maus, desde que os 
maus saem muito mais caros que as 
pessoas de bem. Fica trangúilo, Crito- 
bulo; procura fazer-te bom e, uma vez 


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(o) 


3! 


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33 


r 


88 XENOFONTE 


bom, põe-te à caça dos corações vir- 
tuosos. Quem sabe possa eu auxiliar-te 
um pouco nessa perseguição, sendo 
como sou um coração aberto ao amor. 
Não imaginas, quando cóbiço a amiza- 
de de alguém, como me empenho em 
inspirar-lhe a mesma afeição que por 
ele sinto, em fazê-lo comungar comigo 
em meu desejo, em fazê-lo amar aque- 
les que amo. Sei que quando desejares 
travar alguma relação também terás 
necessidade dessa ciência; não me 
ocultes, pois, os que quiseras ter por 
amigos: a diligência com que procuro 
agradar quem me agrada, deu-me, 
creio, certa experiência da caça dos 
homens. 

Então Critobulo: 

— E, Sócrates, ciência que há 
muito tempo anseio por conhecer, 
sobretudo se me servir igualmente em 
relação às pessoas belas de alma e às 
belas de corpo. 

— Mas Critobulo — retorquiu Só- 
crates — minha ciência não vai a 
ponto de bastar estender a mão para 
cativar a beleza. Estou persuadido que 
os homens fugiam Cila porque usava 
de força, ao passo que as sereias, ja- 
mais lançando mão de violência, en- 
cantavam toda gente, detinham, diz-se, 
e seduziam quem quer que as ouvisse. 

— Pois bem! — disse Critobulo — 
não usarei de coação com ninguém; se, 
pois, tens algo a dizer-me sobre como 
conquistar amigos, fala. 

-— Jamais — disse Sócrates — 
porás boca contra boca. 

— Tranqúiliza-te. Não mais com- 
primirei os lábios aos lábios de nin- 
guém, a menos que belo. 

— Eis-te logo de saída, Critobulo, 
fazendo o contrário do que se deve. Os 
que são belos não suportam de bom 
grado essas liberdades, conquanto os 
tolerem os feios, convencidos de que os 
acham belos de alma. 

Então Critobulo: 


— Pois bem, meus beijos, endere- 
çando-se aos que são belos, só elegerão 
os que forem bons. Tranquiliza-te, 
pois, e dize-me a arte de caçar amigos. 

Então Sócrates: 

— Quando quiseres ligar-te a al- 
guém, permitirás que eu te denuncie a 
ele, que lhe diga que o admiras e dese- 
jarias ser seu amigo. 

— Denuncia-me — disse Critobu- 
lo. — Sei que ninguém aborrece o 
louvor. 

— E, se além disso acusar-te de, 
atenta tua admiração, estares benevo- 
lamente disposto para com ele, não 
crerás que te calunie? 

— De forma alguma, pois eu 
mesmo sinto inclinação para quem me 
pareça senti-la em relação a mim. 

— Então poderei dizer tudo isso 
aqueles cuja amizade ambicionares; e 
se me autorizares a dizer ainda seres 
zeloso de teus amigos, que tua maior 
felicidade é tê-los virtuosos, que te ufa- 
nas de suas boas ações como se fossem 
tuas, que te regozijas de sua prosperi- 
dade como da tua própria, que a ne- 
nhum sacrifício te poupas para assegu- 
rar-lhes o bem, que tens por máxima 
consistir a virtude em vencer os ami- 
gos em benefícios e os inimigos em 


ultrajes, — creio muito poder auxi- 
lhar-te na caça aos bons amigos. 
— Por que, então — replicou Cri- 


tobulo — falar-me assim, como se não 
pudesses dizer de mim tudo o que 
quisesses? 

— Não, por Júpiter! não o posso, 
pois ouvi dizer um dia Aspásia que as 
boas casamenteiras, não falando senão 
verdade, são felizes no casar os ho- 
mens, ao passo que de nada serviriam 
louvores descabidos, pois os esposos 
enganados se detestam mutuamente e 
maldizem quem os uniu. Ora, estou 
convencido que tinha razão e creio não 
poder, ao falar de ti, presentear-te com 
encômios imerecidos. 


Jg 


35 


Jó 


38 


MEMORÁVEISJI 89 


— Quer dizer, Sócrates, que se eu 
os merecer — continuou Critobulo — 
assaz me queres para ajudar-me a 
encontrar amigos, mas que do contrá- 
rio nada imaginarias, nada dirias em 
meu interesse? 

— Pensas então, Critobulo, que 
melhor te serviria fazendo-te elogios 
insinceros que instando-te a trabalhar 
por ser homem de bem? Se isso não te 
é evidente, julga-o pelo que te vou 
dizer: suponhamos vá eu fazer de ti um 
falso elogio a um piloto de quem deseje 
ver-te amigo, lhe diga seres bom timo- 
neiro, € que, confiante em mim, esse pi- 
loto entregue seus navios em tuas 
mãos, que jamais governaram um 
leme: terias alguma esperança de não 
perder-te ao mesmo tempo que o 
navio? Se da mesma forma, por força 
de mentiras persuadisse coletivamente 
toda a cidade a entregar-se a ti como a 
bom general, sábio jurisconsulto, hábil 


político, a que males, pensas, não te 
exporias a ti e ao Estado? Se, enfim, 


convencesse insuladamente alguns ci- 
dadãos a te confiarem a gestão de seus 
bens, após haver-lhes dito falsamente 
seres administrador econômico e zelo- 
so, uma vez posto a prova não te 
patentearias a um tempo desastrado e 
ridículo? Pois bem! Critobulo, tudo 


fazer por sê-lo — eis o caminho mais 
curto, mais seguro, mais digno, se que- 
res ter fama de probo. Tudo o que os 
homens chamam virtude — conven- 
cer-te-á a reflexão — aumenta pelo es- 
tudo e exercício. De minha parte, Cri- 
tobulo, penso ser por este lado que há 
mister dirigir nossa caçada. Se és de 
outra opinião, dize-mo. 

Respondeu Critobulo: 

— Corariã, Sócrates, de fazer-te 
qualquer objeção. Nada diria bem nem 
verdadeiro. 


39 


CarpíruLo VII 


Quando, por ignorância, seus ami- 
gos se encontravam em apuros, procu- 
rava desempeçã-los por meio de conse- 
lhos; quando, por pobreza, ensinava-os 
a auxiliarem-se mutuamente. Referirei 
também o que dele sei a tal propósito. 


Vendo um dia Aristarco imerso em 
tristeza: a 
— Pareces-me, Aristarco — disse- 


lhe — ter qualquer coisa que te pesa; é 
preciso repartir o fardo com os amigos; 
quem sabe possamos aliviar-te. 

— Palavra de honra, Sócrates — 
respondeu Aristarco — estou em maus 
lençóis. Desde que a cidade se insurgiu 
e inúmeros cidadãos se retiraram para 
o Pireu, minhas irmãs, sobrinhas, pri- 
mas, abandonadas, refugiaram-se em 
minha casa, de modo que somos cator- 
ze pessoas de condição livre. Nada 
retiramos da terra, em poder dos inimi- 
gos, nem de nossas casas, pois a cidade 
está quase deserta. Ninguém compra 
móveis, não há quem empreste dinhei- 
ro; será mais fácil achar dinheiro na 
rua que alguém que o forneça. É muito 
triste, Sócrates, ver em torno de si os 
parentes na miséria; impossível, em 
semelhantes circunstâncias, sustentar 
tanta gente. 

Ao que Sócrates retorquiu: 

-— Como é que Ceramão, também 
com um mundo de gente para manter, 
não só encontra o bastante para sie os 


seus como ainda põe dinheiro de lado e 
enriquece, de passo que tu, tendo mui- 
tas pessoas que sustentar temes que 
morram todos à falta do necessário? 

— Caramba! ele mantém escravos, 
eu pessoas livres. 

— Quem reputas mais dignas de 
estima, as pessoas livres que tens em 
casa ou os escravos de Ceramão? 

— Claro, as pessoas livres que 
tenho em casa. 

— Então é uma vergonha viver 
Ceramão na abundância com homens 
de cacaracá, enquanto tu, com pessoas 
muito mais dignas de estima, estejas na 
miséria? 

— Não, por Júpiter! pois ele ali- 
menta artesãos e eu pessoas de educa- 
ção liberal. 

— Artesãos não são os que apren- 
deram a fazer alguma coisa útil? 

— Sem dúvida. 

A farinha não é coisa útil? 

— Certamente. 

— Eo pão? 

-— Também. 

E as roupas de homens e mulhe: 
res, as túnicas, as clâmides, as exômi- 
des?? 


S Túnica, lit. quitãozinho: túnica curta, sem man- 
gas, de uso diário; clâmide: espécie de capa; exômi- 
de: espécie de túnica, com mangas, usada pelos 
escravos e povo simples. (N. do E.) 


92 XENOFONTE 


— Tudo isso é muito útil. 

— E nada disso saberão fazer as 
pessoas que tens em casa? 

— Pelo contrário, presumo. 

— Então, não sabes que exercendo 
uma destas indústrias, fabricando fari- 
nha, Nausícides, não só se sustenta a si 
e as seus escravos como ainda dá de 
comer a grande cópia de porcos e bois, 
além de amealhar boas economias com 
que a miúdo provê às prestanças públi- 
cas? Fazendo pão sustenta Cirebo 
toda a sua casa e vive à larga. Deméias 
de Cólito fazendo clâmides, Menaão, 
clâmides, a maior parte dos megarinos, 
exômides, obtêm o com que viver. 

— Convenho; mas todos eles com- 
" pram escravos bárbaros que jungem ao 
trabalho a sua discrição, ao passo que 
eu trato com pessoas livres, minhas 
parentas. 

— Como? Por serem livres e paren- 
tas tuas, achas que nada devam fazer 
senão comer e dormir? Julgas tenham 
melhor existência as outras pessoas li- 
vres que vivem em semelhante vciosi- 
dade? Senão mais felizes que as que se 
ocupam das coisas úteis que sabem? 
Pensas que a preguiça e a ociosidade 
ajudem os homens a aprenderem o que 
precisam saber, a recordar-se do que 
aprenderam, a dar ao corpo saúdé e 
vigor, a adquirir e conservar tudo o 
que à vida é necessário, ao passo que 
de nada valham o trabalho e o exerci- 
cio? Aprenderam tuas parentas o que 
dizes saberem como coisas inúteis à 
vida e de que não teriam o que fazer; 
ou, pelo contrário, para delas ocupar- 
se um dia e auferir proveitos? Quais os 
homens mais sábios, os que modorram 
na ociosidade ou os que se ocupam das 
coisas úteis? Quais os mais justos, os 
que trabalham ou os que sem nada 
fazerem, sonham com os meios de sub- 
sistir? Neste momento, estou certo, 
não podes amar tuas parentas nem elas 


a ti: tu porque as olhas como peso; 
elas porque vêem que te pesam. É de 
recear que a frieza se converta em ódio 
e se entibie o reconhecimento do pas- 
sado. Se porém, lhes impuseres uma 
tarefa, tu as amarás, vendo que te são 
úteis, elas te amarão por sua vez perce- 
bendo que te contentam. Mais agradá- 
vel vos será a lembrança do passado, 


"subirá de ponto vosso reconhecimento 


e assim vos tornareis melhores amigos 
e melhores parentes. Se se tratasse de 
ação vergonhosa para elas, antes a 
morte. Mas ao que dizes, tuas parentas 
possuem talentos honrosíssimos, os 
que melhor convêm à mulher. Ora, o 
que se sabe faz-se com facilidade, 
prontidão e prazer. Não hesites, pois, 
em propor-lhes partido que te será tão 
vantajoso quanto a elas, e que sem dú- 
vida aceitarão prazerosas. 


-—— Em nome dos deuses, Sócrates 
— volveu Aristarçco — teu conselho 
parece-me excelente. Não ousava pedir 
emprestado, sabendo que após gastar o 
que recebesse não teria com que resti- 
tuir. Agora, para começar os trabalhos 
creio poder decidir-me a fazê-lo. 


Dito e feito. Procuraram-se fundos, 
comprou-se lã. As mulheres jantavam 
trabalhando, ceavam após o trabalho e 
a alegria sucedera à tristeza: em vez de 
se olharem à esconsa, viam-se com 
prazer; elas amavam Aristarco como 


protetor. Aristarco queria-lhes por 
seus serviços. Por fim, este veio contar 
alegremente a aventura a Sócrates, 
dizendo-lhe que suas parentas o censu- 
ravam por ser o único da casa que 
comia sem fazer nada. 


— Eh! — disse Sócrates — por 
que não lhes contas a fábula do cão? E 
fama que, no tempo em que os animais 
falavam, disse a ovelha para o dono: 

“Estranho que a nós que te fornece- 
mos lã, cordeiros, queijo, nada nos dês 


10 


1 


14 


MEMORÁVEIS-I 93 


que não sejamos obrigadas a arrancar 
à terra ao passo que com teu cão, que 
nada te dá, com ele repartes teu pró- 
prio alimento”. 

Retrucou-lhe o cão, que a ouvia: 

“Por Júpiter! ele tem razão, pois 
sou eu que vos guardo e impeço de ser- 
des roubadas dos homens ou arreba- 
tadas dos lobos: não velasse eu por vós 


e o medo de morrer não vos deixaria 
pastar”. 

Acrescenta-se que aí consentiram as 
ovelhas lhes fosse o cão preferido. Vai, 
pois, dizer também a tuas parentas que 
as guardas e vigias qual o cão da fábu- 
la; que graças a ti de ninguém são 
insultadas e podem trabalhar jocundas 
e em segurança. 


I 


CarpíruLo VIII 


Um dia, após longa separação, 
topou com outro velho camarada. 

— De onde vens, Eutério? — im- 
quiriu-lhe. 


— Ao fim da guerra, Sócrates, 
regressei de uma viagem e agora eis- 
me aqui. Perdi o que possuía ao de lã 
das fronteiras; nada me deixou meu 
pai na Ática e hoje, de volta, vejo-me 
forçado a trabalhar para viver. Antes 
isso que pedir a quem quer que seja, 
tanto mais que nada tenho para dar em 
penhor. 

— E quanto tempo calculas poder 
trabalhar pelo pão de cada dia? 

— Não muito, está se vendo. 

— Entretanto, velho, é evidente que 
terás despesas, e ninguém quererá 
pagar-te por teus serviços manuais. 

— Dizes verdade. 

— Então não seria melhor te ocu- 
pares desde já de trabalhos que possam 
sustentar-te na velhice, dirigires-te a 
alguém que possua grandes proprie- 
dades e precise de quem as administre, 
feitore os trabalhos, o ajude a fazer en- 
trar as colheitas, a conservar seu patri- 
mônio, prestando-lhe serviço por servi- 
ço? 


— Seria duro, Sócrates, suportar a 
escravidão. 

—— Sem embargo, nem por isso os 
que governam as cidades e dirigem os 
negócios públicos são considerados 
mais escravos que os outros homens; 
pelo contrário, são tidos por mais 
livres. 

— Afinal, Sócrates, de forma algu- 
ma quero expor-me a censuras. 

— Certo Eutério, não é fácil encon- 
trar trabalho que não exponha a repro- 
ches. O que quer que se empreenda, é 
difícil não incorrer em faltas, e ainda 
que não se cometam, raro é não encon- 
trar juízes ineptos. E muito me admira 
que no que dizes hoje fazer fosse fácil 
pór-se a forro de exprobrações. Impor- 
ta-te, pois, evitar os indivíduos biliosos 
e procurar os de espírito bem formado, 
encarregares-te de quanto puderes 
fazer, não te meteres no que não soube- 
res e executares o melhor possível e de 
boa vontade tudo o que empreenderes: 
creio que assim procedendo, muito 
pouco te exporás a censuras, te aperce- 
berás contra a miséria e deliciarás 
tranquilo, folgado e galhardo o sol-pôr 
da existência. 


4 


CaPíTULO IX 


Certo dia, eu presente, ouvi Criton 
queixar-se ser a vida difícil em Atenas 
para quem quisesse ocupar-se tranqui- 
lamente de seus negócios. 

— Diariamente — dizia — inten- 
tam-me processos. Não que eu atente 
contra os direitos de ninguém, mas por 
imaginarem que prefira dar dinheiro a 
ver-me metido em querelas. 

Replicou Sócrates: 


— Dize-me, Criton, alimentas cães 
para que afastem os lobos de tuas 
ovelhas? 


— Certamente, e acho-o prudente. 

— Não consentirias, então, em 
manter também um homem que qui- 
sesse e pudesse conservar à distância 
os que procurarem prejudicar-te? 


— De boa vontade, se não temesse 
que ele próprio se voltasse contra mim. 

— Quê! não vês ser mais agradável 
e vantajoso servir um homem como tu 
que dele fazer-se inimigo? Sabes que 
aqui não faltam homens ambiciosos de 
tua amizade. 

Em seguida a esta conversa encon- 
traram Arquidemo, cidadão capaz mas 
pobre. Longe de ser um aproveitador, 
amava o bem e possuia a alma 
demasiadamente sobranceira para dei- 
xar-se corromper pelo dinheiro dos 
sicofantas. Desde logo, sempre que 
Críton recebia trigo, azeite, vinho, lã 


ou qualquer provisão das coisas neces- 
sárias que fornece o campo, dava parte 
a Arquidemo. Quando oferecia um 
sacrifício convidava-o e não o esquecia 
em nenhuma destas ocasiões. Arquide- 
mo, que via na casa de Criton um refú- 
gio seguro, a ele prendeu-se inteira- 
mente. Bem depressa descobriu serem 


“os sicofantas que perseguiam Criton 


indivíduos cobertos de crimes e terem 
numerosos inimigos. Citou um em 
Juízo perante o povo para que fosse 
condenado a castigo corporal ou 
multa. Consciente das próprias malfei- 
torias, tudo fez o acusado para desem- 
baraçar-se de Arquidemo, porém este 
não o largou enquanto o extorsor não 
deixou Criton em paz e não lhe deu 
algum dinheiro. Da mesma sorte pro- 
cedeu Arquidemo em diversas circuns- 
tancias semelhantes. Então, assim 
como tendo um pastor um bom ca- 
chorro se apressam os outros em pôr- 
lhe perto seus rebanhos, para que fi- 
quem sob a mesma guarda, assim 
pediram os amigos de Criton os puses- 
se também sob a custódia de Arquide- 
mo. Este de bom grado comprazia a 
Criton, e não só Criton como todos os 
seus amigos viviam em paz. E quando 
os inimigos de Arquidemo lhe expro- 
bravam o ter-se feito, por interesse, 
adulador de Criton: 

— Qnde a vergonha — respondia 


98. XENOFONTE 


Arquidemo — em entreter com ho- 
mens virtuosos comércio de serviços 
reciprocos, fazê-los amigos e opor-se 
aos maus, ou em tudo fazer por preju- 
dicar as pessoas de bem e assim 
atrair-lhes a inimizade, mancomunar- 


; | 
se, ao revés, com os maus, procurar- 


lhes a amizade e preferir seu trato ao 
das pessoas honestas? 

Desde então foi Arquidemo sempre. 
estimado dos amigos de Criton, que de 
sua parte o incluiu em o número deles. 


CAPÍTULO X 


Sei também que teve esta conversa 
com Diodoro, um de seus amigos: 

— Dize-me, Diodoro, se um de teus 
escravos fugisse procurarias reavé-lo? 

— Por Júpiter! e pór-lhe-ia os ou- 
tros na pegada, anunciando uma re- 
compensa a quem o capturasse. 

— Se um de teus escravos caísse 
doente não tratarias dele, não chama- 
rias médicos para-salvar-lhe a vida? 

— Sem dúvida. 

— E se um homem de teu'conheci- 
mento, muito mais útil que teus escra- 
vos corresse o risco de morrer à miín- 
gua, não achas seria de teu dever 
socorrê-lo? Ora, sabes que Hermó- 
genes não é ingrato, que coraria de 
receber serviços de ti sem por sua vez 
retribuir-te. E um homem que te servi- 
ria de bom grado, com devotamento e 
constância, sempre pronto não só a 


obedecer-te às ordens como a agir de 
iniciativa própria, a prevenir e prever 
— este homem, creio, valeria uma 
legião de escravos. Recomendam os 
bons ecônomos que quando uma mer- 
cadoria preciosa está a baixo preço se 
aproveite a ocasião para comprá-la: 
ora, nos tempos que correm, por pouco 
custo podem adquirir-se bons amigos. 

Respondeu Diodoro: 

— Tens razão, Sócrates. Dize a 
Hermógenes que venha ver-me. 

— Não, essa é boa! nada farei. 
Penso que em vez de chamá-lo, melhor 
farás indo procurá-lo, que com isto ele 
não ganhará mais que tu próprio. 

Apressou-se Diodoro em ir ter com 


Hermógenes e sem grande custo houve 


um amigo que tinha por dever nada 
falar nem fazer que não para servi-lo e 
comprazer-lhe. 


“LIVRO! 


to 


CAPÍTULO I 


Como os que aspiram às dignidades, 
encontraram em Sócrates guia valioso 
para o fim a que visavam, eis o que ora 
referirei. Tendo um dia ouvido dizer 
que certo Dionisodoro, recém-chegado 
a Atenas, se anunciava professor de 
estratégia, disse Sócrates a um de seus 


discípulos, que sabia anelar as honras 


de general da pátria: 

— Vergonhoso para alguém que 
quisesse ser estratego em sua terra, ó 
Jovem, não seria deixar fugir ocasião 
de aprender a arte militar? Não deve- 
ria ser punido ainda mais severamente 
que alguém que se metesse a fazer está- 
tuas sem ter aprendido a estatuária? 
Que nos perigos da guerra a cidade 
inteira confia no estratego; daí resulta- 
rem seus sucessos em grandes vanta- 
gens e em grandes males, seus revezes. 
Como, pois, não seria justo punir um 
homem que após sobreolhar o aprendi- 
zado da arte militar tudo fizesse por 
ser eleito? 

Com estes conselhos Sócrates apres- 
sou o jovem a estudar com Dioniso- 
doro. Estudado, voltou o discípulo 
para junto do mestre, que exclamou 
jocoso: 

-— Cidadãos, não achais que assim 
como a Agamenão titulava Homero 
venerável, depois das lições de estra- 
tégia não parece este jovem ainda mais 
respeitável? Pois se, ainda que não 


toque, chama-se citarista a quem 
aprendeu a tocar citara; se, ainda que 
não exerça, chama-se médico a quem 
aprendeu medicina, muito embora nin- 
guém o eleja, não deixa este jovem de 
ser desde já estratego; e, em'que pesas- 
se aos: votos de todos os homens, nem 
estratego nem médico seria quem nada 
soubesse. Mas, prosseguiu, a fim de 
que, se algum dia um de nós vier a ser 
oficial sob tuas ordens, esteja melhor 
instruído rras coisas da guerra, dize- 
nos por onde começou Dionisodoro a 
ensinar-te a estratégia. 

Respondeu o jovem: 

—— Começou por onde terminou. 
Ensinou-me a tática e nada mais. 

— Entanto — observou Sócrates 
— isso é parte mínima da arte do gene- 
ral. Cumpre-lhe ainda prover a todo o 
material da guerra e de tudo fornecer o 
soldado. Ser fecundo de expedientes, 
empreendedor, cuidadoso, paciente, 
sagaz, indulgente e severo, franco e 
astuto, capaz de defender-se e de 
surpreender, liberal e rapace, generoso 
e cúpido, prudente e audaz. Enfim deve 
ter, para ser bom estratego, todas as 
demais qualidades que dão a natureza 
e a ciência. Glorioso é também conhe- 
cer a arte de ordenar as tropas; vai 
grande diferença entre um exército 
bem alinhado e tropas juntas à gan- 
daia. Pedras, tijolos, traves, telhas lan- 


104 XENOFONTE 


çadas a monte aqui e ali para nada ser- 
vem; se, porém, nos fundamentos e nas 
sumidades se dispõem os materiais 
imputrecíveis e inalteráveis, como as 
pedras e as telhas, se de permeio se 
ajustam os tijolos €e as traves, ao modo 
de edifício, então se tem algo precioso, 
uma casa. 

— O que acabas de dizer, Sócrates 
— respondeu o jovem —, é exata- 
mente o mesmo que se pratica na guer- 
ra: lá, com efeito, deve colocar-se nas 
primeiras e últimas filas os melhores 
soldados e no meio os piores, a fim de 
serem arrastados e. impedidos pelos 
outros. 


— Muito bem — obtemperou Só- 


crates -—, se te ensinaram a discernir 
os bons dos maus soldados. Se não, de 
que te serviriam teus conhecimentos? 
Houvesse teu mestre te ensinado a dis- 
por o dinheiro colocando por cima e 
por baixo as melhores peças e no meio 
as piores, de nada te valeria isso se não 
te tivesse ensinado a distinguir a 
moeda boa da mã. 

— Pois olha, não mo ensinou. A 
nós compete distinguir os bons dos 
maus soldados. 

— Bem, mas o que nos impede de 


examinar como poderemos não nos 
enganar? 

— De acordo — assentiu o jovem. 

— Fosse, então, o caso de pilhar 
dinheiro, não faríiamos bem colocando 
na frente os soldados mais cúpidos? 

— Ássim penso. 

— E se se tratasse de correr peri- 
gos, não poríamos na primeira linha os 
que mais prezam a glória? 

— Sem dúvida, pois, de olho na 
honra, só querem expor-se. Esses não 
são difíceis de descobrir: sempre em 
vista, em toda parte estão à mão. 


— Ensinou-te ele apenas a dispor 
um exército em ordem de batalha, ou 
também te ensinou onde e como 
importa usar as diversas maneiras de 
ordená-lo? 

— Quê, ensinou o quê! 

— Entretanto, há mil circuns- 
tâncias em que não se deve formar nem 
conduzir as tropas do mesmo modo. 

— Por Júpiter! não me ensinou 
nada disso. 

— Pois bem, volta e interroga-o: se 
souber seu mister e não for impudente, 
corará de haver recebido teu dinheiro e 
ter-te despedido sem instruir-te. 


Ep! 


CapítruLO II 


Topando de uma feita com um 


homem que acabara de ser e feito 


estratego, perguntou-lhe: 

— Por que, a teu ver, cnama:Ho- 
mero a Agamenão pastor dos povos? 
Não será porque, semelhante ao pas- 
tor que vela pela conservação das ove- 
lhas e a tudo provê que lhes seja neces- 
sário, deve o general zelar por que seus 
soldados gozem boá saúde, tenham 
tudo o de que precisem e estejam em 
condiçoes de realizar seu escopo? Ora, 
o escopo dos soldados é triunfar do ini- 
migo para viverem mais felizes. Aliás, 
quando Homero louva Agamenão, di- 
zendo: Era a um tempo bom príncipe e 
bom guerreiro, não é porque era bom 
guerreiro batendo-se com valor contra 
os inimigos e comunicando sua bravu- 


ra a todo o exército, e bom principe 
não procurando exclusivamente para si 
os bens da vida, senão assegurando a 
felicidade daqueles sobre que reinava? 
De feito, o rei é eleito para zelar não 
por seu exclusivo bem-estar pessoal, 
mas pela prosperidade dos que o ele- 
gem. Todos os que se fazem soldados 
querem viver felizes, e se escolhem 
generais é para terem quem os conduza 
a essa meta. Ao general, pois, cumpre 
procurar o bem-estar dos que o elege- 
ram. E que mais glorioso que o cum- 
prir e que mais infamante que o olvidar 
este dever? 

Assim é que, indagando qual deve 
ser o mérito do bom general, Sócrates 
de tudo o mais prescindia e outro fim 
não lhe deputava que felizes fazer seus 
comandados. 


Ê, 


oo 


ro 


CAPÍTULO HI 


Não me esqueceu a conversa que 
com um cidadão recém-nomeado hi- 
parco!'º teve Sócrates. 

— Jovem — interpelou-o — pode- 
rias dizer-me por que ambicionaste ser 
hiparco? Sem dúvida não seria para 
marchar à testa dos ginetes: esta honra 
pertence aos arqueiros montados, que 
precedem aos próprios hiparcos. 

— Tens razão. 

— Tão pouco seria para te fazeres 
conhecer: os próprios louros são muito 
conhecidos. 

— Também é verdade. 

— Não seria porque esperas melho- 
rar a cavalaria da República e, quando 
necessários os préstimos dos cavalei- 
ros, à sua frente servir o Estado? 

— De fato. 

— Aí está, por Júpiter! — disse 
Sócrates — um alvo glorioso, se fores 
capaz de atingi-lo. Enfim te elegeram 
para comandar cavalos e.cavaleiros? 

— Justamente. 

— Ora bem, antes de tudo dize-nos 
o que pretendes fazer para melhorar os 
cavalos. | 

— Mas isso não é coisa que me 
incumba. Cada. cavaleiro que trate de 
seu cavalo. 


— Entanto, se uns te trouxerem 
cavalos fracos dos pés ou das pernas, 
senão completamente faltos de forças; 


1º Hiparco: comandante de cavalaria. (N. do E.) 


outros, animais tão mal nutridos que 
nem possam andar; estes, cavalga- 
duras tão fogosas que não haja mantê- 
las quietas; aqueles, alimárias tão res- 
pingas que sequer possas dispó-las em 
fila, de que te servirá tua cavalaria? 
Como, à frente de semelhante corpo, 
poderás servir a República? 

— Tens razão, olharei o mais que 
puder pelos cavalos. |. 

— Quê! não te esforçarás também 
para melhorar os cavaleiros? 

— Está claro que sim. 

— Não principiarás por habituá- 
los a montarem mais lestamente a 
cavalo? 


— Naturalmente. Assim quando 
algum cair terá mais ensanchas de 
salvar-se. 


— Na hora do combate ordenarás 
aos inimigos que venham à planície 
onde estás acostumado a manobrar, ou 
procurarás exercitar teus cavaleiros em 
toda espécie de terreno onde se possa 
encontrar o inimigo? 

— Em verdade será melhor exerci- 
tá-los em todos os terrenos. 

— Não os afarás, outrossim, a lan- 
çarem o dardo a-cavalo? 

— Também será conveniente. 


—— Já pensaste em estimular a cora- 
gem dos cavaleiros, incitá-los contra o 
inimigo, e assim aumentar-lhes a 
força? 


108 


— Se ainda não o fiz, hei de 
fazê-lo. 

— Sabes como te fazeres obedecer 
dos cavaleiros? Que, sem isso, cavalos 
e cavaleiros, excelentes e vigorosos 
nada te adiantarão. 

— Dizes verdade. Mas qual, Sócra- 
tes, o melhor meio de submetê-los à 
obediência? 

— Notaste, sem dúvida, que em 
todas as ocasiões os homens consen- 
tem em sujeitar-se aos que reputam 
superigres. Numa doença, de bom 
grado se submetem ao médico que jul- 
gam mais hábil, numa travessia, escu- 
tam os que navegam aquele que consi- 
deram melhor piloto. Em agricultura, o 
que se tiver por agricultor mais experi- 
mentado. 

— É justo. 

— Pois bem, da mesma forma, na 
cavalaria obedecem os cavaleiros a 
quem lhes pareça melhor saber o que é 
preciso. 

— Então será suficiente, Sócrates, 
mostrar-me o melhor dentre eles para 
fazer-me obedecer? 

— Sim, de vez que lhes ensines 
também que da obediência depende 
sua glória e conservação. 

— Como ensinar-lho? ” 

— Muito mais facilmente, por Júpi- 
ter ! que se houvesse de ensinar-lhes ser 
o mal preferível ao bem. s 

— Decerto queres dizer que, além 
das outras qualidades essenciais, deve 
o comandante de cavalaria possuir o 
talento da palavra” 


XENOFONTE 


— Então pensavas comandar a ca- 
valaria em silêncio? Não refletiste que 
os mais belos conhecimentos, os que 
nos prescrevem as leis, os que nos 
ditam os princípios que devem pautar- 
nos a vida e todas às outras ciências 
dignas de nota rios foram comunicados 
pela palavra? Que os melhores mestres 
são também os que melhor se servem 
da palavra, os que melhor conhecem as 
coisas mais úteis são os que delas me- 
lhor sabem falar? Não observaste 
igualmente que quando em Atenas se 
reúne um coro, qual o enviado a Delos, 
nenhum outro se forma alhures que 
com o nosso se agermane, cidade algu- 
ma é capaz de juntar tão belos ho- 
mens? 

— É verdade. 

-— Contudo, os atenienses não so- 
brelevam os outros povos tanto pela 


“beleza da voz, corpatura e vigor quan- 


to pelo amor da glória, que mais que 
tudo excita às coisas belas e honrosas. 

— Também ê verdade. 

— Não achas, pois, que se se cui- 
dasse igualmente de nossa cavalaria, 
muito sobrepujaria ela a todas as 
outras, assim pela disposição e boa 
ordem das armas e cavalos que pela 
intrepidez nos perigos, se louvores e 
glória assim esperasse reportar? 

— É bem possível. 

— Então o que esperas? Faze por 
incutir em teus homens hábitos que em 
teu próprio bem reverterão e, por ti, ao 
dos outros cidadãos. 

— Por Júpiter ! hei de tentá-lo! 


CapíTULO IV 


Vendo um dia Nicomáquides, que 
voltava do congresso popular, inqui- 
riu-lhe: 

— Quais são, Nicomáquides, os 
estrategos eleitos? 

— Ah, Sócrates — respondeu o 
interpelado — não achas que os ate- 
nienses foram injustos? Em lugar de 
eleger-me a mim, que encaneci no ser- 
viço da milícia, fui lócago!! e taxiar- 
ca!2, recebi tantos ferimentos dos ini- 
migos (e ao mesmo tempo descobria e 
mostrava as cicatrizes), escolheram 
um Antístenes que jamais serviu. como 
hoplita, nunca se distinguiu na cavala- 
ria e só sabe amontoar dinheiro. 

— Mas — retorquiu Sócrates — 
não é qualidade excelente, se lhe serve 
para obter o necessário aos soldados? 

— Os comerciantes — disse Nico- 
máquides — também são bons amea- 
lhadores, o que não quer dizer que pos- 
sam comandar um exército. 

Tornou Sócrates: 

— Mas Antiístenes é também apai- 
xonado da glória, qualidade necessária 
ao general. Não viste que todas as 
vezes que foi corego a todos os demais 
levou a palma? 

— Por Júpiter ! Uma coisa é estar à 


1 Lócago: entre os gregos, o comandante de com- 
panhia de cem homens. (N. do E.) 

12 Taxiarca: comandante de uma divisão de infan- 
taria. (N. do E.) 


testa de um coro e outra à frente de um 
exército. 

— No entanto, muito embora não 
saiba cantar nem instruir coros, teve 
Antistenes o talento de escolher os 
melhores artistas. 

— Encontrará também no exército 
quem por ele ponha as tropas em 
ordem de batalha e combata em seu 
lugar? 

— Se souber — respondeu Sócra- 
tes — encontrar e escolher os melhores 
em questões bélicas como o fez com os 
coristas, bem poderá levar também a 
palma guerreira. E com certeza terá 
mais prazer em gastar para vencer na 
guerra com toda a República do que 
nos coros tão-somente com sua tribo. 

— Então, Sócrates, dizes poder o 
mesmo homem ser a um tempo bom 
corego e bom estratego? 

— Digo que o homem que, na dire- 
ção seja do que for, souber fazer e faça 
o que seja de mister, será excelente 
diretor, ponham-no à cabeça de um 
coro, casa, cidade, ou exército. 

— Por Júpiter! Sócrates — retor- 
quiu Nicomáquides — nunca espera- 
ria ouvir-te afirmar poder um bom ecô- 
nomo ser bom general. 

— Pois bem, examinemos os deve- 
res de um € outro e vejamos se são os 
mesmos ou diferentes. 

— Vejamos. 


E 


Ho XENOFONTE 


— Cercar-se de subordinados, obe- 
dientes e dóceis não é o primeiro dever 
de um e outro? 

— Certamente. 

— Não devem ambos impor a cada 
um as funções que melhor lhe qua- 
drem? 

— Sem dúvida. 

— Tenho comigo que um e outro 
devem castigar os relaxados e recom- 
pensar os diligentes. 

— Decerto. 

-— Ambos não farão bem em con- 
graçar-se com seus subordinados? 

— Está claro. : 


— Não têm igualmente interesse: 


em angariar aliados e auxiliares? 

— Têm. 

— Não devem os dois zelar pelos 
bens presentes? 

-—— Nada de melhor aviso. 

— Enfim, não devem ser igual- 
mente laboriosos e diligentes em suas 
diversas atribuições? Todos esses de- 
veres são-lhes comuns. Não assim, 
porém, o combater; sem embargo, 
ambos não têm inimigos? 

— Não resta a menor dúvida: 

— Então não têm o mesmo inte- 
resse em vencê-los? 

— Certamente. Mas o que não me 
dizes é a que lhes servirá, quando for 


preciso bater-se, a ciência econômica. 

— Até aí lhes sera da maior utilida- 
de. Sabendo o bom ecônomo nada 
haver mais útil, mais vantajoso que 
vencer o inimigo, nada mais prejudi- 
cial, mais ruinoso que ser vencido, será 
todo zelo em tudo procurar e poupar 
que possa contribuir para a vitória, 
todo atenção em desconfiar e preser- 
var-se de tudo'o que possa levar à der- 
rota. todo energia em atacar se se sou- 
ber possuidor de todos os truntos da 
vitória. todo prudência na defensiva se 
falto de recursos. Não desgabes, pois, 
Nicomáquides, os bons ecônomos. 
Unicamente em número diferem os 
negócios particulares dos negócios pú- 
blicos: em tudo o mais se equiparam. 
O essencial é que uns e outros, só ho- 
mens podem tratá-los. Que não há tais 
homens encarregados dos negócios 
particulares e tais outros, dos negócios 
públicos. Que os que dirigem os negó- 
cios públicos não empregam certos 
indivíduos e o mesmo fazem os que 
administram os negócios privados. 
Ora, quando bem se sabe empregar os 
homens, gerem-se tão bem os negócios 
privados quanto os públicos. Quando 


não, nuns e noutros só se descamba em 


erros. 


ty 


CAPÍTULO V 


Teve um dia com Péricles, filho do 
grande Péricles, a palestra do teor que 
segue. 

— De mim — disse Sócrates — 
choco a esperança, Péricles, que se 
fores estratego a cidade se fará mais 
gloriosa pelas armas e triunfará dos 
inimigos. 

Respondeu Péricles: 

— Quisera eu, Sócrates, fosse 
como dizes. Mas de que jeito conse- 
gui-lo, é com que não atino. | 

— Queres — volveu Sócrates — 
relanceemos os fatores que desde já 
possibilitam esse resultado? 

— Com todo o gosto. 

— Não ignoras que a população de 
Atenas não é menos numerosa que a 
da Beócia? 

— Não. 

— Onde julgas poder levantarem-se 
as melhores tropas, entre os atenienses 
ou entre os beócios? 

— Não creio lhes fiquemos atrás a 


“este respeito. 


— Entre quem, em tua opinião, me- 
lhor reina a concórdia? 

— Entre os atenienses. Porquanto 
bom número de beócios, oprimidos 
pelos tebanos, estão mal dispostos 
para com eles, e nada disso vejo em 
Atenas. . 

— Mas os beócios são os mais 
ambiciosos e peremptórios dos ho- 


mens, qualidades que excitam viva- 
mente fazer rosto aos perigos pela gló- 
ria e pela pátria. 

— Quanto a isso, OS atenienses são 
irreprocháveis. 

— E, certo, não há povo que com 
maiores € mais numerosas façanhas se 
apresente que os atenienses: sua lem- 
brança enaltece o espirito, incita à vir- 
tude e alenta a coragem. 

— Tudo o que dizes é verdade, Só- 
crates. Mas bem sabes que desde a der- 
rota dos mil atenienses de Tolmidas 
nos pertos de Lebadia e de Hipócrates 
em Délio, a glória de Atenas se abateu 
ante os beócios e de tal forma subiu de 
ponto a audácia dos tebanos para com 
os atenienses, que, se outrora não 
ousavam medir-se conosco sem os 
lacedemônios e mais povos do Pelopo- 
neso, hoje ameaçam cair sem aliados 
sobre a Ática, de passo que os atenien- 
ses, que antigamente, quando os beó- 
cios estavam sós, assolavam a Beócia, 
ora temem que os beócios devastem a 
Ática. 

— Bem sei — concordou Sócrates. 
— E por isso mesmo quero crer que 
hoje a República se mostrasse mais 
dócil para com um general digno. Por- 
que a confiança gera a incúria, indo- 
lência e indisciplina. O temor torna os 
homens mais vigilantes, submissos, 
disciplinados. Prova estã no que suce- 


112 


de a bordo dos navios. Enquanto nada 
há que temer, anda tudo à zanguizarra. 
Mas teme-se a tempestade ou o inimi- 
go, e não só se obedece a todas as or- 
dens como se atendem em silêncio às 
instruções do comandante, tal qual 
entre os coristas. 

— Suposto — disse Péricles — que 
os atenienses obedeçam, remanesce 
saber como restituí-los à virtude, glória 
e prosperidade de antanho. 

— Se quiséssemos que recupe- 
rassem riquezas passadas a outras 
mãos, não lhes provaríiamos terem per- 
tencido a seus pais e, pois, serem suas, 
exortando-os assim a reavê-las? Dese- 
jando que se esforcem por ser os pri- 
meiros em virtude, devemos mostrar- 
lhes que de tempos imemoriais lhes 
pertenceu este posto e que, fazendo por 
reconquistá-lo, se avantajarão a todos 
Os povos. 

— Como mostrar-lho? 

— Recordando-lhes os grandes fei- 
tos de seus primeiros avós, cujas virtu- 
des ouvem celebrar. 

— Quererás falar daquela pendên- 
cia dos deuses, em que por sua virtude 
serviram de árbitros os contempo- 
râneos de Cecrops? 

-— Sim, e também do nascimento e 
educação de Erecteu, da guerra sob seu 
reinado declarada aos atenienses por 
todo o continente, da que ao tempo dos 
Heráclidas tiveram com as gentes do 
Peloponeso e de quantas sustentaram 
sob Teseu, nas quais se revelaram 
superiores a todos os coevos. Se quise- 
res, lembra-lhes também os feitos da 
idade subsequente, não muito distante 
da nossa: as guerras que sozinhos 
mantiveram contra os povos senhores 
da Ásia inteira e Europa até a Macedô- 
nia, herdeiros de vasto império e pode- 
rosos recursos e laureados das mais 
gloriosas façanhas. As vitórias que 
mais os filhos do Peloponeso alcança- 
ram tanto em terra como no mar, feitos 


XENOFONTE 


que lhes valeram a fama de superiores 
aos de seu tempo. 

— De fato têm esse renome. 

— Por outra, enquanto numerosas 
emigrações se faziam na Grécia, eles 
permaneceram em sua terra. Muitos 
povos litigantes submetiam-se-lhes ao 
arbítrio e outros, oprimidos de mais 
fortes, refugiavarn-se junto deles. 

— Admira-me, Sócrates, como a 
cidade decaiu. 

— Penso que, assim como certos 
atletas, vencendo longe os outros pela 
superioridade de suas forças, se largam 
à incúria e cedem a palma aos adversá- 
rios, assim também os atenienses, 
sentindo-se padrasto dos outros 
povos, desleixaram-se e degeneraram. 

— Que fazer agora para restituir-se 
da antiga virtude? 

— Muito simples: readquiram os 
costumes pretéritos e a eles se aferrem 
como se aferravam seus antepassados, 
e não lhes ficarão atrás. Senão, ao 
menos acaudalem os povos capitães de 
hoje, adotem-lhes as instituições e a 
elas se apeguem e deixarão de ser-lhes 
inferiores. Tenham mais emulação, e 
logo lhes tomarão a dianteira. 

— Quer dizer que durante muito 
tempo ainda a República viverá tres- 
malhada da virtude. Quando, a exem- 
plo dos espartanos, saberão os atenien- 
ses respeitar a velhice, eles que 
começam por desprezar os próprios 
pais? Quando se exercitarão como os 
espartanos, eles que, não contentes de 
descurar as próprias forças, metem à 
bulha os que procuram desenvolvê- 
las? Quando, corno os espartanos, aca- 
tarão os magistrados, eles que se glo- 
riam de menoscabá-los? Quando se 
penetrarão do mesmo espírito de con- 
córdia, eles que, às avessas de traba- 
lhar pelo interesse comum, só curam 
de prejudicar-se mutuamente e invejam 
mais aos próprios concidadãos que aos 
estrangeiros? Eles que, mais que nin- 


14 


15 


20 


MEMORÁVEIS-III [13 


guém, se dividem nas reuniões particu- 
lares como nos congressos públicos e 
se processam uns aos outros mais que 
em nenhuma outra parte, preferem ga- 
nhar uns em detrimento dos. outros a 
ajudar-se reciprocamente, tratam os 
negócios do Estado como se lhes fos- 
sem estranhos e os tornam motivo de 
brigas, nas quais se empenham com o 
maior ardor? Daí essa malignidade 
que eivam a República. Daí essas 
dissertações e esse Ódio entre os cida- 
dãos. Flagelos que me fazem temer 
não se embarranque um dia Atenas em 
males que lhe faleceriam forças para 
sobrelevar. 

-—— Oh! não, Péricles — replicou 
Sócrates — não suponhas os atenien- 
ses possessos de perversidade incurá- 
vel. Não vês a boa ordem reinante 
entre os marinheiros, a obediência dos 
mestres nos jogos gínicos e a mesma 
submissão da parte dos coristas para 
com os coregos? 

— Verdadeiramente maravilhoso é 
ver pessoas desse jaez obedecerem aos 
que as dirigem, ao passo que os hopli- 
tas e cavaleiros, que se diriam o escol 
dos bons cidadãos, são os mais indisci- 
plinados de todos. 

— Mas, Péricles, não se compõe o 
Areópago de homens escolhidos e de 
comprovado mérito? 

— Sem dúvida. 

— Conheces tribunal mais digno, 
integro, grave e equânime? 

— Nada lhe acoimo. 

— Então não é preciso desesperar 
dos atenienses como infensos à disci- 
plina. 

— Mas é precisamente na guerra, 
onde mais necessárias são a esperança, 
ordem e submissão, que não mostram 
nenhuma destas virtudes. 

— Quem sabe — tornou Sócrates 
— sejam comandados por indivíduos 
incapazes. Não vês que sem o neces- 
sário talento ninguém se propõe dirigir 


os tocadores de cítara, cantores, dan- 
çarinos, lutadores e pancratiastas!3? 
Todos os que os dirigem poderão dizer 
onde beberam os princípios de sua 
arte, enquanto a mor parte dos gene- 
rais se fazem da noite para o dia. 
Longe de mim agermanar-te a eles. Ao 
contrário, penso que tão: bem poderás 
dizer quando te iniciaste na arte da 
guerra como quando aprendeste a luta. 
Demais estou convencido que conser- 
vaste os princípios de estratégia que te 
transmitiu teu pai e que, onde quer que 
os houvesse, colheste os conheci- 
mentos que um dia pudessem servir-te 
à frente dos exércitos. Tampouco duvi- 
do que para não ignorares nenhuma 
das práticas úteis à guerra as meditas 
fundamente e, se percebes faltar-te al- 
guma coisa, buscas os que sabem e não 
poupas presentes nem favores para 
deles aprender o que desconheces e 
granjear bons auxiliares. 

— Compreendo muito bem, Sócra- 
tes, que se assim me falas não é na 
convicção de que eu não negligencie 
nenhum desses cuidados. Procuras, 
sim, ensinar-me que o homem que de- 
seje comandar precisa atender a tudo 
isso: estou de pleno acordo contigo. 

— Já reparaste, Péricles, que para 
as bandas da Beócia altas montanhas 
se estendem ao comprido de nossas 
fronteiras, as quais não deixam entrar 
em nosso território senão por estreitos 
e escarpados desfiladeiros, e que to- 
chas inacessíveis resguardam o cora- 
ção do país? 

— Certamente. 

— Não ouviste dizer que os mísios 
e pisídios ocupam na Pérsia regiões de 
todo ponto inacessíveis e que armados 
à ligeira não só conservam a própria 
liberdade como, em suas incursões, 


'* Pancratiasta: o que pratica os combates gínicos 
que compreendem a luta (pale) e o pugilato 
(pygmé). (N. do E.) 


22 


23 


26 


27 


114 


causam enorme dano à nação do gran- 
de rei? 
— Ouvi. 


— Não achas então que se a destra | 


juventude ateniense se armasse tam- 
bém à ligeira e se senhoreasse das 
montanhas limítrofes de sua terra 
poderia castigar nossos inimigos e 
assegurar poderoso baluarte a nossos 
concidadãos? 


XENOFONTE 


— Em verdade, Sócrates, seria 
magnífico. 
— Pois bem — rematou Sócrates 


— já que te agradam tais planos, meu 
caro, trabalha de levá-los a obra. O 
que conseguires será glorioso para ti e 
útil à pátria. Se falhares, não prejudi- 
carás a República nem te envergonha- 
rás. 


28 


1 


ty 


CarpíTuLO VI 


Olhos fitos no governo do Estado, 
Glauco, filho de Aristão, posto não 
contasse ainda vinte anos, queria ser 
orador popular. E embora arrancado 
da tribuna, vaiado embora, nem paren- 
tes nem amigos conseguiram dissuadi- 
lo de semelhante loucura. Sócrates, 
que em razão de sua amizade a Cármi- 
des, filho de Glauco, e a Platão, lhe 
queria bem, logrou só por só fazê-lo 
renunciar a tais pretensões. Encontran- 
do-o um dia e querendo fazer-se ouvir, 
reteve-o e com ele entabulou conversa 
da seguinte maneira: 

— Glauco — disse-lhe — então 
pretendes governar a cidade? 

— É verdade, Sócrates. 

— Por Júpiter ! é o mais belo proje- 
to que se possa arquitetar. Se atingires 
teu escopo, estarás em condições de 
obter tudo o que desejares, servir teus 
amigos, exalçar a casa de teus pais, 
engrandecer tua pátria. Começarás por 
criar nome em tua terra, depois em 
toda a Grécia e quem sabe, como 
Temistocles, até entre os bárbaros. 
Enfim, aonde quer que fores, chamarás 
os olhares sobre tua pessoa. 

Ouvindo estas palavras, Glauco en- 
tesava de orgulho e deixava-se ficar, 
todo gozoso. Prosseguiu Sócrates: 

— Não é evidente que se queres 


honras deves servir a República? 


-— Claro. 


— Em nome dos deuses, nada me 
escondas, dize-me qual o primeiro ser- 
viço que esperas prestar-lhe. 

Glauco guardava silêncio, procu- 
rando por onde começar. 

-—— Não te esforçarás de enriquecer 


a cidade? — disse Sócrates — como 
se se tratasse de enriquecer a casa de 
um amigo? 

— Sim. 


— Excogitar maiores rendas não 
será o meio de torná-la mais rica? 

— Evidentemente. 

— Diga-me, pois, de onde se reti- 
ram hoje as rendas do Estado e qual o 
seu montante. Certamente fizeste teus 
estudos, a fim de suprir com os produ- 
tos que escassearem e prover aos que 
vierem a faltar. 

— Por Júpiter ! — respondeu Glau- 
co — nunca pensei nisso. 

— De vez que não pensaste neste 
ponto, dize-me, ao menos, quais são as 
despesas da cidade: porque não resta 
dúvida que tens intenção de abater as 
supérfluas. 

— Palavra! tãopouco pensei nisso. 

-—— Pois bem, deixemos para depois 
o projeto de enriquecer o Estado. 
Como, com efeito, pensar em tal antes 
de conhecer as despesas e as rendas? 

— Mas Sócrates — disse Glauco 
— também pode enriquecer-se a Repú- 
blica com o despojo dos inimigos. 


10 


116 XENOFONTE 


— Sim, sem duvida, se formos mais 
fortes que eles. Se formos mais fracos, 
nós é que seremos despojados. .. 

— De fato. 

*«— Quem desejar empreender uma 
guerra precisa, pois, conhecer a força 
de sua nação e a dos inimigos, a fim 
de, se sua pátria for mais forte, poder 
abrir as hostilidades, se mais fraca, 
manter-se na defensiva. 

— Tens razão. 

— Dize-me, primeiro, quais são as 
forças de nossa cidade em terra e mar, 
depois as dos inimigos. 

— Ora, assim de improviso não 
posso responder-te ! 

— Se tens em casa algum escrito 
sobre o assunto, esperarei com o maior 
prazer. 

— Não, nada tenho. 

— Pois muito bem, espaçaremos 
igualmente nossa primeira déliberação 
acerca da guerra. A matéria é vasta, € 
como só agora te inicias na adminis- 
tração talvez inda não pudeste estudá- 
la. Mas sei que já te ocupaste da defesa 
do país. Sabes quais as guarnições 
necessárias e quais as desnecessárias, 
em que pontos os guardas são mais 
numerosos, onde são insuficientes. 
Aconselharás a que se reforcem as 
guamições necessárias e se suprimam 
as supérfluas. 

— Por Júpiter! — disse Glauco — 
sou de parecer que se suprimam logo 
todas, pois guardam o país tão bem 
que tudo roubam os inimigos. 

— Mas não achas que suprimir as 
guarnições seria entregar a nação à 
mercê dos pilhantes? Demais, visitaste 
pessoalmente as guarnições? Como 
sabes que não cumprem seu dever? 

-— Suponho-o. 

— Então, quando tivermos algo 
mais que suposições, aí deliberaremos 
sobre o assunto. 

— Talvez seja melhor. 

-— Sei, Glauco — ajuntou Sócrates 


— que não estivestes nas minas de 
prata, de sorte que não podes dizer por 
que produzem menos que outrora. 

— Efetivamente inda não estive lá. 

— Diz-se que o ar lá é malsão: aí 
tens boa escusa para quando se vier a 
deliberar a respeito. 

— Estás mofando de mim, Sócra- 
tes. 

— Mas tenho certeza de que pelo 
menos  examinaste cuidadosamente 
quanto tempo pode o trigo colhido no 


' país alimentar a nação, quanto se con- 


some mais cada ano, a fim de que ja- 
mais te surpreenda a escassez e possas, 
com tua previdência, preconizar as 
medidas necessárias ao suprimento e 
salvação da cidade. 

— Falas-me — disse Glauco — de 
tarefa para lá de árdua, se for preciso 
ter olhos para tantas minudências. 

— Sem embargo — retorquiu Só- 
crates — nem a própria casa será 
capaz de governar quem não lhe 
conhecer todas as necessidades nem 
souber satisfazê-las, visto contar a ci- 
dade mais de dez mil casas e não ser 
facil ocupar-se de tantas famílias ao 
mesmo tempo, por que não ensaiaste 
engrandecer primeiro uma apenas, a de 
teu tio? Ela necessita-o. Se desses 
conta da tarefa, então meterias ombros 
a empresa de maior monta. Mas se não 
sabes ser prestadio a um indivíduo 
sequer, como poderias sei útil a todo 
um povo? Não é manifesto que, se 
alguém não tern forças para levantar 
um talento, nem deve tentar carregar 
mais de um? 

— Ah! certo — exclamou Glauco 
— bons serviços prestara eu à casa de 
meu tio se quisesse dar-me ouvidos! 

— Como! — replicou Sócrates — 
não foste capaz de persuadir teu tio e 
esperas fazer-te ouvir de todos os 
atenienses, teu tio entre eles? Veja lá, 
Glauco, que não vás, de olho na glória, 
ver-te barba a barba, com coisa muito 


e MEMORÁVEIS-III 


diferente. Não vês como é perigoso 
dizer ou fazer o que não se saiba? 


Pensa em todos os homens de teu. 


conhecimento que falam e procedem 
sem saber: aquistam louvores ou cen- 
suras? São admirados ou desprezados? 
Olha, ao contrário, os homens que 
sabem o que dizem, o que fazem, e 
verás que em todas as circunstâncias 
os que reúnem os sufrágios e atraem a 


117 


admiração são precisamente os que 
sabem, enquanto opróbrio e desdém é 
o quinhão dos ignorantes. Se amas a 
glória e queres fazer-te admirar da pá- 
tria, procura bem saber o que desejas 
pôr por obra: que se te avantajares aos 
outros e houveres as rédeas do Estado, 
não me admira que muito facilmente 
alcances o que ambicionas. 


18 


CarpíTuLO VII 


Vendo que Cármides, filho de Glau- 
co, homem de grande mérito e muito 
superior a todos os políticos do tempo, 
não ousava aparecer em público nem 
ocupar-se dos negócios do Estado: 

— Dize-me, Cármides — inda- 
gou-lhe Sócrates —, que dirias de um 
homem que, posto capaz de obter as 
coroas nos jogos e assim adquirir terra 
na Grécia, recusasse combater? 

— Claro que seria um efeminado e 
um covarde. 

— E se um cidadão capaz, em se 
dando aos negócios públicos, de en- 
grandecer a pátria e cobrir-se de glória, 
entretanto recusasse fazê-lo, não se 
estaria no direito de chamar-lhe covar- 
de? 

— Talvez. Mas por que mo pergun- 
tas? 

— Porque me parece que, mal- 
grado teu mérito, hesitas diante dos 
negócios, e isso quando, em tua quali- 
dade de cidadão, deles tens obrigação 
de compartir. 

— Quando, diabo, desencavaste em 
mim esse mérito? 

— Em tuas palestras com nossos 
políticos. Se te comunicam um negó- 
cio, vejo que lhes dás bons conselhos. 
Se cometem erros, tu os repreendes 
justamente. 

— Uma coisa, Sócrates, é conver- 
sar em particular, outra discutir em 
público. 


— Todavia, os que sabem calcular 
calculam tão bem em público quanto 
sozinhos, os que a sós tocam a citara 
com perfeição, em público demons- 
tram a mesma habilidade. 

— Pois não. Mas não vês serem a 
vergonha e a timidez inatas em certos 
homens e se manifestarem muito mais 
nos congressos tumultuosos que nas 
reuniões privadas? 

— Quero mostrar-te não serem os 
mais sábios que te envergonham nem 
os mais poderosos que te amedrontam, 
mas que coras de falar perante os 
menos esclarecidos e os mais fracos. 
De feito, não é ante pisoeiros, sapatei- 
ros, pedreiros, caldeireiros, agriculto- 
res, negociantes, cambistas de praça 
pública, pessoas que procuram reven- 
der o que compraram a vil preço que te 
sentes timido? Eis aí de que se compõe 
o congresso do povo. Em que, pois, 
acreditas diferir teu procedimento do 
de um homem que, superior aos artis- 
tas, tivesse medo dos ignorantes? Não 
é verdade que, a despeito de tua facili- 
dade em exprimir-te na presença dos 
cidadãos mais ilustres, alguns dos 
quais te desdenham, e tua superiori- 
dade manifesta aos que se metem a 
falar em público, hesitas em tomar a 
palavra ante uma multidão que jamais 
cuidou dos negócios e nenhum desdém 
te vota, de medo que te ridiculizem? 

— Mas não vês, Sócrates, que bas- 


$ 


120 XENOFONTE 


tas vezes se escarnesse nos congressos 
“dos que falam bem? 


— O mesmo fazem teus cidadãos 
ilustres. E assombra-me que tu, que tão 
bem sabes levá-los de vencida quando 
tentam meter-te a ridículo, receies não 
poder arrastar-te com a turba. Não te 
ignores a ti mesmo, meu caro. Não 
caias no erro em que cabeceia a maio- 
ria dos humanos: quase todos têm os 


olhos constantemente fitos no que 
fazem os outros, sem nunca volvê-los 
para o que fazem eles próprios. Defen- 
de-te de semelhante indolência. Con- 
centra todos os teus esforços sobre ti 
mesmo e, se puderes ser-lhe útil, não 
esqueças o Estado. Com a prosperi- 
dade da coisa pública, imenso serviço 
terás prestado não somente aos cida- 
dãos em geral como a teus amigos e a 
ti próprio. 


! 


CapíruLO VIII 


Por Sócrates confundido, Aristipo 
esgorjava por confundi-lo. Mas Sócra- 
tes, desejando ser útil a seus ouvintes, 
não respondia à luz de quem traz o 
olho sobre o ombro e receia lhe refer- 
tem as palavras, porém, como homem 
convicto de que cumpre seus deveres. 
Perguntou-lhe Aristipo se conhecia 
algo bom, a fim de que, se Sócrates 
dissesse o alimento, a bebida, a rique- 
za, a saúde, a força, a coragem, 
demonstrar-lhe que por vezes são 
males. Considerando que antes de tudo 
procuramos livrar-nos do que nos faz 
padecer, deu-lhe Sócrates a melhor res- 
posta possível: | 

— Perguntas-me se conheço algu- 
ma coisa boa para febre? 

— Não. 

— Para a oftalmia? 

— Tampouco. 

— Para a fome? 

—. Muito menos. 

— Se me perguntas se conheço algo 
bom que não seja bom para nada, não 
o conheço nem tenho necessidade de 
conhecer. 

Outra vez, inquirindo-lhe Aristipo 
se conhecia alguma coisa bela: 

— Sim, conheço muitas 
belas — respondeu. 

— Serão todas semelhantes? 

— Tanto quanto possível, hã as que 
diferem essencialmente. 


coisas 


— Como pode ser belo o que do 
belo difere? 

— Por Júpiter! como de um bom 
lutador difere um bom corredor, como” 
da beleza de um venábulo, feito para 
voar com força e velocidade, difere a 
beleza de um escudo, feito para a 
defensiva. 

— Tua resposta é exatamente a 
mesma que quando te perguntei se 
conhecias algo bom. 

— Pensas que uma coisa é o bom, 
outra o belo? Não sabes que tudo o 
que por uma razão é belo, pela mesma 
razão é bom? A virtude não é boa em 
uma ocasião e bela em outra. Assim 
também se diz dos homens serem bons 
e belos pelos mesmos motivos: o que 
no corpo humano constitui a beleza 
aparente constitui também a bondade. 
Enfim, tudo o que aos homens for útil 
será belo e bom relativamente ao uso 
que disso puder fazer-se. 

— Como! então é belo um cesto de 
lixo? 

— Sim, por Júpiter ! e feio um escu- 
do de ouro, já que um foi conveniente- 
mente feito para seu uso e o outro não. 

— Dizes, pois, poderem os mesmos 
objetos ser belos e feios! 

— Como não! E podem também 
ser bons e maus: muitas vezes o que é 
bom para a fome para a febre é mau, o 
que para a febre é bom é mau para a 


122 XENOFONTE 


fome; o que é belo para a corrida não o 
é para a luta, o que para a luta é belo 
não o é para a corrida. Em suma, as 
coisas são belas e boas para o uso a 
que se destinam. Feias e más para usos 
a que não convenham. 

Da mesma forma, quando Sócrates 
dizia que a beleza de um edifício con- 
siste em sua utilidade, parecia-me ensi- 
nar o melhor princípio de construção. 
Eis como raciocinava: 

— Quando se quer construir uma 
casa — dizia — não se engenham 
meios de fazê-la o mais agradável e cô- 
moda possível? — Uma vez admitido 
esse princípio: — Não é de desejar 
seja fresca no verão e quente no inver- 
“no? — Acordado este segundo ponto: 
— Pois bem, quando as casas olham 
para o meio-dia, o sol não penetra, no 
inverno, sob as galerias exteriores, e 


passando, no verão, por cima de nos- 
sas cabeças e dos tetos, não nos deixa 
na sombra? Portanto, para receberem 
sol no inverno não hão mister mais 
altos os tetos das galerias voltadas 
para o meio-dia e mais baixos os dos 
aposentos voltados para o setentrião, a 
fim de ficarem menos expostos aos 
ventos frios? Em uma palavra, o pré- 
dio que em qualquer estação propor- 
cionar o mais aprazível retiro e o depó- 
sito mais seguro para O que se possua, 
não pode deixar de ser o melhor e o 
mais belo: pinturas e outros ornamen- 
tos mais desprazem que aprazem. 
Dizia ainda ser um sítio descoberto e 
completamente insulado o melhor 
local para os templos e altares. Que 
grato, ao orar, é não ter a vista atran- 
cada e aproxirnar-se dos altares sem 
sujar-se. 


CAPÍTULO IX 


Perguntaram-lhe um dia se a cora- 
gem é qualidade adquirida ou natural: 

— Creio — disse — que assim 
como há corpos que melhor que outros 
resistem à fadiga, almas há de natureza 
mais enérgica que outras em face das 
“dificuldades: pois vejo homens cresci- 
dos sob as mesmas leis e costumes 
muito diferirem entre si pela coragem. 
Sou de opinião, todavia, poder desen- 
volver-se o valor natural pela instrução 
e o exercício. Certo, não se afoitariam 
os citas e trácios, com a lança e o escu- 
do, a acometer os lacedemônios, nem 
tentariam os lacedemônios, com o es- 
cudo ligeiro e o venábulo, resistir aos 
trácios ou, armados de flechas, fazer 
cara aos citas. Observo que em tudo 
naturalmente se diferenciam os ho- 
mens uns dos outros, que em tudo pro- 
gridem por via do exercício. Evidente, 
pois, é deverem, assim os homens mais 
maltratados que os melhores dotados 
da natureza, quando em alguma coisa 
quiserem exceler, tomar lições e exerci- 
tar-se. 

Segundo ele, a sabedoria impres- 
cinde da temperança. Sábio e repor- 
tado considerava aquele que, conhe- 
cendo o bem e o belo, os pratica e, 
conhecedor do mal, dele sabe guardar- 
se. Perguntando-se-lhe se tinha na 
conta de sábio e reportados os que 
sabem o que deve fazer-se e, não obs- 


tante, fazem o contrário: — Reputo-os 
— respondeu — não menos despro- 
vidos de sabedoria que de temperança. 
Porque me parece que entre todos os 
partidos possíveis não há homem que 
não escolha o mais vantajoso. Nem sá- 
bios nem prudentes, pois, acho os que 
não se hão com direiteza. 

Na sabedoria dizia cifrar-se a justi- 
ça e todas as outras virtudes: que a um 
tempo belas e boas são todas as ações 
justas e virtuosas. Os que as conhecem 
nada podem preferir-lhes. Os que não 
as conhecem não somente não podem 
praticá-las como, se o tentam, só 
cometem erros. Assim praticam os sá- 
bios atos belos e bons enquanto os que 
não o são só podem descambar em fal- 
tas. E se nada se faz justo, belo e bom 
que não pela virtude, claro é que na 
sabedoria se resumem a justiça e todas 
as mais virtudes. 

Reputava a loucura contrária à 
sabedoria. Mas não considerava a 
ignorância como loucura, dissesse em- 
bora vizinhar a demência o não conhe- 
cer-se a Si mesmo e acreditar se saiba o 
que se ignore. Aditava não olhar a 
multidão como insensatos os que se 
equivocam em matérias inconhecidas 
da maior parte dos homens, ao passo 
que trata de doidos os que se enganam 
em coisas de toda gente conhecidas. 
Exemplo: Creia-se um homem assaz 


124 


grande para não poder passar sem 
abaixar-se sob as portas de uma mura- 
lha, assaz forte para querer carregar 
casas ou empreender coisas cuja im- 
possibilidade todos reconhecem, cha- 
mam-lhe louco varrido. Se só comete 
faltas ligeiras, não o trata de louco a 
multidão. E como não se dá o nome de 
amor senao a intensa afeição, assim 
não se chama loucura senão a demên- 
cia. 


Examinando qual a natureza da 
inveja, não a dizia esse sentimento 
doloroso causado pelas desgraças de 
nossos amigos ou pela prosperidade de 
nossos inimigos, só apelidando invejo- 
sos os que se afligem com a felicidade 
dos amigos. Estranhando algumas pes- 
soas que se pudesse ter amizade a 
alguém e padecesse de sua felicidade, 
observava-lhes muita gente existir in- 
capaz de abandonar os amigos na des- 
graça e que os socorre no infortúnio; 
porém se aflige de sua prosperidade. 
Acrescentava, todavia, que esse senti- 
mento jamais encontra guarida no 
coração do sábio, hóspede ordinário 
que é dos espíritos néscios. 


Refletindo sobre a ociosidade, dizia 
ver a maioria dos homens sempre ocu- 
pados em alguma coisa. Que, ao cabo 
de contas, até os jogadores de dados e 
os bufões se ocupam de algo. Tacha- 
va-os, porém, de ociosos, pois pode- 
riam fazer coisa melhor. Quando se faz 
o melhor, não há lazer para o pior e 
digno de censura é quem aquele deixa 
por este, pois só o faz quem não tem o 
que fazer. 

Reis e chefes — diria — não são os 
que carregam cetro, elegeu a multidão 
ou favoreceu a sorte, nem os que pela 
violência ou fraude usurparam o 
poder, mas os que sabem mandar. 
Posto seja o dever do chefe ordenar e o 
do súdito, obedecer, dizia que, se tiver 
num navio um homem experimentado 


XENOFONTE 


no comando, piloto e todos os outros 
marinheiros lhe obedecerão. Que assim 
é na agricultura para os que possuem 
campos. Na doença, para os doentes. 
Na ginástica, para os que exercitam o 
corpo. Que, enfim, em tudo o que exige 
indústria, se se sabe como haver-se, 
muito bem, mãos à obra. Senão, recor- 
re-se e obedece-se aos que sabem. Que 
na arte de fiar as próprias mulheres 
dirigem os homens, pois a conhecem, e 
disso os homens nada entendem. 

Se lhe objetavam ser um tirano se- 
nhor de não seguir os bons avisos que 
lhe dêem: 

— Como! -— retorquia — se o cas- 
tigo nunca falha? Que em faltas incor- 
re quem a bom conselho faz ouvidos 
moucos, e faltas querem punição. 

Se lhe diziam estar nas mãos do tira- 
no matar o conselheiro sábio: 

— Pensais -— respondia — que em 
dando morte a seus mais valiosos 
esteios não seria punido e duramente 
punido? Não vedes que, longe de tra- 
zer-lhe segurança, tal procedimento só 
faria apressar-lhe a própria ruína? 

Perguntou-lhe alguém qual era, a 
seu ver, a mais bela ocupação do 
homem: 

— Bem fazer — respondeu. 

Ajuntou-se: 

— Haverá processo para bem fazer 
as coisas? 

— Não — disse. — Acho que for- 


tuna e ação são coisas opostas. Trope-' 


çar com o fortúnio sem procurá-lo, eis 
o que chamo ter sorte. Alcançar o 
sucesso pelo próprio mérito e diligên- 
cia, eis o que chamo haver-se às direi- 
tas, e vitoriosos me parecem os que 
assim procedem. Estimáveis e caros 
aos deuses dizia os lavradores que bem 
trabalham a terra, os médicos que bem 
exercem a medicina, os homens de Es- 
tado que bem dirigem a política. E inú- 
teis aos homers e malqueridos dos 
deuses os que nada fazem bem. 


14 


15 


1 


CAPÍTULO X 


Útil era também seu trato aos artis- 
tas que vivem do próprio trabalho. 
Entrando certo dia em casa do pintor 
Parrásio, com ele entreteve a seguinte 
prática: 

— Dize-me, Parrásio, não é a pin 
tura ' representação dos objetos visi- 
veis? Não imitais, com cores, os 
entrantes e salientes, o claro e o escu- 
ro, a dureza e a moleza, a rudeza e o 
lustre, o vigor da idade e a decrepi- 
tude? 

— Assim é! 

— Se quiserdes representar formas 
de beleza perfeita, como não é fácil 
encontrar homem isento de toda im- 
perfeição, não reunireis vários modelos 
e de cada um tomareis o que de mais 
formoso possuir, compondo destart 
um todo de perfeita beleza? : 

— Éo que fazemos. 

— E aquilo que mais atrai, enleva 
e, seduz a expressão moral da alma, 
não o imitais? Ou será inimitável? 

— Como imitá-lo, Sócrates, se não 
tem proporção nem cor nem nenhum 
dos atributos que individuaste? Se, em 
uma palavra, é invisivel? 

— Quê! não se nota nos olhos ora 
afeição, ora ódio? 

-— Nota-se. 

— Portanto, não há mister retratar 
estas expressões dos olhos? 

— Há! 


— Será a mesma fisionomia de 
quem se interessa e a de quem não se 
interessa na felicidade ou desgraça dos 
amigos? 

-— Não, está claro. Na felicidade 
dos amigos brilha a-alegria no olhar, 
na desgraça mareia-o a tristeza. 

— Quer dizer que podem represen- 
tar-se também estes sentimentos? 

— Certamente. 

— Pela fisionomia e gestos dos 
homens, parados ou em movimento, é 
que se exteriorizam altaneria e inde- 
pendência, humildade e baixeza, tem- 
perança e razão, insolência e grosseria. 

— Dizes verdade. 

— Porque conseguiste não é preci- 
so reproduzi-los? 

— De acordo. 

— E a quem achar agradável de 
ver, o indivíduo cujo exterior espelha 
sentimentos elevados, honestos, simpá- 
ticos ou o que só deixa ver inclinações 
nefandas, perversas e odiosas? 

— Por Júpiter! Sócrates, nem há 
compará-los. 

Foi um dia à casa de Cliton, o esta- 
tuário, e conversando com ele: 

— Vejo e sei, Cliton — disse-lhe 
— que modelas na pedra o atleta na 
carreira, o lutador, o pugilista, o 
pancratiasta. Mas o que mais encanta 
os olhos, a chama da vida, como :a 
transmites a tuas estátuas? 


126 XENOFONTE 


E como Clíton, embaraçado, hesi- 
tasse em responder: 

— Não é modelando tuas obras por 
seres vivos — disse Sócrates — que 
fazes tuas estátuas parecerem anima- 
das? 

— Exatamente. 

— Já que as diferentes posturas nos 
fazem elevar ou baixar certos múscu- 
los do corpo, contraí-los ou distendê- 
los, fazê-los tensos e lassos, não é 
exprimindo tais efeitos que dás a tuas 
obras mais verossimilitude e naturali- 
dade? 

— Precisamente. 

— Não proporciona esta imitação 
mesma da ação corporal certo prazer 
aos espectadores? 

— Assim penso. 

-—— Não importa, pois, pintas a 
ameaça nos olhos dos combatentes, a 
alegria na visagem dos vencedores? 

-—— Sem dúvida. 

— Ao estatuário, portanto, cumpre 
exprimir por formas todas as impres- 
soes da alma. 

Outra ocasião foi Sócrates à oficina 
do armeiro Pistias, que lhe mostrou 
couraças muito bem feitas. 

— Por Juno! — exclamou — eis 
um magnífico invento! Esta couraça 
protege as partes que necessitam defe- 
sa e não obsta ao movimento dos bra- 
ços. Mas dize-me, Pistias, por que 
motivo, não sendo tuas couraças nem 
mais sólidas nem mais custosas a ti 
que as dos outros fabricantes, as ven- 
des muito mais caras? 

— Porque, Sócrates, as minhas são 
mais bem proporcionadas. 

— Mas essa proporção será con- 
forme a medida ou a balança que fazes 
pagá-la mais caro? Porque penso não 
poderes fazê-las todas absolutamente 
iguais nem de todo ponto semelhantes, 
se quiseres que assentem bem. 

— Por Júpiter ! é com o tento nisso 
que as faço. Do contrário não servi- 
riam. 


— Como fazes para que uma cou- 
raça bem proporcionada assente a 
corpo que não o seja? 

— Trato de fazê-la assentar. Desde 
que assente está bem proporcionada. 


— Pareces-me — observou Sócra- 
tes — não . entender o termo 
“proporcionado” em senso absoluto, 
mas relativo ao uso do objeto. Como 
se dissesses que um escudo é bem 
proporcionado desde que convenha a 
quem dele se sirva. O mesmo poderias 
dizer de uma clâmide ou de outro obje- 
to qualquer. Mas talvez haja nesta 
conformidade outra vantagem nada 
desprezível. 

— Ensina-ma então, Sócrates, se é 
que sabes alguma. 

— Entre duas armaduras . do 
mesmo peso, a que -assentar fatigará 
menos que a que não assentar. Esta, 
seja por pesar exclusivamente sobre os 


ombros, seja por comprimir fortemente 


alguma outra parte do corpo, será 
incômoda e dificil de carregar. A 
outra, distribuindo o peso pelas clavi- 
culas, espalda, peito, dorso e estôma- 
go, não será, por assim dizer, um 
fardo, mas parte do próprio corpo. 

— Acabas de dizer justamente por 
que vendo tão caras minhas obras. Sei, 
contudo, muita gente haver que prefere 
comprar couraças cinzeladas ou dou- 
radas. 

— Se compram couraças que não 
lhes vão com o corpo, parece-me com- 
prarem uma incomodidade cinzelada 
ou dourada. Mas de vez que o corpo 
não permanece sempre imóvel, ora se 
inclina, ora se apruma, como poderão 
assentar couraças demasiadamente 
justas? 

— Não é possivel. 

-— Dizes, pois, que as couraças vão 
bem não quando são justas, mas quan- 
do não incomodam? 

— É o que digo, Sócrates, e com- 
preendeste-me muito bem. 


o 


CapíTULO XI 


Havia nesse tempo, em Atenas, uma 
mulher de rara formosura, chamada 
Teódota, que não fazia cerimônias em 
seguir quem quer que soubesse reques- 
tá-la. Certo dia alguém falava dela.e 
dizia não existirem palavras capazes 
de exprimir a beleza dessa mulher, que 
os pintores iam visitá-la a fim de 
tomá-la por modelo e ela não fazia 
mistério de seus encantos. 

— Caramba! só vendo! — excla- 
mou Sócrates. — Não será ouvindo 
que se há de ter idéia do que não Epi: 
me a palavra. 

— Não percamos tempo:. acompa- 
nha-me, — disse o narrador. 

Dirigiram-se à casa de Teódota e, 
encontrando-a com um pintor que lhe 
estudava as formas, puseram-se a 
observá-la. Quando o pintor terminou: 

— Amigos meus — disse Sócrates 
— " agradeceremos nós a Teódota o 
haver-nos deixado admirar sua beleza, 
ou deverá agradecer-nos ela o termo-la 
contemplado? Se mais prazer teve ela 
exibindo-se, agradeça-nos ela. Se mais 
gozamos nós admirando-a, Artddeças 
mos-lhe nós. 

Tendo-lhe alguém dado razão: 

— Convenho — disse — que dé 
nós não ganha ela senão elogios. Mas 
como os publicaremos à boca grande, 
ser-lhe-ão utilíssimos. Quanto: a nós, 
presas do desejo de: tocar o que 


contemplamos, ir-nos-emos mordidos 
no coração, tomados de arrependi- 
mento. Depende, sermos nós escravos 
e ela soberana. 

— Por Júpiter! — disse Teódota 
— se é assim, cumpre-me agradecer- 
vos por vos ter oferecido o espetáculo. 

A este ponto, vendo-a Sócrates 
soberbamente paramentada e, perto, 
sua mãe, vestida de maneira pouco 
comum, depois um sem-conta de gra- 
ciosas e ataviadas escravas, por fim 
uma casa abundantemente provida de 
todo o necessário: 

—. Uma coisa, Teódota — disse-lhe 
—, possuis terras? . 

— Nenhuma. 

— Então tens alguma casa que te. 
forneça rendas? 

— Também não. 

— Possuirás escravos? 

— Nenhum. 

— De que diabo, então, vives? 

— Do que me dão os amigos. 

— Por Juno! cara Teódota, um 
amigo é uma aquisição e tanto, e mais 


-vale uma penca de amigos que um 


rebanho de ovelhas, bois e cabras! 
Mas largas-te à fortuna, esperando qué 
OS amigos apareçam como as moscas, 
ou empregas alguns artifícios? 

— Como queres que empregue arti- 
fício? 

— Muito mais facilmente que as 


128 


aranhas. Sabes como elas caçam a 
presa: tecem uma teia sutil e tudo o 
que nela cai lhes serve de alimento. 

— Aconselhas-me, pois, a também 
tecer uma teia? 

— Não penses que sem arte pos- 
sam caçar-se amigos, a mais preciosa 
das presas. Não vês quanta astúcia 
empregam os caçadores para caçar as 
lebres, presa muito menos prestante? 
Como as lebres pastem de noite, aper- 
cebem-se eles de cães que enxerguem 
no escuro e póem-se na pista da caça. 
De dia as lebres pôem sebo nas cane- 
las, e então se munem eles de outros 
cães que, ao se recolherem elas do 
pasto para as tocas, as, farejam e 
desemboscam. Tão boas pernas têm as 
lebres, que mal as acompanha a vista: 
arranjam-se cães, assaz ligeiros para 
alcançã-las na carreira. Contudo algu- 
mas há que escapam: armam-se laços 
nas sendas por onde fogem para que 
neles caiam e sejam colhidas. 

— Mas qué meio usarei para caçar 
amigos? 

— Em vez de cão é preciso ter 


alguém que rasteie os ricaços aprecia- | 


dores da beleza e, uma vez encontra- 
dos, engenhe meios de os atrair a teus 
laços. 

— Que laços tenho eu? 

— Um único, é verdade, mas o 
mais inextrincável de todos: teu corpo, 
e nesse corpo uma alma que te inspira 


o feitiço do olhar, a sedução da pala- 
vra, te ensina a receber quem te reques- 
ta, repélir quem te desdenha, visitar 
solicita um amigo doente, felicitar com 
calór quem bem se haja portado, reco- 
nhecer de toda a alma as homenagens 
que te rendem. Sei que um amante te 
demonstra tanta ternura quanto bene- 
volência. E se tens amantes ilustres, 
menos não os encantam tuas ações que 
tuas palavras. 

— Juro-te — exclamou Teódota — 


XENOFONTE 


que não lanço mão de nenhum desses 
meios. 

— Entanto, não é indiferente saber 
tratar cada um consoante seu caráter, 
pois não é pela força que se careia ou 
conserva um amigo: benevolência e 
prazer são o visgo que apresa e retém 
essa caça. 

— Dizes a verdade. 

— À uma, não peças aos que te 
solicitam mais do que poderiam dar. A 
outra, paga-os na mesma moeda. 
Assim te amarão mais, permanecereis 
unidos por mais tempo e far-te-ão 
maiores larguezas. Para comprazê-los, 
nada melhor que conceder-lhes apenas 
o que desejam ardentemente. Vês que, 
servidos a quem não tenha apetite, ne- 
nhum sabor apresentam os mais deli- 
cados manjares e inspiram desgosto a 
convivas fartos enquanto deliciosos 
sabem os alimentos mais simples a 
quem tem fome. 

— Como excitar o apetite dos que 
me visitam? 

— Nada mais lhes oferecendo 
quando estiverem saciados, não os 
chamando segunda vez ao repasto 
antes que, termiriada a digestão, se 
haja reacendido a necessidade. Depois, 
reavivado o desejo, dando-lhes a énten- 
der ser tua cativante familiaridade e 
teu assentimento um favor todo volun- 
tário e por vezes até fugindo-os para a 
necessidade tocar o extremo. Muito 
perdem os favores de preço quando 
precedem o desejo. 


— Pois bem, Sócrates — disse : 
Teódota — por que não me auxilias a 


caçar amigos? 

— Por Júpiter! Com todo o prazer, 
se a tanto me decidires. 

— Decidir-te de que jeito? 

— Busca-o tu mesma, e se-necessi- 
tas de mim o encontrarás. 

— Vem, pois, ver-me a miúdo. 

— Não será fácil achar tempo — 
respondeu Sócrates, zombando a pro- 


13 


15 


MEMORÁVEIS-III 129 


pósito de seus quefazeres — meus 
numerosos negócios particulares e pú- 
blicos não me deixam vagares. Depois, 
tenho amantes que, graças aos filtros e 
feitiços que lhes ensinei, não me permi- 
tem deixá-las nem de dia nem de noite. 

— Quê! Sócrates, sabes confec- 
cionar filtros? 

— Por que, pensas, Apolodoro e 
Antístenes não me largam um instan- 
te? Como julgas que Cebes e Símias 


abalam de Tebas para ver-me? Fica 
sabendo que isso não se consegue sem 
filtros, encantamentos, “pastorinhas”. 

-—— Empresta-me então uma “pas- 
torinha” para conquistar-te. 

— Essa é boa! Não quero ser 
conquistado: prefiro conquistar-te. 

— Então irei ter contigo, mas hás 
de réceber-me. 

— Receber-te-ia se não tivesses em 
casa alguém a quem amo mais que a ti. 


CapíTULO XII 


Reparando que Epígenes, um de 
seus jovens discípulos, era de má 
compleição: 

— Quão plebeu és de físico, Epíge- 


nes ! — disse-lhe. 
-— Sei, também não sou mais que 
um plebeu ! — trocadilhou o outro. 


— Não o são menos os que comba- 
tem nos jogos olimpicos. Então não 
será nada o combate cujo prêmio é a 
vida, caso venham a propô-lo os 
atenienses? Quantos os homens que, 
por causa de má constituição fisica, 
morrem nos campos de batalha, quan- 
do não compram a vida ao preço da 
desonra! Pelo mesmo motivo muitos 
são feitos prisioneiros e passam o resto 
de seus dias na mais dura escravidão. 
Ou, pagando resgate superior a suas 
fortunas, vêem-se reduzidos às mais 
tristes necessidades e arrastam o resto 
da existência na dor e na miséria. Ou- 
tros enfim adquirem má reputação por 
sua fraqueza física, passando por co- 
vardes. Desdenhas destes castigos re- 
servados à fraqueza? Serias capaz de 
sofrê-los facilmente? Por mim acho 


muito mais suaves as fadigas a que 
deve submeter-se quem se propõe for- 
talecer o corpo. Ou reputas a fraqueza 
para todos os efeitos mais vantajosa 
que a robustez? Entretanto as coisas 
correm muito diferentes para os que 


possuam bom ou mau físico. Saúde e 
vigor é o galardão dos bem consti- 
tuídos de corpo. Muitos por fortes, sal- 
vam-se com honra dos azares da guer- 
ra, sobrelevam todos os perigos, 
socorrem os amigos, prestam serviços 
à pátria e por esses feitos tornam-se 
dignos de reconhecimento, ganham 
fama, alcançam as primeiras honras e 
passam o resto da vida ditosos e consi- 
derados, herdando aos filhos preciosos 
meios de existência. Não ordene o Es- 
tado praticar publicamente os exerci- 
cios militares, isso não é razão para os 
descurarem os particulares, que a eles 
não devem aplicar-se com menor assi- 
duidade. Convence-te que, empenhes- 
te no que te empenhares, faças o que 
fizeres, nunca te arrependerás de haver 
exercitado o corpo. Em todos os atos 
tem o corpo sua utilidade; e no que 
quer que o empreguemos, essencial: é 
que seja bem constituído. Mais: até nas 
funções em que o julgas de somenos 
importância, quero dizer as da inteli- 
gência, quem não sabe cometer o cére- 
bro erros frequentes, em virtude da mã 
constituição física? Falta de memória, 
morosidade de espirito, preguiça, a 
própria loucura, não raro, são conse- 
quências de disposição viciosa dos ór- 
gãos, a qual ataca a inteligência a 
ponto de fazer-nos esquecer o que 
sabemos. Ao contrário, são O corpo, o 


7 


132 XENOFONTE 


homem está seguro de todos esses 
males, e frutos de todo opostos, certo, 
produzirá sua compleição vigorosa. 
Que não fará um homem de bom senso 
para evitar tamanhos males e alcançar 
s tamanhos bens? Ademais, ignominioso 


é envelhecer nessa indolência, sem 
saber o quanto não se poderia acres- 
centar à própria força e beleza. Ora, 
isto só se consegue mediante o exerci- 
cio, que tais presentes não nos caem do 
céu. 


CAPÍTULO XIII 


Encolerizando-se alguém certo dia, 
por haver saudado uma pessoa que 
não lhe retribuiu o nun: dis- 
se-lhe Sócrates: 

— Simplesmente risível é não inco- 
modar-te o encontro com um doente e 
tanto te agastares de topar com um 
grosseiro. - 

Outro queixava-se de comer sem 
vontade: 

— Ensina Asmeno — disse- lhe — 
bom remédio para isso. 

— Qualé? 

— Comer menos. Diz que com esta 
abstinência ganham o PaRceo a bolsa 
e a saúde. 

Terceiro dizia só ter em casa, para 
beber, água quente. 

— Não precisarás RR quan- 
do quiseres banhar-te — respondeu. 

— É muito fria para o banho. 

— Queixam-se teus criados de be- 
bê-la ecom ela banhar-se? 

— Não, por Júpiter ! nem me admi- 
ra que o façam, com prazer. 

— "Qual a água mais quente, a tua 
ou a do templo de Esculápio? 

— A de Esculápio. 

— Qual a mais fria, a tua ou a do 
templo de Anfiarau? 

— A de Anfiarau. 

— Vês, pois, seres mais dificil con- 
tentar que os criados e os enfermos. 

Um amo maltratara rudemente seu 


servidor. Perguntou-lhe Sócrates a 
razão: 

— É o sujeito mais comilão e 
madraço que já vi. Só quer saber de 
dinheiro e de vadiar. 

— Já examinaste quem merece 
mais ser castigado, se tu, se teu 
escravo? 

Assombrando-se alguém de ter de 
viajar a Olímpia: 

— Por que — inquiriu Sócrates — 
te assombra essa viagem? Não passas 
quase o dia inteiro trançando de um 
lado para outro em tua casa? Viajando 
passearás, depois almoçarás. Passea- 
rás outra vez, jantarás e repousarás. 
Não sabes que somando-se os passeios 
que deres em cinco ou seis dias facil- 
mente irás de Atenas a Olímpia? E me- 
lhor farás partindo um dia antes que 
em deferindo a viagem. Que molesto é 


ter-se de fazer jornadas muito longas e - 


agradável levar um dia de vantagem 
sobre os próprios planos. Antes apres- 
sar a partida que depois ter de dar tra- 
tos às canelas. 

Outro dizia-se fatigado de longa 
caminhada que acabara de fazer. Inda- 
gou-lhe Sócrates se carregava algum 
peso: 

— Não é verdade, nada trazia além 
do manto. 

-—— Viajavas só ou acompanhado de 
algum servidor? 


6 


134 XENOFONTE 


— Tinha um servidor. 

— Vinha ele de mãos abanando ou 
trazia alguma coisa? 

— Carregava minha roupa e o 
resto da bagagem. 

— FE como foi de viagem? 

— Melhor que eu, suponho. 


-—— Se tivesses de carregar o fardo 
que carregava teu criado, como te: 
arranjarias? 

— Nem sei. Talvez não o pudesse. 

— (Como! achas digno de homem 
livre e exercitado na ginástica suportar 
a fadiga menos que um escravo? 


CapíTuLO XIV 


Quando seus amigos iam cear em 
sua casa e uns levavam pouco, outros 
muito, Sócrates mandava o criado pôr 
em comum o prato mais pequeno ou 
reparti-lo fraternalmente entre os con- 
vivas. Os que levavam mais teriam ver- 
gonha de não servir-se do que era 
posto em comum e em comum pór 
também o próprio prato, sendo assim 
constrangidos a fazê-lo. E como nada 
tinham que lucrar mais que os que 
levavam menos, deixaram de levar pra- 
tos custosos. 

Tendo notado que um dos convivas 
não comia pão e só se servia de carne, 
e encaminhando-se casualmente a con- 
versa para a propriedade dos termos, a 
que gênero de ações deve aplicar-se 
cada epíteto: 

— Poderíamos examinar, amigos 
meus — propôs Sócrates — por que 
sói chamarem-se certos homens de 
carnívoros? Toda gente come carne 
com pão, desde que a tenha. Mas pare- 
ce-me não ser este o motivo por que se 
chamam certas pessoas de carnívoras. 

— Claro que não — disse um dos 
comensais. 

— E quem come carne sem pão, 
não por necessidade, como os atletas, 
mas por prazer, será carnívoro, sim ou 
não? 

— Quem mais havia de sê-lo? 

— E quem com pouco pão come 


muita carne? perguntou outro. 

— Acho — opinou Sócrates — 
que também deve chamar-se carnívoro. 
E quando os outros pedirem aos deu- 
ses abundância de frutos, ele deverá 
pedir abundância de carne. 

Enquanto assim falava Sócrates, o 
Jovem, percebendo-se o alvo da con- 
versação, começou a servir-se de pão, 
mas sem deixar de atafulhar a boca de 
carne. Advertindo-o, disse Sócrates: 

— Atentai nesse jovem, vós que es- 
tais perto dele; serve-se de pão para 
comer carne ou de carne para comer 
pão? 

Notou, outra feita, que a cada boca- 
do de pão um dos convivas debicava 
diversos pratos. 

—— Haverá — perguntou Sócrates 
— cozinha mais dispendiosa e prejudi- 
cial aos alimentos que a de homem que 
coma não sei quantas iguarias e use 
não sei quantos molhos ao mesmo 
tempo? Misturando assim mais ali- 
mentos do que fazem os cozinheiros, 
não só gasta mais, como, encambu- 
lhando ao reverso do uso, muitas subs- 
tâncias que não se casam e razão têm 
os cozinheiros de não mesclar, vai de 
encontro à arte culinária. Não é ridi- 
culo procurar os mais hábeis cozi- 
nheiros e, não entendendo patavina do 
ofício, pôr a perder o que fizeram? 
Outra inconveniência acarretada pelo 


7 


136 


vezo de comer muitas viandas juntas é 
supor-se a gente na miséria quando 
menor é o número de pratos e lamen- 
tar-se o cardápio costumado. Ao con- 
trário, estando-se habituado a um 
único prato, faltando os outros não se 
lastimará de só ter um. 

Observava expressarem ós atenien- 


XENOFONTE 


ses o ato de comer por termo que signi- 
fica “bem comer”, acrescentando que 
o vocábulo “bem” junto a “comer” in- 
dica que o alimento não deve ser 
nocente ao corpo nem ao espírito, nem 
de difícil obtenção. Em uma palavra, 
por “bem comer”, entendia “viver com 
moderação”. 


CAPÍTULO I 


Tão útil era Sócrates em todas as 
ocasiões e de todas as maneiras, que 
até as inteligências medíocres facil- 
mente compreendiam nada haver mais 
vantajoso que seu comércio e freguen- 
tação. À sua ausência, bastava a sua 
só lembrança para muito edificar seus 
discípulos habituais e aqueles que inda 
hoje o têm por mestre. Não instruía 
menos pelos brincos que pelas lições 
sérias. Dizia de cotio amar a todos, 
mas bem era de ver que, longe de ater- 
se à beleza do corpo, só se prendia às 
almas virtuosas. Considerava índice de 
natural bondoso a prontidão no apren- 
der e reter, o amor de todas as ciências 
que ensinam a bem administrar uma 
casa ou uma cidade, em suma, a tirar 
provento dos homens e das coisas. 
Assim formado, dizia, o homem não só 
é feliz, capaz de gerir sabiamente sua 
casa, como felizes pode tornar outros 
homens e cidades. Não tratava todos 
do mesmo modo. Aos que, acreditan- 
do-se favorecidos da natureza, despre- 
zavam o estudo, ensinava que mais 
ainda que os outros hão mister cultiva- 
dos os caracteres aparentemente mais 
felizes. Em abono do quê, dizia que os 
potros mais generosos, vivazes e fogo- 
sos dão as melhores cavalgaduras 
quando domados desde novos, mas 
que, se se descuida de amestrá-los, tor- 
nam-se respingões e imprestáveis. Se- 
melhantemente os cães da melhor raça, 
infatigáveis e ardentes na perseguição 


dos animais, se adestrados a preceito, 
tornam-se os melhores caçadores, 
porém, se mal ensinados, tornam-se 
estúpidos, furiosos e obstinados. Da 
mesma forma, se recebem educação 
adequada e aprendem o que devem 
fazer, os melhor dotados dos homens, 
os mais bem temperados e enérgicos de 
ânimo em tudo que empreendem, tor- 
nam-se excelentes, utilíssimos e reali- 
zam grandes coisas. Porém, se não 
recebem educação nem instrução, tor- 
nam-se malíssimos e perigosíssimos. 
Incapazes de discernir o que devem 
fazer, vezes muitas tentam empresas 
criminosas e fazem-se altaneiros e vio- 
lentos, recalcitrantes e bravios, cau- 
sando assim os maiores males. Quanto 
aos que, orgulhosos de suas riquezas, 
nenhuma necessidade pensavam ter de 
instrução e imaginavam bastar-lhes 
serem ricos para realizar todos os seus 
desígnios e fazer-se honrar dos ho- 
mens, chamava-os à razão dizendo- 
lhes ser estupidez acreditar que sem es- 
tudo se possa distinguir o útil do 
nocivo. Estupidez, quando não se 
departe o útil do prejudicial, crer-se 
capaz de alguma coisa útil por ter-se 
dinheiro para comprar o que quiser. 
Estupidez, quando nada sabemos 
fazer, julgamos poder ser felizes e viver 
honestamente. Estupidez, nada saben- 
do, presumirmos que a riqueza nos 
faça passar por sábios ou que, inúteis, 
nos granjeie estima. 


e gonero 


CapíruLO TI 


Contarei agora como Sócrates ata- 
cava os que presumiam ter recebido 
ótima educação e se vangloriavam de 
sua sabença. Sabia haver o belo Euti- 
demo reunido copiosa coleção de 
obras dos mais afamados poetas e filó- 
sofos e que só por isso se jactava de 
campear em sabedoria aos de sua 
idade, a todos esperando exceler em 
eloguência e feitos. Sem embargo, 
muito jovem ainda para ter mão no 
congresso, quando se interessava em 
alguma questão, sentava-se na tenda 
de um freieiro, vizinha à praça. Para lá 
se dirigiu Sócrates com alguns amigos. 
Vai daí lhe perguntou um deles se era 
ao comércio de algum sábio ou à natu- 
reza só por só que devia Temístocles 
tal superioridade a seus concidadãos, 
que sempre que necessitava de um 
homem de mérito para ele volvia os 
olhos a República. Sócrates, que que- 
ria picar Eutidemo, respondeu que 
necedade é acreditar impossível tor- 
nar-se hábil nas artes mais vulgares 
sem as lições de bom mestre, e crer 
brotar espontaneamente no espírito a 
mais importante de todas as ciências, a 
do governo. 

Outra vez, advertindo Sócrates que, 
rêéceoso de passar por admirador de 
sua sabedoria, Eutidemo evitava sen- 
tar-se perto dele, disse: 

-— Quando tiver idade e propuser à 


República alguma deliberação, certa- 
mente Eutidemo não deixará de dar 
sua opinião. E já que não quer parecer 
nada ter aprendido de ninguém, decer- 
to tem pronto algum magnífico exórdio 
para seus discursos. Eis, sem dúvida, 
como principiará: “Jamais, atenienses, 
nada aprendi de ninguém. Jamais, 
quando ouvi falar de homens elo- 
quentes e versados nos negócios, lhes 
procurei a sociedade. Jamais me dei ao 


“trabalho de tomar professor entre os 


cidadãos esclarecidos. Ao contrário, 
tive sempre o maior cuidado em evitar 
não só receber lições como parecer que 
as recebia. Não obstante, dar-vos-ei o 
conselho que me sugeriram as mos- 
cas”. Exórdio desta laia conviria igual- 
mente muito bem a quem desejasse 
obter o emprego de médico público. 
Começaria assim: “Ninguém, atenien- 
ses, me ensinou a medicina. Nunca 
procurei as lições de nenhum de nossos 
médicos e não só mê guardei de com 
eles aprender o que quer que fosse, 
como ainda não quis parecer haver 
estudado esta profissão. Não vacileis, 
todavia, em confiar-me o emprego de 
médico. Diligenciarei instruir-me fa- 
zendo experimentos em vós”. 

Todos os assistentes desandaram a 
rir do exórdio. Então Eutidemo entrou 
a prestar atenção às palavras de Sócra- 
tes. Mas se abstinha de falar, ciente de 


142 XENOFONTE 


que seu silêncio passaria por modéstia. 
Desejando curá-lo desta idéia, disse 
Sócrates: 

— É simplesmente de espantar que 
os que desejam tocar citara ou flauta, 
montar a cavalo ou adquirir outra 
habilidade qualquer busquem a tanto 
tornar-se aptos mediante contínuo 
exercício, tomando por juízes não a si 
próprios, mas os melhores mestres, 
tudo façam e sofram que lhes impo- 
nham estes, enquanto os que preten- 
dem ser bons oradores e bons políticos 
Julgam poder consegui-lo por si mes- 
mos e de momento para outro, sem 
preparação e sem exercício. No entan- 
to, tal escopo parece muito-mais dificil 
de atingir que o primeiro, tanto que 
muitos a ele visam e pouquíssimos o 
alcançam. Evidente é, portanto, reque- 
rer a política muito maior aplicação 
que qualquer outra carreira. 

Tais eram de começo, as falas que 
em presença de Eutidemo, simples 
ouvinte, proferia Sócrates. Mas logo 
que percebeu a boa disposição, e pra- 
zer com que o escutava o jovem, foi 
“sozinho à oficina do seleiro, sentando- 
se Eutidemo a seu lado: 

— Dize-me, Eutidemo — falou-lhe 
Sócrates —, é certo, como ouço dizer, 
haveres coligido grande cópia de obras 
de homens famigerados pelo saber? 

— Sim, Sócrates. E continuarei a 
" colecioná-las até reunir o maior núme- 
ro possível. 

— Por Juno! Admiro-te por have- 
res preferido ao ouro e à prata Os 
tesouros da sabedoria. Indubitavel- 
mente sabes que a prata e O ouro não 
tornam os homens melhores, de passo 
que milionários de virtude fazem as 
sentenças dos sábios aqueles que as 
possuam. 

Eutidemo regozijava-se com tais 
palavras, persuadido de que aos olhos 
de Sócrates estava no vero caminho da 


sabedoria. Advertindo-o sensível ao 
elogio, prosseguiu Sócrates: 

— Em que, pois, Eutidemo, preten- 
des abalizar-te reunindo tantas obras? 

Como Eutidemo guardasse silêncio, 
à caça de resposta, sugeriu Sócrates: 

— Não queres ser um grande médi- 
co? Há muitas obras escritas por 
médicos. 

— Que esperança! 

— Então queres ser arquiteto? A 
arquitetura também exige instrução. 

— Tampouco. 

— Não desejas ser bom geômetra, 
como Teodoro? 

— Quê, geômetra o quê! 

— Quererás ser astrólogo? 

Tendo Eutidemo respondido que 
não: 

— Ah! Já sei, queres ser rapsodo? 
Pois dizem teres todos os poemas de 
Homero. 

— Menos ainda. Não ignoro que os 
rapsodos sabem os versos de memória, 
mas nem por isso são menos idiotas. 

— Não almejas, Eutidemo — con- 
tinuou Sócrates —, essa ciência que 
torna'os homens aptos a governar as 
casas e o Estado, mandar, ser útil a si 
mesmos e aos demais? 

— Sim — respondeu Eutidemo —, 
eis o mérito que ambiciono. 

— Por Júpiter! — exclamou Só- 
crates — visas à maior e mais emi- 
nente das ciências. É a ciência dos reis, 
e por isso se chama ciência real. Mas 


examinaste se é possível, sem ser justo, 


nela brilhar? 

— Sim, e creio impossível, sem jus- 
tiça, ser bom cidadão. 

— Como buscar ser justo? 

— Em questão de justiça, Sócrates, 
penso que ninguém me leva as lampas. 

— Terão os homens justos suas 
funções, como os artesãos? 

— Claro. 

— Assim como os artesãos expõem 


32 


MEMORÁVEIS-IV 


suas obras, não podem os justos dizer 
quais são as suas? 

— Como não! — disse Eutidemo. 

— Que mais fácil que enumerar as coi- 
sas justas? O mesmo poderia fazer 
com as injustas: haverá coisa mais 
comum? 
Queres, pois, escrevamos aqui 
um “J”? e ali um “P?? Em seguida colo- 
caremos de baixo do “J” o que nos 
parecer justo e o injusto de baixo do 
RE figa 

— Seo achas necessário... 

Após escrever como dissera, prosse- 
guiu Sócrates: 

— Não existe, entre os homens a 
mentira? 

Sem dúvida. 
De que lado a colocaremos? 
Evidentemente do lado da injus- 


E o embuste, também não exis- 


Certamente. 

De que lado colocá-lo? 

Também do lado da injustiça. 

E os maus tratos? 

Igualmente. 

A escravidão? 

Sempre do lado da injustiça. 
Mas então nada poremos do 
lado da justiça, Eutidemo? 

— Seriaestranho. 

— Como! se um homem eleito 
general escravizar uma cidade injusta e 
inimiga, di-lo-emos injusto? 

Não, por certo. 

Então procederá justamente? 
Sem dúvida. 

E se enganar os inimigos na 
guerra? 

— Ainda será justiça. 

— Se talar, pilhar os bens dos ini- 
migos, não procederá ainda com justi- 
ça? 

— Seguramente. Mas pensei que 
tuas palavras só se referissem aos 
amigos. 


143 


— Então não cumpre colocar 
igualmente do lado da justiça tudo o 
que pusermos do outro lado? 

— É o que me parece. 

— Queres que, colocando todas 
estas ações do lado que designas, esta- 
beleçamos por princípio serem justas 
contra inimigos, porém injustas contra 
amigos, e que em relação a estes deve- 
mos proceder com toda a direitura? 


— Com todo o gosto — anuiu 
Eutidemo. 

— Pois bem — prosseguiu Sócra- 
tes —, se, vendo suas tropas desanima- 


das, anuncia-lhe falsamente um gene- 
ral que lhes chegam auxílios e destarte 
logra devolver-lhes a coragem, de que 
lado colocaremos esta peta? 

— Do lado da justiça, creio. 

— E se necessitando uma criança 
de remédio e não querendo tomá-lo, 
seus pais a enganam, impingindo-lhe o 
remédio de mistura com os alimentos, 
e assim a restituem à saúde, onde colo- 
caremos este logro? 

— Do mesmo lado. 

— Enfim, se vejo um amigo presa 
do desespero e recear de que atente 
contra a vida, tomo-lhe a espada e 
todas as demais armas, de que lado 
colocas semelhante ato? 

— Por Júpiter ! do lado da justiça. 

— Então dizes que devemos proce- 
der com toda a retidão no que respeita 
aos amigos? 

— Não, e, se me for permitido, reti- 
TO O que disse. 

— Ânfes isso que perseverar no 
erro. Mas, para não deixar este ponto 
sem exame, dos homens cujas mentiras 
prejudicam os amigos, qual o mais 
injusto, o que engana voluntariamente 
ou o que faz sem querer? 

— Sócrates, já não tenho confiança 
em minhas respostas. Tudo o que exa- 
minamos parece-me agora inteira- 
mente diverso do que o imaginava. 
Todavia, seja-me permitido dizer que 


18 


20 


2! 


22 


144 


mais injusto que quem engana sem 
querer é quem o faz de propósito. 

-— Pensas haver uma ciência do 
justo como a há da escritura? 

— Sim. 

— Quem, a teu ver, melhor conhece 
as letras, o que escreve ou lê mal 
voluntariamente ou o que assim proce- 
da involuntariamente? 

— O primeiro, pois, desde que o 
queira poderá fazê-lo bem. 

— Então, quem escreve mal volun- 
tariamente sabe escrever, e quem o faz 
involuntariamente não? 

— Como poderia 
forma? 

— Quem, pois, conhece a justiça: 
quem mente e engana por querer ou 
quem o faz sem querer? 

— O primeiro, evidentemente. 

— Então dizes o que sabe escrever 
mais letrado que o que não o sabe? 

— Pois é. 

— E o que conhece as regras da 
Justiça mais justo que o que não as 
conhece? 

— Penso que sim, mas nem eu 
mesmo já me entendo. 

— Que dirias, Eutidemo, de alguém 
que quisesse dizer verdade e contudo 
jamais se explicasse da mesma forma 
sobre as mesmas coisas? Que, falando 
do mesmo caminho, ora dissesse que 
leva ao Oriente, ora ao Ocidente? 
Fazendo o mesmo cálculo, já obtivesse 
mais, já obtivesse menos? 

— Evidentemente não saberia .o 
que presumia saber. 

— Conheces pessoas a que se cha- 
mam servis? 

— Conheço. 

— Será por causa de sua sabedoria 
ou de sua ignorância? 

— Claro que por causa de sua 
ignorância. 

— Chamá-las-ão assim por não 
saberem trabalhar os metais? 

— Não. 


ser de outra 


XENOFONTE 


— Por não saberem construir? 

— Também não. 

— Então porque não sabem talhar 
o couro? 

— Não é por nada disso. Antes 
pelo contrário, porquanto a maioria 
dos que exercem! tais misteres são pes- 
soas servis. 

— Dá-se este nome, pois, aos que 
ignoram o que seja o belo, o bom e o 
justo? 

— Assim creio. 

— Então cuidado ! que não nos vão 
chamar servis. 

— Ah! pelos deuses, Sócrates, jul- 
gava-me muito adiantado em filosofia 
e no verdadeiro caminho da virtude. 
Imagina qual não seja minha desilu- 
são, depois de tanto trabalho, vendo- 
me engasgar com perguntas sobre o 
que mais importa saber e sem atinar 
como fazer-me melhor ! 


— Dize-me, Eutidemo, já estiveste 
em Delfos? 

— Duas vezes, por Júpiter ! 

— Então leste a inscrição gravada 
no templo: Conhece-te a ti mesmo? 

— Li. 

— Não deste importância ao con- 
selho ou o aceitaste e diligenciaste 
saber quem és? 


— Por Júpiter! então não havia de 
conhecer-me a mim mesmo?! Difícil 
me fora aprender outra coisa, se a mim 
próprio me ignorasse. 


— Então pensas que conhecer-se a 
si mesmo seja saber como se chama? 
Assim como não crêem os compra- 
dores de cavalos conhecer o animal 
que desejam comprar antes de verifi- 
carem se é dócil ou empacador, forte 
ou fraco, ligeiro ou lerdo, enfim, todas 
as boas ou más qualidades de uma 


cavalgadura, não deve pesar-se a pró-. 


pria capacidade para se saber quanto 
se vale? 
— Efetivamente, parece-me que 


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30 


MEMORÁVEIS-IV 


não conhecer o próprio valor é igno- 
rar-se a si mesmo. 

— Não é evidente ser esse conheci- 
mento de si mesmo fonte de infinidade 
de bens, enquanto milhares de males 
acarreta a visão zarolha das próprias 
possibilidades? Os que se conhecem a 
si mesmos sabem o que lhes é útil e 
distinguem o que podem do que não 
podem fazer. Realizando o que está em 
seu poder, obtêm o necessário e vivem 
felizes. Abstendo-se do que vai além de 
suas forças não resvalam no erro e 
esquivam o insucesso. Enfim, estando 
em melhores condições de julgar os 
homens, podem, empregando-os pro- 
veitosamente, angariar grandes bens e 
poupar grandes males. Ao contrário, 
os que não se conhecem a si mesmos e 
ignoram o próprio valor não julgam 
melhor os homens que as coisas huma- 
nas. Não sabem nem o que lhes cum- 
pre fazer, nem como o fazem. À res- 
peito de tudo iludidos, deixam escapar 
a felicidade e esbarrondam-se na ruína. 
Os que obram com conhecimento de 
causa atingem o fim colimado e gran- 
jeiam honra e consideração. Seus 
iguais comprazem-se de sua sociedade. 
Nos reveses procuram seus conselhos, 
entregam-se-lhes nas maos, neles fun- 
dam suas esperanças de bom êxito e 
por tudo isso os estimam mais que a 
ninguém. Já os que vivem às cegas 
metem-se a fazer o que não deviam, 
malogram em todos os empreendi- 
mentos e, sobre castigados pelo mau 
sucesso, tornam-se em objeto de des- 
prezo e ridículo, vivendo escarnecidos 
e desconsiderados. Podes ver igual- 
mente que dentre as cidades que, igno- 
rando as próprias forças, movem guer- 
ras a Estados mais poderosos, umas 
são destruídas, outras trocam a liber- 
dade pela escravidão. 

— Estou plenamente de acordo, 
Sócrates — conveio Eutidemo — ser 
da máxima importância o conhecer-se 


145 


a si próprio. Mas por onde começas o 
exame? Serei todo ouvidos se quiseres 
ensinar-mo. 

— Sabes — perguntou Sócrates — 
quais são os bens e quais são os 
males? 

— Ora essa! se não soubesse isso 
estaria abaixo dos escravos. 

— Pois bem, enumera-mos. 

— Nada mais fácil. Primeiro, repu- 
to a saúde um bem e a doença um mal. 
Depois, considerando as causas desses 
dois estados, creio as bebidas, os ali- 
mentos € as ocupações — bens quando 
trazem saúde, males quando trazem 
doença. 

— Em consequência, saúde e doen- 
ça serão elas próprias bens se vierem 
para bem, males se vierem para mal. 

— Corno poderia a saúde vir para 
male a doença para bem? 

— Quantas não são as pessoas 
robustas que, tomando parte em sua 
expedição inglória, uma viagem funes- 
ta, embarcam para a cidade dos pês 
Juntos ao passo que as fracas voltam 
sas e salvas? 

— É verdade, mas os fortes fazem- 
se úteis, enquanto os fracos ficam de 
banda. 

— Por outra, o que já é útil, já inú- 

til, não será antes bem que mal? 
Assim me parece, pelo menos de 
acordo com este raciocínio. Mas não 
resta dúvida ser a ciência um bem: em 
que não se sairá o homem instruído 
melhor que o ignorante? 

— Como! não ouviste contar que 
por causa de sua indústria Dédalo foi 
aprisionado por Minos, coagido a ser- 
vi-lo e privado ao mesmo tempo da pá- 
tria e da liberdade? Que, tentando 
fugir com o filho, perdeu-o e não con- 
seguiu salvar-se, indo dar com os cos- 
tados em plagas de bárbaros que de 
novo o fizeram escravo? 

— De fato é o que dizem. 

— E Palamedes? Não ouviste falar 


3! 


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Jó 


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146 


de suas desventuras? É voz geral que 
Ulisses, invejoso de sua sabedoria, fê- 
lo perecer. 

— Assim dizem. 

— E quantos outros homens, não é 
verdade?, notáveis pelos talentos, 
foram aprisionados pelo grande rei e 
convertidos em escravos? 


-—— Pelo menos, Sócrates, não pade- 
ce a menor dúvida que a felicidade é 
um bem. 

— Sim, Eutidemo, a menos que a 
façam consistir em bens equívocos. 

— Que pode haver de equívoco no 
que constitui a felicidade? 

— Nada, contanto que não a po- 
nham em beleza, força, riqueza, glória 
e o mais que segue. 


— Por Júpiter! se: é justamente 
nisso que a ciframos! Como ser feliz 
sem esses bens? 


— Confundis a felicidade com van- 
tagens não raro funestas. Quantos, por 
belos, não são corrompidos por infa- 
mes sedutores da juventude! Quantos, 
por fortes, não empreendem coisas 
sobre-humanas e se tornam infelicis- 
simos! Quantos, vítimas da riqueza 
que os amolenta e expõe a ciladas onde 
encontram a ruína! Quantos, enfim, 
não alcançam a glória e o poder senão 
para padecer de forma atroz ! 

—— Se me enganei louvando a felici- 
dade, confesso já não saber o que pedir 
aos deuses. 

— Talvez não refletiste nestas coi- 
sas por te Julgares cansado de sabê-las. 
Mas já que pretendes governar um Es- 
tado democrático, decerto sabes o que 
seja democracia. 

— Sem dúvida. 

— Achas possível conhecer a de- 
mocracia sem conhecer o povo? 

— Não, por Júpiter ! 

— Que chamas o povo? 


XENOFONTE. 


-— Os cidadãos pobres. 

-—— Sabes, então, quais são os cida- 
dãos pobres? 

— Como não havia de sabê-lo? 

— Sabes também quais são os 
ricos? 

— Tão bem quanto os pobres. 

— À quem chamas pobres e a 
quem chamas ricos? 

— Pobres chamo os que não têm 
com que pagar os impostos, ricos os 
que possuem mais do com que pagar 
Os impostos. 

— Jã notaste que, embora com 
pouco, indivíduos há que possuem o 
bastante e 'atê fazem economias, ao 
passo que outros, com muito, sequer 
têm o necessário? 

— Sim, e foi bom mo recordares, 
sei de soberanos a quem, como aos 
mais pobres cidadãos, a necessidade 
obriga a cometer injustiças. 

— Se é assim, não fazemos bem em 
arrolar os soberanos entre o povo e 
colocar na classe dos ricos os que têm 
pouco mas sabem economizar? 

— Minha ignorância obriga-me a 
convir, e acho melhor calar-me. Do 
contrário correrei o risco de não saber 
absolutamente nada! Com isso Euti- 
demo retirou-se todo -acabrunhado, 
cheio de desprezo de si próprio e já 
não se considerando senão como um 
escravo. 

A maioria dos que Sócrates metia à 
bulha fugiam-no, e com isso só lhe 
pareciam mais insensatos. Porém Euti- 
demo sentiu: que, se quisesse ser gente, 
imprescindia do trato de Sócrates. Pas- 
sou a frequentá-lo assiduamente e até 
imitar-lhe certos hábitos. Sócrates, 
vendo-o com tais disposições, cessou 
de atormentá-lo e ministrou-lhe as 
noções mais simples e claras das coi- 
sas que julgava riecessário saber e hon- 
rOso praticar. 


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“40 


CAapíTULO III 


Não se apressava em fazer seus 
discípulos' hábeis no falar, haver-se e 
excogitar-se expedientes. Antes de tudo 
cria necessário tangê-los à trilha da 
sabedoria. Sem a sabedoria — dizia 
— os que possuem esses talentos só 
podem ser mais injustos, mais podero- 
sos para o mal. Em primeiro lugar pro- 
curava incutir-lhes idéias sábias no 
concernente aos deuses. Outros já nar- 
raram as conversações que em sua pre- 
sença teve a esse respeito. 

Por mim assisti à palestra seguinte 
que entreteve com Eutidemo: 

-— Dize-me, Eutidemo, já refletiste 
com que carinho nos proporcionam os 
deuses o de que necessitamos? 

— Não, confesso-te. 

— Mas pelo menos sabes que antes 
de mais nada necessitamos da luz que 
nos fornecem? 

— Por júpiter! Não a tivéssemos e 
seríamos como os cegos. 

— Necessitamos, outrossim, de re- 
pouso, e os deuses dão-nos a noite, o 
mais doce dos lazeres. 

— Também é presente digno de 
reconhecimento. 

— Graças à luz do Sol, distin- 
guimos as horas e os objetos. A noite, 
com sua obscuridade, tiranos a visão 
-das coisas: mas não é que acenderam 
os deuses em meio às trevas esses as- 
tros que nos dizem as horas da noite, 


permitindo-nos assim atendermos a 
certos quefazeres? 

— E verdade. 

— Acresce que a Lua não indica 
somente as partes da noite, mas tam- 
bém as do mês. 

-— De fato. é 

— Como temos precisão de alimen- 
tos, dão-nos frutos da terra. Para isto 
criaram as estações próprias que nos 
fornecem com abundância e variedade 


.não só o necessário como ainda Oo 


agradável. 


— Efetivamente é muita bondade 
da parte deles. 


— Não nos deram a àgua, esse ele- 
mento precioso que ajuda a terra e as 
estações a fazerem nascer tudo o que 
nos é necessário ou útil, contribui para 


“sustentar-nos e, misturada a todos os 


nossos alimentos, os torna mais fáceis 
de preparar, mais salutares e agradá- 
veis? e como a necessitamos em abun- 
dância, não no-la concedem com pro- 
fusão? 

— Outra prova de sua providência. 

— Não nos deram o fogo, que nos 
preserva de frio, alumia na obscuri- 
dade, coadjuva em todas as artes e tra- 
balhos cujo fim é o nosso bem-estar? 
Para tudo dizer em uma palavra, sem o 
fogo nada fariam os: homens de belo 
nem de útil. 


10 


148 


— Novo testemunho de sua infinita 
bondade. 

— E o ar espalhado em torno de 
nós com profusão sem limites, o ar que 
não somente nos entretém e medra a 
vida como nos auxilia a vencer os 
mares para ir buscar mil produtos 
diversos em mil regiões diferentes, não 
é um bem inestimável? 

— Certamente. 

— E o Sol! Ganho o solstício de 
inverno, arrepia caminho, amadure- 
cendo certos produtos, dessecando ou- 
tros já sazonados. Depois deste duplo 
benefício, em vez de aproximar-se 
demasiadamente, volta por detrás a 
fim de não prejudicar-nos com exces- 
sivo calor. De novo atingindo um 
ponto além do qual nos mataria de 
frio, retorna para nós, avizinha-se-nos 
e volta à região do céu onde mais nos 
pode benfazer. 

— Por Júpiter! parece que todas 
essas maravilhas foram feitas especial- 
mente para o homem. 

— Demais, já que não poderíamos 
suportar o calor nem o frio, se viessem 
inopinadamente, não se aproxima O 
Sol manso e manso e a pouco e pouco 
se afasta, de sorte que insensivelmente 
passamos de um extremo a outro de 


temperatura? 
— Estou a perguntar a meus botões 
— disse Eutidemo — se velar pelo 


homem não seria a única ocupação 
dos deuses. Mas uma coisa me atrapa- 


lha — quinhoarem todos os animais 
de seus favores. 
— Ora essa! — retrucou Sócrates 


— não é manifesto que até esses ani- 
mais nascem e são alimentados para o 
homem? Que outro animal tira tão 
grande proveito das cabras, ovelhas, 
cavalos, bois, asnos, etc., como o 
homem? Antolham-se-me até mais 
úteis que os vegetais. Não nos alimen- 
tamos e enriquecemos menos de uns 
que outros. Muitas raças humanas hã 


XENOFONTE 


que não se alimentam dos produtos da 
terra, mas do leite, queijo, carne que 
lhes fornecem os rebanhos. Todas 
domesticam, domam os animais úteis e 
neles encontram auxiliares para a guer- 
ra e muitos trabalhos. 

— Convenho contigo, pois vejo que 
até os animais muito mais fortes que 
nós se nos submetem ao império e se 
prestam ao que deles exigimos. 

— Outrossim, como infinita é a 
variedade de formas que assumem o 
belo e o útil, não nos deram os deuses 
sentidos apropriados às diferentes per- 
cepções, mediante os quais fruímos 
todos os deleites? Não nos outorgaram 
a inteligência, que com o raciocinio e a 
memória nos permite apreciar as sen- 
sações, julgar da utilidade de cada 
objeto, inventar mil coisas, já para 
maior bem-estar nosso, já para nos 
preservarmos dos males? Não nos con- 
cederam o dom da palavra por meio da 
qual trocamos benefícios instruindo- 
nos comum e reciprocamente, estabele- 
cemos leis, fundamos Estados? 

— Não há dúvida, Sócrates, que os 
deuses olham por nós com o maior 
desvelo. 

— E quando não podemos prever o 
que nos será útil no porvir, ainda aqui 
não vêm em nossa ajuda, não revelam 
pela adivinhação os que os consultam 
o que sucederá de futuro e lhes ensi- 
nam como proceder? 

-— Quer parecer-me, Sócrates, que 
te foram mais generosos que ao resto 
dos mortais, se é verdade que sem os 
interrogares te indicam de antemão o 
que deves ou não fazer. 

— Reconhecerás tu também a ver- 
dade de minhas palavras, se não espe- 
rares que os deuses se te apresentem 
sob forma real, contentando-te em ver 
suas obras para vrar-lhes e honrá-los. 
Pensa bem: é assim que os deuses se 
manifestam. As deidades menores, de 
quem recebemos as graças, não se nos 


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Et pa ant E SCSI SS SAE 1 2 PP NS 


MEMORÁVEIS-IV 


deparam aos olhos para semear seus 
benefícios. E aquele que dispõe e impe- 
ra no universo — congregação de 
todas as bondades e bens — aquele 
que, por amor nosso, o mantém em 
eterna pujança e juventude eterna, o 
submete a obediência infalível e mais 
pronta que o pensamento, este deus se 
manifesta no cumprimento de suas 
obras mais sublimes, mas tudo o mais 
rege invisível. Vê como o Sol, que 
todos os olhos ilumina, não permite 
aos homens o fitá-lo: a quem se põe a 
olhá-lo de fito, rouba-lhe a vista. Invi- 
síveis são também os ministros dos 
deuses. O raio vem do alto, certo, e ful- 
mina tudo o que encontra: porém não 
há vê-lo, nem quando cai, nem quando 
fere, nem quando desaparece. Invisi- 
veis são os ventos, porém lhes vemos 
os efeitos, lhes sentimos a presença. 
Enfim, mais que tudo o humano, parti- 
cipa da divindade a alma humana. 
Reina em nós, é incontestável, mas não 
a vemos. Refletindo em tudo isso, não 
se devem desprezar as forças invisí- 
veis, mas, por seus efeitos, reconhecer- 
lhes o poder e honrar a deidade. 

— Jamais, Sócrates — respondeu 


149 


Eutidemo — me permitirei o menor 
descaso para com ela, estou certo. 
Aflige-me, contudo, pensar que nunca 
homem nenhum poderá agradecer-lhe 
suficientemente tantos benefícios. 

— Não seja por isso, Eutidemo. 
Sabes responder o deus de Delfos a 
quem lhe pergunta o meio de ser grato 
aos deuses: “Segue a lei de teu país”. 
Ora, em toda parte ordenam as leis que 
cada um honre os deuses consoante 
suas posses. Haverá culto mais subli- 
me e piedoso que o que prescreve a 
própria divindade? Mas é preciso nada 
omitir do que se possa fazer. Do 
contrário, seria manifesto pouco caso. 
Importa, pois, tudo fazer por preitear 
os deuses, segundo suas posses, ter 
neles confiança e deles esperar as 
maiores mercês. Loucura, com efeito, 
seria esperar mais de outro qualquer 
que daqueles que mais podem servir- 
nos. E como esperar ser atendido 
senão buscando comprazer-lhes? E 
como melhor comprazer-lhes que obe- 
decendo-os sem reserva? Com tais 
conselhos, tanto quanto pelo exemplo, 
fazia Sócrates mais pios e mais sábios 
os que com ele se versavam. 


18 


CapíTULO IV 


Quanto. à justiça, longe de rebuçar 
sua opinião, patenteava-a por atos: no 
particular de sua casa era todo equi- 


dade e benevolência; como. cidadão, 


todo obediência aos magistrados em 
tudo o que manda a lei, quer na cidade, 
quer nos exércitos, onde o abalizava 
seu espírito de disciplina. Presidindo, 
na qualidade de epistata, aos congres- 
sos populares, impediu o povo de votar 
contra as leis e, nelas arrimado, resis- 
tiu à fúria do populacho que nenhum 
outro teria coragem de enfrentar. 
Quando os Trinta lhe davam ordens 
avessas às leis, não as acatava. Assim, 
quando lhe proibiram o palestrar com 
OS Jovens e o encarregaram, junta- 
mente com outros cidadãos, de condu- 
zir um homem que intentavam assassi- 
nar, só ele se recusou de obedecer, 
porque tais ordens eram ilegais. Cha- 
mado por Meleto perante os tribunais, 
longe de seguir o costume dos acusa- 
dos, que, malgrado o proibirem as leis, 
tomam da palavra para ganhar o favor 
dos juízes, adulá-los e dirigir-lhes sú- 
plicas, e assim muitas vezes se fazem 
absolver, não quis de tal guisa infringir 
as leis: posto facílimo lhe fora lograr a 
absolvição, preferiu morrer dentro da 
lei a transgredi-la para viver. Foi o que 
mais de uma vez disse a muita gente, e 
acordo-me da conversa que sobre a 
Justiça teve com Hiípias de Eléia. 


Regresso a Atenas após longa au- 
sência, Hípias encontrou Sócrates pa- 
lestrando com alguns discípulos. Ex- 
primia Sócrates sua admiração de ver 
que, sé se deseja fazer de alguém sapa- 
teiro, mação, ferreiro, estribeiro, é só 
enviá-lo a um bom mestre; diz-se atê 
que em qualquer parte se encontram 
individuos habilitados para domar ca- 
valos e bois; mas se alguém quer 
aprender a. justiça ou fazê-la aprender 
a um filho ou criado, não sabe onde 
desencavar quem lha ensine. Hípias, 
que escutava, disse-lhe escarninho: 

— Corno é isso, Sócrates, estás a 
repetir o que te ouvi dizer há tanto 
tempo? 

— Sim — retorquiu Sócrates — e. 
o mais estranho, Hípias, é que, não 
contente de repetir as mesmas pala- 
vras, repito-as sobre os mesmos assun- 
tos. Ao passo que tu, sabichão como 
és, talvez nem sempre digas as mesmas 
palavras sobre as mesmas coisas. 


— Claro, procuro dizer sempre coi- 
sas novas. 


— Quer dizer que se te interrogam 
a respeito de algo que saiba, sobre as 
letras, por exemplo, e te perguntam 
quantas tem o nome “Sócrates” e quais 
são, procuras responder, ora de uma 
maneira, ora de outra? Se, a propósito 
de aritmética, te perguntam se duas 


152 


vezes cinco são dez, não respondes 
hoje como respondeste outrora? 

— Nessas questões, Sócrates, faço 
como tu, respondo sempre o mesmo. 
Porém, sobre a justiça creio poder 
dizer neste momento coisas a que nem 
tu nem ninguém nada podereis objetar. 

— Por Juno! falas de grande des- 
coberta. Só assim os juízes cessarão de 
dividir seus sufrágios, os cidadãos de 
contestar por amor de seus direitos, de 
processar-se uns aos outros, de promo- 
ver sedições: as próprias nações já não 
terão querelas a propósito de seus 
direitos nem se guerrearão. Não, não te 
deixarei enquanto não me desembu- 
chares tão admirável intento. 

— Por Júpiter! nada saberás antes 
de me dizeres o que pensas tu próprio 
da justiça. Há muito que zombas dos 
outros, interrogando e refutando sem- 
pre, sem jamais querer prestar contas a 
ninguém nem sobre nada expor tua 
opinião. 

-— Como! Hípias, não vês que não 
cesso de mostrar o que periso ser o 
justo? 

— Mas afinal como defines a justi- 
ça? 

— Se não por palavras defino-a por 
atos. E não achas a ação mais convin- 
cente que a palavra? 

— Muito mais, por Júpiter! Muita 
gente diz coisas justas e comete injusti- 
ças, ao passo que, arrimado na justiça, 
não há possibilidade de ser injusto. 

— Pois bem: já ouviste dizer que eu 
haja prestado falso testemunho, calu- 
niado, semeado cizânia entre amigos 
ou concidadãos ou cometido outra 
injustiça qualquer? 

— Não, nunca. 

— Não achas que abster-se da 
injustiça é ser justo? 

-— Pareces-me, Sócrates, evitar 
dizer o que opinas da justiça. Pois não 
do que fazem os justos mas do que 
não fazem é que te ouço falar. 


XENOFONTE 


— Pois olha, supunha que não que- 
rer ser injusto fosse prova suficiente de 
justiça. Se não és do mesmo parecer, 
vê se isto te satisfaz: digo que justo é o 
que é legal. 

— Queres dizer, Sócrates, que legal 
e justo sejam uma só e mesma coisa? 

— Sim. 

— Então não sei o que entendes 
por legal e justo. 

Conheces as leis do Estado? 

— Conheço-as. 

Que são elas? 

O que de comum acordo decre- 
tam os cidadãos estatuindo o que deve 
e o que não deve fazer-se. 

— Portanto, legal é o que se con- 
forma com esses regulamentos políti- 
cos, ilegal o que os transgride. 

— Muito bem. 

— Ser justo é obedecer-lhes, injusto 
desobedecer-lhes. 

— Sem dúvida. 

— Consequentemente, justo não é 
quem procede justamente, injusto 
quem procede injustamente? 

— Poderia ser de outra forma? 

— Logo, justo é quem vive dentro 
da lei, injusto quem da lei aberra. 

— Mas como, Sócrates, emprestar 
valor ou crer que se deva obedecer às 
leis, quando muitas vezes aqueles mes- 
mos que as elaboraram as condenam e 
derrogam? 

— A miúdo também as cidades en- 
tram em guerra e depois firmam a paz. 

— É verdade. 

— Censurar os que obedecem as 


leis porque podem ser revogadas não é 


o mesmo que condenar os soldados 
que bem se portam na guerra porque 
pode concluir-se a paz? Desgabas os 
cidadãos que, nas guerras, defendem 
corajosamente a pátria? 

— Não, por Júpiter! 

—— Não achas que se não houvesse 
inspirado a Esparta o mais fundo res- 
peito às leis, não a teria o lacedemônio 


f 


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12 


MEMORÁVEISIV 153 


Licurgo tornado diferente das outras 
cidades? Não sabes que dentre os 
magistrados de uma cidade, em todos 
os termos melhores são aqueles que 
mais inspiram aos cidadãos a obe- 
diência às leis? Que o Estado onde os 
cidadãos são mais subrnissos às leis é 
também o mais venturoso na paz e 
invencível na guerra? A concórdia é 
para as cidades o maior dos bens. 
Diariamente a recomendam aos cida- 
dãos os senadores e homens mais emi- 
nentes da República. Lei existe em 
toda a Grécia que manda os cidadãos 
Jurarem viver em harmonia, e em toda 
parte prestam este juramento. Não 
creio que tal se faça para que os cida- 
dãos comunguem no mesmo juízo 
sobre os-coros, aplaudam os mesmos 
tocadores de flauta, elejam os mesmos 
poetas, tenham os mesmos gostos, mas 
sim para que obedeçam às leis: que 
enquanto se lhes mantiverem fiéis as 
cidades serão poderosíssimas e felicis- 
simas. Sem concórdia não há cidade 
bem governada nem casa bem admi- 
nistrada. Na vida privada, qual o meio 
mais seguro de não incorrer castigos 
públicos, qual o caminho mais curto 
para as honras do que a obediência às 
leis? Qual o meio mais certo de não ser 
vencido nos tribunais e ganhar os pro- 
cessos? A quem se confiará com mais 
gosto fortuna, filhos, filhas? Quem a 
todos preferirã a confiança do próprio 
Estado, senão aquele que respeita as 
leis? De quem esperarão mais equi- 
dade nossos pais, parentes, servidores, 
amigos, concidadãos e os estrangei- 
ros? Com quem preferirão os inimigos 
negociar uma suspensão de armas, 
uma trégua, condições de paz? Quem 
granjearã mais aliados? A quem man- 
darão com mais gosto esses mesmos 
aliados seus oficiais e suas tropas? De 
quem esperaráã um benfeitor mais grati- 
dão do que daquele que respeita as 
leis? A quem obsequiaremos de melhor 


grado que aquele que, estamos certos, 
saberá agradecer-nos? De quem mais 
amaríamos ser amigo e menos ser ini- 
migo? Qual o homem a que mais teme- 
riamos atacar que aquele de que mais 
amariamos ser amigo e menos ser ini- 
migo, cuja amizade fosse de todos 
requestada e cujo ódio e inimizade nin- 
guém quisesse incorrer? Eis-te prova- 
do, Hípias, ser o legal e o justo uma 
única e mesma coisa. Se não estás de 
acordo, dize-mo. 

— Por Júpiter! Sócrates, como po- 
deria eu discrepar do que acabas de 
dizer da justiça? 

— Conheces, 
critas? 

— Sim, aquelas que em toda parte 
vogam e têm o mesmo objeto. 

— Di-las-ás estabelecidas pelos ho- 
mens? 

— Como, se nem todos os povos 
vizinham nem falam a mesma língua? 

— Quem imaginas, então, formu- 
lou tais leis? 

— Acho que foram os deuses que 
as inspiraram aos homens. Porque 
entre todos os povos a primeira lei é 
respeitar os deuses. 

—. O respeito aos pais não é tam- 
bém lei universal? 

— Sem dúvida. 

— Não proíbem as mesmas leis a 
promiscuidade de pais com filhos e se 
filhos com. pais? 

— Quanto a essa lei, Sócrates, es 
a creso emanada de um deus. 

— Por quê? 

— Porque povos há que a transgri- 
dem. 

— Transgridem-se muitas outras. 
Mas os que violam as leis estabele- 
cidas pelos deuses são fatalmente puni- 
dos, enquanto os que pisam aos pés as 
leis humanas às vezes esquivam a 
pena, seja foragindo-se, seja usando de 
violência. 

— Qual, 


Hiípias, leis não-es- 


pois, o castigo que não 


154 


podem iludir os pais que vivem de 
promiscuidade com os filhos, os filhos 
que vivem com os pais? 

— O maior de todos, por Júpiter! 
Pois que haverá mais triste que dar ao 
mundo filhos doentes? 

— Por que serão seus filhos doen- 
tes? Nada impede, se forem sadios, que 
os filhos também o sejam. 

— É que não basta o par gerador 
ser são, é preciso estar no vigor da 
idade. Pensas que o licor prolífico seja 
o mesmo nos que se acham na força da 
idade e nos que ainda não atingiram ou 
já passaram a mocidade? 

— Está visto que não pode ser o 
mesmo. 

— Qual, pois, a idade mais propí- 
cia? 

— Evidentemente a do pleno vigor. 
-— Não estarão em condição desfa- 


. vorâvel, pois, os que não se acharem 


nessa idade? 

— Claro.. 

— E não será bom que não cogitem 
de procriar? 

— Certamente. 

— Se o fizerem, não irão de encon- 
tro à natureza? 

— Assim penso. 

— A que chamaremos filhos doen- 
tes, pois, senão aos frutos dessas 
uniões defesas? 


XENOFONTE 


— Ainda aqui estou de acordo 
contigo. 

— Dize-me, em toda parte não quer 
a lei que se testemunhe reconheci- 
mento aos benfeitores? 

— Sim, porém a transgridem. 

— Os que a transgridem não são 
punidos, abandonados que se vêem de 
bons amigos e obrigados a recorrer a 
quem os detesta? Pois não são bons 
amigos os que beneficiam quem os 
procura? Se não se retribuem os servi- 
ços que deles se receberam, esta ingra- 
tidão não provoca seu ódio? E não faz 
o grande interesse que se tem de 
frequentá-los que se cesse de persegui- 
los? 

— Por Júpiter! Sócrates, tudo isso 
me parece vir dos deuses. Obra de 
legislador superior aos homens se me 
afiguram estas leis que trazem consigo 
a punição dos que as infringem. 

— Crês, pois, Hípias, que os deuses 
estatuem leis justas ou que possam 
instituí-las contrárias à justiça? 

— Não estabelecessem os deuses 
leis justas e ninguém as estabeleceria. 

— Logo, Hípias, os próprios deuses 
querem que o justo seja o mesmo que o 
legal. 

Assim é que, por palavras e atos, 
fazia Sócrates mais justos aqueles que 
o tratavam. É 


24 


CAPÍTULO V 


Direi agora como Sócrates induzia 


seus discípulos à prática do bem. Per- 
suadido de que quem deseje fazer o 
bem imprescinde da temperança, sobre 
fazê-la assunto constante de suas pa- 
lestras, mostrava-se ele próprio modelo 
acabado de sobriedade. Tinha sempre 
presente no espírito os caminhos que 
conduzem à virtude e não se cansava 
de lembrá-los a quantos o frequen- 
tavam. 

Sei que teve um dia com Eutidemo 
esta prática sobre a temperança: 

— Dize-me, Eutidemo, não reputas 
a liberdade bem inestimável e honroso 
tanto para o particular como para o 
Estado? 

— É o mais precioso dos bens. 

— Terãs por livre o homem que se 
deixe dominar pelos prazeres do corpo 
e assim se veja na impossibilidade. de 
praticar o bem? 

— De forma alguma. 

— Não chamas liberdade ao poder 
de praticar o bem, servidão à impossi- 
bilidade de praticá-lo? 

— Justamente. 

— Quer dizer que a teus olhos os 
intemperantes não passam de escra- 
vos? 

— Sim, e com razão. 

— Crês que os intemperantes sejam 
somente impedidos de fazer o melhor 
“ou que sejam também forçados a fazer 
o pior? 


-— Creio-os de todo ponto impeli- 
dos para o mal e desviados do bem. 

— Que pensas então desses senho- 
res que impedem de fazer o bem e obri- 
gam a fazer o mal? 

— Por Júpiter ! é a pior raça. 

— FE qual a pior das servidões? 


— Em minha opinião, a que nos | 


sujeita aos piores senhores. 

— Então os intemperantes pade- 
cem a pior das servidões? 

— Assim acho. 

— A intemperança não afasta os 
homens da sabedoria, o maior dos 


“bens para precipitá-los nos piores 


males? achas que, arrastando-os para 
os prazeres, os impede de se aplicarem 
ao estudo dos conhecimentos úteis e, 
não raro,.discirnam embora o bem do 
mal, os obriga a preferirem o pior ao 
melhor? 

— É verdade. 

— Quem menos prudente que o 
intemperante? Pois nada tão avesso 
aos atos da prudência quanto os da 
ntemperança. 

— De fato. 

— Que nos apartará mais de nos- 
sos deveres que a intemperança? 

— Nada. 

— Quando um vício nos faz prefe- 
rir o prejudicial ao útil, procurar um e 
negligenciar o outro e em tudo nos 
haver-mos ao reverso dos sábios, não é 
de todos o mais funesto? 


8 


156 


-— Seguramente. 

— Natural não é produzir a tempe- 
rança efeitos contrários aos da intem- 
perança? 

— Sem dúvida. 

— Igualmente claro não é ser exce- 
lente a causa desses efeitos contrários? 

— Certamente. 

— Então força é crer, Eutidemo, 
ser a temperança o mais valioso dos 
bens. 

— Não ná duvidá-lo, Sócrates. 

— Já observaste uma coisa, Eutide- 
mo? 

— Quê? 

— Que, pareça embora poder con- 
duzir-nos exclusivamente ao agradá- 
vel, de tanto é incapaz a intemperança, 
ao passo que a temperança nos propor- 
ciona OS mais VIVOS prazeres. 


— Como assim? 


— Porque a intemperança, não nos 
permitindo suportar a fome, a sede, os 
desejos amorosos, a insônia, necessi- 
dades que só elas nos fazem experi- 
mentar, deleite em comer, beber, amar, 
repousar, dormir e que com a espera e 
a privação não fazem senão aumentar 
o prazer, a intemperança, digo, impe- 
de-nos de sentir verdadeira doçura no 
satisfazer estes apetites necessários e 
contínuos. A temperança, ao contrário, 
única capaz de fazer-nos suportar as 
privações, é também a única que nos 
permite gozar até pela memória dos 
prazeres de que falei. 


XENOFONTE 


-— Nada do que dizes admite dúvi- 


das. 
— Demais, aprender a conhecer o 


belo e o bem, a governar o próprio 
corpo, a bem dirigir sua casa, a ser 
prestadio aos amigos e à pátria e a 
vencer os inimigos, todas qualidades 
que não somente são úteis como 
proporcionam os maiores prazeres: 
tais as vantagens práticas que colhem 
os homens temperantes e de que os 
intemperantes são excluídos. De feito, 
quem menos digno delas que aquele 
que, consagrado aos prazeres fáceis, 
nenhuns sacrifícios fez à virtude? 

— Parece-me, Sócrates, conside- 
rares o homem dominado por prazeres 
dos sentidos incapaz de qualquer virtu- 
de. 

— Qual a diferença, Eutidemo, 
entre o homem intemperante e a besta 
mais estúpida? Jim que difere dos bru- 
tos quem jamais toma o bem por norte 
e só vive para o prazer? Só os tempe- 
rantes podem examinar o que há de 
melhor em todas as coisas, distribui- 
las por gênero na prática e em teoria, 
joeirar o bem e refugar o mal. 

Este — dizia Sócrates — o meio de 
tornar os homens melhores, mais feli- 
zes e mais hábeis na dialética. Ajun- 
tava vir o nome de “dialético” do hábi- 
to de dialogar em comum e distribuir 
os objetos por gêneros; que mister 
havia, pois, dar-se com afinco a este 
exercício, de vez que tal estudo forma 
os melhores homens, os mais hábeis 
políticos e os mais fortes dialéticos. 


CarpíTULO VI 


Farei também por contar como Só- 
crates formava seus discípulos na 
dialética. Achava que, quando se co- 
nhece bem o que seja cada coisa em 
particular, pode-se explicá-la aos ou- 
tros; mas que, se se ignora, não admira 
que se engane a si mesmo e consigo 
aos outros. Também não cessava de 
investigar com seus discípulos o que é 
cada coisa em particular. Trabalhosa 
empresa seria reproduzir todas as suas 
definições: contentar-me-ei de referir 
as que, a meu ver, melhor caracterizam 
seus sistemas. 

Primeiramente vejamos como enca- 
rava a piedade: 

— Dize-me, Eutidemo, que achas 
da piedade? 

— Por Júpiter! é a mais formosa 
das virtudes. 

— Poderias 
homem piedoso? 

— Aquele, penso, que honra os 
deuses. 

— Pode cada um honrar os deuses 
à sua fantasia? 

— Não, há leis que regulam o 
culto. 

— Saberá quem essas leis conheça 
como adorar os deuses? 

— Penso que sim. 

— Julgará quem saiba honrar os 
deuses dever honrá-los de outro modo? 

— Não, certamente. 


dizer-me qual o 


— Honraríiamos os deuses diferen- 
temente do que cremos de mister? 

— Não o creio. 

— Portanto, não cultuará os deuses 
legitimamente quem conhecer as leis 
do culto? 

— Sim. 

— Quem cultuar os deuses legiti- 
mamente não os honrará como deve? 

— Seguramente. 

— Quem honrar os deuses como 
deve não será piedoso? 

— Sem dúvida. 

— Então não podemos definir o 
piedoso como aquele que conhece o 
culto legitimo? 

— De pleno acordo. 

—— Passemos aos homens. Poderá 
cada qual tratar seus semelhantes a seu 
bel-prazer? 

— Não. Só procederá legitima- 
mente com respeito a seus semelhantes 
quem conhecer as leis reguladoras das 
relações entre os homens. 

— Então os que se tratarem reci- 
procamente segundo essas leis tratar- 
se-ão como de dever? 

— Sim. 

— Não se tratarão bem os que se 
tratarem como de dever? 

— Claro. 

— Quem tratar bem seu semelhante 
não cumprirá seu dever de homem? 

— Sim. 


158 


— Por conseguinte não procederão 
consoante a justiça, os que obedecerem 
às leis? 

— É evidente. 

— E a justiça, sabes o que é a 
Justiça? 

— O que ordenam as leis. 

— Portanto não procederão con- 
“forme a justiça e o dever os que fize- 
rem o que mandam as leis? 

— Poderia ser de outro modo? 

— Não serão justos os que se pau- 
tam pela justiça? 

— Serão. 

— Crês que se. possa obedecer às 
leis sem saber o que ordenam? 

— Não. 


— E, sabendo-se o que se deva 
fazer, Julgar-se-á não precisar fazê-lo? 

— Não creio. 

— Conheces homens que se hajam 
diferentemente do que creiam de mis- 
ter? 

— Não. 

— Portanto não serão justos os que 
conhecerem as leis prescritas Telativa- 
mente aos homens? 

— Entra pelos olhos. 

— Então serão justos os que .se 
pautarem pela justiça? 

— Poderia deixar de ser assim? 

— Logo, não podemos definir o 
justo como aquele que conhece as leis 
prescritas relativamente aos homens? 

— Éo que penso. 

— E a sabedoria, como a define: 
mos? Dize-me, serão os sábios somen- 
te sábios no que sabem ou também no 
que não sabem? 

— Claro que a gente é sábio no que 
sabe. Como sê-lo no que não se sabe? 

— Serã pela ciência que os sábios 
são sábios? 

-— Como ser sábio senão pela ciên- 
cia?! 

— Então não PER que os sábios 
possam ser sábios por outra coisa que 
não a ciência? 


XENOFONTE 


— Não. 
Logo, a ciência é a sabedoria? 
Ássim me parece. 


Julgas que o homem possa tudo 


saber? 

— De maneira alguma: penso que 
só pode saber muito pouco. 

— . Então um homem não pode ser 
sábio em tudo? 

— Está claro que não. 

— Mas naquilo que sabe, cada um 
é realmente sábio? 

— De acordo. 

— Queres, Eutidemo, que analise- 
mos do mesmo modo a natureza do 
bem? 

— Como? 

— Crês que a mesma coisa seja útil 
a todos? 

— Não. 

— O que é útil a um, por vezes é 
prejudicial a outro? 

— Decerto. 
Julgas o bem distinto do útil? 
Não. 


para quem for útil? 

— Sim. 

— O mesmo não se dá com o belo? 
Quando falas da beleza de um corpo, 
de um vaso ou outro objeto qualquer, 
Julgas que tal objeto seja belo para 
todos os usos? 

— Não, certo. 

— Quer dizer que cada objeto só é 
belo para o uso a que deve servir ? 

— Exatamente. 

— Pode um objeto belo ser belo 
sob outro aspecto que não o do uso 
que dele possa fazer-se? 

— Não. 

— Então uma coisa só será bela 
para quem for útil? 

— Assim penso. 

— Colocas a coragem, Eutidemo, 
entre as coisas belas? 

— Entre as que:mais o são. 

— Quer dizer que não a consideras 
útil somente para -as pequenas coisas? 


| 


Logo, uma coisa só será um bem - 


1 


12 


MEMORÁVEISIV 


— Considero-a útil para o que hã 
grande. 

— Achas vantajoso, estando-se em 
presença de perigos terríveis, não ter-se 
noção da ventura que se corre? 

— De forma alguma. 

— Então não são corajosos os que 
sem o saber arrastam perigos? 

— Não, claro; do contrário haveria 
passar atestado de valor a muitos lou- 
cos e covardes. 

— E os que temem até o que nada 
tem de terrível? 

— São piores que aqueles. 

— Chamas corajosos, pois, aos que 
não têm medo nos perigos iminentes, e 
covardes aos que o têm? 

— Precisamente. 

— Chamarás corajosos a outros 


que não aqueles que se portam com, 


valor em face dos perigos? 

— Não. 

— E covardes, aos que se portam 
mal? 

— A quem mais dar esse nome? 

— Entretanto, cada um deles não 
se porta como julga dever fazê-lo? 

— Necessariamente. 

— Saberão os que se portam mal 
como deveriam portar-se? 

— Não. 

— Poderão portar-se como devem 
os que o souberem? 

— Sim, e eles somente. 

— Portar-se-ão mal em face dos 
perigos os que souberem como devem 
haver-se? 

— Não o creio. 

— Logo, os que se portam mal não 
sabem como deveriam haver-se? 

— É evidente. 

— Por conseglência, corajosos não 
são os que sabem como é mister 
haver-se nos perigos iminentes e covar- 
des os que não o sabem? 

— De acordo. 


Considerava a realeza e a tirania, 


duas autoridades, com esta diferença: 
realeza chamava um poder aceito 


159 


pelos homens e conforme as leis do 
Estado; tirania, um poder imposto e 
sem outras leis que os caprichos do 
chefe. Aristocracia chamava a repú- 
blica dirigida por cidadãos amigos das 
leis. Plutocracia, aquela onde domi- 
nam os ricos. Democracia, aquela 
onde todo o povo é soberano. 

Se o contradiziam sem apresentar 
provas terminantes, se afirmavam, sem 


demonstrá-lo, ser tal cidadão mais: 


sábio, mais hábil político, mais corajo- 
so, etc. que aquele de que falava, 
reportava-se ao fulcro da questão: 

— Dizes ser o homem que louvas 
melhor cidadão que o que elogio? 

— Sim. 

— Por que não começarmos, então, 
por examinar qual o próprio do bom 
cidadão? 

— Façamo-lo. 

— Na administração das riquezas, 
não ganha por mão o que enriquece a 
pátria? 

— Sem dúvida. 

— Em tempo de guerra, não leva a 
palma quem a avantaja dos adversá- 
r1OS? 

— Certamente. 

— Numa embaixada, não excele 
quem de inimigos faz amigos? 

— Não o nego. nas 

— No congresso do povo, não leva 
as lampas quem apazigua as sedições e 
instaura a concórdia? 

— Ássim O creio. 

Deste modo, resumindo a questão, 
tornava a verdade sensível aos contra- 
ditores. Quando discorria sobre um 
assunto, procedia pelos princípios 
mais geralmente reconhecidos, tendo 
por infalível este método de raciocínio. 
Também não conheci quem o sobrepu- 
jasse no fazer competir sua opinião aos 
que o ouviam. Dizia que Homero 
chama Ulisses de orador seguro da 
própria causa porque sabia deduzir 
suas razões das idéias que todos 
admitem. 


4 


CapítuLO VII 


Tenho para mim que do que hei dito 
transluz claramente a simplicidade 
com que Sócrates expunha suas opi- 
niões a seus ouvintes. Ora direi como 
se aplicava a tornar seus discípulos 
capazes de bastar-se a si mesmos em 
suas respectivas funções. De quantos 
homens tenho conhecido, nenhum 
como ele se daria ao trabalho de 
conhecer as qualidades de seus amigos. 
Tudo o que sabia convir ao homem 
perfeito e que ele próprio conhecesse, 
apressava-se a ensinar-lhes, e, para 
fazê-los aprender o que ignorava, re- 
metia-os a mestres competentes. Ensi- 
nava-lhes também até que ponto deve 
o homem bem educado versar-se em 
cada ciência. Assim, dizia dever apren- 
der-se de geometria o necessário para, 
em caso de precisão, medir-se exata- 
mente um terreno que se queira com- 
prar, vender, dividir ou lavrar. O que é 
tão fácil — acrescentava — que por 
pouco que se dedique à agrimensura 
pode conhecer-se a grandeza da terra e 
a maneira de medi-la. Mas que se 
levasse o estudo da geometria aos pro- 
blemas mais dificeis, eis o que desapro- 
vava: dizia não ver a utilidade disso. 
Nao que os ignorasse, mas achava que 
a perquisição de tais problemas pode 
consumir a vida de um homem e des- 
viá-lo de um sem número de outros 
estudos úteis. Recomendava aprender- 


se de astrologia o bastante paia, 
viajando-se por terra, por mar ou, 
estando-se de guarda, reconhecer as 
divisões da noite, mês e ano e ter pon- 
tos de referência para tudo o que se 
faça na noite, no mês ou no ano. 
Acrescentava ser fácil aprender estes 
pontos com os caçadores noturnos, 
pilotos e todos aqueles que têm inte- 
resse em sabê-los. Quanto à astrono- 
mia e às indagações tangentes aos glo- 
bos que não consoam com a rotação 
do nosso céu, a saber, os astros erra- 
bundos e sem regra, sua distância da 
Terra, revoluções e origem, reprova- 
va-as energicamente, dizendo nenhuma 
utilidade ver em tais especulações. 
Não era estranho a esses conheci- 
mentos, mas repetia que podem consu- 
mir a vida de um homem e apartá-lo de 
um sem número de estudos úteis. Em 
geral interdizia o preocupar-se excessi- 
vamente dos corpos celestes e das leis 
segundo as quais os dirige a divindade. 
Havia esses segredos por impene- 
tráveis aos homens e considerava ofen- 
sa aos deuses sondar os mistérios que 
não lhes aprouve revelar-nos. Aditava 
que, enfronhando-se em tais especula- 
ções, corria-se o risco de perder a 
razão, como a perdera Anaxágoras 
com suas cerebrações para explicar os 
mecanismos divinos. De feito, quando 
pretendia que o Sol não passa de fogo 


162 


se esquecia Anaxágoras que os homens 
olham facilmente o fogo, enquanto não 
podem olhar o Sol de frente, além de 
os raios do Sol escurecerem a pele, o 


que não faz o fogo. Esquecia-se ser o, 


calor do Sol necessário à vida e ao 
crescimento das produções da terra, ao 
passo que o do fogo as mata. Quando 
dizia ser o Sol uma pedra inflamada 
ignorava que a pedra, exposta ao fogo, 
não produz chama nem lhe resiste 
muito tempo, de passo: que o Sol é de 
todos os tempos o mais brilhante dos 
corpos. .Aconselhava o estúdo dos nú- 
meros.- Mas, como para as outras ciên- 
cias, recomendava não perder-se em 
indagações vas e examinava e discutia 
com seus discípulos até que ponto 
todos os conhecimentos podem ser 


XENOFONTE 


úteis. Instava-os vivamente a não des- 
cuidarem da saúde, consultarem os 
entendidos sobre o regime que deviam 
seguir, estudarem eles próprios durante 
todo o curso da vida quais os alimen- 
tos, bebidas e exercícios que melhor 
lhes convinham e como usá-los para 
gozar de perfeita saúde. Afirmava que 
difícil seria a homem avezado a estu- 
dar-se assim encontrar médico que me- 
lhor que ele discernisse o que lhe con- 
vinha à saúde. Se alguém queria 
elevar-se acima dos conhecimentos 
humanos, aconselhava-lhe vacar à adi- 


vinhação, assegurando que, quando se 
sabe por que sinais dão os deuses a 
conhecer ao hornem sua vontade, ja- 
mais se carece de suas advertências. 


1 


CapíruLo VIII 


Se se acreditar que a asserção de Só- 
crates relativa ao demônio que o 
advertia do que devia ou não fazer cai 


diante da condenação capital pronun- 


ciada por seus juízes e o convence de 
embuste no que respeita esse gênio 
familiar, que se reflita nisto: a uma, 
Sócrates ia assaz avançado em anos 
para não ter mais que pouquíssimo 
tempo de vida; a outra, não perdeu 
senão o trato mais penoso da existên- 
cia, o do ocaso do espírito. A ele 
renunciando demonstrou todo o vigor 
de sua alma, cobrindo-se de glória 
tanto pela verdade, despejo e justiça de 
sua defesa quanto pela doçura e cora- 
gem com que recebeu a sentença de 
morte. É opinião unânime que, ao que 
haja memória, homem nenhum enfren- 
tou a morte com mais valor que ele. 
Foi obrigado a viver ainda trinta dias 
após o julgamento, porque precisa- 
mente nesse mês se realizavam as fes- 
tas de Delos e proíbe a lei executar 
qualquer condenado antes do regresso 


“da teoria délia" *. Como até então vive- 


ra, durante todo esse tempo viveu sob 
os olhos dos amigos. Já granjeara 
admiração pouco comum pela calma e 


serenidade de sua vida. E qual a morte' 


mais bela que a sua? Haverá morte 
mais bela que a do homem que melhor 
saiba morrer? Haverá morte mais feliz 
que a mais bela? Haverá morte mais 
grata aos deuses que a mais feliz? 


Vou referir o que ouvi da boca de 
Hermógenes, filho de Hipônico. Já 
Meleto fizera sua acusação. Vendo Só- 
crates discorrer sobre tudo menos 
sobre o processo, disse-lhe Hermó- 
genes que devia pensar em sua apolo- 
gia. 

Respondeu-lhe Sócrates: 

— Não te parece que lhe consagrei 
toda a minha vida? 

Perguntando-lhe Hermógenes de 
que maneira, disse-lhe Sócrates que, 
vivendo sempre a considerar o que seja 
Justo ou injusto, praticando a justiça e 
evitando a inigúidade, cria haver pre- 
parado a mais bela apologia. 

“ Tornou Hermógenes: 

— Não vês, Sócrates, que, choca- 
dos com a defesa, fizeram os juízes de 
Atenas morrer muitos inocentes, assim 
como absolveram muitos culpados? 

— Tentei, Hermógenes, preparar 
uma apologia para apresentar a meus 
Juízes, porém a tanto se opôs meu 
demônio. 

— Espanta-me o que dizes. 

— Por que, se julgam os deuses 
mais vantájoso para mim deixar a vida 
desde já? Não sabes que, até o presen- 
te, humano algum viveu melhor e mais 
ditosamente que eu? Parece-me não 


14 Teoria délia: era a delegação das cidades gregas 
às festas solenes no templo de Apolo de Delos. (N. 
do E.) 


to 


164 


poder viver-se melhor que diligen- 


ciando fazer-se melhor; nem mais dito- - 


samente que sentindo tornar-se real- 
mente melhor. Este efeito tenho-o até 
aqui experimentado em mim mesmo, 
vivendo entre os outros homens e a 
eles comparando-me. Nunca tive de 
mim próprio outra opinião, e esta opi- 
nião perfilham meus amigos, não por 
gostarem de mim (se assim fosse todos 
diriam o mesmo daqueles que esti- 
mam), mas por verem que em me 
frequentando se tornavam melhores. 
Se vivesse mais, seria forçosamente 


obrigado a pagar meu tributo à velhi- 


ce. Veria e ouviria menos, a inteli- 
gência se me turbaria, mais custoso 
ser-me-ia aprender, mais fácil esquecer 
e assistiria ao definhamento de todas 
as minhas prerrogativas. Se não tivesse 
o sentimento de todas essas perdas, 
viver já não seria viver. Se o tivesse, 
como não se me tornaria a vida triste e 
desgraçada? Morrendo injustamente, a 
vergonha cairá sobre os que injusta- 
mente me mataram: se a injustiça é 
vergonhosa, como não seria vergo- 
nhoso um ato injusto? A mim, qual o 
opróbrio que me pesará de não me 
terem reconhecido nem feito justiça? 
Vejo que a reputação dos que me pre- 
cederam passa à posteridade muito 
diferente, segundo tenham sido autores 


XENOFONTE 


ou vítimas da injustiça. Estou certo 
que, morrendo hoje, os sentimentos 
que inspirarei aos homens não serão os 
mesmos que inspirarão os que me 
matam. Render-me-ão, tenho certeza, 
o testemunho de que nunca fiz mal a 
ninguém, e, longe de corromper meus 
amigos, sempre forcejei por torná-los 
melhores. 

-Eis o teor das palestras de Sócrates 
com Hermógenes e outros. Dentre 
quantos o conheceram, todos os que 
amam a virtude não cessam de lamen- 
tá-lo qual o melhor auxiliar à prática 
do bem. Quanto a mim, que o vi tal 
qual o pintei: piedoso, de nada fazer 
sem o assentimento dos deuses; justo, 
de nunca por nurica fazer o menor mal 
a ninguém, ao contrário prestar os 
maiores serviços aos que o freguen- 
tavam; morigerado, de jamais preferir 
o agradável ao honesto; prudente, de 
nunca enganar-se na apreciação do 
bem e do mal, capaz de penetrar todas 
estas noções, explicá-las e defini-las, 
hábil no julgar os homens, apontar- 
lhes suas faltas, encaminhá-los à virtu- 
de e ao bem — figurava-se-me fadado 
a ser o melhor e o mais ditoso dos 
humanos. Se alguém houver que comi- 
go não concorde, compare o que foi 
Sócrates com o que são os outros ho- 
mens e julgue! 


XENOFONTE 


APOLOGIA 
DE SOCRATES 


Tradução de LÍBERO RANGEL 


Dentre os fatos concernentes a Só- 
crates, um hã que me pareceu digno de 
transmitir-se à memória: sua determi- 
nação, quando submetido a julga- 
mento, no tangente a sua apologia e 
sua morte. Outros, é verdade, trataram 
do assunto e disseram da nobre altivez 
de sua linguagem, de sorte que não há 
questionar este ponto. Mas por que Só- 
crates preferiu a morte, eis o que não 
fizeram ver claramente, parecendo 
haver certa desrazão na altura de suas 
palavras. Porém Hermógenes, filho de 
Hipônico e amigo de Sócrates, deu a 
seu respeito pormenores que mostram 
que a altura de sua linguagem se acor- 
dava plenamente com a de suas idéias. 
Contava que, vendo-o discorrer sobre 
assuntos completamente alheios a seu 
processo, lhe dissera: 

-—— Não deverias, Sócrates, pensar 
em tua apologia? 

Ao que lhe respondeu Sócrates: 

-— Não te parece que lhe consagrei 
toda a minha vida? 

Perguntando-lhe Hermógenes de 
que maneira: 

— Vivendo sem cometer a menor 
injustiça, O que é, a méu ver, o melhor 
meio de preparar uma defesa. 

Tornara Hermógenes: 

— Não vês que, chocados com a 
defesa, fizeram os juízes de Atenas 
morrer muitos inocentes e absolveram 
muitos culpados cuja linguagem lhes 
despertara a piedade ou lhes lisonjeara 
os ouvidos? 


— Por duas vezes — dissera Só- 
cratés — tentei preparar uma apolo- 
gia, porém, a tanto se opôs meu 
demônio. 

Estranhando-lhe Hermógenes a lin- 
guagem, respondera Sócrates: 

— Por que te espantas, se julgam 
os deuses mais vantajoso para mim 
deixar a vida desde já? Não sabes que, 
até o presente, humano algum viveu 
melhor queeu? É-me agradável ter 
vivido toda a minha vida na pie- 
dade e na justiça. E, experimentando 
viva admiração de mim próprio, 
verifiquei que os mesmos sentimentos 
nutriam para comigo todos os 
meus amigos. Mas já agora, se 
for além, sei que terei forçosamente 
de pagar meu tributo à velhice. A vista 
se me enfraquecerá, ouvirei menos, 
minha inteligência se turbará e esque- 
cerei mais depressa o que aprender. Se 
perceber a perda de minhas faculdades 
e sentir-me mal comigo mesmo, como 
aprazer-me da vida? Talvez seja por 
benevolência que me concede a deida- 
de, como dom especial, terminar a vida 
não só na época mais conveniente 
como do modo menos penoso. Porque, 
sendo condenado hoje, certo ser-me-ã 
permitido firmar pelo gênero de morte 
que os homens que se ocuparam desta 
questão consideram a mais suave, a 
que menos faz padecer tanto o moritu- 
ro, como os seus amigos. Verdadeira- 
mente digno de inveja não é morrer 
sem deixar nenhuma impressão penosa 


170 


e desagradável no espírito dos assisten- 
tes, são de corpo, alma em paz? 
Razão, pois, tiveram os deuses dissua- 
dindo-me de preparar minha defesa, 
quando todos vós acháveis que deveria 
por todos os meios buscar subterfú- 
gios. Fizesse-o eu, e teria refugido o 
morrer hoje para, sem nenhum conso- 
lo, vir a findar atormentado de doenças 
ou então dé velhice, para a qual ver- 


Assim resolvido, atesta Hermóge- 
nes, quando seus inimigos o acusaram 
de não reconhecer os deuses do Esta- 
do, introduzir extravagâncias demo- 
níacas e corromper os jovens, Sócrates 
adiantou-se e disse: 

— O que mais me surpreende no 
acusatório de Meleto, cidadãos, é afir- 
mar ele que eu não reconheça os deu- 
ses do Estado, quando todos vós, Me- 
leto convosco, se o quis, tivestes 
ocasião de ver-me sacrificar nas festas 
solenes e altares públicos. E como pre- 
tender que eu introduza extravagâncias 
demoníacas, quando digo advertir-me 
a voz de um deus do que deva fázer? 
Não se guiam por vozes os que tiram 
presságios do canto das aves e das 
palavras dos homens? Ninguém nega- 
rá seja voz o trovão, e até o maior dos 
augúrios. Pela voz não manifesta a 
sacerdotisa de Pito, na trípode, a von- 
tade do deus? Que esse deus possui o 
conhecimento do futuro e o revela a 
quem lhe apraz, eis o que digo e comi- 
go dizem e pensam todos. Somente que 
a isso chamam augúrios, vozes, simbo- 
los, presságios, eu lhe chamo demônio. 
Com esta denominação creio usar de 


XENOFONTE 


gem todas as enfermidades. Por Júpi- 
ter! Hermógenes, sequer cogitarei 
disso. E se, expondo sem refolhos 
todas as vantagens que creio haver dos 
deuses e dos homens, bem como a opi- 
nião que faço de mim mesmo, tiver 
pesar aos juízes, preferirei morrer a 
mendigar servilmente a vida e fazer-me 
outorgar uma existência mil vezes pior 
que a morte. 


l 


linguagem mais veraz e mais piedosa 
que os que atribuem às aves o poder 
dos deuses. À prova de que não minto 
contra a divindade, ei-la: jamais, ao 
anunciar a bom número de amigos os 
desígnios do deus, fui apanhado em de- 
lito de impostura. 

Em ouvindo tais palavras os juízes 
murmuraram, uns de incrédulo, outros 
de invejoso das preferências que lhe 
concediam os deuses. Continuou Só- 
crates: 

— Ouvi mais isto, a fim de que os 


. que o desejam tenham mais um motivo 


para não crer no favor com que me 
honraram as divindades. Um dia em 
que, em presença de numerosa assis- 
tência, Querefonte interrogava a meu 
respeito o oráculo de Delfos, respon- 
deu Apolo inexistir homem mais sen- 
sato, independente, justo e sábio que 
eu. Como era de esperar, a estas pala- 
vras Os juízes fizeram ouvir murmúrio 
maior ainda. 

Prosseguiu Sócrates: — Entretanto, 
cidadãos, em termos mais magníficos 
ainda se expressou o deus em relação a 
Licurgo, o legislador dos lacedemô- 
nios. É fama que, no momento em que 


16 


17 


APOLOGIA DE SÓCRATES 


Licurgo entrava no templo, disse-lhe a. 


divindade: “Chamar-te-ei homem ou 
deus?” A mim não me comparou a 
deus, mas disse que em muito sobre- 
pujo os outros homens. Não creiais 
levianamente o que disse a deidade: 
pesai bem cada uma de suas palavras. 
Sabeis de homem menos escravo dos 
apetites do corpo que eu? Mais inde- 
pendente que eu, que de ninguém rece- 
bo presentes nem salário? Quem pode- 
reis, em boa fé, considerar mais justo 
que um homem tão acomodado com o 
que tenha que jamais precise do 
alheio? Quanto à sabedoria, como por 
outro acima de mim, que desde que 
comecei a compreender a língua ja- 
mais cessei de inquirir e aprender tudo 
o que podia de bem? A prova de que 
meu labor não foi estéril, não a vedes 
na preferência que a meu trato dão 
numerosos concidadãos e estrangeiros 
amigos da virtude? Por que motivo 
tanta gente, saiba-me embora demasia- 
damente pobre para retribuir, faz tim- 
bre de enviar-me presentes? Ninguém 
poderá dizer que lhe haja pedido um 
serviço: entanto qual o motivo de tanta 
gente declarar dever-me gratidão? Por 
que, durante o sítio da cidade, jeremia- 
vam meus concidadãos sua miséria, 
enquanto eu não padecia mais priva- 
ções que nos dias de maior prosperi- 
dade da República? Por que, quando 
os outros compram a altos preços, no 
mercado, fruo gratuitamente os delei- 
tes do espírito, mais puros que os seus? 
Se nada podeis negar do que acabo de 
dizer, como não ter eu direitos legiti- 
mos ao beneplácito dos deuses e dos 
homens? Entretanto dizes, Meleto, que 


assim procedendo corrompo a juventu- - 


de? Sabemos, sem dúvida, em que con- 
siste a corrupção. Ora, dize-me, conhe- 
ces uh único jovem tornado ímpio; de 
moderado, violento; de poupado, pró- 


digo; de sóbrio, dado &0 vinho; de 


Nil 


trabalhador, preguiçoso ou escravo de 
outra qualquer má paixão? 

— Sim, por Júpiter! — disse Mele- 
to-— conheço a quem seduziste a 


. ponto de depositarem mais confiança 


em tique nos próprios pais! 

— Concordo — respondeu Sócra- 
tes — no que respeita à instrução, por- 
que sabem que meditei profundamente 
essa matéria. Quando se trata da 
saúde, os homens têm mais confiança 
nos médicos que em seus pais. Nos 
congressos, prefere. a generalidade dos 
atenienses ater-se aos que falam com 
mais sabedoria aqueles a que se acham 
unidos pelos laços do sangue. Com 
efeito, não escolheis para estrategos de 
preferência a vossos pais e irmãos e, 
por Júpiter ! de preferência a vós mes- 
mos, aqueles que sabem mais experi- 
mentados na arte da guerra? 

— É o uso, Sócrates — replicou 
Meleto — e esse uso tem sua utilidade. 

— Pois bem — ripostou Sócrates 
— não te parece estranho que em tudo 
os melhores sejam considerados não 
somente iguais como superiores aos 
outros, enquanto a mim por causa da 
superioridade que me concedem alguns 
no tocante ao maior dos bens huma- 
nos, a instrução, me carregues com 
uma acusação capital? 

E de crer que tanto Sócrates como 
aqueles de seus amigos que falaram em 
sua defesa dissessem ainda muitas ou- 
tras coisas. Mas não me propus desfiar 
todos os pormenores do processo; bas- 
ta-me ter feito ver que Sócrates tomara 
por ponto demonstrar que jamais fora 
impio para com os deuses nem injusto 
para com os homens, mas que longe 
dele pensar rebaixar-se a súplicas para 
escapar à morte: ao contrário, desde 
logo se persuadira haver chegado a 
hora de morrer. Estes sentimentos me- 
lhor se patentearam ao pronunciar-se a 
condenação. Primeiro convidado a 


20 


2! 


22 


24 


25 


192 


fixar a taxa da multa, declinou-o e não 
o permitiu aos amigos, dizendo-lhes 
que tal fazer seria confessar-se culpa- 
do. Depois, querendo seus amigos 
subtraí-lo à morte, recusou-o e, chas- 
queando, perguntou-lhes se conheciam 
fora da Ática algum lugar inacessível à 
morte. 

Enfim, proferida a sentença, disse: 

— Cidadãos! Tanto aqueles dentre 
vós que induzistes as testemunhas a 
perjurarem, levantando falso testemu- 
nho contra mim, quanto os que vos 
deixastes subornar, deveis, de força, 
sentir-vos culpados de grande impie- 
dade e injustiça. Mas eu, por que have- 
ria de crer-me empequenecido se nada 
se comprovou do que me acoimam? 
Jamais ofereci sacrifícios a outras 
divindades que não Júpiter, Juno e os 
demais deuses. Nunca jurei senão por 
eles. Jamais nomeei outras deidades. 
Quanto aos jovens, seria corrompê-los, 
habituá-los à paciência e à frugali- 
dade? Atos contra os quais a lei pro- 


XENOFONTE 


nuncia a morte, como a profanação 
dos templos, o roubo com efração, a 
venda de homenis livres, a traição à pá- 
tria, meus próprios acusadores não 
ousam dizer que os haja cometido. 
Surpreso, pois, pergunto a mim mesmo 
qual o crime por que me condenais à 
morte. Nem por morrer injustamente 
devo ter-me em menor estima: não 
sobre mim, mas sobre os que me con- 
denam cairá a ignomínia. Demais, 
consolo-me com Palamedes que findou 
quase como eu. Até hoje ainda lhe can- 
tam hinos mais magníficos que a Ulis- 
ses, que o fez perecer injustamente. 
Estou certo que tanto quanto o passa- 
do, me renderá o porvir o testemunho 
de que nunca fiz mal a ninguém, ja- 
mais tornei ninguém mais vicioso, mas 
servia OS que comigo privavam ensi- 
nando-lhes sem retribuição tudo o que 
podia de bem. 

Após assim falar retirou-se sem que 
nada lhe desmentisse a linguagem: 
olhos, atitude, andar conservavam a 
mesma serenidade. 


UI 


Reparando que os que o acompa- 
nhavam se desfaziam em lágrimas, 
disse-lhes: 

— Que é isto! Agora é que achais 
de chorar? Não sabeis há muito que no 
instante mesmo de meu nascimento 
pronunciara a natureza a sentença de 
minha morte? Se morresse antes da 
idade, rodeado de todos os gozos, certo 
seria o caso de nos afligirmos tanto eu 
como os que me prezam. Mas se chego 
ao termo da carreira, quando nada 


senão males posso esperar, minha 
morte deve ser motivo de alegria para 
todos vós. 


Acompanhava-o certo Apolodoro,' 


alma simples e extremamente afei- 
çoada a Sócrates, que lhe disse: 

— Não posso suportar, Sócrates, 
ver-te morrer injustamente. 

Então se diz que, passando-lhe de 
leve a mão pela cabeça, Sócrates 
respondeu: 


— Como! Meu caro Apolodoro 


27 


29 


30 


33 


APOLOGIA DE SÓCRATES 


então preferias ver-me morrer justa- 
mente? 

E ao mesmo tempo sorria. 

É voz ainda que, vendo passar 
Ânito, disse: 

— Vejam só como vai ufano aquele 
homem: crê ter realizado bela façanha 
em me matando, por haver-lhe eu dito 
certo dia que, uma vez que fora levado 
às primeiras dignidades da República, 
não ficava bem elevar o filho ao mister 
de tanoeiro. Miserável ! Parece ignorar 
que, de nós dois, verdadeiro vencedor é 
aquele que durante toda a vida não 
cessou de praticar ações úteis e hones- 
tas. E já que Homero atribui a alguns 
de seus heróis, à hora da morte, o 
conhecimento antecipado do futuro, 


173 


quero fazer também uma predição. 
Faz tempo, encontrei-me alguns mo- 
mentos com o filho de Ânito, e pare- 
ceu-me não carecer de energia de cará- 
ter. Pois predigo que não permanecerá 
na condição servil em que o colocou o 
pai. Mas, por falta de guia esclarecido, 
será presa de alguma paixão vergo- 
nhosa e se esbarrocará na perversi- 
dade. 

E assim falando Sócrates não se 
enganou. Avezando-se ao vinho, o 
rapaz não parava de beber dia e noite e 
acabou incapacitado de fazer o que 
quer que fosse de útil à pátria, aos ami- 
gos e a si mesmo. Quanto a Ânito, a 
má educação que dera ao filho e sua 
própria ignorância tornaram, até hoje 
que já não vive, odiosa sua lembrança. 


IV 


À verdade, falando de si mesmo 
com tamanha sobranceria perante o 
tribunal, Sócrates ateou o ciúme € con- 
tiçou a disposição em que se achavam 
os juízes a condená-lo. Mas estou que, 
com afortunado destino, o amercearam 
os deuses. Deixou da vida a parte mais 
penosa e morreu a morte menos dolo- 
rosa. Ademais, pôs plenamente de 
manifesto seu vigor de ânimo. Reco- 
nhecendo ser-lhe mais vantajoso mor- 
rer que viver, assim como jamais 


recuara diante dos outros bens, assim 
não fraquejou à barba da morte e sere- 
namente a recebeu e sofreu. Quando 
reflito na sabedoria e grandeza de alma 
deste homem, não posso deixar de 
acordar-lhe a memória e a esta lem- 
brança juntar meus elogios. E se dentre 
os enamorados da virtude alguém hou- 
ver que haja privado com homem mais 
prestante que Sócrates, reputo-o o 
mais venturoso dos mortais. 


31 


34 


ARISTÓFANES 


AS NUVENS 


Tradução e notas de GLDA MARIA REALE STARZYNSKI 


PERSONAGENS 


ESTREPSÍADES 
FIDÍPIDES 
Escravo de Estrepsiades 
DiscípuLoO de Sócrates 
SOCRATES 
Coro das Nuvens 
Raciocínio JusTO 
Raciocínio INJUSTO 
CREDOR I 
CREDOR II 

“Dois DiscíPuLOS de Sócrates 


Cenário — É noite. Uma praça; no 
centro uma estátua de Hermes. Duas 
casas; uma, paupérrima, de porta 
fechada, é a de Sócrates. Na outra, de 
portas abertas, vêem-se duas camas. 
Numa, o velho Estrepsíades se agita; 
na outra, um rapaz dorme profunda- 
mente, coberto até as orelhas. Armá- 
rios, bancos, lamparinas, vasos, etc. À 
um canto dois escravos roncam. Ouve- 
seo canto do galo. 


ESTREPSÍADES 
(Senta-se no leito e começa 
a resmungar.)! 


Ai, ai! Ó Zeus soberano ! Como são 
compridas as noites! Uma coisa inter- 
minável!. .. Nunca mais será dia? E, 
no entanto, já faz muito tempo que 
ouvi o canto do galo... Os escravos 
roncam.-.. Mas não roncariam nos 
tempos de outrora... Maldiçoada 
guerra, e por muitas razões, pois não 
posso nem castigar os meus escra- 
vos...? (Apontando para o filho.) E 


1 Prólogo, vv. 1-274. 

2 No início da Guerra do Peloponeso (431 a.C.), 
na perspectiva da invasão da Ática pelas tropas 
lacedemônias, muitos proprietários deixaram suas 
terras, refugiando-se dentro dos Grandes Muros. Os 
trabalhos nos campos foram abandonados e os 
escravos, que deviam acordar com o canto do galo, 
podiam dormir sossegados. Os senhores absti- 
nham-se de castigá-los e de enviá-los a trabalhar 
fora da cidade, temendo que desertassem. Apesar 
disso, as deserções eram frequentes. Cav., vv. 20 ss.; 
Tuc. II, 2, 27. 


nem esse “belo” rapaz que aí está não 
acorda durante a noite, mas fica pei- 
dando, encolhido debaixo de cinco 
mantas... (Volta-se para os especta- 
dores.) Com sua licença, vamos roncar 
bem cobertos... (Deita-se. Pausa. De 
repente, salta do leito, jogando longe 
os cobertores.) Pobre de mim, não 
posso dormir, mordido pela despesa, 
pela estrebaria e pelas dívidas! Tudo 
por causa desse filho aí; e ele usa cabe- 
los compridos, cavalga, guia uma pare- 
lha e sonha com cavalos... Eu, eu 
morro, vendo que a Lua vai carre- 
gando o dia vinte; pois os juros cor- 
rem...? (Desperta um escravo.) Es- 
cravo, acenda a lamparina e traga-me 
o livro de contas para eu ver a quantas 
pessoas estou devendo e calcular os 
juros. (O escravo traz um livro, que 
Estrepsíades consulta com cuidado.) 
Vamos ver o que é que devo? Doze 
minas a Pásias. Mas por que doze 
minas a Pásias? Para que as usei? 
(Pausa.) Foi quando comprei o cavalo 
de raça. ..º* Ai de mim, antes tivesse 


3 O mês era lunar, dividido em três décadas. O 
velho teme os dias após o dia vinte, início da ter- 
ceira década, porque no fim do mês se faziam os 
acertos de juros ou se saldavam as dívidas. Cf. vv. 
1134-1222. 

* Lit. o “koppatias”, isto é, o cavalo marcado com 
a letra “koppa”. Era hábito marcar os cavalos de 
raça com letras do alfabeto, ou para indicar-lhes o 
preço ou para assinalar vitórias. Assim também 
havia o cavalo marcado com a letra “san”. Cf. v. 
122. Estrepsíades que não entende nada de equita- 
ção emprega a esmo as palavras que ouve nas con- 
versas do filho. Cf. vv. 120 ss. 


20 


25 


30 


35 


180 


roçado o olho com uma pedra...* 


FIDÍPIDES 
(Mexe-se no leito e sonha 
em voz alta.) 


Filão, você estã trapaceando ! Siga a 
suaraia... 


ESTREPSÍADES 
É esse, é esse mesmo o mal que 
acaba comigo! Até quando dorme, ele 
sonha com cavalos... 


FIDÍPIDES 
Quantas carreiras correm os carros 
de guerra? ...8 


ESTREPSÍADES 
A mim, o seu pai, é que você faz 
correr por muitas carreiras... Mas 
então, que dívida me espera depois de 
Pásias? Três minas a Amínias por uma 
boleiazinha e um par de rodas... 


FIDÍPIDES 
Leve o cavalo para a cocheira, de- 


"pois de fazê-lo espojar-se. ..” 


ESTREPSÍADES 
Mas, meu caro, a mim pelo menos 
você já me despojou dos meus 
bens!... Já fui condenado a pagar as 
dívidas, e outros credores afirmam que 
vão processar-me por causa dos juros! 


FIDÍPIDES 
(Acorda, impaciente.) 


Verdadeiramente, meu pai, por que 
você se aborrece e se mexe a noite 
inteira? 


ESTREPSÍADES 


8 Um dos recursos cômicos de Aristófanes são os 
trocadilhos, que procuramos adaptar na medida do 
possível. Assim aqui ““raça/roçar” e adiante 
“espojar-se/despojar”. Vv. 33-34. 

8 Carros que concorriam nos jogos públicos, arma- 
dos como para a guerra. 


? Depois da corrida, levavam-se os cavalos para 
secar o suor, fazendo-os espojarem-se na areia, 
antes de recolhê-los. Cf. Xen., Econ., XI, 18. 


ARISTÓFANES 


Morde-me um meirinho?, saído das 
cobertas... 


FIDÍPIDES 


Homem, deixe-me dormir um 


pouco ! 


ESTREPSÍADES 
(Acena para o filho, mono- 
logando.) 


Então durma, mas quanto a essas 
dívidas, fique sabendo que se voltarão 
todas contra a sua cabeça. .. 

Irra! Antes tivesse morrido desgra- 
çadamente a casamenteira que me deu 
fumos de casar com a mãe dele! Eu le- 
vava uma vida rústica, agradabi- 
líssima, embolorado, sujo e à vontade, 
regurgitando de abelhas, de rebanhos e 
de bagaços de azeitona. ..º Depois, 
casei-me com uma sobrinha de Méga- 
cles, filho de Mêgacles!º; eu um cam- 
ponês, ela, da cidade, orgulhosa, de- 
lambida, uma perfeita “gra-fina”1. 
No dia do casarnento, quando me dei- 
tei ao seu lado, eu cheirava a vinho 
novo, cirandas de figos, lã, fartura; ela, 
por sua vez, rescendia a perfume, aça- 
frão, beijos de língua, despesas, gulodi- 


8 Lit. O “demarco”, a quem competia convocar as 
assembléias, zelar pelo patrimônio do demo, conser- 
var os livros de registros e cadastros e, além disso, 
citar os devedores que: não liquidavam as dívidas no 
prazo estipulado. 


º Estrepsiades lembra-se com saudades da vida dos 
campos, sem peias e farta. Aristófanes gostava de 
idealizar a vida simples do meio rural, em contraste 
com os gastos e defeitos das cidades, mas, apesar 
disso, os seus camponeses são retratados como indi- 
víduos broncos, sujos e desleixados, o que corres- 
ponde bem aos sentimentos dos atenienses do século 
Va. C. Cf. Acar., vv. 32 ss.; Cav., vv. 805 ss. 


1º Não se trata de nenhum personagem histórico. 
O poeta procura fazer graça, citando um nome 
comum na importante família dos Alcmeônidas, a 


«que pertencia o próprio Péricles pelo lado materno. 


Foram célebres o Mégacles que chefiou a expedição 
contra a revolta de Cilão (612 a. C.) e o filho do 
legislador Clístenes, várias vezes vencedor em jogos 
atléticos. Cf. v. 70; Pind., Pit., VII. 


w Lit. “toda encesirada” — -reterência a Cesira, 
mulher muito conhecida da família dos Alcmeôni- 
das, considerada o protótipo da grande dama, rica, 
elegante e pretensiosa. Cf. v. 800; Acar., v. 614. 


40 


45 


50 


55 


60 


AS NUVENS 


ces e outras luxúrias de Afrodite. ..!2 
Por certo não direi que era preguiçosa, 
mas esbanjava... (Com a mão debai- 
xo do manto faz um gesto obsceno.) E 
eu, mostrava-lhe este manto aqui, e, a 
propósito, costumava dizer-lhe: “Mu- 
lher, você desperdiça muita lã...” 


ESCRAVO 
(Trazendo a lamparina quase apagada.) 


Não temos mais óleo na lampari- 
na... 
ESTREPSÍADES 
Ai! Por que você me acendeu essa 
lamparina bebedora?'3 Vamos, venha 
cá apanhar... 
ESCRAVO 
(Lamentando-se.) 


Mas por que vou apanhar? 


ESTREPSÍADES 
Porque pôs na lamparina um desses 
pavios muito grossos... 


(O escravo sai. Estrepsíades 
continua o monólogo.) 


Depois disso, quando nós dois tive- 
mos esse filho aí (aponta o filho), eu e 
minha boa mulher, desde logo brigá- 
vamos por causa do nome...!“ Ela 


12 Lit. “Colíada e Genetílide”, dois epítetos de 
Afrodite que lembram o membro viril e a união 
sexual, sugerindo, portanto, excessos de sensuali- 
dade, o que explica o gesto do velho e a exclamação 
“Mulher, você desperdiça muita lã”, v. 55. 


13 Durante a Guerra do Peloponeso o preço do 
óleo subira muito, pois muitas oliveiras haviam sido 
cortadas pelos invasores. Além disso, era impos- 
sível a colheita da azeitona em regiões circunvizi- 
nhas. Por economia, evitavam-se as lamparinas de 
pavio grosso, que consumiam muito óleo. 

14 Em geral, o filho mais velho recebia o nome do 
avô paterno. As famílias nobres gostavam de dar 
aos filhos nomes compostos. Eram comuns os com- 
postos em que intervinha o elemento “hippos”, ou 
para celebrar alguma vitória dos antepassados ou 
para expressar esperanças no futuro da criança, 
tanto mais que havia, logicamente, uma associação 
de idéias entre “hippos” (cavalo) e “hippeis” 
(cavaleiros), os nobres que lutavam na Cavalaria. O 
nome do pai de Estrepsíades sugere poupança, eco- 
nomia, em contraste com o luxo e as grandezas dos 
Alomeônidas. Quando o casal chega a um acordo 
escolhe um nome cômico: Fidípides, “o poupa-ca- 
valos”. 


181 


lhe ajuntava um “hipo”: Xantipo, 
Caripo, ou Calípides. Eu escolhia o 
nome do avô, Fidônides. E discu- 
tiamos sem cessar! Depois, com o 
tempo, fizemos as pazes e, de comum 
acordo, escolhemos Fidipides. Com o 
filho ao colo, ela o acalentava: “Ah, 
quando você for grande e conduzir um 
carro até a cidade, como Mégacles, 
com a túnica de vencedor!”... E eu 
dizia: “Não! Ah, quando você condu- 
zir as cabras, vindo do monte Feleu"*, 
como o seu pai, coberto com uma 
pele!”... Mas ele nem sequer deu 
atenção às minhas palavras e derra- 
mou uma “cavalite” sobre os meus 
bens... Pois agora, pensando a noite 
inteira sobre um caminho, achei uma 
única vereda, diabolicamente excelen- 
te. Se eu persuadir esse daí a segui-la, 
estarei salvo! Mas antes quero acor- 
dá-lo. Então, como é que poderia acor- 
dá-lo de maneira mais suave? (Vai 
para junto do filho.) Fidipides!? Fidi- 
pidesinho?! 


FIDÍPIDES 
(Meio acordado.) 


Que é, meu pai? 


ESTREPSÍADES 
Beije-me e dê-me a sua mão direita. 


FIDÍPIDES 
Ei-la. Que há? 


ESTREPSÍADES 
Diga-me, você gosta de mim? 


FIDÍPIDES 
Sim, por este Posidão, o deus hípi- 
(676 


15 Região da Ática, cheia de pedras. Com o tempo, 
o nome se tornou comum, passando a designar 
qualquer terreno escarpado, onde se apascentavam 
cabras. 

18 A “jeunesse dorée” de Atenas costumava jurar 
por Posidão (Netuno), deus inventor e protetor da 
equitação. Já no Hino Homérico Posidão aparece 
com a ampla atribuição de domar cavalos e salvar 
navios. 


65 


70 


75 


80 


85 


90 


95 


182 


ESTREPSÍADES 
Não, de modo algum, nem me fale 
nesse hípico ! Esse deus é o causador 
das minhas desgraças! Mas, se por 
acaso você gosta de mim de verdade, 
do fundo do coração, meu filho, 
obedeça! 


FIDÍPIDES 
Mas precisamente em que devo 
obedecer-lhe? 


ESTREPSÍADES 
Mude logo os seus hábitos e vá 
aprender o que eu aconselhar. 


FIDÍPIDES 
Então fale, que ordena? 


ESTREPSÍADES 
E você obedecerá um pouquinho? 


FIDÍPEDES 
Sim, por Dioniso! ?, obedecerei. 


ESTREPSÍADES 
Olhe ali (aponta a casa de Sócrates). 
Você estã vendo aquela portinha e 
aquele casebre?! 8 


FIDÍPIDES 
Estou vendo. Papai, de fato o que é 
aquilo? 


ESTREPSÍADES 
(Declamando.) 


De almas sábias é aquilo um 
“pensatório”...1º Lá moram homens 
que, quando falam do céu, querem 


17 Atendendo aos protestos do pai, o rapaz invoca 
o deus Dioniso, muito estimado pelo povo. 

18 Aristófanes ridiculariza a pobreza e a insignifi- 
cância da casa de Sócrates. O próprio Sócrates ava- 
liava toda a sua fortuna, inclusive a casa, em cinco 
minas (500 dracmas). Cf. Xen., Econ., 11, 3. 

1º É evidente a intenção de parodiar o linguajar so- 
lene e complicado dos sofistas. A palavra “psyché” 
(alma) sugere a idéia de “fantasmas e almas do 
outro mundo” e é uma alusão à linguagem socrá- 
tica. Cf. Plat., Rep., I, 353 E. De outro lado, 
“phrontisterion”, que traduzimos por “pensatório”, 
é palavra. cômica, talvez forjada por Aristófanes. 
Depois, o termo perdeu o sentido ridículo e foi 
empregado por Ésquines para designar a escola de 
retórica de Rodes. 


ARISTÓFANES 


convencer de que é um abafador?º, 
que está ao nosso redor, e nós... 
somos os carvões!2! Se a gente lhes 
der algum dinheiro, eles ensinam a 
vencer com discursos nas causas justas 
e injustas? 2. 


FIDÍPIDES 
Mas quem são eles? 
ESTREPSÍADES 
Não sei ao certo seu nome?:. 


(Solenemente.) São pensadores medita- 
bundos, gente de bem! 


FIDÍPIDES 
Ah! Já sei, uns coitados! Você está 
falando desses charlatães? 4, pálidos e 
descalços? *, entre os quais o funesto 
Sócrates e Querefonte. ..28 


20 Comparação ora atribuída ao filósofo Hipão, 
cf. Cratino, Onividentes (Panoptai), ora ao matemá- 
tico Metão, Aves, v. 1001, ora a outros. Provável 
lugar-comum na critica da comédia antiga aos que 
se preocupavam com assuntos de astronomia. 

21 Se o céu envolve a terra como um abafador de 


brasas, nós, os homens, somos os carvões!... A. 


confusão se justifica, porque filósofos havia, como 
Xenófanes, que julgavam que os astros brilhavam 
como carvões. Cf. Aécio, II, 13, 14; (Diels-Kranz I, 
124,30). 

22 Era notória a venalidade dos sofistas, principal- 
mente de Protágoras, que se tornou famoso pelas 
importâncias recebidas de Evatlo. Cf. Plat., Prot, 
328-B, 348-E; Apol., 19-E. Todavia, Sócrates .não 
aceitava nenhum pagamento e censurava os que o 
faziam. 

23 Tanto o pai como o filho e o público sabem 
perfeitamente de quem. se trata, todavia o autor quer 
criar um ambiente de expectativa cômica, enquanto 
o velho procura captar as simpatias do filho, citan- 
do os “Kaloi kagathoi”, isto é, os nobres, “gente de 
bem”. Aliás, muitos amigos de Sócrates pertenciam 
à aristocracia. 

24 Os sofistas eram ridicularizados porque se pro- 
punham a discorrer sobre qualquer assunto, inclu- 
sive sobre as coisas que desconheciam. Eup., /T. 
159. Aliás, a crítica da comédia coincidia com a 
constante advertência de Sócrates contra os “que 
aparentam saber o que não sabem”. 

25 Sócrates costumava andar descalço, adotando 
um costume espartano. Plat., Banq., 220-B; Xen., 
Mem., 1,6,2. 


26 Amigo de infância de Sócrates que trouxe de 


Delfos o célebre oráculo que afirmava que Sócrates 
era o mais sábio dos homens. Vítima constante dos 
poetas cômicos que lhe ridicularizavam a palidez, 
chamando-o “morcego”, “filho da noite”. Vesp.,vv. 
1408-1412; Aves, v. 1554. Eup., 7. 155, Crat., .. 
201. | 


100 


105 


no 


JS 


120 


AS NUVENS 


ESTREPSÍADES 
Eh! silêncio! Não diga tolices! Mas 
se você se preocupa um pouco com o 
pão de seu pai, por favor, renuncie à 
equitação e torne-se um deles. 


FIDÍPIDES 
Não, por Dioniso, não poderia, nem 
que você me desse os faisões de 
Leógoras? ”. 


ESTREPSÍADES 
Vá, eu imploro ! Você, a mais queri- 
da das criaturas, vá aprender ! 


FIDÍPIDES 
E que irei aprender para o seu bem? 


ESTREPSÍADES 

Dizem que no meio deles os racioci- 
nios são dois: o forte, seja ele qual for, 
e O fraco?8. Eles afirmam que o segun- 
do raciocinio, isto é, o fraco, discur- 
sando, vence nas causas mais injus- 
tas... Ora, se você me aprender esse 
raciocínio injusto, do dinheiro que 
agora estou devendo por sua culpa, 
dessas dívidas eu não pagaria nem um 
óbolo a ninguém... 


FIDÍPIDES 
Não poderia obedecer-lhe. Pois não 
suportaria olhar para os Cavaleiros, 
com as minhas cores raspadas... 


ESTREPSÍADES 
Ah, é assim? Por Deméter, então 
você não há de comer dos meus bens, 
nem você, nem o cavalo de trela, nem o 
puro sangue...?º Vou expulsá-lo 


2? Pai do orador Andócides, amigo do luxo e da 
boa mesa. 

28 Estrepsíiades, como grande parte do povo, enten- 
de mal o princípio retórico segundo o qual há sem- 
pre, em qualquer causa, duas teses contraditórias, 
uma fraca e outra forte, e acredita que os sofistas 
possam dispor de dois raciocínios, um forte, que 
tem valor por si mesmo, € o outro fraco, que se deve 
à habilidade e é reservado às causas injustas. Cf., 
Plat. Fedro, 272-D; Apol., 19-A; Cic., Brut., VIII, 
30. 

2º O cavalo de raça, marcado com a letra “san”, 
veja nota, v. 23. 


183 


para fora desta casa... para o infer- 
no! 


FIDÍPIDES 
Mas meu tio Mégacles não há de 
deixar-me... sem cavalos...3º Ora, 
vou entrar! Você pouco me impor- 
ta... (Fidípides entra. O velho sozi- 
nho encaminha-se para a casa de 
Sócrates.) 


ESTREPSÍADES 

Bem, mas não é por ter caído que 
ficarei no chão: ..3! Vou invocar os 
deuses e instruir-me eu mesmo, fre- 
quentando o “pensatório”. (Pára) 
Então como é que eu, um velho esque- 
cido e bronco aprenderei as sutilezas 
das palavras precisas? (Põe-se a 
andar.) Devo ir. Por que razão todas 
essas delongas, e não bato à porta? 
(Afinal, decide-se.) Filho, filhinho ! 


DISCÍPULO 
(Fala de dentro da casa.) 


Vá para o infeno! Quem bateu à 
porta? 


ESTREPSÍADES 
(Solene e apavorado.) 


O filho de Fidão, Estrepsitades de 
Cicina!32 


DISCÍPULO 
(Abre-se o “pensatório” e 
sai um discípulo, pálido e 
irritado, deixando a porta 

entreaberta.) 


Por Zeus, só pode ser um ignorante, 
você que deu um pontapé na porta, 
assim tão estupidamente, e fez abortar 
um pensamento já encontrado. ..33 


30 Chiste; esperava-se “sem casa”. 

31 Expressão da linguagem da palestra. O lutador 
tentava sempre levantar-se ao ser derrubado, pois se 
fosse atirado três vezes ao chão seria eliminado. Cf. 
Esq., Eum., v. 589. 

32 A sucessão de nomes próprios é cômica, pois só 
nos tribunais se nomeavam os indivíduos citando os 
nomes do pai e do demo. Cf. Dem., Cor., 54. 


125 


130 


135 


140. 


145 


150 


184 


ESTREPSÍADES 
Desculpe-me, eu moro longe, nos 
campos. Mas fale-me desse negócio 
que estã abortado. .. 


DISCÍPULO 
Não é lícito dizê-lo, só aos discípu- 
los? 4 


ESTREPSIÁDES 
Então fale, coragem! Pois eu aqui 
vim ao “pensatório” para ser um 
discípulo... 


DISCÍPULO 

Vou dizê-lo. Mas deve-se conside- 
rálo um mistério... Há pouco, Só- 
crates interrogava Querefonte sobre 
uma pulga. Indagava quantas vezes ela 
pode saltar o tamanho dos seus pró- 
prios pés, porque ela mordeu a sobran- 
celha de Querefonte e pulou para a ca- 
beça de Sócrates... 


ESTREPSÍADES 
Então, como foi que ele mediu? 


DISCÍPULO 
Com a maior habilidade. Dissolveu 
cera; depois, tomou a pulga e mergu- 
lhou os seus pés na cera. A seguir, 
quando a pulga esfriou, ficou com 
umas botinhas à moda pérsica; ele 
descalçou-as e mediu a distância? *. 


ESTREPSÍADES 
Ó Zeus soberano, que sutileza de 
pensamento ! 


33 O susto provoca um aborto mental, como pode 
fazê-lo fisicamente... Pilhéria que visa direta- 
mente à pessoa de Sócrates, filho da parteira Fena- 
rete, de quem se dizia herdeiro na arte de assistir ao 
nascimento de novas idéias (maiêutica). Cf. Plat., 
Teet., 149-A. 

3º A solenidade da linguagem contrasta com a 
puerilidade dos pensamentos e indagações em curso 
no “pensatório”. 

35 A pulga é considerada um ser humano, com 
dois pés, em que é possível calçar e descalçar botas. 
É provável. que haja um chiste com o preceito de 
Protágoras “O homem é a medida de todas as 
coisas”, 


ARISTÓFANES 


| DISCÍPULO 
De fato, que diria você se soubesse 
de um outro raciocínio de Sócrates? 


ESTREPSÍADES 
Qual? Conte-me, eu suplico. ..38 


DISCÍPULO 
Querefónté de Esfétio perguntou-lhe 
qual a sua opinião, se os mosquitos 
cantam pela boca ou pela rabadilha. 


ESTREPSÍADES 
E que foi que ele disse a respeito do 
mosquito? 


DISCÍPULO 

Ele dizia que o intestino do mos- 
quito é estreito; como é apertado, o ar 
passa por ele com violência e se enca- 
minha diretamente para a rabadilha. 
Ora, como é oco e ligado a esse lugar 
estreito, o buracó ressoa por causa da 
violência do sopro.? 7 


ESTREPSÍADES 
Ah, então o rabisteco do mosquito é 
uma trombeta! Seja ele três vezes 


bem-aventurado, só por essa 
e: EEE) 38. 

intestigação”... De fato, numa 
defesa, facilmente seria absolvido 


quem conhece a fundo o intestino dos 
mosquitos... 


DISCÍPULO 
Sim, mas há pouco ele foi despojado 
de um grande pensamento por uma 
lagartixa... 


ESTREPSÍADES 
De que maneira? Conte-me. 


DISCÍPULO | 
Ele investigava os caminhos da Lua 


38 Essas questões cleviam ser objeto de discussões 
dos filósofos desse tempo. O próprio Aristóteles 
preocupava-se com a explicação do canto dos inse- 
tos. Ar. Hist. An., 1 V.9sss. 

37 Note-se o tom dogmático de explicação socrá- 
tica, com suas etapas bem precisas e bem imagina- 
das. 

38 Palavra cômica que lembra “investigação”. 


| 


155 


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165 


t70 


175 


180 


AS NUVENS 


e suas evoluções?º. Então, como esta- 
va de boca aberta, de noite, olhando 
para cima, uma lagartixa cagou lá do 
alto do teto... *º 


ESTREPSÍADES 
Gozado que uma lagartixa tivesse 
cagado em Sócrates!... 


DISCÍPULO 
Ontem mesmo, à tarde, não tínha- 
mos o que cear... 


ESTREPSÍADES 
Puxa! Então que é que ele mano- 
brou para conseguir comida? 


DISCÍPULO 
Espargiu sobre a mesa uma cinza 
fina, dobrou o espeto e, depois, usan- 
do-o como um compasso... surripiou 
o manto da palestra... *1 


ESTREPSÍADES : 
Por que então admiramos aquele fa- 
moso Tales?*2 Depressa, abra, abra o 
“pensatório”, e mostre-me logo esse 
Sócrates, pois tenho vontade de apren- 
der! Mas, abra a porta! (Abre-se a 
porta. Véem-se os discípulos de Sócra- 
tes, em atitudes estranhas, olhando 
para o chão. No fundo, um leito 
estreito e uma mesa com mapas, 
esquadros, réguas, etc... Do alto do 
teto um cesto dependurado.) Por Héra- 
cles, de onde vieram esses bichos? 


38 Referência à tradição segundo a qual o sábio 
Tales de Mileto caíra num poço, enquanto obser- 
vava Os astros. ; 

“0 Lit. lagarto malhado, tradicionalmente conside- 
rado um animalzinho malicioso. Cf. lat. Stelio. 

“1 A passagem não é bem clara. Várias hipóteses 
procuram explicá-la: a) Sócrates teria comparecido 
à palestra e, enquanto distraíia os que o rodeavam, 
surripiara a vítima que se sacrificava a Hermes; b) 
enquanto explicava questões científicas, habilmente 
conseguira roubar alguma peça de vestuário; c) 
teria distraído a atenção e a fome dos discípulos 
discorrendo sobre questões geométricas. Parece-nos 
a explicação mais razoável. 


“2 Tales de Mileto, um dos Sete Sábios, conside- . 


rado o fundador da filosofia, o primeiro a preocu- 
par-se com assuntos matemáticos e astronômicos 
(século VIT). 


185 


DISCÍPULO 
Por que você se espanta? Em sua 
opinião, com que se parecem? 


ESTREPSÍADES 
Com os lacedemônios capturados 
em Pilos*3. Mas por que razão esses 
fulanos olham para a terra? 44 


DISCÍPULO 
Procuram o que está debaixo da 
terra. 


ESTREPSÍADES 
Ah, com toda certeza estão procu- 
rando cebolas... Então, não procu- 
rem mais isso, pois eu sei onde as há 
grandes e bonitas... Pois esses ou- 


tros, que estão fazendo, tão inclina- 
dos? 


DISCÍPULO 
Esses sondam o EFrebo, até debaixo 
do Tártaro **. 


ESTREPSÍADES 
Por que é que o rabo está olhando 
para o céu? 


DISCÍPULO 
' Está aprendendo astronomia por 
sua própria conta. ..*º (Aos discí- 


*3 Nobres espartanos que, depois de resistirem a 
um demorado assédio, foram obrigados a entregar- 
se na ilha de Esfactéria, 425 a.C. Os discípulos, pá- 
lidos, macilentos e de cabeça baixa, lembram o esta- 
do lastimável e a vergonha daqueles infelizes 
prisioneiros. 

“4 Platão relembra que os poetas cômicos foram os 
primeiros a caluniar Sócrates, acusando-o de pes- 
quisar as coisas subterrâneas e celestes, Apol., 19-B. 
No entanto, o mesmo Platão nos apresenta Sócrates 
indagando a respeito da localização e natureza do 
Hades, Fed., 113-F. 

*5 Aristófanes ridiculariza as pesquisas profundas 
que penetravam até o Érebo, debaixo do Tártaro, 
onde não devia existir absolutamente nada. 

*8 Conforme o testemunho de Xenofonte, Sócrates 
condenava as investigações abstratas sobre os fenô- 
menos naturais e só admitia os estudos de geometria 
e astronomia tendo em vista objetivos práticos. Cf. 
Mem., 1, 1, 11; IV, 7, 2, 6. Plat., Apol. 19-D. Toda- 
via, ao fazer sua biografia intelectual, o próprio Só- 
crates afirma que até atingir a maturidade se entre- 
gara a “esse gênero de saber a que se dá o nome de 
conhecimento da natureza”. Plat., Fed., 96-A, 99-D. 


185 


190 


195 


200 


186 


pulos que se aproximaram da porta.) 
Vamos, entrem, para que “ele” não 
encontre vocês. 


ESTREPSÍADES 
Não, ainda não! Fiquem, para eu 
conversar com eles sobre um meu 
negocinho... 


DISCÍPULO 
Mas, eles não podem ficar por muito 
tempo ao ar livre... 


(Entram todos. Estrepsia- 
des aproxima-se 
da mesa e aponta.) 
ESTREPSÍADES 
Pelos deuses, que é isso? Diga-me. 


DISCÍPULO 
Isto é astronomia. 


ESTREPSÍADES 
E isto? 


DISCÍPULO 
Geometria. 
ESTREPSÍADES 
(Toma uma régua.) 
E isto então para que serve? 


DISCÍPULO 
Para medir a Terra... 


ESTREPSÍADES 
Será por acaso a terra 
dae Rue 


lotea- 


DISCÍPULO 
Não, toda ela! 


ESTREPSÍADES 
Você diz uma coisa inteligente. Com 
efeito, a idéia é democrática e útil... 


“7 No governo de Péricles as terras dos Estados 
vencidos foram medidas com a colaboração de dez 
geômetras e distribuídas aos pobres, reservando-se 
um décimo para os deuses, Tuc., HI, 50. Estrep- 
stades entende que se pretende medir a terra para 
distribui-la ao povo, daí a alusão do v. 205. 


ARISTÓFANES 


DISCÍPULO 
(Tomando um mapa.) 


Este é o circulo da Terra“. Está 
vendo? Eis aqui Atenas. 


ESTREPSÍADES 
Que diz? Não acredito, pois não 
vejo os juízes sentados no tribu- 
pal ss 


DISCÍPULO 
Afirmo que este é verdadeiramente o 
território da Ática. 


ESTREPSÍADES 
E onde estão os Cicinotas, meus 
companheiros de bairro? 
DISCÍPULO 
Ei-los aqui. Esta é a Eubéia *º, como 
você vê, estendendo-se ao longo, com- 
prida, bem a distância. 


ESTREPSÍADES 

Sei, pois foi bem esticada por nós e 

por Péricles... E a Lacedemônia, 
onde está? 


DISCÍPULO 
Onde está? Ei-la aqui! 


ESTREPSÍADES 
Como está perto de nós! Pensem 
bem nisso: afastá-la para bem lon- 
Be 


DISCÍPULO 
Mas não é possível !... 


ESTREPSÍADES 
Por Zeus, vocês se arrependerão. .. 
(Estrepsíades olha para cima e vê o 
cesto" dependurado.) Ora vejam só! 


“8 (Os mapas-múndi e cartas geográficas já deviam 
ser comuns em Atenas. 

“sS Crítica à mania judiciária dos atenienses. Aliás, 
logo depois das Nuvens, Aristófanes dedicou uma 
comédia a esse assunto: As Vespas. 

Sº Eubéia, a maior ilha do mar Egeu. Depois das 
guerras pérsicas ingressou na Confederação de 
Delos, da qual pretendeu afastar-se em 446, numa 
rebelião esmagada por Péricles. Cf. Tuc., I, 114. 


) 
! 


215 


AS NUVENS 


Quem é esse homem dependurado num 
cesto, lá em cima? 


DISCÍPULO 
“Ele”, em pessoa! 81 


ESTREPSÍADES 
“Ele”? quem? 


DISCÍPULO 
Sócrates. 


ESTREPSÍADES 
220 Sócrates!? — Vá chamá-lo para 
mim, e bem alto. 


DISCÍPULO 
Não, chame-o você; eu não tenho 
tempo. (O discípulo desaparece.) 


ESTREPSÍADES 
Sócrates ! Socratesinho ! 


SÓCRATES 
(Do alto.) 


Por que me chama, ó efêmero º? 
ESTREPSÍADES 


Em primeiro lugar, eu lhe peço, 
explique-me o que está fazendo. 


SÓCRATES 
225 Ando pelos ares e de cima olho o 
Sol 3. 
ESTREPSÍADES 


Ah, então você olha os deuses aí de 
cima, do alto de uma peneira * * e não 
daqui da terra, se é que se pode... 


51 Aristófanes associa o filósofo aos pitagóricos, 
daí a expressão “ele em pessoa”, isto é, o “Mestre”. 
s2 Sócrates aparece lá do alto como um “deus ex 
machina” e por isso pode usar de linguagem apro- 
priada a uma divindade em seu trato com seres 
humanos. 

83 O filósofo afirma que está meditando sobre o 
Sol e Estrepsiades, que entende tudo às avessas, 
pensa tratar-se do deus Hélio (Febo Apolo) e inter- 
preta as palavras de Sócrates como uma ofensa, 
desprezo à divindade e, por conseguinte, prova de 
ateismo. 

54 Na verdade, “ciranda, caniçada”; traduzimos 
“peneira”, vocábulo mais conhecido, mais cômico. 


187 


SÓCRATES 

Pois nunca teria encontrado, de 
modo exato, as coisas celestes se não 
tivesse suspendido a inteligência e não 
tivesse misturado o pensamento sutil 
com o ar, o seu semelhante '*. Se, 
estando no chão, observasse de baixo o 
que está em cima, jamais o encontra- 
ria. Pois de fato a terra, com violência 
atrai para si a seiva do pensamento * 8. 


Padece desse mesmo mal até o 
ABTIidO «e 
ESTREPSÍADES 


(Muito espantado.) 


Que diz? O pensamento puxa a 
seiva para o agrião? Então venha, meu 
Socratesinho, desça aqui para ensinar- 
me aquilo que vim procurar... 


SÓCRATES 
(Descendo .) 


Mas a que veio você? 


ESTREPSÍADES 
Porque desejo aprender a falar. Com 
efeito, estou sendo saqueado, pilhado e 
penhorado nos meus bens, por credo- 
res e juros muito cacetes... 


SÓCRATES 
E como você não percebeu que se 
endividava? 


ESTREPSÍADES 
Foi uma doença de cavalos que me 


55 Referência aos filósofos, como Anaximenes, 
Anaximandro e Diógenes de Apolônia, que identifi- 
cavam a alma com o ar, um sopro. 

868 Assim como o vapor de água 'é novamente 
atraído pela terra voltando sob a forma de chuva 
(Diog. Apol., Diels-Kranz II, 54, 28), a terra teria o 
poder de atrair para si a seiva do pensamento, 
perturbando a reflexão. A propósito 'do efeito que 
essas teorias irão produzir no espirito de Estrep- 
siades, veja vv. 1279 ss. 

57 Aristófanes critica o método socrático de ir bus- 
car comparações em fatos corriqueiros da vida diá- 
ria: a associação de idéias com o agrião surge natu- 
ralmente, por tratar-se de uma planta rasteira e 
aquática, que vive em meio úmido e sofre bem de 
perto a influência dessa atração para baixo, ainda 
não definida. 


240 


245 


250 


188 


arruinou, terrível, devoradora. .. Mas 
ensine-me o outro dos seus dois racio- 
cínios, aquele que não devolve nada. 
Pelos deuses, juro pagar-lhe qualquer 
salário º8 que você cobrar !... 


SÓCRATES 
(Em terra.) 


Por quais deuses você pretende 
Jurar? Para começar, em nosso meio 
os deuses são moeda fora de circula- 
CÃO aos 

ESTREPSÍADES 

Como é que vocês juram? Acaso 
serã por peças de ferro, como em 
Bizâncio? 8º 

SÓCRATES 
Você quer conhecer claramente as 


coisas divinas e exatamente o que elas 
são? 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, se é possível... 


SÓCRATES 
E travar relações com as Nuvens, as 
nossas divindades*!, para conversar 
com elas? 


ESTREPSÍADES 
Sim, demais! 
SÓCRATES 
Então sente-se no leito sagrado. 


ESTREPSÍADES 
Pronto; estou sentado. 


SÓCRATES 
uma coroa 
mãos.) 


(Com 


nas 


ss Contradição hilariante, pois o velho matreiro 
quer justamente um meio de não pagar nada. 

8º Alusão ao ateismo e impiedade de muitos filóso- 
fos, como Hipão, cognominado “o ateu”. Anaxá- 
goras sofreu processo por crime de impiedade e 
Protágoras afirmava que “nada sei.acerca dos deu- 
ses, se existem ou se não existem” (Diels-Kranz I, 
317-318). 

8º Mencionando as moedas de Bizâncio, de baixo 
teor metálico, Aristófanes lembra a falsidade dessa 
colônia e suas tentativas de defecção. 

81 A atribuição de divindade às Nuvens é invenção 
de Aristófanes. 


ARISTÓFANES 


Pois tome aqui esta coroa... 82 


ESTREPSÍADES 
- Para que uma coroa? Ai de mim, 
Sócrates, contanto que vocês não me 
sacrifiquem como ao pobre Ataman- 
te a 


SÓCRATES | 
Não, mas fazemos tudo isso aos que 
se vão iniciar. 
ESTREPSÍADES 
O que é que ganho eu com isso? 


SÓCRATES 
Tornar-se-á escovado na fala, char- 
latão, uma flor de farinha! (Sócrates, 


enguanto fala, esfrega as costas de 


Estrepsíades e esparge farinha sobre a 
sua cabeça.) Mas, fique quieto ! 


ESTREPSÍADES 
Por Zeus, você não me vai enganar: 
de fato, polvilhado, serei uma flor de 
farinha... 


E SÓCRATES 
E preciso que o velho fique calado e 


- preste atenção à prece! (Solenemente.) 


Senhor soberanoº*, Ar incomensu- 
rável, que sustentas a Terra suspensa 


«2 Paródia das cerimônias de iniciação dos rituais 
órficos-pitagóricos ou eleusinos. A partir de certa 
época, essas cerimônias tornaram-se comuns em 
Atenas, associadas com elementos oriundos de cul- 
tos estrangeiros, frigios e egípcios. Era habitual a 
coroação dos neófitos; como as vítimas dos sacrifi- 
cios também eram coroadas, Estrepsiades fica 
apavorado. 

s3 Rei da Beócia, salvo graças à intervenção de 
Hércules, no- momento em que ia ser sacrificado por 
instigação de sua primeira esposa, a deusa Nefele. 
Muitas tragédias inspiraram-se nessa lenda, inclu- 
sive o Atamante Coroado de Sófocles. Observe-se a 


" mudança de tom nesta cena preparatória do párodo 


(vv. 263-274). 

8* Sócrates invoca três divindades próximas umas 
das outras: Ar, Éter e Nuvens. Era comum associar 
três divindades, tanto nas preces como nos juramen- 
tos. A divindade do Ar foi sustentada, entre outros, 
por Orfeu (Diels-Kranz I, 5, 6), Diógenes de Apolô- 
nia (Diels-Kranz II, 61, 7) e Demócrito fr. 6. Os 
órficos-pitagóricos consideravam o Éter um deus e 
muitas vezes o identificavam com Zeus. Cf. Orfeu: 
“O Éter é tudo” (Diels-Kranz 1, 46, 18) e também 


Eur. fr. 869. 


| 
| 


255 


260 


265 


270 


AS NUVENS 


no espaço !*S Éter brilhante e venerá- 
veis deusas, Nuvens, portadoras do 
trovão e do raio!ºê Levantai-vos, 
Senhoras, mostrai-vos ao pensador, 
suspensas no ar! 


ESTREPSÍADES 
Não, ainda não! (Procura cobrir a 
cabeça com uma ponta do manto.) 
Antes vou cobrir-me com isto, para 
não me encharcar... 8? Desgraçado 
de mim... Sair de casa sem nenhum 
bonezinho!... 


SÓCRATES 

Então vinde, Nuvens augustíssimas, 
para mostrar-vos a este homem 8. 
Quer vos assenteis nas sagradas cu- 
meeiras do Olimpo *º, batidas pelas 
neves, ou estejais nos jardins do vosso 
pai Oceano 'º, compondo um coro 
sagrado para as Ninfas; quer por 
acaso, nas cabeceiras do Nilo, despe- 
jeis de suas águas com jarros de ouro, 
ou habiteis o lago Meótis”! ou o 


85 Segundo o testemunho de Plutarco, Mor., 869, 
Anaximenes fora o primeiro a afirmar que a Terra 
estava suspensa e era amparada pelo Ar. Posterior- 
mente essa teoria se tornou muito comum. E 
88 Epiteto das Nuvens, forjado por Aristófanes 
com a inversão da ordem dos elementos de um epi- 
teto muito conhecido de Zeus. Essa delegação de 
qualificativos corresponde, poeticamente, às novas 
teorias de explicação física dos fenômenos naturais, 
antes atribuídos aos poderes de Zeus. Cf. vv. 
375-411, 

87 Estrepsiades logo associa a idéia de Nuvens 
com a de chuva e procura proteger-se. 

68 Sócrates menciona os quatro cantos do globo: o 
Olimpo representa o norte; Oceano, o oeste; as 
cabeceiras do Nilo simbolizam o sul e o lago Meótis 
e o Mimante, o leste. 

8º Olimpo da Tessália, ponto culminante da penín- 
sula grega: o seu pico, sempre coberto de neve, era 
considerado a morada dos deuses. 

7º Da deificação das Nuvens resulta a necessidade 


* de dar-lhes uma ascendência divina: são invocadas 


como filhas de Oceano, personificação das águas 
que envolvem o mundo. Oceano estendia-se de leste 
a oeste e do norte ao sul da Terra. No extremo 
oeste, situavam-se os seus jardins, muitas vezes 
identificados com os Jardins das Hespérides, as nin- 
fas do poente. ; 

71 Lago da Jônia, nos limites da Europa e Ásia, 
hoje mar de Azov. 


189 


rochedo nevoso do Mimante?2. Rece- 
bei o sacrifício, atendei à prece, con- 
tentes com as cerimônias sagradas. 


(Ouve-se ao longe o Coro 
das Nuvens. Troam trovões.) 


CORO 


(Estrofe)73 Nuvens inesgotáveis” *, 


levantemo-nos, visíveis em nossa natu- 
reza orvalhada e brilhante! Longe do 
pai, o ribombante Oceano” *, vamos 
aos cimos nas altas montanhas, enca- 
belados de árvores. Contemplemos a 
distância os picos longínquos, as sea- 
ras, a Terra sacrossanta e irrigada, 
veneráveis, fragorosos rios, e o mar 
que geme com surdos ruídos. Incan- 
sável brilha o olho do Éter? em 
esplêndidos raios !... Eia, dissipemos 
a chuvosa névoa de nossa forma imor- 
tal e, com um olho que de longe vê, 
contemplemos a Terra. 


SÓCRATES 
Nuvens muito veneráveis, é evidente 
que me ouvistes a chamar-vos! (A 
Estrepsíades.) Você percebeu a sua voz 
junto com os gemidos do trovão, 
respeitável como um deus? 


ESTREPSÍADES 

Sim, eu vos venero, ó augustíssimas, 
tanto que desejo responder com peidos 
aos vossos trovões... Como treme- 
lico diante delas e tenho medo! E quer 
seja lícito, quer não seja lícito ? 7, tenho 
vontade de aliviar-me agora mes- 
mo... 


72 Promontório da Ásia Menor, nas proximidades 
de Esmirna. 

73 Inicia-se o párodo que se compõe de partes líri- 
cas, cantadas pelo coro (estrofe e antistrofe), e de 
partes dialogadas, com algumas intervenções do 
Corifeu (vv. 275-475). 

74 Epiteto adequado às Nuvens, mães das águas. 
75 Epíteto comum de Oceano, para representar os 
estrondos do mar. 

78 Expressão poética para designar o Sol. Cf. Eur., 
If. Taur., v. 194; Esq. fr. 158. 

77 O efeito cômico deriva do contraste entre a sole- 
nidade das palavras e a grosseira e incontrolável 
necessidade de Estrepsiades. 


275 


280 


285 


290 


295 


300 


305 


310 


315 


190 


SÓCRATES 
(Impaciente.) 


Chega de fazer graça e de agir como 
esses pobres poetas de borra!78 Mas 
fique quieto, pois um grande enxame 
de deusas se movimenta, cantando. 


CORO 

(Antistrofe)7º Virgens portadoras 
da chuva, vamos ver a brilhante cidade 
de Palas*º, terra de heróis, de Cécro- 
pe*º?, amável país! É lá que existe a 
veneração de inefáveis mistérios*?, e, 
nas cerimônias sagradas, um santuário 
aberto aos iniciados, com dádivas aos 
deuses do céu*3; altivos templos, está- 
tuas, sacratíssimas procissões aos 
bem-aventurados, sacrifícios cheios de 
coroas, festins em todas as estações? *, 
e, ao chegar a primavera, a festa de 
Bromo**, a exaltação melodiosa dos 
coros e o canto das flautas de surdos 
ressõos. 


ESTREPSÍADES 
Por Zeus, Sócrates, eu lhe peço, 
diga-me quem são essas que proferi- 
ram esse canto venerável? Serão por 
acaso alguma assombração? 


78 Trocadilho. Aristófanes refere-se aos poetas cô- 
micos, que ainda conservavam vestígios dos tempos 
em que se cobria o rosto de borra de vinho para ati- 
rar invectivas contra os participantes e assistentes 
do “komos”. Traduzimos “poetas de borra”, expres- 
são que na linguagem popular portuguesa tem senti- 
do depreciativo: “poetas sem nenhum valor, ordiná- 
rios”. 

79 Os elementos do coro já aparecem a distância, 
mas Estrepsíades só irá vê-los no v. 326. 

8o Atenas, cuja protetora era a deusa Palas Atena. 
81 Personagem mítico, primeiro rei de Atenas. 

sz Santuários de Deméter e Core, em Elêusis, que 
atraíam peregrinos de toda a Grécia e onde se cele- 
bravam, anualmente, os Grandes e Pequenos Misté- 
rios. 


83 Antítese às deusas subterrâneas, cujo culto 
acaba de ser mencionado. 

8* Os atenienses vangloriavam-se de sua piedade; 
durante o ano todos celebravam os deuses com fes- 
tas, em que as procissões eram um capítulo muito 
importante. Cf. Sof., E. €., 250; Isocr., Paneg., 45. 
8s As Antestérias, festas dionisíacas da primavera. 
Dioniso era invocado com o epíteto de Brômio, “o 
que estrondeia”. 


ARISTÓFANES 


SÓCRATES 

De modo algum! São as Nuvens 
celestes, deusas grandiosas dos ho- 
mens ociososf8. São elas que nos 
proporcionam pensamento, argumen- 
tação e entendimento, narrativas mira- 
bolantes e circunlóquios e a arte de 
impressionar € de fascinar*”. 


ESTREPSÍADES 

Ah, então é por isso que, depois de 
ouvir o seu canto, minha alma esvoa- 
ça, já procura falar com sutileza e di- 
vaga na fumaça esbarrando uma sen- 
tença numa sentencinha para refutar 
com outro argumento. ..88 
condições, se acaso é possível, agora 
quero vê-las claramente. 


SÓCRATES 
Então olhe para lá, para o Parnesº*º. 
Já vejo que elas vêm descendo calma- 
mente... 


ESTREPSÍADES 
Deixe ver, onde? Mostre-me! 


SÓCRATES 
São essas que avançam em grande 


número pelas cavernas e bosques, ali, 
de lado... 


ESTREPSÍADES 
Que negócio é esse, que não vejo... 


SÓCRATES 
Ao lado da entrada... .º0 


86 Referência àqueles que podem dispor de tempo 
para as especulações do espírito, i.e., os filósofos e 
poetas. 

87 Note-se que o próprio Sócrates fala irônica- 


“mente acerca da habilidade de seus pretensos coie- 


gas (os sofistas), que apelavam a todos os recursos 
para impressionar e enganar. 

88 Estrepsiades já está contagiado pelos sofis- 
tas... Nos Acarnianos, Aristófanes usa de frases 
semelhantes, para ridicularizar Eurípides. Cf. vv. 
444 ss. 

8º Monte de Atenas, geralmente nublado. Sócrates 
devia apontar para uma direção qualquer, já que o 
Pares, oculto por um canto da Acrópole, não 
podia ser visto do teatro. 


so A entrada da orquestra, por onde devia penetrar 
o coro. Cf. Av., v. 296. 


| 
| 


Nessas: 


320 


325 


330 


AS NUVENS 


ESTREPSÍADES 


Até que enfim ! E assim mesmo com 
dificuldade... 


(Entram as Nuvens, mulhe- 
res com vestes esvoaçantes 
e grandes narizes.) 


SÓCRATES 

Agora pelo menos você está vendo, 

a não ser que tenha umas remelas do 
tamanho de abóboras !º! 


ESTREPSÍADES | 
Sim, por Zeus, eu vejo, ó augustis- 
simas, pois já ocupam todo o espa- 
Cones 


SÓCRATES 
E, no entanto, você não sabia que 
são deusas, não acreditava nelas? 


ESTREPSÍADES 
Não, por Zeus, mas pensava que 
fossem vapor, orvalho e fumaça. .. 


SÓCRATES 
Por Zeus, nada disso !º2 É que você 
não sabia que elas sustentam a maior 
parte dos sofistasº?, adivinhos de 
Túrio?*, artistas da medicinaº*, 
“vadios de longos cabelos que só tra- 
tam de anéis e unhas”º 8, torneadores 


91 Expressão proverbial. 

82 Note-se que Sócrates invoca um deus cuja exis- 
tência daqui a pouco vai negar. Essas invocações 
haviam perdido toda consistência, reduzidas a sim- 
ples exclamações. 

83 De modo genérico são designados os vários gru- 
pos que constituem a classe dos sofistas, Platão 
também faz Protágoras chamar de ''sofistas” todos 
os poetas, músicos, ginastas etc... Cf. Prot., 
316-D. 

ss Referência a Lampão, amigo de Péricles, cola- 
borador na fundação e colonização de Túrio (443 
a.C.), considerada durante muito tempo a Eldorado 
dos atenienses. 

ss Particularmente Hipócrates de Cós (469-399), 
contemporâneo de Sócrates, que visitava Atenas 
com frequência e que, em suas obras, admitia as 
influências dos ventos e das Nuvens sobre a saúde e 
também as relações da astronomia com a arte de 
curar. 

s6 Aristófanes forja uma longa palavra cômica, ou 
para criticar a vaidade do sofista Hípias de Élis 
(veja Plat., Hip. Men., 368-D), ou então para ridicu- 
larizar o luxo e os atavios dos citaredos. 


191 


de coros cíclicos* 7, homens charlatães 
de coisas celestes?8. Sustentam esses 
vadios que não fazem nada, porque 


eles costumam cantá-las em suas 
obras. 
ESTREPSÍADES 
(Declamando.) 


Ah, então é por isso que canta- 
vam? 9 
“de úmidas Nuvens de redemoinhos de 
luz a hostil arremetida”, 
“as tranças de Tifeu!ºº de cem cabe- 
ças”, 
“dos furacões o violento sopro” 
e ainda “aéreos úmidos”, 
“aduncos que nadam nos ares” e 
“aquosas chuvas de orvalhadas Nu- 


vens”. 
E ainda, em troca de tudo isso, 


engoliam 
“fatias de bons e grandes murgens e 
carnes voláteis de tordos” "01. 


SÓCRATES 
Sim, é por causa delas. E não é 
Justo? 


ESTREPSÍADES 
Diga-me, então, se realmente são 
nuvens, que lhes sucedeu, por que 
parecem mulheres? (Aponta para o 
céu.) Aquelas lã pelo menos não são 
assim. ..192 


s7 Censura aos novos hábitos musicais e rítmicos 
dos poetas líricos, principalmente nos coros cicli- 
cos. Cf. vv. 970 ss (Frinis); Tesmof., v. 53 (Agatão); 
Ras, v. 153 (Cinésias). 

ss Anaxágoras, Metão, Hípias de Élis, Diógenes 
de Apolônia e muitos outros. 

sº Paródia do estilo mirabolante da poesia lírica 
do século V. 

100 Monstro de cem cabeças de dragão, filho da 
Terra e do Tártaro, derrotado pelos Titãs. Cf. Hes,, 
Teog., 820 ss. 

101 Alusão às grandes despesas da “coregia”, 
contribuição voluntária que consistia no preparo 
duma representação dramática. Aristófanes cita 
duas iguarias caras e apreciadas para lembrar que 
ao “corego” competia sustentar os coreutas, os mú- 
sicos, e atê o próprio poeta. 

102 Examinando o coro, Estrepsiades observa que 
as Nuvens são representadas por mulheres bem 
narigudas e aponta para o céu, onde vê as verda- 
deiras nuvens (cirros) que se parecem com flocos de 
la. 


335 


340 


345 


350 


192 


| SÓCRATES 
Vamos ver, como são? 


ESTREPSÍADES 
Não sei bem, mas é certo que têm 
aparência de flocos de lã desenrolada e 
não de mulheres. Não, por Zeus, nem 
um pouquinho!... Estas aqui têm 
narizes... 


SÓCRATES 
Então responda ao que eu pergun- 
tar” 03 y 


ESTREPSÍADES 
Pois diga logo o que quer. 


SÓCRATES 
Alguma vez, olhando para o céu, 
você já não viu uma nuvem semelhante 
a um centauro, a um leopardo, a um 
lobo ou a um touro? 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, já vi. E que quer 
dizer isso? 


SÓCRATES 

Elas se transformam em tudo o que 
desejam!º 4. Se vêem um fulano de 
longa cabeleira, um desses selvagens 
peludos, como o filho de Xenofan- 
to!º5, para ridicularizar a “mania” 
dele, tomam forma de centauros. 

ESTREPSÍADES 

Pois-se vêem lá de cima um ladrão 
dos bens públicos, como Simão!º 8, o 
que é que elas fazem? 


SÓCRATES 
Para representar a natureza dele, 
logo viram lobos... 


103 Sócrates inicia a prática das perguntas e res- 
postas, levando o interlocutor às suas próprias 
conclusões. 

104 Cúmulos, nuvens acinzentadas que tomam for- 
mas variadas, conforme a nossa imaginação. 

105 Hierônimo, poeta ditirâmbico, acusado de 
pederastia. É comparado aos centauros que tinham 
a parte inferior de um animal (cavalo), eram pelu- 
dos e lascivos. Cf. Sof., Traquínias. 

to 6 Desconhecido historicamente. Todavia é criti- 
cado também por Eúpolis. f7. 220. 


ARISTÓFANES 


ESTREPSÍADES 


Ah, então foi por isso que ontem, . 


quando viram Cleônimo!º?, aquele 
covarde que jogou fora o escudo, 
quando viram esse superpoltrão, logo 
se tornaram veados 


SÓCRATES 
E agora, você está vendo, viram 
Clístenes!º8 e por causa disso muda- 
ram-se em mulheres 


ESTREPSÍADES 
Então viva, minhas senhoras! E, 
agora, se alguma vez já-o fizestes a 
algum outro, solta à mim também 
essa voz que cobre os céus, ó todo-so- 
beranas! 


CORO 

Salve, velho dos antigos tempos, 
admirador de palavras queridas das 
Musas. (Voltando-se para Sócrates.) E 
você, sacerdote de tolices sutilíssimas, 
conte-nos o de que está precisando, 
pois não atenderíamos a nenhum outro 
dos atuais sofistas de coisas celestes, 
com exceção: de Pródico'º*S. A este 
por causa da ciência e saber e a você 
porque se pavoneia pelas estradas, 
lança os olhos de lado, anda descalço, 
suporta muitos males, e, por nossa 
causa, finge importância. ..110 


E ESTREPSÍADES |. 
O Terra, que voz! Como é sagrada, 
solene e formidável! 


197 Vítima constante de Aristófanes. Cf. Acar,, 
844, Paz, 446, 1295, Vesp., 19-20 etc. O veado é o 
Simbolo da covardia. Cf, Hom., IL, 1,225. 

108 Pederasta, devasso, frequentemente criticado 
— Acar., 118; Lís., 122; Av. 831; Cav. 1374; 
Vesp., 1187, etc. Não é absolutamente necessário 
que estivesse assistindo à representação, embora se 
tratasse, como em outras passagens, de pessoa bas- 
tante conhecida que o público podia apontar com o 
dedo. 

109 Pródico de Céos, célebre sofista, contempo- 
râneo de Sócrates. 

1º No Banquete (221-B), Platão rememora esta 
passagem, interpretando- -a de maneira favorável à 
Sócrates, que viveria atento a tudo o que se passava 
ao seu redor. Cf. Fed., 117-B. 


| 


355 


360 


365 


370 


AS NUVENS 


SÓCRATES 
Pois de fato só elas é que são deu- 
sas, todo o resto são lorotas! 


ESTREPSÍADES 
(Assustado.) 


Epa! E Zeus, em nome da Terra! 
Para vocês o Olímpio não é um deus? 


SÓCRATES 
Que Zeus? Não diga tolices! Nem 
sequer existe um Zeus! 


ESTREPSÍADES 
Que diz? Mas quem é que 
chove?"11 Explique-me isto antes de 
mais nada. 


SÓCRATES 
Elas, é claro!t12 Mas eu vou 
demonstrá-lo com sólidas provas. Ve- 
jamos, pois onde, alguma vez, você já 
viu Zeus chover sem Nuvens? E, no 
entanto, ele deveria chover num céu 


límpido, sem a presença das Nu-. 
vens a 
ESTREPSÍADES 
(Confuso.) 


Sim, por Apolo, de fato você o com- 
provou muito bem com esse raciocínio. 
E, no entanto, antes eu acreditava 
verdadeiramente que era Zeus que uri- 
nava através de um crivo... Mas, 
diga-me, quem é que troveja, coisa que 
me faz estremecer? 


41.0O nome de Zeus estava intimamente relacio- 
nado com os fenômenos da natureza, tais como o 
vento, as chuvas, os raios e os trovões. Zeus era 
invocado nas secas, como o reunidor das nuvens e 
protetor das chuvas. Assim se explicam a expressão 
“Zeus chove” e a correspondente invocação dos 
atenienses: “Chove, chove, ó caro Zeus”. 

112 Vários físicos já haviam procurado explicação 
racional da chuva. Cf. Anaxágoras (Diels-Kranz, fr. 
19, II, 41, 11); Hipócrates, Ar. 533; e principal- 
mente Anaximenes (Diels-Kranz I, 94, 8); Plut., 
Mor., 894-A: “Quando o ar se torna muito espesso, 
formam-se as nuvens, e quando ainda mais se con- 
densa, arrebentam as chuvas.” 

13 Veja Lucrécio VI, v. 400: “Pois então, por que 
Zeus nunca atira o raio sobre a terra com um céu 
limpido?” 


193 


SÓCRATES 
Elas é que trovejam, quando são 
roladas... 


ESTREPSÍADES 
(Muito espantado.) 


De que jeito, homem de todas as 
audácias... 


SÓCRATES 
Quando se enchem de muita água e 
são obrigadas a mover-se, cheias de 
chuva, forçosamente, ficam dependu- 
radas para baixo, e, a seguir, pesadas, 
caem umas sobre as outras, arreben- 
tam e estrondeiam. 


ESTREPSÍADES 
Mas quem é que as obriga a mover- 
se; por acaso não é Zeus? 


SÓCRATES 
Absolutamente. É o turbilhão eté- 
1.576 


ESTREPSÍADES 
(Estupefato.) 


Turbilhão? Isso me tinha escapa- 
do... Zeus não existe, e no lugar dele 
agora reina o Turbilhão !... Mas você 
anda não me ensinou nada a respeito 
do estrondo e do trovão... 


SÓCRATES 
Então você não me ouviu dizer que 
as Nuvens, cheias de água, quando 
caem umas sobre as outras, estron- 
deiam por causa da densidade? 


14 Aristófanes cria uma situação cômica, a partir 
de um quiproquó com a palavra “turbilhão” (dinos), 
que tanto podia significar o movimento que dera 
origem ao universo (cf. Plat., Fed., 99-B; Aristóte- 
les, Do Céu, II, 13, 295-A), como o movimento da 
rotação do céu ao redor da Terra ou ainda “vórtice, 
voragem”. Eurípides popularizou o termo, aplican- 
do-o ao movimento das nuvens, e é êsse o sentido 
das palavras de Sócrates. Como a mesma palavra 
grega, dinos, também pode significar qualquer obje- 
to torneado, um vaso, surge um mal entendido que 
terã sequência no fim da peça, vv. 1471 ss. 


375 


380 


385 * 


390 


395 


194 
ESTREPSÍADES 
Está bem, mas como acreditar 
nisso? 


SÓCRATES 
Vou explicar-lhe partindo de você 
mesmo. Nas Panatenéias!! 8, quando 
você se encheu de caldo, depois nunca 
ficou com o ventre desarranjado? E, de 
repente, um reboliço não o fez crepi- 
tar? 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Apolo, e logo ele me faz 
um alvoroço terrível e se desarran- 
ja... O caldinho estrondeia como um 
trovão e berra terrivelmente. Primeiro 
devagar, “pa-pa, pa-pa”, depois conti- 
nuando, “pa-pa-pa, pa-pa-pa”, e, quan- 
do eu me desaperto, ele troveja de uma 
“pa-pa-pa-pa-pa”, assim como as 
Nuvens. 


SÓCRATES 
Bem, pense bem como você peidou 
por causa desse ventrezinho tão peque- 
nino... E este ar, incomensurável, 
não é razoável que troveje intensa- 
mente? 


ESTREPSIÁDES 

Ah! Então é por isso que até os 
nomes são parecidos, trovão e pei- 
dao. ..'18 Mas, ensine-me isto, de 
onde provêm o raio relampeando fogo, 
ele que, quando nos fere, fulmina al- 
guns e por outros passa de raspão, 
deixando-os viver? Pois esse raio, por 
certo é Zeus quem o atira contra os 
perjuros. ..!17 


115 Um dos mais importantes festivais de Atenas. 
Realizado anualmente no dia 28 do Hecatombeu 
Gulho-agosto) e de quatro em quatro anos com 
maior pompa (Grandes Panatenéias). Dedicada a 
Atena, a festa comportava procissão, sacrifícios e 
jogos. A carne das vítimas era distribuída ao povo 
que se regalava com esse alimento, caro e pouco 


acessível. E 
118 Trocadilho forçado, talvez uma pilhéria com 


os gramáticos (Rima). 

117 Zeus também era invocado como “protetor dos 
juramentos”; por conseguinte, Sócrates está des- 
pindo a divindade de mais uma das s suas atribui- 


ções. 


ARISTÓFANES 


SÓCRATES 

Mas como, insensato, velho tonto, 
cheirando a mofo! 18, seu arcaico !'1º 
Se atira nos- perjuros, como é que não 
fulminou nem Simão nem Cleôni- 
mo'?2º nem Teoro? E, no entanto, bem 
que são perjuros... Mas Zeus atira 
sobre o seu próprio templo, sobre o 
“Sunio!2!, promontório de Atenas”, e 
sobre os altos carvalhos! Por quê? 
Pois de fato um carvalho não pode 
Jurar falso... 


ESTREPSÍADES 
(Hesitante.) 


Não sei, mas apesar de tudo você 
parece ter razão. . . Pois, afinal, que é 
o raio? 


SÓCRATES 

Quando um vento seco, alçado nos 
ares, fica preso nas Nuvens, lá de den- 
tro fá-las inchar como uma bexiga, e 
depois, arrebenta-as à força e se preci- 
pita para fora, cheio de ímpeto por 
causa da densidade. Em vista do ruído 
e da velocidade, ele se incendeia por 
própria conta! 22, 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, sem saber eu mesmo 
já padeci desse mal, certa vez, nas Diá- 
sias. Ao assar um bucho para minha 
família, distraído não lhe fiz uma 
fenda; então ele inchou, depois, de 
repente, estourou, emporcalhando-me 


118 Entenda-se “velho tonto que cheira aos tempos 
de Crono”. O antigo deus Crono muitas vezes é 
simbolo de “velho, bobo, gagá”. 

118 Aristófanes emprega uma palavra intraduzivel, 
mais ou menos equivalente ao | nosso 
“antediluviano”. 

120 Criticado em muitas passagens, ora como 
impostor, ora como ímpio ou adulador. Cf. Acar., 
134 ss., 1608; Vesp., 42, 47,418, 519 etc. 

Va Cf Hom., Od., 2” 78. Promontório no extremo 
sul da Ática, onde havia as ruínas de um templo jô- 
nico de Atena e um templo de Posidão. 

122 Paródia de alguma explicação dos físicos. Cf. 
Anaxágoras (Diels-Kranz II, 25, 21): “Quando o 
quente cai no frio, com. o ruído, produz o trovão, e, 
com o pêso e grandeza da luz, o raio.” 


405 


410 


415 


420 


425 


AS NUVENS 


até os olhos e queimando-me o ros- 
TOME 


CORIFEU 
(A Estrepsíades.) 


Ó homem que deseja em nosso con- 
vívio a grande sabedoria! Como você 
será feliz em Atenas e na Grécia, se 
tem memória, sabe pensar, tem a des- 
graça na alma e não se cansa, nem de 
pé, nem parado! Se não se irrita exces- 
sivamente com o frio, não deseja almo- 
çar e se abstém de vinho, de exercícios 
e de outras bobagens! 23, e se pensa 
que o melhor, como convém a um 
homem correto, é vencer, agindo, deli- 
berando e combatendo com a lin- 
gua!'24 


ESTREPSÍADES 

Mas se se trata de uma alma dura, 
de uma preocupação de tirar o sono € 
de um estômago parco, acostumado às 
privações e que só janta manjericão!?2 
não vos preocupeis, porque, se é por 
isso, corajosamente poderia oferecer- 
me como bigorna... 


SÓCRATES 
Não é verdade que você, agora, não 
aceitará nenhum outro deus a não ser 
os nossos, o'Caos, as Nuvens e a Lin- 
gua!28, só estes três? 


ESTREPSÍADES 
Realmente, nem sequer conversaria 
com os outros, ainda que os encontras- 


423 Exigia-se dos iniciados, notadamente entre os 
órficos e pitagóricos, a renúncia ao conforto físico 
como condição do aperfeiçoamento do espírito. 
Sobre Sócrates, cf. Xen., Mem., II, 1, e IV, 1,2. 

124 A essência do ensinamento sofístico, isto é, a 
capacidade de falar diante do povo, nas assem- 
bléias, nos tribunais. 

125 Lit. Segurelha (Satureia hortensis), que pelo 
sabor acre serve como condimento. Trata-se pois de 
um jantar muito pobre, feito só de ervas amargas. 
126 Quanto à invocação de três divindades, veja 
nota v. 264. Caos segundo Hes., Teog., 116, é o es- 
paço vácuo que tudo pode conter e que a tudo pre- 
cedeu. A divinização da Língua corresponde bem 
ao preceito sofístico: procurar sempre vencer com 
palavras. Cf. v. 419. 


195 


se... Nem faria sacrifícios, libações, 
ou ofertaria incenso ! 


CORIFEU 
Então, coragem! Diga-nos o que lhe 
devemos fazer, pois você não há de 
falhar, se nos honrar e admirar e pro- 
curar ser correto. 


ESTREPSÍADES 
Bem, minhas senhoras, eu vos peço 
esta coisinha bem pequenina; que eu 
seja, no meio dos gregos, o mais hábil 
no falar, com cem milhas de vanta- 
gem!!27 


CORIFEU 
Mas vai consegui-lo de nós! Tanto 
assim que, daqui em diante, nas deci- 
sões da Assembléia ninguém terá mais 
vitórias do que você... 


ESTREPSÍADES 
Não, não me faleis de decisões 
importantes; pois não as ambiciono, 
mas só quanto me baste para virar a 
Justiça para o meu lado e escapar dos 
credores!.. 


CORIFEU 
Então encontrará o que almeja, pois 
não quer grandes coisas. Coragem, 
entregue-se aos nossos ministros !128 


ESTREPSÍADES 
Vou fazê-lo, porque confio em vós; 
pois a necessidade me aperta, por 
causa dos cavalos de raça e desse casa- 


mento que me arruinou. (Declamando 
enfático.)'2º 


127 Estrepsíades considera a eloquência uma coisa 
concreta, avaliando-a com medida itinerária. Cf. 
Ras, 91. A mesma pilhéria aparece em Eúpolis. Fr. 
94, referindo-se a Péricles. Lit. “cem estádios”. O 
estádio media 600 pés gregos, 1. e., 177,6 metros. 
128 Os sacerdotes que servem às deusas Nuvens, 
aqui evidentemente identificados com Sócrates e 
seus discípulos. 

12º Inicia-se o “pnigos”, trecho que devia ser 
pronunciado num só fôlego. Estrepsíades, constran- 
gido pela necessidade, entrega-se de mãos atadas ao 
destino. Tudo fará, contanto que não seja obrigado 
a pagar as dívidas (vv. 439-456). 


430 


435 


440 


445 


450 


455 


196 


Agora então façam 

exatamente o que desejam. 

Este corpo que é meu 

eu lhes entrego, 

para apanhar, sofrer fome ou sede, 
ficar sujo, 

enregelado ou esfolado, 

se é verdade 

que vou escapar das dívidas 

e, diante do mundo, 

parecer atrevido, 

linguarudo, ousado, resoluto, 
velhaco, colâdor de mentiras, 
paroleiro, 

superescovado nos tribunais, 
tábua de leis'3º0, 

charlatão, raposa, 

afiado em chicanas, macio na fala, 
dissimulador, viscoso e fanfarrão, 
digno do chicote, 

canalha, retorcido, 

chato e fila-bóia. 

Se me chamam assim 

os que se encontram comigo, 
façam exatamente 

o que lhes apraz 

e, se querem, 

sim, por Deméter, 

ofereçam-me aos pensadores, 
como um prato de tripas. ..131 


CORIFEU 
A resolução deste homem não é sem 
audácia, mas audaciosa. Fique saben- 
do, quando você aprender comigo, terá 
entre os mortais uma glória que se 
eleva aos céus! 


130 As leis de Sólon foram originalmente inscritas 
em placas móveis de madeira, que desapareceram 
durante a invasão dos persas. Preservaram-se as có- 
pias gravadas em lajes de pedra, que permaneciam 
expostas na Acrópole, embora incompletas e muti- 
ladas. 

131 As enumerações são um recurso cômico que já 
aparece em Epicarmo, /rs. 42, 94. Aristófanes com- 
praz-se em citar todos os nomes que poderiam 
caracterizar os amantes de chicanas e processos. 


ARISTÓFANES 


ESTREPSÍADES 
Que será de mim?!32 


CORIFEU 


Eternamente em minha companhia, 
você passará a mais invejável das 
vidas humanas. 


ESTREPSÍADES | 
Então, acaso verei isso um dia? 


CORIFEU 
Muita gente sempre se assentará à 
sua porta, querendo fazer-lhe confidên- 
cias, conversar sobre processos e defe- 
sas de grande valor, para pedir conse- 
lho sobre assuntos à altura do seu 
intelecto... 


(A Sócrates) 


Mãos à obra, trate de praticar o que 
vai ensinar ao velho em primeiro lugar. 
Movimente-lhe o intelecto e experi- 
mente o seu pensamento. 


SÓCRATES 
Vamos, revele-me o seu caráter, 
para que eu saiba como ele é, e, além 
disso, já faça avançar contra você 
novos “engenhos” 33. 


ESTREPSÍADES 
(Espantado .) 


Quê?! Pelos deuses, você pretende 
tomar-me de assalto? 


SÓCRATES 
Não, mas quero fazer-lhe umas 
perguntinhas. Por acaso você tem boa 
memória? . 


132 Esta cena sugere uma paródia de tragédia ou 
de rituais de iniciação em mistérios religiosos. To- 
mada a resolução, vêm as dúvidas, o pavor do 
desconhecido (vv. 461-471). 

133 Cena de transição. Exame inicial do novo can- 
didato ao “pensatório” (vv. 478-509). Note-se o qui- 
proquó. Sócrates fala dos novos expedientes da edu- 
cação sofística e o velho pensa em máquinas de 
guerra. 


460 


465 


470 


475 


480 


485 


490 


495 


AS NUVENS 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, de dois jeitos. Quan- 
do me devem alguma coisa, tenho 
muito boa memória, mas, ai de mim, 
quando devo, sou completamente des- 
memoriado. .. 


SÓCRATES 
Bem, você tem aptidões naturais 
para falar? 


ESTREPSÍADES 
Para falar, não, mas para fa... .lhar 
Si oo 


SÓCRATES 
Então como será capaz de apren- 
der? 


ESTREPSÍADES 
Sossegue, muito bem ! 


SÓCRATES 
Bem, quando eu lhe propuser algu- 
ma questão erudita sobre as coisas 
celestes, trate de surripiá-la bem de- 
pressa... 


ESTREPSÍADES 
Quê? Vou comer sabedoria, como 
um cachorro? 


SÓCRATES 
Esse daí é um homem ignorante, um 
bárbaro! Eu témo, meu velho, que 
você precise dumas pancadas... Ora 
vejamos, que faz quando alguém lhe 
bate? 


ESTREPSÍADES 
Apanho. Depois espero um pouco e 
chamo testemunhas; depois, deixo pas- 
sar ainda mais um momentinho e vou 
aos tribunais! * *. 


134 Alusão à mania judiciária dos atenienses. Com 
esse argumento, Estrepsíades acaba convencendo 
Sócrates a aceitá-lo como discípulo. 


197 


SÓCRATES 
Está bem. Então, tire o manto !'3 5 


| ESTREPSÍADES 
Fiz algum crime? 


SÓCRATES 


Não, mas a lei é que se entre sem 
manto. 


ESTREPSÍADES 
Mas não vou entrar para procurar 
coisas roubadas... 


SÓCRATES 
Tire! Por que tagarela? . 


ESTREPSÍADES 
(Obedecendo.) 


Então pelo menos diga-me o seguin- 
te: se eu for diligente e aprender com 
vontade, com que discípulo ficarei 
parecido? 


500 


SÓCRATES 
No aspecto, você será igualzinho a 
Querefonte... 


ESTREPSÍADES 
Ai, infeliz de mim! Ficarei meio 
morto ! 


SÓCRATES 
Chega de tagarelices! Mas trate de sos 
seguir-me. Vamos, logo, depressa, por 
aqui... 


ESTREPSÍADES 
Então antes dê-me aqui nas mãos ao 
menos um bolinho de mel... Como 
tenho medo, descendo aí dentro... É 


135 Prática habitual nas cerimônias de iniciação. 
Como a vitima de um roubo, para procurar objetos 
roubados nas casas dos suspeitos, devia apresentar- 
se “sem manto”, nasce novo mal-entendido. 


sI10 


S15 


s20 


198 


como se fosse à caverna de Trofô- 
NO OS 


SÓCRATES 
Vamos, ande. Por que você fica per- 
dendo tempo ao redor da porta”? 


(Entram ambos no 
“  “pensatório ”) 


CORO 
Então!3 7 vá, seja bem sucedido por 
sua coragem! Boa sorte a este homem, 
que já bem avançado nos limites da 
idade, pinta a própria natureza com 
ações juvenis e cultiva a sabedoria! 


CORIFEU 
(Ao público.)'38 


Espectadores, vou dizer-vos a verda- 
de sem rebuços. Sim, em nome de 
Dioniso'3º, o que me criou. Tomara 
eu possa vencer e ser considerado um 
bom poeta, assim como é verdade que 
vos julguei espectadores sagazes e esta 
a mais engenhosa de minhas comédias 
e achei conveniente fazer-vos prová-la 
em primeiro lugar, esta peça que me 
deu o maior dos trabalhos! *º. Mas, 


138 Filho de Ergino, rei de Orcômeno. Segundo a 
lenda, foi tragado por uma fenda do solo e, de sua 
morada subterrânea, em Leobadéia da Beócia, pas- 
sou a proferir oráculos. O consulente, vestindo ape- 
nas uma túnica, após vários ritos de purificação, 
penetrava na caverna e descia por uma abertura 
afunilada por onde só podia passar um corpo huma- 
no, levando em cada mão um bolinho de mel a fim 
de apaziguar as serpentes e outros animais selva- 
gens. 

137 Inicia-se a Parábase, o intermezzo não dramá- 
tico em que o poeta fala diretamente aos espectado- 
res. À parâbase tinha uma estrutura mais ou menos 
rígida e o seu primeiro movimento eram esses pou- 
cos versos que serviam de elemento de ligação com 
a cena anterior (vv. 510-517). 


138 Parábase propriamente dita. 

138 É perfeitamente natural a invocação a Dioniso, 
deus protetor da arte dramática, e, portanto, dos 
poetas cômicos. 


14º Referência ao insucesso das Nuvens em sua 
primeira representação, quando Aristófanes só lo- 
grou obter o terceiro lugar. O poeta não pôde ocul- 
tar o desapontamento, pois esperava melhor aco- 
lhida em' vista dos novos recursos cômicos que 
havia criado: originalidade do assunto, citações e 
pastichos de doutrinas filosóficas, etc. 


ARISTÓFANES 


depois, bati em retirada, vencido por 
homens grosseiros, eu que não o mere- 
cia! 41, É isso que vos censuro, a vós 
que sois inteligentes, em cuja homena- 
gem tanto me esforcei. Mas nem 
mesmo assim, espontaneamente, nunca 
hei de trair os espertos. Desde que, 
neste mesmo lugar o Virtuoso e o 
Pervertido! “2 receberam os maiores 
elogios de homens aos quais é até doce 
falar, e eu — por ser ainda virgem e 
não ter o direito de parir — expus a 
minha criança, que uma outra donzela 
recolheu e adotou! 3 e vós generosa- 
mente nutristes e educastes; desde esse 
tempo, tenho penhores sinceros da 
vossa opinião. Agora então, como 
aquela famosa Electra! 44, esta comé- 
dia veio ver se poderá encontrar em 
algum lugar espectadores tão inteligen- 
tes. De fato, quando vir, hã de reconhe- 
cer os cachos do seu irmão... Obser- 
vai como esta comédia é naturalmente 
sensata; pela primeira vez não se apre- 
sentou depois de costurar diante de si 
um penduricalho de couro grosso e de 
ponta vermelha! *º para provocar o 


141 Os rivais premiados: Amípsias (Conos) e Cra- 
tino (Garrafa). 

"42 Alusão à sua primeira comédia Convivas, 
representada em 427 a.C., com a segunda classifica- 
ção. Nessa peça já era abordado o problema da edu- 
cação contemporânea, de suas afinidades com as 
Nuvens (cf. vv. 534-535). 


143 Muito jovem, Aristófanes não quis desde logo 
enfrentar rivais mais velhos e de grande fama; por 
isso produziu :a peça com o nome de Calistrato ou 
de Fidônides. A tradição de uma lei que exigia a 
idade mínima de trinta anos para o poeta cômico 
parece-nos sem consistência. Embora a exposição 
de crianças fosse condenada pelo povo como uma 
ofensa a Zeus, protetor das famílias, não era proi- 
bida por lei e era comum em Atenas, tendo-se torna- 
do ainda mais frequente no IV século a.C., con- 
forme se pode verificar na Comédia Nova. 

144 Reminiscência das Coéforas de Ésquilo (vv. 
168 ss.) em que Electra reconhece o irmão por uma 
mecha de cabelos. Eurípedes na Electra faz uma cri- 
tica dessa passagem esquiliana (vv. 590 ss.) 


145 Os atores de comédia apresentavam simula- 
cros de falos dependurados debaixo da túnica curta. 
O próprio Aristófanes não aboliu esse hábito, mas 
provavelmente limitou a um ou dois os atores qué 
usavam o falo. Cf. v. 734 e também Acar., pp. 158, 
592; Vesp., 1343; Lis., 991, 1077. | 


| 


525 


530 


535 


540 


545 


550 


AS NUVENS 


riso das crianças. Não ridiculariza os 
carecas" CP. ce não dança «o 
“kórdax”! 7: nem se trata de um velho 
que recita os versos e bate com o bas- 
tão no parceiro, disfarçando gracejos 
indecentes! 48 nem se precipita em 
cena carregando tochas, nem grita uh!, 
uh!...14º Mas veio confiada em si 
mesma e nos seus versos. E eu, sendo 
um poeta dessa categoria, não me 
envaideço nem procuro enganar-vos 
representando duas ou três vezes os 
mesmos assuntos, mas sempre me 
adestro com habilidade, introduzindo 
novos recursos, totalmente diversos 
uns dos outros e todos engenhosos. Eu, 
quando Cleão! 8º era poderoso, gol- 
peei-o no ventre, mas não tive a audá- 
cia de pisoteá-lo de novo, quando se 
achava prostrado no chão... Mas os 
outros, porque Hipérbolo! *! uma vez 
recebeu um golpe, sempre espezinham 
o coitado e a sua mãe... Primeiro Êu- 
polis, o perverso, puxou para cena o 
seu Maricas" º2 depois de estropiar os 


146 Era hábito zombar da calvície; além disso, o 
próprio Aristófanes era calvo (cf. Paz, 767). 

147 Dança provavelmente originária do Pelopo- 
neso, impregnada de elementos licenciosos e burles- 
cos. O próprio Aristófanes faz Filocleão dançar o 
“kórdax”, nas Vespas, vv. 1516 ss. 

148 Provável alusão ao ator Hermão. 


149 Crítica das grosserias da farsa megariana. 
Nota-se que Aristófanes apelou para esse recurso 
nesta mesma peça: cf. cena final do incêndio da 
casa de Sócrates (vv. 1485 ss.). 


30 Demagogo que sucedera a Péricles e adquirira 
grande prestígio após a captura de Esfactéria (cf. 
nota v. 186) — Cf. Tuc. Il e HI, passim. Aristófanes 
atacara-o violentamente já nos Babilónios e depois 
nos Cavaleiros (424 a.C). 


151 Demagogo ateniense que começou a vida 
como fabricânte de lâmpadas, tendo conquistado 
grandes posições entre os populistas. É criticado 
nos Cavaleirôs (vv. 734 e 1315) e condenado em 
termos violentos por Tucídides, VIII, 13. O próprio 
Aristófanes ridiculariza a mãe de Hipérbolo, tida 
como usurária. Cf. Tesmof., vv. 842 ss. 

152 FEupolis, um dos três grandes da comédia, sati- 


rizou Hipérbolo, chamando-o “Maricas”, assim 
como Aristófanes atacara Cleão como 
“Paflagônio”. É possível que houvesse grandes 


semelhanças entre as duas peças. Todavia, nos Bap- 
tas, Eupolis, refuta essa acusação, afirmando que 
havia colabôrado na composição dos Cavaleiros. 


199 


meus Cavaleiros, acrescentando uma 
velha bêbada por causa do “kórdax”, 
aquela que Frínico! 8º tinha apresen- 
tado outrora, aquela que a baleia ia 
comer... Depois Hermipo! 5º fez 
novamente uma peça contra Hipérbolo 
e já todos se encamiçam contra Hipér- 
bolo, imitando as minhas imagens das 
enguias...!ººS Nessas condições, 
quem ri desses gracejos que continue 
não se divertindo com os meus. Mas se 
achais alguma graça em mim e nas mi- 
nhas invenções, para o futuro haveis de 
parecer homens de bom senso! 8 8. 


PRIMEIRO SEMICORO 

(Estrofe)' º? Zeus, senhor dos céus, 
poderoso, soberano dos deuses, neste 
coro eu invoco em primeiro lugar; e o 
possante guardião do tridente! 88, sel- 
vagem sacudidor da Terra e do mar 
salgado; e o nosso pai famosíssimo, 
venerando Éter" 5º, nutridor de tudo; e 
o condutor de cavalos! 8º, que, com 
raios multiluminosos, envolve a planí- 
cie da Terra, poderosa divindade entre 
deuses e mortais. 


153 Poeta cômico que estreou em 429 a.C. 
154 Poeta cômico que teve a primeira vitória em 


435. Na peça Vendedoras de Pão, atacou direta- . 


mente Hipérbolo e sua mãe. 
185 Cf. Cav., vv. B64 ss. 


156 Na parábase eram comuns os elogios aos 
espectadores (cf. vv. 520 ss.) e as promessas de feli- 
cidade (cf. vv. 1115 ss.). 

157 Ode, cantada pelo primeiro semicoro: versos 
líricos (vv. 563-574). Observe-se que tanto na ode 
como na antode são as próprias Nuvens que invo- 
cam os deuses olímpicos. Como a parábase emitia a 
opinião pessoal do poeta, este se julga na obrigação 
de retratar-se de uma possível acusação de impie- 
dade após as censuras dirigidas aos deuses, muitas 
das quais haviam ficado sem resposta. 


158 Posidão (Netuno), deus dos terremotos e das 
águas. 


159 Identificado com o Ar. É a única divindade 
sofistica invocada pelo coro. 


160 Hélio, personificação da divindade do Sol, 
venerado também como o condutor da carruagem 
que diariamente percorria o céu, de leste a oeste, 
portadora da luz. As vezes identificado com Apolo 
(cf. vv. 225 ss.). 


555 


560 


565 


570 


575 


580 


585 


590 


200 


CORIFEU? 81 

Espectadores sapientissimos, volvei 
a atenção para cá. Injustiçadas, nós 
vos censuramos, aqui em vossa presen- 
ça. Pois embora prestemos à cidade 
mais serviços do que todos os outros 
deuses, só a nós, dentre as divindades, 
nem ofereceis sacrifícios nem fazeis 


“libações, nós que velamos por vós. De 


fato se houver alguma expedição total- 
mente sem juízo, logo, ou trovejamos 
ou chuviscamos" 82. No momento em 
que elegieis estratego o curtidor Pafla- 
gônto, odioso aos deuses, nós fran- 
ziamos as sobrancelhas e protestá- 
vamos: “o trovão irrompeu em meio 
aos relâmpagos”! 83, a Lua abandonou 
os seus caminhos, o Sol logo puxou 
para si a sua centelha e dizia que não 
se mostraria diante de vós, se Cleão 
fosse estratego! 8 4. E, apesar disso, vós 
o elegestes. Dizem que as más resolu- 
ções são próprias desta cidade! 85, e 
que, no entanto, os deuses convertem 
no melhor todas essas bobagens que 
fazeis. .. Facilmente demonstraremos 
como mais este erro vos poderá ser 
útil. Se condenardes Cleão, o gavião, 
por roubo e corrupção e amordaçardes 
o pescoço dele com o afogador' 88, 
novamente, como de costume, embora 
cometêsseis um erro, o negócio há de 
reverter no melhor para a cidade! 


161 Epirrema: — o coro dirige-se novamente aos 
espectadores. Agora fala em nome das Nuvens (vv. 
575-594). 

162 Referência à superstição de que trovoadas e 
chuvas eram sinal do desagrado de Zeus, determi- 
nando o adiamento das reuniões da Assembléia. Cf. 
Acar., v. 171. 


163 Paródia de versos do Teucro de Sófocles. 

184 Houve um eclipse da Lua em 425 (outubro) e 
um do Sol em 424 (março), por conseguinte durante 
o governo de Cleão. 

165 Fra proverbial a insensatez ateniense, todavia 
sempre favorecida pela boa vontade dos deuses. Cf. 
Cav., 1055, Ass., 473. 

188 Referência ao hábito de prender o pescoço dos 
ladrões com o afogador ou golilha, para impedir 


que engolissem objetos de valor. Aristófanes insiste . 


nas críticas dos Cavaleiros, em que acusava Cleão 
de peculato e concussão. Cf. Cav., v. 956, passim. 


ARISTÓFANES | | 


SEGUNDO SEMICORO 

(Antístrofe) E tu também ao meu 
lado, Senhor Délio! 87, que habitas a 
Cíntia, rochedo de altos cornos; e tu, 
bem-aventurada, que moras em 
Éfeso! 88 numa casa toda feita de ouro, 
onde as donzelas da Lídia te veneram 
com grandeza; e a nossa deusa nacio- 
nal, regente da égide" 8º, Atena prote- 
tora da cidade; e o senhor da rocha do 
Parnaso! ?º, reluzente com as suas 
tochas, notável entre as Bacantes de 
Delfos" 7*, amigo do komos! 72, Dio- 
niso. 


CORIFEU 

Quando estávamos prontas para vir 
para cá, a Lua encontrou-se conosco é 
pediu-nos que vos disséssemos, inicial- 
mente, que saúda os atenienses e os 
seus aliados! 73. Depois, disse-nos que 
estã irritada, pois sofreu tratamentos 
indignos, embora vos auxilie a todos, 
não com palavras, mas de modo claro. 
Em primeiro lugar, porque vos faz eco- 
nomizar todos os meses não menos de 
uma dracma de tochas, tanto que todos 
dizem, quando saem à noite: “Escravo, 
não compre a tocha! 74, pois é bela a 
luz do luar”. Ela diz ainda que vos faz 


187 Apolo, que possuía na planície de Delos, lugar 
de seu nascimento, um templo famoso, ao pé do 
monte Cinto. 

168 Ártemis, a quem fora consagrado um grande 
templo em Éfeso, região da Ásia Menor, às vezes 
confundida com a Lídia. 

169 Epíteto de Atena usado só nesta passagem. 

17º Ponto extremo da cadeia de montanhas que se 
situa ao norte de Delfos. Era consagrado a Apolo e 
também a Dioniso, desde tempos muito antigos. 

171 As mênades, mulheres acompanhantes do sé- 
quito de Dioniso. 

172 Lembramos que os “komoi” eram as festas 
agrárias que deram origem à comédia. 

173 Crítica à saudação usada por Cleão em seus 
documentos oficiais, e, especialmente, na carta em 
que comunicava a vitória de Esfactéria — cf. 
Escol., v. 612 — Eup., fr. 322. A saudação é exten- 
siva aos aliados que normalmente assistiam as 
Grandes Dionisíacas (mas não às Lenéias. Cf. 
Acar., vv. 505 ss.). 

174 Tochas resinosas, utensílio indispensável nas 
viagens e saídas noturnas para alumiar os cami- 
nhos. 


z 


595 


600 


605 


610 


615 


620 


625 


AS NUVENS 


outros benefícios, e vós contais os dias 
de modo totalmente errado e fazeis 
uma atrapalhada de alto a baixo. Nes- 
sas condições, ela afirma que os deuses 
a ameaçam, quando são esquecidos 
num banquete, e voltam para casa sem 
ter encontrado a sua festa, de acordo 
com o cálculo dos dias!?7*. Assim, 
quando deveis fazer sacrifícios, tortu- 
rais e julgais! 7 8. Muitas vezes, quando 
nós, os deuses, jJejuamos! 77, lamen- 
tando Memnão ou Sarpedão! 78, vós 
fazeis libações e dais risadas; e foi por 
isso que Hipérbolo, sorteado para ser 
deputado em Delfos! 7º, depois foi des- 
pojado de sua coroa por nós, os deu- 
ses, pois assim saberá melhor que é 
preciso contar os dias da vida de acor- 
do com a Lua!8º. 


SÓCRATES 
(Saindo do “pensatório ”) 


Não, pela Respiração! Não, não, 
pelo Caos e pelo Ar!!'81? Nunca vi um 
homem tão bronco, cheio de embara- 


175 Crítica à confusão em que redundou a reforma 
do calendário, baseada em estudos do matemático 
Metão, que procurava adaptar os meses lunares ao 
ano solar. Essa reforma começou a ser adotada a 
partir do verão de 432 a.C. 

176 Em dias santificados não havia sessões no tri- 
bunal. Referência ao hábito de submeter os escravos 
à tortura a fim de obter testemunhos. 

177 Parece que o jejum era de praxe entre os parti- 
cipantes de certas festividades religiosas. Nas 
Tesmofórias havia um dia de Nestéia. 

178 Heróis que colaboraram com Priamo na defesa 
de Tróia. Memnão era o rei mítico da Etiópia, 
morto por Aquiles e imortalizado por Zeus, Od., IV, 
188. Sarpedão, comandante dos lícios, morto por 
Pátroclo e pranteado por Zeus, foi levado a Lícia, 
onde Sono e Morte o sepultaram, II, XVI, 426 ss.; 
677 ss. 

179 “Hieromnémon”, um dos magistrados religio- 
sos que constituíam as deputações das cidades à 
Anfictiônia de Delfos, federação jurídico-religiosa 
que reunia vários Estados gregos. Não há confirma- 
ção histórica das relações de Hipérbolo com esse 
organismo. 

180 Segundo o testemunho de Diógenes Laércio, 
Sólon recomendara aos atenienses que contassem os 
dias de acordo com a Lua. 

181 Sócrates invoca uma nova trindade divina, 
aliás, os seus deuses variam sempre... Cf. vv. 
264-5; 242; 773 e 814. 


201 


ços, desajeitado e esquecido ! Um indi- 
víduo que, quando estuda algumas 
bagatelas escolhidas, já se esquece 
delas ainda antes de aprendê-las. Não 
importa, vou chaniá-lo aqui para a luz 
do dia, para fora da porta. Onde está 
Estrepsiades”? Trate de sair com o leito 
sagrado !182 


ESTREPSÍADES 
(Vem carregando um ban- 
quinho.) 


Mas os percevejos não me deixam 
levá-lo para fora! 


SÓCRATES 
Rápido, ponha isso no chão e preste 
atenção. 


ESTREPSÍADES 


SÓCRATES 
Então vamos, o que é que você dese- 
Ja aprender agora mesmo, em primeiro 
lugar, daquelas coisas que nunca lhe 
ensnaram.?'83 Diga-me, serão por 
acaso as medidas, os versos ou os 
ritmos?18 4 


ESTREPSÍADES 
As medidas, eu sim! Pois há pouco 
fui tapeado por um mercador de fari- 
nha numa medida dupla... 


SÓCRATES 
Não: é isso que lhe pergunto, mas 
que medida você julga mais bela, o tri- 
metro ou o tetrâmetro”? 


182 Após a parábase, sucedem-se as cenas cômi- 


cas, alternadas com estrofes líricas. Prosseguimento 
e fim da educação de Estrepsíades (vv. 627-888). 


183 Note-se o tom pedante de Sócrates, coinci- 
dindo com a arrogância de Protágoras em relação 
aos seus discípulos. Cf. Plat., Prot., 318-D.E. 

184 Provável referência a Protágoras (cf. Plat., 
Prot., 391), já que Sócrates não tratava desses 
assuntos. O mestre fala das medidas rítmicas dos 
versos, e Estrepstades entende mal, pensando em 
medidas de capacidade. 


630 


635 


640 


645 


650 


202 


ESTREPSÍADES 


Nada me parece superior ao quarti- 
oe a 


SÓCRATES 
Você diz tolices! 


ESTREPSÍADES 
Então aposte comigo que o quarti- 
lho não tem quatro medidas. .. 


SÓCRATES 
Vá pro inferno ! Como você é bron- 
co e totalmente ignorante! Hum, tal- 
vez possa aprender os ritmos mais 
depressa!... 


ESTREPSÍADES 
De que me servirão os ritmos para o 
pão de cada dia? 


SÓCRATES 
Antes de tudo, para ser um homem 
de espírito na sociedade, alguém que é 
capaz de perceber dentre os ritmos 
qual o enóplio!ê * e, ao contrário, qual 
o dátilo. 


ESTREPSÍADES 
O dátilo? Por Zeus, mas eu sei! 


SÓCRATES 
Então diga... (apontando o indica- 
dor.) Qual é o outro “dátilo” além 
deste dedo aqui?! 8 & 


ESTREPSÍADES y 
(Erguendo o dedo médio.) 


Outrora, quando criança, eu usava 
este aqui. ..!8? 


SÓCRATES 
Você é um imbecil, um desajeita- 
dota, 


185 Ritmo adequado às danças guerreiras. 

185 Trocadilho, pois dátilo tanto é dedo como “pé” 
(medida rítmica —i H)). 

187 O gesto de erguer o dedo médio, apontando-o a 
alguém, significava que se considerava essa pessoa 
como um devasso, habituado a práticas contra a 
natureza. 


ARISTÓFANES 


ESTREPSÍADES 
Coitado! Fois não é nada disso que 
desejo aprender... 


SÓCRATES 
O quê? 
ESTREPSÍADES 
Aquilo, aquilo, o discurso mais 
injusto... 188 


SÓCRATES 
Mas antes disso você deve aprender 
outras coisas. Quais são exatamente os 
quadmápedes machos” 


ESTREPSÍADES 
Mas eu conheço perfeitamente os 
machos, se é que não estou louco... 
Carneiro, bode, touro, pássaro. ..!8º 


SÓCRATES 
Vê o que lhe está acontecendo? 
Você chama a fêmea de “pássaro”, 
com o mesmo nome do macho. 


ESTREPSÍADES 
Como então? Diga-me! 


SÓCRATES 
Como? “Pássaro” e “pássaro”... 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Posidão! E agora como 
devo chamá-los? 


SÓCRATES 
“Pássara” e o outro “passarão”. 


ESTREPSÍADES 
“Pássara”. Está bem; pelo 
Ar!...190º Nessas condições, só por 


188 Note-se a impaciência de Estrepsiades, que só 
quer aprender uma coisa, o Discurso Injusto. 

189 Critica às teorias de Protágoras, principal- 
mente sobre a “Orioépia”. Cf. Arist., Ret., II, 5, 
1407; Plat., Crat., 391-B. Sócrates, preocupado 
com as sutilezas gramaticais, não percebe que 
Estrepsíades incluiu uma ave entre os quadrúpedes. 
Fomos obrigados a alterar o original a fim de man- 
ter o jogo de cena e de palavras, o que seria impos- 
siível com as palavras “galo e galinha”. Cf. vv. 874 
ss. 

190 Observem-se os progressos de Estrepsíades, 
que já invoca uma divindade sofística. Cf. v. 814. 


| 


t 
1 


655 


660 


665 


670 


675 


680 


AS NUVENS 


este único ensinamento eu vou encher 
de farinha toda a sua gamelão!º1. 


SÓCRATES 
Vê? De novo ainda mais essa! Você 
diz “gamelão”, masculino, quando é 
feminina. 


ESTREPSÍADES 
Como? Eu chamo o “gamelão” de 
macho? 


SÓCRATES 
Perfeitamente, como se dissesse 
Cleônimo. 

ESTREPSÍADES 


Mas de que jeito? Explique-me! 


SÓCRATES 
Para você, meu caro, “gamelão” 
vale a mesma coisa que Cleôni- 
HO ie 


ESTREPSÍADES 
Mas, meu bem, Cleônimo não tinha 
“gamelão”; ele costumava amassar 
num pilãozinho redondo...!93 E 
daqui por diante como devo-dizer? 


SÓCRATES 
Como? “A gamela”, como você diz 
“a Sóstrata”. 


ESTREPSÍADES 
“A gamela”?? Feminina? 


SÓCRATES 
Está certo. 


ESTREPSÍADES 
Mas isso seria, a gamela, a Cleôni- 
ma... 


'91 A pilhéria desenvolve-se em torno do uso de 
uma palavra feminina da 2.º declinação que, por 
conseguinte, tem a desinência o que, teoricamente, é 
própria de masculinos. 

192 (Vv. 674-680). Sócrates refere-se ao gênero 
gramatical; Estrepsíades pensa no sexo e nos modos 
efeminados de Cleônimo e provavelmente também 
de um Sóstrato qualquer. 

193 Alusão à pobreza ou à devassidão de Cleôni- 
mo. 


SÓCRATES 
Você ainda deve aprender mais 
sobre os nomes próprios; quais são Os 
masculinos e quais os femininos? 


ESTREPSÍADES 
Mas bem que eu sei quais são os 
femininos... 


SÓCRATES 
Então diga. 


ESTREPSÍADES 
Luzila, Filina, Clitágora, Demétria. 
SÓCRATES 


Quais são os nomes masculinos? 


ESTREPSÍADES 
Milhares...  Filóxeno, 
Amínia...!194 


Milésias, 


SÓCRATES 
Coitado ! Mas esses não são mascu- 
linos! 


ESTREPSÍADES 
Para vocês não são masculinos? 


SÓCRATES 
De modo algum! Encontrando-se 


com Amínia como você lhe chama- 
ria?!98 


ESTREPSÍADES 
Como? Assim: “Aqui, aqui, Amí- 
nia”! 
SÓCRATES 
Vê? Você chama Amínia de mu- 


lher! 


ESTREPSÍADES 
Pois não é justo, se ela não faz o ser- 
viço militar!?... (Impaciente) Mas 
por que aprendo o que todos nós 
sabemos? 


184 Indivíduos efeminados: Filóxeno é mencio- 
nado também nas Vespas, 84. 

185 Maliciosamente Sócrates pede o vocativo que 
nos masculinos da 1.º declinação termina em a, 
como nos femininos. 


203 


690 


695 


700 


705 


204 


SÓCRATES 
Por Zeus, não é isso. (Aponta o 


leito.) Mas deite-se aquie... 


ESTREPSÍADES 
Que vou fazer? 


SÓCRATES 
. . Imagine algum expediente a res- 
peito dos seus negócios. 


ESTREPSÍADES 

Não, lá não, eu lhe imploro ! Mas se 

é preciso, deixe-me pensar nessas coi- 
sas deitado no chão. ..!º96 


SÓCRATES 
Não é possível de outra maneira. 


ESTREPSÍADES 
Ai, desgraçado de mim! Que pena 
hoje vou pagar aos percevejos! 


CORO 

(Estrofe)'º?7 Pense, examine, con- 
centre-se, revirando-se de todas as 
maneiras! Rápido, se cair num emba- 
raço'º8, salte para outro pensamento 
do seu intelecto... Que o doce sono 
dos seus olhos se afaste! 

(Pausa. Estrepsíades geme e revi- 
ra-se no leito.) 


ESTREPSÍADES 
Ai, al!'99 


| CORO 
Que você estã padecendo? Por que 
se consome? 


196 Note-se a comicidade da cena. A princípio 
tem-se a impressão de que Estrepsíades não quer 
pensar nos seus negócios, mas depois percebe-se 
que as lamentações resultam da sujeira da casa de 
Sócrates, cheia de insetos importunos (cf. v. 699). 
197 Ode — O coro movimenta a ação; Estrep- 
siades deve pensar e pôr em prática os seus 
conhecimentos. 

188 Referência ao método socrático de procurar 
repentinamente um novo rumo de investigações, ao 
deparar com alguma dificuldade grave ou insucesso. 
Cf. v. 743. 

19º Inicia-se um diálogo lírico de tonalidade paté- 
tico-cômica que sugere uma paródia de cena trági- 
ca, possivelmente de Eurípides. Cf. Hécuba, vv. 
160-161. São as dores do parto intelectual de 
Estrepsiades. 


ARISTÓFANES 


ESTREPSÍADES 
(Em tom patético.) 


Eu morro, infeliz de mim ! Saídos do 
leito sagrado mordem-me os 
per...sianos!2ºº Dilaceram-me o 
peito, devoram-me a alma, arrancam- 
me os testículos, perfuram-me o rabo e 
acabam comigo!... 


CORIFEU 
Ora vamos, não se desespere tan- 
LOS 


ESTREPSÍADES 
E como não? Se meus bens sumi- 
ram, Sumiu o meu corpo, sumiu a 
minha alma, sumiram os sapatos... E 


- além disso, além desses males, can- 


tando de sentinela?! 
sumo também ! 


quase que eu 


SÓCRATES 
Eh, você aí! Que faz, não está 
pensando? 


ESTREPSÍADES. 
Eu, sim, por Posidão ! 


SÓCRATES 
E, então, em que pensou? 


ESTREPSÍADES 
Se alguma coisa minha vai escapar 
dos percevejos... 


| SÓCRATES 
Você vai perecer miserávelmente ! 
(Sai, impaciente.) 


ESTREPSÍADES 
Mas, meu bem, eu já estou morto! 


CORIFEU 
Não se deve afrouxar e sim prote- 
ger-se2º2, Pois é preciso achar mente 
espoliadora e meios de enganar. 


200 Pilhéria, pois clevia esperar-se o nome de um 
inseto como percevejos. 

201 Nas vipílias, as sentinelas costumavam cantar 
para afastar o sono. Cf. Esq., Agam., vv. 15-16. 

202 Para subtrair a mente das influências e impres- 
sões do exterior, cf. v. 740. Cf. Plat., Fedro, 237-A: 


710 


715 


720 


725 


730 


735 


740 


AS NUVENS 


ESTREPSÍADES 
(A parte.) 
Ai de mim, quem é que poderia 
arranjar-me uma idéia espoliativa, 
feita de peles de carneiro? 


SÓCRATES 

(De volta.) 
Vejamos, em primeiro lugar, vou 
observar o que faz esse fulano... Eh, 


você está dormindo? 


ESTREPSÍADES 
Não, por Apolo, eu não! 


SÓCRATES 
Tem alguma coisa? 


ESTREPSÍADES 
Não, por Zeus, eu é que não ! 


SÓCRATES 
Nada mesmo? 


ESTREPSÍADES 
(Erguendo a mão debaixo 
do manto.) 


Nada, exceto este “pau” na mão 
dureitas AOS 


SÓCRATES 
Você não vai cobrir-se e pensar 
depressa nalguma coisa? 


ESTREPSÍADES 
No quê? O Sócrates, diga-me! 


SÓCRATES 
Trate primeiro de achar o que deseja 
e diga-me. 


ESTREPSÍADES 
Você já ouviu milhares de vezes o 
que eu quero, é acerca dos juros... 
Como não pagar a ninguém... 


SÓCRATES 
Então cubra-se, relaxe aos poucos o 
pensamento sutil e reflita sobre os seus 


203 Veja nota v. 538. 


205 


negócios, distinguindo bem e obser- 
vando. 


ESTREPSÍADES 
Ai de mim! (Salta do leito.) 


SÓCRATES 
Fique quieto! E se tiver alguma difi- 
culdade nos seus raciocínios, deixe-a e 
passe adiante. Depois, movimente-a de 
novo com o pensamento e pondere?º 4. 


E ESTREPSÍADES 
O Socratesinho querido ! 


| SÓCRATES 
Que é, velho? 


ESTREPSÍADES 
Tenho um pensamento espoliador de 
Juros! 


SÓCRATES 
Mostre-o. 


ESTREPSÍADES 
Diga-me agora... 


SÓCRATES 
Quê? 


ESTREPSÍADES 
E se eu comprasse uma mulher feiti- 
ceira da Tessália?ºº, e, de noite, 
puxasse a Lua para baixo, e, a seguir, a 
fechasse num  cofrezinho redondo, 
como se fosse um espelho, e depois a 
conservasse bem guardada? 


SÓCRATES 
Mas então de que isso lhe serviria? 


ESTREPSÍADES 
Para quê? Se a Lua nunca mais apa- 


204 Nova alusão aos métodos do raciocínio socrá- 
tico. Cf. v. 700 ss. 

205 (Os tessálios apregoavam que Medéia havia 
perdido a caixa de drogas em seu território, cujas 
ervas, desde então, se tornaram dotadas de poderes 
mágicos. As mulheres da Tessália tinham fama de 
espertas em artes de bruxarias, gabando-se até da 
habilidade de puxar a Lua para baixo do céu. Cf. 
Plat., Górg., 513-A, Verg., Buc. VIII, 6. 


743 


750 


755 


760 


765 


206 


recesse em parte alguma, eu não paga- 
ria OS juros... 
SÓCRATES 
E por que motivo? 


ESTREPSÍADES 
Porque .o dinheiro se empresta ao 
INES Ae 


SÓCRATES. 

Está bem. Mas agora vou propor-lhe 
uma outra engenhosa questão. Se al- 
guém processasse você numa causa de 
cinco talentos?º 7, diga-me, como po- 
deria anulá-la? 


ESTREPSÍADES 
Como, como? Não sei, mas devo 
procurá-lo. 


SÓCRATES 
Então não enrole sempre o pensa- 
mento à sua volta2º8, Solte a inteli- 
gência para o ar, como um besouro 
amarrado pelo pé2ºº. 


ESTREPSÍADES 
Já encontrei uma anulação muito 
engenhosa para esse processo, tanto 
que você mesmo há de concordar 
comigo. 


SÓCRATES 
Qual é? 


ESTREPSÍADES 
Você já viu nas lojas dos droguis- 
tas?1º aquela pedra, bonita, transpa- 


206 Veja nota v. 17. 

207 Quantia que, segundo Aristófanes, Cleão havia 
recebido das cidades aliadas de Atenas. Cf. Babiló- 
nios, Acar., v. 6, Paz, v. 171. 

208 Sócrates incita Estrepsíades a não ficar preso a 
um único método, sem refletir sobre outras possibi- 
idades. 

209 () besouro dourado (Melolontha vulgaris), in- 
seto muito comum nas regiões temperadas do sul da 
Europa. Ás crianças costumavam usá-lo como 
brinquedo. 


210 (Os remédios eram preparados e vendidos pelos: 


próprios médicos. Geralmente os droguistas ven- 
diam poções e toda sorte de amuletos e quinqui- 
lharias que os curandeiros e charlatães recomenda- 
vam. 


ARISTÓFANES 


E 


rente,-com-a qual se acende o fogo? 


SÓCRATES 
Está falando do cristal?211 


ESTREPSÍADES 
Sim. Ora, que aconteceria se eu a 
tomasse no momento em que o escri- 
vão estivesse anotando a queixa, de 
longe, assim, parado diante do Sol, e 
fizesse derreter os documentos?"? do 
meu processo? 


SÓCRATES 


Você fala com sabedoria. Sim, pelas. 


Graças !?13 


ESTREPSÍADES 
(bxultante.) 
Ih, como estou contente! Consegui 


anular um processo de cinco talen- 
LOS aa 


SÓCRATES 
Vamos depressa, então, agarre is- 
TOx cadoo eo 


ESTREPSÍADES 


Quê? 


SÓCRATES 
Como você escaparia, se durante a 
defesa de um processo estivesse na imi- 


nência de ser condenado por falta de 


testemunhas? 


ESTREPSÍADES . 
De modo muito fácil e simples. 


| SÓCRATES 
Então diga. 


ESTREPSÍADES 
Pois já digo. Quando não houvesse 
mais do que um único processo antes 


211 Vidro ou espelho ustório, muito raro, e consi- 
derado uma preciosidade. 

212 As tabuinhas cobertas de cera em que se regis- 
travam as queixas. 

213 Divindades que personificavam o encanto, a 
graça e a beleza. 

214 Cf.v.490ss. 


i 


770 


775 


780 


785 


AS NUVENS 


de chamarem o meu?" 8, eu iria cor- 
rendo enforcar-me... 


SÓCRATES 
Você diz tolices! 


ESTREPSÍADES 
Não, pelos deuses, eu não ! Pois nin- 
guém apresentará uma queixa contra 
mim, se eu estiver morto... 


SÓCRATES 
(Impaciente.) 


Você está sonhando. Vá-se embora, 
não poderia ensiná-lo mais! 


ESTREPSÍADES 
(Desesperado.) 


Por quê? Não, Sócrates, pelos deu- 
ses! 


SÓCRATES 
Mas logo você se esquece até das 
menores coisinhas que aprendeu em 
primeiro lugar !21 6 


ESTREPSÍADES 


Vou ver... (Hesitando.) Qual foi a 
primeira coisa? Qual foi a primeira? 
Que era, aquela em que costumamos 
amassar os alimentos?2! 7 Ai de mim, 
o que era mesmo? 


SÓCRATES 
Você não vai sumir e arrebentar no 
inferno? Velhote mais esquecido e 
imbecil! 


ESTREPSÍADES 
As, desgraçado de mim! Então que 
será de mim? Pois vou morrer, porque 
não aprendi a virar a língua!2'8 Ó 


215 A ordem do dia nos tribunais era fixa e prepa- 
rada de antemão. O arauto' chamava sucessiva- 
mente as várias partes interessadas. Cf. Vesp., v. 
1441. : 


216 Cf.vv. 640 ss. 

217 FEstrepsíiades só consegue lembrar-se de que se 
tratava de um nome feminino e, vagamente, de um 
utensílio. : 

218 Alusão às sutilezas da linguagem sofística. 


207 


Nuvens, aconselhai-me alguma coisa 
de útil! 


CORIFEU 
Velho, nós lhe damos um conselho; 
se você tem um filho já criado, man- 
de-o aprender no seu lugar. 


ESTREPSÍADES 
Mas, sim, eu tenho um filho, pessoa 
de bem. Mas não quer aprender... 
Que será de mim? 


CORIFEU 
E você consente? 


ESTREPSÍADES 

Pois é bem feito de corpo, cheio de 
vida, e nasceu duma dessas mulheres 
de alto vôo, uma gra-fina? 1º. Pois sim, 
irei procurá-lo. Se não quiser, de qual- 
quer forma hei de expulsá-lo para fora 
de casa. (4 Sócrates.) Entre e espere- 
me um pouco?2º. (Sai.) 


| CORO 
“(A Sócrates )221 


(Antistrofe) Percebe quantos bene- 
fiícios vai receber de nós, só de nós den- 
tre os deuses? Ele está disposto a fazer 
tudo que você ordena! E agora que o 
homem está bobo e visivelmente agita- 
do, sabendo-o, você vai engoli-lo tanto 
quanto puder! Depressa, essas coisas 
costumam virar... 


(Sócrates sai. Aparece Es- 
trepsíades arrastando o fi- 
lho pelo braço.)2?22 


ESTREPSÍADES 
Não, pelo Vapor !223 Você não fica- 


218 Veja com. v. 48 

220 Verso em correspondência com v. 843. 

221 A correspondência com a Ode (700-705) não é 
perfeita, na Antode há dois versos a mais (vv. 
811-812). Novamente o coro movimenta a ação. 
Terminada a educação de Estrepsíades prepara-se 
ambiente para a educação de Fidípides. 

222 Cena cômica de transição (vv. 814-889). Apre- 
sentação do novo aluno. 

223 Estrepstades jura pelo Vapor, recusando as 
divindades tradicionais. 


795 


800 


803 


810 


Sc 


820 


825 


208 


rá mais aqui. Vá comer as colunas de 
Mégacles!22 4 


FIDÍPIDES 
Ó Senhor, que é que você tem, meu 
pai? Sim, você perdeu o juízo, por 
Zeus Olímpio ! 


ESTREPSÍADES 
Está aí, tá aí! Zeus Olímpio. ..225 
Que bobagem! Esse daí, com essa 
idade, acreditar em Zeus! 


FIDÍPIDES 
Mas afinal por que você achou 
graça nisso? 


ESTREPSÍADES 

Porque percebi que você é uma 
criancinha e pensa de modo antiquado. 
Mas aproxime-se para saber mais. 
(Sussurrando.) E eu direi uma coisa 
que se você aprender, será um homem! 
Mas cuidado para não ensiná-la a 
ninguém!... 


FIDÍPIDES 
Sim. Que é? 
ESTREPSÍADES 
Agora mesmo você jurou por 
Zeus... 
FIDÍPIDES 
Sim. 
ESTREPSÍADES 
(Com ênfase.) 


Então você vê como é belo apren- 
der? Fidípides, Zeus não existe !22 8 


224 Fidípides provavelmente ameaçara de novo ir 
para casa do tio Mégacles (cf. v. 124). O velho ridi- 
culariza a prosápia da família da esposa e lembra 
que na casa dos parentes só se podiam comer as 
colunas do palácio, restos do antigo fausto. 

225 É a tradicional oposição entre as idéias antigas 
e as novas. Todavia é interessante que seja o pai o 
“adepto das novidades, aprendidas dos sofistas. Cf. 
vv. 367-380 ss. 

226 É a confidência essencial o princípio de tudo, 
“Zeus não existe!” Cf. vv. 367 ss., 380 ss. 


ARISTÓFANES 


FIDÍPIDES 
Mas quem?!.. 


ESTREPSÍADES 
Quem reina é o Turbilhão, depois de 
ter expulsado Zeus! 


FIDÍPIDES 
Puxa, por que você diz tolices? 


ESTREPSÍADES 
Fique sabendo que é isso mesmo. 


FIDÍPIDES 
Quem é que o afirma? 


ESTREPSÍADES 
Sócrates de Melos227 e Querefon- 
te?28, que conhece as pegadas das 
pulgas. 


FIDÍPIDES 
Mas você chegou a tal loucura que 
acredita em homens malucos? 


"ESTREPSÍADES 

Cuidado! Não diga nenhuma insen- 
satez contra homens direitos, e de 
juízo. No meio deles, por' economia, 
ninguém corta o cabelo, nem se unta 
com óleos ou vai ao balneário para 
lavar-se. E você “deslava” a minha 
vida, como se eu estivesse morto !229 
Vá bem depressa.e aprenda em meu 
lugar. 


FIDÍPIDES 
Mas, afinal, que coisa útil se poderia 
aprender, no meio desses indivíduos? 


ESTREPSÍADES 
Ora, sim senhor! Toda a sabedoria 
que os homens têm. Você se conhecerá 
a si mesmo?ºº, aprenderá como é 


227 Pilhéria, pois Sócrates era ateniense. 'Alusão a 
Diágoras de Melos, processado por impiedade e 
expulso de Atenas. 

228 Veja nota vv. 144 ss. 

229 Fra hábito lavar os cadáveres antes de colocã- 
los na mortalha. 

230 Alusão à máxima de Delfos, “Conhece-te a ti 
mesmo” — “Gnothi Sautón”, 


Ea PED pen Re e 


830 


835 


840 


845 


850 


855 


AS NUVENS 


ignorante e grosseiro. Mas, fique aqui e 


espere-me um pouco... (Estrepsíades 
entra.) 

FIDÍPIDES 

(Sozinho) 


Puxa! Que hei de fazer, se meu pai 
enlouqueceu? Devo agarrá-lo e levá-lo 
aos tribunais por demência, ou decla- 
rar a sua loucura aos fabricantes de 
caixões de defuntos?... 


ESTREPSÍADES 
(Reaparece com uma ave 
em cada mão.) 


Vejamos como é que você chama 
este aqui? Diga-me! 


FIDÍPIDES 
Pássaro. 


ESTREPSÍADES 
. E esta aqui? 


FIDÍPIDES 
Pássaro. 


ESTREPSÍADES 
(Triunfante.) 


Ambos do mesmo jeito? Como você 


'é ridículo ! Daqui por diante não faça 


mais isso, mas chame esta aqui de 
“pássara” e este de “passarão”. 


FIDÍPIDES 
“Pássara”? Foram estas as habili- 
dades que você aprendeu lá dentro, na 
companhia daqueles terrigenos??2? 


ESTREPSÍADES 
E muitas outras... Mas cada vez 
que aprendia alguma coisa logo me 
esquecia dela, por causa da longa 
idades 242 


231 Os gigantes e titãs, em oposição aos Olímpios. 
Aqui é usado ironicamente, como se equivalesse a 
“âatheoi”, referindo-se à impiedade dos filósofos. 

232 Cf.vyv. 530ss., 785 ss. 


209 


FIDÍPIDES 


Então é por isso que você perdeu até 
“o manto? 


ESTREPSÍADES 
Não, não perdi, dispenseio-o. .. 


FIDÍPIDES 
Insensato, e os sapatos, para onde 
você os desviou? 


ESTREPSÍADES 

Como Péricles, “despendi no que 
era necessário:”'233 (Empurrando o 
filho.) Eia, ande, vamos! Então erre, 
mas obedeça ao seu pai! Eu também 
outrora lhe obedeci, bem me lembro, 
quando você tinha seis anos e ainda 
balbuciava... 

Nas Diásias,2?4 com o primeiro 
óbolo de heliasta2? S que recebi, com 
esse dinheiro comprei um carrinho 
para você... 


FIDÍPIDES 
(De má vontade.) 


De acordo. Mas com o tempo você 
se arrependerá de tudo isso. 


ESTREPSÍADES 
Ainda bem que você me obedeceu! 
(Chamando) Aqui, aqui, ó Sócrates! 
Saia! Trago-lhe este meu filho, depois 
de convencê-lo, embora contra a von- 
tade dele... 


233 Pilhéria com a resposta de Péricles, quando 
interrogado sobre o destino dado aos dez talentos 
com os quais teria comprado o general Cleandridas, 
comandante das tropas espartanas que haviam inva- 
dido a Ática (446 a.C.). 

234 Nas Diásias era hábito presentear as crianças 
com brinquedos e doces. Veja nota v. 408. 

235 Todo cidadão de mais de trinta anos tinha 
direito de participar das sessões do tribunal da 
Heliéia. Os heliastas eram simples jurados e por 
isso não necessitavam de conhecimentos especiais; 
de início, recebiam um óbolo (sexta parte da drac- 
ma) por sessão, depois, receberam dois, e a partir de 
425, graças a Cleão, três, o famoso “trióbolo” tão 
criticado por Aristófanes. Cf. Cav., vv. SO ss. 


860 


865 


870 


875 


880 


885 


210 


SÓCRATES 
Mas é quase uma criança, ainda não 
“escovado” nos nossos cestos depen- 
durados... 


FIDÍPIDES 
Você também seria escovado se o 
enforcassem...236 


ESTREPSÍADES 
Vá pro infeno! Você ousa rogar 
pragas no seu mestre? 


SÓCRATES 
(Com desprezo.) 


Vejam só! Se o enforcassem!237 


Como ele pronunciou de modo estúpi-. 


do, com a boca escancarada. .. Como 
é que esse moço poderia aprender a 
escapar duma condenação, fazer uma 


citação ou adoçar a voz de modo, 


persuasivo? E, no entanto, Hipérbo- 
lo?º8 aprendeu-o por um talento... 


ESTREPSÍADES 

Não se preocupe. Ensine-o. É um 
rapaz esperto por natureza. Desde 
criancinha, quando era deste tamanhi- 
nho, modelava casas, esculpia navios, 
fabricava carrinhos de tiras de couro e 
fazia sapos de miolo de pão. Que lhe 
parece? Contanto que ele aprenda 
aqueles dois raciocínios, o forte, seja 


ele qual for, e O fraco, aquele que com . 


palavras faz virar o que é injusto no 
mais forte. E se não, pelo menos que 
aprenda o raciocinio injusto, a todo 
custo. 


SÓCRATES 
Ele mesmo há de aprender com os 
dois raciocínios em pessoa. Eu vou-me 


embora (Sai.) 
ESTREPSÍADES 


236 As palavras de Sócrates referem-se a todas as 
cenas anteriores, desde o verso 218. Ignorando o 
que se havia passado, Fidípides supõe tratar-se de 
instrumento de tortura, o que explica a resposta do 
v. 870. 

237 Ignora-se qual o defeito de pronúncia que pro- 
voca as críticas de Sócrates. 

238 Veja nota v. 551. 


ARISTÓFANES 


(A Sócrates.) 


Então lembre-se disto, ele deverá 
falar contra tudo o que é justo. 


CESOAOO 


DE casa de Sócrates saem em duas 
gaiolas, como dois galos de briga?*º,o 
Raciocínio Justo e o Raciócínio Injus- 
to. Ambos ameaçam atracar-se? 41.) 


JUSTO 
Venha cá, mostre-se aos espectado- 
res, você que é um atrevido ! 


INJUSTO 
Vá para onde quiser !2 42 Pois muito 
mais facilmente, falando diante do 
povo, acabarei com você !2 43 


JUSTO 
Acabará comigo? E quem é você? 
INJUSTO 
Um raciocínio... 
JUSTO 
O fraco... 
INJUSTO 


Mas eu vou vencê-lo a você que afir- 
ma que é mais forte do que eu... 


JUSTO 
Com que habilidades? 


INJUSTO 
Encontrando idéias novas? 4 4 


JUSTO 
Sim, isso floresce, por causa desses 


239 Segundo a indicação de vários manuscritos 
falta um trecho coral. 

240 Sugestão do Escolista. 

241 Cena preparatória do agon. É o pro-agon (vv. 
889-948). É caso único nas comédias de Aristófa- 
nes, explicável, talvez, pela “mise-en-scêne”, já que 
se introduzem duas novas personagens, O Justo e o 
Injusto. 


242 Paródia de Eurípides, Télefo, fr. 721. 

243 E possível que o Raciocínio Injusto usasse a 

máscara de um sofista conhecido, talvez Protágo- 

ras. De fato, se Anaxágoras era conhecido como “A - 
Mente” (Nous) e Demócrito “A Sabedoria” 

(Sophia), Protágoras era chamado “Raciocínio” 

(Logos). Cf. Diels-Kranz JI, 8, 4;13, 85,3. 

244 Ea grande censura: achar idéias novas. 


890 


895 


AS NUVENS 


insensatos que andam por aí... .245. 


INJUSTO 
Insensatos não, sábios. 


JUSTO 
Acabarei com você, miseravelmente. 


INJUSTO 
Fazendo o quê, diga-me? 


JUSTO 
Dizendo o que é justo. 


INJUSTO 
900 Mas vou responder e virar tudo de 
pernas para o ar... Pois afirmo que 
nem sequer existe justiça. 


JUSTO 
Afirma que não existe? 


| INJUSTO 
' Pois bem, e onde está ela?2 46 


JUSTO 
Com os deuses! 


INJUSTO 
Pois então, se existe justiça, como é 
que Zeus não pereceu, depois de ter 
acorrentado o seu próprio pai?2 47 


JUSTO 
905 Fu! Eis a maldade em marcha!... 
Dêem-me uma bacia... 
INJUSTO 
Você é um velho tonto, um desequi- 
librado... 
JUSTO 
E você um fresco, um sem-vergo- 


nha 


245 (Os espectadores, os atenienses, que se deixam 
enganar pelos sofistas. 

246 O Injusto nega a existência da Justiça e, com 
habilidade, faz o Justo falar de uma abstração 
personificada: “Dike”, a filha de Zeus e Têmis. Cf. 
Hes., Teog., vv. 900 ss. 

247 Referência à revolta de Zeus e seus irmãos 
contra o pai Crono, que, expulso do céu, foi acor- 
rentado no Tártaro. Esse gênero de críticas já apare- 
ce em Xenófanes — fr. 1, vv. 21 ss. (Diels), e em 
Eurípides. Aristófanes, um tradicionalista, retoma 
as mesmas censuras para mostrar os erros da nova 
geração. Cf. também Plat., Eutifrão, 5; Rep. JJ, 
378-B; Esq., Eum. v. 641. 


211 


INJUSTO 
Você me diz rosas! 


JUSTO 
es paliaços 


INJUSTO 
Coroa-me de lírios... 


JUSTO 
-. .parricida. ... 


INJUSTO 
Você não percebe que me polvilha 
de ouro? 


JUSTO 
Não, antes não era com ouro, era 
com chumbo... 


INJUSTO 
Mas agora isso me servirá de enfei- 
Ee a 


JUSTO 
" Que grande atrevido ! 


INJUSTO" 915 
E vócê, um antiquado ! 


JUSTO 
Por sua culpa nenhum rapaz quer 
ira à escola. E os atenienses hão de 
saber um dia o que você ensina a esses 
insensatos... 


INJUSTO 
Você fenece vergonhosamente ! 


JUSTO 

E você é bem sucedido. E, no entan- 
to, antes mendigava, afirmava que era 
Télefo da Mísia? “8 e roíia uma idéias sx» 


248 Muitas eram as lendas que envolviam o nome 
de Télefo, filho de Hércules e Augé e rei da Mísia. 
Ferido por Aquiles, quando os gregos invadiram 
seu país a caminho de Tróia, foi informado pelo 
oráculo de Delfos de que só o próprio autor do feri- 
mento poderia curá-lo. Na versão euripidiana, Téle- 
fo dirigia-se a Micenas disfarçado de mendigo, e, 
em suas arengas, revelava-se um perfeito sofista. 
Aristófanes critica bastante essa tragédia de Eurípi- 
des. Cf. Acar., 430 ss.; Ras, 855, 864. Outrora, por 
conseguinte, o raciocínio sofístico não tinha sucesso 
e agora, vitorioso, usava de suas argúcias na defesa 
das causas injustas. 


925 


930 


935 


Paio 


de Pandeleteu? *º, tiradas duma sacoli- 
nha: 


INJUSTO 
Ah! Que sabedoria... 


JUSTO 
Ah! Que loucura... 


INJUSTO 
- . de que você se lembrou. 


JUSTO 
.. . à sua, € a cidade que o sustenta, 
enquanto você corrompe a juventude! 


INJUSTO 
Você não há de instruir esse rapaz, 
por mais que seja um velho Crono !2 30 


JUSTO 
Hei sim, se é verdade que se deve 
salvá-lo, e não exercitâ-lo apenas em 
tagarelices ! 


INJUSTO 
(A Fidípides.) 


Venha cá, deixe-o com as suas 
loucuras... 


JUSTO 
Você há de arrepender-se, se lhe 
puser a mão !2 81 


CORIFEU 
Chega de luta e de insultos! (Ão 
Justo.) Mas demonstre o que ensinava 
aos antigos, (Ão Injusto) e você, a 
nova educação, para que ele ouça a 
ambos em suas controvérsias, faça a 
escolha e freguente a escola. 


JUSTO 
Quero fazê-lo. 


INJUSTO 
E eu também quero. 


CORIFEU 


248 Sofista, citado também por Cratino, fr. 242, 
como sicofanta e amigo de processos judiciários. 
250 Veja nota v. 398. 

251 Intervém o coro pondo fim ao conflito. 


ARISTÓFANES 


Então, vamos! Qual dos dois falará 

primeiro? 
INJUSTO 

Dou-lhe a palavra! Depois, toman- 
do como base tudo que ele disser, vou 
dardejá-lo com palavrinhas novas e 
raciocínios? º2. E, afinal, se emitir um 
grunhido, com os dois olhos e o rosto 
inteirinho inchado, como se estivesse 
picado de vespas, perecerá sob o efeito 
de minhas sentenças. 

CORO 

(Estrofe.)2º3 Agora ambos vão 
demonstrar, confiados em raciocínios 
habilíssimos, pensamentos e reflexões 
sentenciosas, qual dos dois parece o 
melhor orador. . . Aqui se arrisca toda 
a sorte da sabedoria, pela qual os meus 
dois amigos? ** travam o combate 
supremo. 

CORIFEU 
(Voltando-se para o Justo.) 


Mas você que coroou os antigos 
com tantos costurnes honrados, diga as 
palavras que lhe agradam e fale sobre 
a sua natureza? 8 5, 


* JUSTO 
Então vou contar como era a educa- 
ção antiga? º8, quando eu florescia 
dizendo o que é justo, e a prudência 
era considerada. Em primeiro lugar, 
não se devia ouvir um menino cochi- 


252 Referindo-se a Eurípides, Aristófanes usa de 
expressões semelhantes, Cf. Acar., 444 ss.; Paz, 
534. 

283 Inicia-se O agon que apresenta a seguinte 
subdivisão: Ode (vv. 949-958); Epirrema (vv. 
959-1008); Pnigos (vv. 1009-1023); Antode (vv. 
1024-1033); Antepirrema (vv. 1034-1084); Antipni- 
gos (vv. 1085-1104). A primeira parte, em que faia 
o Justo, compõe-se de versos solenes (vv. 
959-1008); já a segunda parte, com o discurso do 
Injusto, brejeiro e despudorado, compõe-se de ver- 
sos mais cheios de vivacidade (vv. 1034-1084). 

254 Note-se que o coro se refere ao Justo e ao 
Injusto chamando-os “amigos”. 

255 O coro incita o Justo e movimenta a ação. 

256 A propósito dos ideais da antiga educação veja 
H. Marrou, Histoire de lIEducation dans 
VAntiguité, Paris, Du Seuil, 1955, Cap. IV; cf. K. 
Freeman, Schools of FHellas, London, Macmillan, 
1908, pp. 72 ss. 


940 


945 


955 


960 


965 


970 


AS NUVENS 


char nem um “a”2 8 7: depois, os mora- 
dores de um mesmo bairro andavam 
pelas ruas, bem disciplinados? º8 indo 
à casa do professor de citara? 5º, sem 
mantos e em fila, ainda que nevasse 
neve farinhenta. O professor, por sua 
vez, começava ensinando-os a cantar, 
com as coxas bem apartadas, ou? 8º 


“Palas terrível, destruidora de ci- 

dades + e! 
ou 

“um som longifero”2 82, 
sustentando os acordes? 83 transmi- 
tidos pelos pais. E, se algum deles se 
fazia de bobo ou modulava uma modu- 
lação de voz, como essas de hoje, à 
moda de Frínis?º4, tão dificeis de 
modular, era moido de muitas panca- 
das, como se estivesse prejudicando as 
Musas. Na casa do professor de ginás- 
tica, os meninos? *º deviam sentar-se 
com as pernas esticadas para a frente, 


257 Cf. Xenof., Bang., III, 12 ss.; Luc., Amor., 44. 
258 Certamente vigiadns pelo pedagogo. Segundo 
o testemunho de Aléxis, ff. 262, andar pelas ruas 
ordenadamente era próprio dos homens livres. 

259 A educação dos jovens atenienses comportava 
três partes: a) primeiras letras. a cargo do 
“gramatista”; b) poesia é música, com o “citarista”; 
c) exercícios físicos. Aristófanes só se refere aos 
estudos dos adolescentes, e por isso ignora o ensino 
das primeiras letras que, obviamente, pouco devia 
ressentir-se da influência dos sofistas. 

280 A respeito da preocupação com o aspecto 
moral na educação ateniense. Cf. Plat., Prot., 325; 
H. Marrou, op. cit. p. 77; K. Freeman, op. cit., pp. 
7lss. 


261 Verso inicial de um canto muito conhecido, 
provavelmente da autoria de Lâmprocles, poeta diti- 
râmbico, que floresceu em Atenas em 500 a.C. 

262 Verso atribuído ao poeta ditirâmbico Cidides 
de Hermione. 

263 O “modo” dórico, considerado o mais viril. 
Havia também os modos jônio, eólio e frígio, cada 
qual com o “ethos” particular da tribo originária. 
Essas diversas harmonias eram obtidas pela combi- 
nação de escalas e notas da lira. Cf. K. Freeman, 
op. cit. pp. 240 ss. Quanto à importância que os 
gregos emprestavam à ação moralizadora da músi- 
ca, veja Plat., Prot., 326 A-B; Rep., HI, 399-A; 
Leis, 11, 673-A.. 

264 GCitareda de Mitilene, que revolucionou o 
acompanhamento musical com suas inovações. 
Veja nota v. 333. 

265 Entenda-se como “menino” o jovem púbere, já 
sexualmente maduro. 


213 
para não mostrar nenhuma indecência 
aos estranhos; de outro lado ainda, 
quem se levantava, devia aplainar a 


areia, tomando a precaução de não 


deixar aos amantes nenhum vestígio de 
sua mocidade? * 8. Naquele tempo, ne- 
nhum menino costumava untar-se de- 
baixo do umbigo, e, assim, sobre os 
genitais florescia uma penugem orva- 
lhada, como num fruto, e ninguém 
molhava e amolecia a voz para aproxi- 
mar-se do amante, prostituindo-se a si 
mesmo com os olhos? 8 ?. Nos jantares, 
não era permitido servir-se da cabeça 
do rabanete, nem roubar a erva-doce 
ou selino dos velhos? 88, nem se devia 
comer gulodices, dar gargalhadas ou 
ficar de pernas cruzadas... 


INJUSTO 
Xi! São velharias do tempo das 
Dipolias, coisas cheias de cigarras, de 
Cecides e de Bufônias...?2 8º 


2668 Durante os exercícios físicos, os jovens apre- 
sentavam-se completamente nus; a presença de 
estranhos era proibida por uma lei de Sólon, mas no 
século V tornaram-se comum os abusos (cf. Esquin., 
Tim., 12) e as palestras e ginásios foram conside- 
rados ambientes de corrupção. Veja K. Freeman, 
op. cit., pp. 68 ss.; R. Flaceliêre, [Amour en Grêce, 
Paris, Hachette, 1960, pp. 62 ss. 

267 Sobre a prostituição masculina veja R. Flace- 
ligre, op cit., pp. 78-ss.; Hans Licht, Sexual Life in 
Ancient Greece, London, Routledge, 1932, pp. 411 
ss.; Aristófanes sempre se revela adversário con- 
victo do amor homossexual, não perdendo ocasião 
de ridicularizar qualquer inversão ou efeminação. 
Cf. vv. 355, 673 ss.; 1095, Tesmof., vv. 130, ss. 
ELE. 

268 (O rabanete era apreciado pelas virtudes afrodi- 
síacas, sendo a cabeça a porção preferida. O aneto 
ou funcho, além de usado em poções medicinais era 
comido cru ou cozido (cf. ital. finocchi — 
“erva-doce”?). Quanto ao selino, acreditava-se que 
tinha o poder de reanimar os mortos, e, é claro, que 
devia ser muito apreciado pelos velhos. 

269 Coisas arcaicas, fora de moda. As Dipolias 
eram festas muito antigas celebradas em honra de 
Zeus, protetor da cidade. Em meio a rituais estra- 
nhos e arcaicos, havia o episódio das Bufônias, ou 
sacrifícios dos bois. Nestas ocasiões, Os atenienses, 
amigos de tradições, apresentavam-se com as famo- 
sas cigarras de ouro nos cabelos, costume que vinha 
da época das guerras médicas, cf. Tuc., IJ, 6. Ceci- 
des, um antigo poeta ditirâmbico, citado por Crati- 
no nos Onividentes. . 


975 


980 


985 


990 


995 


214 


JUSTO 

Mas, na realidade, foi com essas coi- 
sas que a minha educação criou os ho- 
mens guerreiros de Maratona? 7º. Mas 
você, desde logo, ensina as crianças de 
hoje a se embrulharem em mantos, e eu 
sufoco de raiva quando alguém, preci- 
sando dançar nas Panatenéias, segura 


o escudo diante do sexo, sem respeitar 


a Tritogenéia? 71º (Voltando-se para 
Fidípides) Em vista disso, coragem 
meu rapaz! Escolha-me a mim, Oo 
raciocínio forte. E você aprenderá a 
detestar a ágora? 72, a abster-se dos 
balneários? 73, a ter vergonha do que é 
vergonhoso e a pegar fogo se alguém o 
insultar. Aprenderá também a erguer- 
se da cadeira, quando se aproximam os 
velhos, a não ser estúpido com os seus 
pais e a não fazer nenhuma outra ação 
vergonhosa, porque procura realizar a 
imagem do pudor? 7*. E não irá cor- 
rendo à casa de uma dançarina, fican- 
do de boca aberta diante do espetá- 
culo, para receber uma maça? 78 de 
alguma rameirinha e ter a sua boa 
reputação despedaçada... Também 
não retrucará ao seu pai, chamando-o 
de velho Jápeto?7º e censurando-o 


- pela sua velhice, graças à qual você foi 


criado como um filhotinho. .. 


270 Vencedores das tropas de Dario, comandadas 
por Dátis em Maratona. 

271 Nas Panatenéias os meninos dançavam a pírri- 
ca, armados e completamente nus, em honra de Ate- 
nas Tritogenéia. A etimologia desse epíteto de 
Atena tem sido bastante discutida, podendo inter- 
pretar-se: “nascida do mar” ou “nascida ao lado do 
Triton” (lago ou riacho). Cf. Lis., Da acusação de 
suborno, 1 e 4. 

272 Cf. Isocr., Áreop., 149 C.D. 

273 O hábito de fregientar os balneários e o uso de 
banhos quentes em certa época foram considerados 
um luxo, causa de efeminação. Cf. 1044, Plat., Leis, 
VI, 761. 

274 Exemplo dessa imagem do pudor é o jovem 
Autólico, Xenof., Banquete, II. Cf. também Xenof., 
Memor., H,3, 16. 

275 A maçã, fruto de Afrodite, era considerada o 
símbolo do amor. Cf. Escol., v. 997; Cat. LXV, 19; 
Verg., Buc., II, 64. 

276 Titã, irmão de Crono e pai de Prometeu. 


ARISTÓFANES 


INJUSTO 
(A Fidípides.) 


Meu rapaz, se você lhe obedecer 
nisso, sim, por Dioniso, parecerá aque- 
les porcos-filhos de Hipócrates? 77 e 
vão chamá-lo de. “filhinho da ma- 
mãe”. , 


JUSTO 

Mas então, esplêndido como uma 
flor, você passará o tempo nos giná- 
sios; não ficará parolando pela ágora a 
respeito de argúcias espinhosas, como 
a mocidade de hoje, arrastado aos tri- 
bunais por um negocinho cheio de chi- 
canas e contradições capciosas. Des- 
cendo à  Academia?78, apostará 
corrida, debaixo das oliveiras Sagra- 


-das, com um rapaz ajuizado e da 


mesma idade, coroado com uma verde 
cana? 7º, rescendendo a hera, sereni- 
dade e choupo branco?8º no cair das 
borbulhas, alegre na estação primave- 
ril quando o plátano troca doces mur- 
múrios com o olmo. ..281: 

Se fizer o que eu digo? 82 

e atentar nesses conselhos, 

terá sempre peito robusto, 

cores brilhantes, 


277 Sobrinho de Péricles, cujos filhos Telesipo, 
Demofão e Péricles eram ridicularizados pela pouca 
inteligência. Cf. Tesm,, 273; Eupol., fr. 127. Troca- 
dilho: os porcos eram simbolo da estupidez. Cf. 
Aten., II, 96-E. 


278 Os jardins de Academo, nas cercanias de Ate-* 


nas, onde havia um ginásio e pistas de corrida. 
Entre as suas numerosas árvores, eram célebres as 
doze oliveiras, que, segundo se acreditava, provi- 
nham dos rebentos daquelas que Atena fizera brotar 
na Acrópole, quando de sua disputa com Posidão. 
278 Guirlandas, usadas pelos jovens durante as 
competições atléticas, em homenagem aos Dióscu- 
ros (Castor e Pólux). 

280 Hércules tomara um ramo de choupo branco e 
com “ele se havia coroado, antes de atravessar o 
Aqueronte. Esta ârvore lhe era consagrada e servia 
de adorno nas competições atléticas. 

281 A contradição ê apenas aparente, pois.o chou- 
po branco, como a nogueira, tem borbulhas preco- 
ces e perde-as antes da folhadura, por conseguinte 
bem antes do outono. 

282 Pnigos — Falando num só fôlego, o Justo 
apregoa as vantagens cla educação antiga. 


| 


1000 


1005 


1010 


1015 


1020 


1025 


1030 


1035 


AS NUVENS 


ombros largos, lingua curta, 
quadris grandes 

e membro pequeno?*3. 

Mas se praticar os hábitos de hoje, 
logo terá pele pálida?28*, 

ombros estreitos, peito acanhado, 
língua grande, quadris pequenos, 
membro comprido 
elongos decretos... 28 
E ele persuadirá você 

a pensar que tudo 

que é vergonhoso é belo 

e o belo, vergonhoso. 

E além disso, vai sujá-lo 
com a devassidão de 
Fofo pd 


Antíma- 


CORO?8” 
(Antistrofe.) Cultor 
da gloriosa sabedoria de altivas tor- 
res288, que doce e prudente flor repou- 
sa em suas palavras! Felizes, sim, Os 
que viviam nos tempos de outrora! Em 
resposta, você que possui uma arte de 
fina elegância, algo de novo deve dizer, 
pois o homem se saiu muito bem! 


CORIFEU 
(Mo Injusto.) 


Parece que contra ele você precisa 
de resoluções terríveis, se pretende ven- 
cer o rival sem expor-se ao ridículo. 


INJUSTO?8º 
E, no entanto, há bem tempo eu é 


283 Sinal de sensatez, segundo o Escoliasta. 

284 Em decorrência da falta de exercícios. 

285 Não hã perfeita correspondência na antítese. 
Segundo a opinião de Meineke antes do v. 1015 
deve faltar algum verso, representando a oposição 
aos “longos decretos”, numa crítica aos oradores, 
eternos donos de decretos à disposição de cada 
freguês. - 

286 Personagem desconhecida, acusado de práticas 
homossexuais. 

287 Antode — Terminada a preleção do Justo, o 
coro precede à apresentação do novo contendor (vv. 
1024-1033). 

288 Comumente usado como epíteto de cidades. 
Eur., Bac., 1202; Supl., 618. 
289 Antipirrema — Num diálogo malicioso, o 
Injusto refuta, com habilidade, as vantagens da edu- 
cação antiga (vv. 1036-1084). 


PARE 


que sufocava até as entranhas2ºº e 
desejava revirar tudo isso com argu- 
mentos contrários... Pois, no meio 
dos pensadores, chamaram-me “o ra- 
ciocínio fraco”, por isso mesmo, por- 
que fui o primeiro a pensar em contra- 
dizer as leis e a justiça. Eis aí o que 
vale muito dinheiro?º1: escolher os 
raciocínios fracos e, apesar disso, ven- 
cer! (4 Fidípides) Observe como 
vou refutar essa educação em que, ele 
acredita, ele que afirma em primeiro 
lugar que você não terá licença de 
tomar banho quente. ..2º2 (Volta-se 
para o Justo.) Mas, com que funda- 
mento você censura os banhos quen- 
tes? 


JUSTO 
Porque são uma coisa péssima e tor- 
nam o homem covarde! 


INJUSTO 
Páre! Pois já o agarrei pela cintura 
e não o deixo escapar. ..2º3 Diga-me, 
dentre os filhos de Zeus, qual é o 
homem que você julga de alma mais 
valorosa? Diga-me, quem suportou as 
maiores fadigas? 


JUSTO 
Não julgo nenhum homem superior 
a Hércules. 


INJUSTO 
Pois então, você já viu alguma vez 
banhos de Hércules, que sejam 
frios?2º* Ora, quem era mais corajo- 
so? 


299 Em correspondência com vv. 988 ss. 

281 Lit. “mais do que dez mil estateros””: moeda de 
prata que, em Atenas, valia aproximadamente 4 
dracmas; o estatero de ouro valia 20 dracmas. 

292 Veja nota v. 991. 

293 Metáfora extraída da linguagem da palestra: o 
lutador agarrado pela cintura era virtualmente 
considerado fora de combate. 

284 Fontes termominerais. Segundo a lenda, a pró- 
pria deusa Atena fizera brotar, nas Termópilas, fon- 
tes sulforosas para que Hércules recuperasse as 
energias, depois de banhar-se em suas tépidas 
aguas. 


1040 


1045 


1050 


1055 


1060 


1065 


216 


JUSTO 
É isso, é isso mesmo que enche os 
balneários de jovens que tagarelam 
sem cessar o dia inteiro, enquanto as 
palestras ficam vazias... 


INJUSTO 
E, depois, você censura a discussão 
na ágora, e eu a elogio. Se houvesse 


- algum mal, Homero nunca teria feito 


de Nestor um “discurseiro”2º 5, nem 
de todos os sábios?º 8. Daí então passo 
para a língua: esse fulano diz que os 
jovens não devem exercitá-la, e eu digo 
que sim. De outro lado, ele diz que se 
deve: ser modesto??'. Dois grandes 
males! Você já viu alguém ganhar al- 
guma coisa com a modéstia? Fale, 
refute-me com palavras! 


JUSTO 
Muita gente... Pois não foi por 


isso que Peleu recebeu o seu cute- 
lo?2º8 


INJUSTO 


Cutelo?! Grande lucro teve o des- 
graçado!... Hipérbolo, aquele das 
lamparinas?ºº, ganhou com a sua falta 
de vergonha mais do que muitos talen- 
tos... enão um cutelo, por Zeus! 


JUSTO 
E Peleu, graças à sua modéstia, des- 
posou Tétis. 


295 Em toda esta passagem observe-se a argumen- 
tação sofística. Nestor, rei de Pilos, aparece na Jlía- 
da e na Odisséia como um velho prudente, ainda 
corajoso no campo de batalha, mas amigo de longos 
discursos. Lit. “agoreta”, ii. e., falador na ágora. 

28% Qdisseus, Calcas e outros. 

287 No texto grego “sophronein”, palavra rica de 
sentido moral e que encerrava as idéias de modéstia, 
prudência, sensatez, castidade e comedimento. 

288 Não desejando corresponder aos anseios amo- 
rosos de Hipólita (ou Astidamia) esposa de Acasto, 
Peleu quase perdeu a vida, após as intrigas da rai- 
nha. Como recompensa, recebeu dos deuses um cu- 
telo para defender-se e, mais tarde, a mão da ninfa 
Tétis. : 

299 Hipérbolo é acusado de misturar chumbo no 
bronze com o qual fabricava lâmpadas. 


ARISTÓFANES 


INJUSTO 

E logo ela passou-o. para trás e foi-se 
embora, pois ele não era nem fogoso e 
nem agradável para festejar as noites, 
debaixo das cobertas. ..ººº E uma 
mulher gosta de sofrer violências... 
Você é um velho sendeiro... (4 Fidí- 
pides) Meu rapaz, observe tudo o que 
existe na modéstia e de quantos praze- 
res você deve privar-se: meninos, mu- 
lheres, jogos de cótabo3º?, alimentos, 
bebidas, gargalhadas... Ora, de que 
lhe valerá a vida se for privado de tudo 
isso? Bem, passarei as necessidades 
naturais. Você agiu mal, ficou apaixo- 
nado e praticou um adultério?º2, mas 
foi apanhado. Você estã perdido, pois 
não é capaz de falar... Conviva co- 
migo e goze a vida, salte, ria e não 
ache nada vergonhoso... Pois se 
acaso for apanhado em flagrante adul- 
tério, você dirá ao marido o seguinte: 
que não tem culpa nenhuma. Depois 
trate de jogar a culpa em Zeus, porque 
ele também é mais fraco do que o amor 
e que as mulheres. ..3º3 Ora, como é 
que você, um mortal, poderia ser mais 
forte do que um deus?. ..3º4 


300 O Raciocínio Injusto falseia a lenda para justi- 
ficar-se. Tétis, segundo uma predição, daria à luz 
um filho mais poderoso que o próprio pai. Nessas 
condições, os deuses obrigaram-na a desposar 
Peleu, um mortal. C casamento não foi feliz, e a 
ninfa passava a maior parte do tempo nas profun- 
dezas do mar, nos palácios de seu pai Nereu. Cf. 
Hom., /L., XVIII, 432. ss. 


301 Jogo muito popular, principalmente após o 
Jantar. Numa de suas variedades, o participante, 
deitado sobre o braço esquerdo, devia tomar a taça 
com a mão direita e derramar suas últimas gotas em 
outra taça, que flutuava numa bacia. 


302 Embora as mulheres vivessem mais ou menos 
reclusas, o adultério não era raro. Cf. Lis., Sobre a 
Morte de Eratóstenes; H. Licht, op. cit., p. 63. 


303 Alusão às muitas aventuras amorosas-de Zeus. 
Depois de certa época, tornou-se hábito procurar 
desculpas nos mitos. Cf. Xen., Cir., VI, 1; Plat., 
Rep., 377 etc., K. Freeman, op. cit., pp. 203 ss. 

304 Cf. Ter., Eun., II, 5, 40 “deum sese in homi- 
nem convortisse at quem deum quia templa caeli 


summa sonitu concutit./ Ego Homuncio hoc non 
facerem?” 


1070 


1075 


1080 


1085 


1090 


AS NUVENS 


JUSTO 
Quê?! E se por ter acreditado em 
você lhe enfiarem um rabanete no rabo 
e o esfolarem com cinza?3º º Ele terá 
algum argumento para afirmar que 
não é um esculhambado?*º 8 


INJUSTO *º” 
E se for um esculhambado, que 
haverá de mal? 


JUSTO 
Pois que desgraça ainda maior do 
que essa ele poderia sofrer um dia? 


INJUSTO 
E então que dirá você se for derro- 
tado por mim nesse particular? 


JUSTO 
Calarei a boca! Que mais? 


INJUSTO 
Então diga-me, vamos, os advoga- 
dos públicos?º8, onde é que vamos 
buscá-los? 


JUSTO 
Nos esculhambados... 


INJUSTO 
Acredito! E os trágicos*ºº, onde? 


JUSTO 
Nos esculhambados. .. 


305 () marido ofendido, segundo uma lei de Sólon, 
podia vingar-se do adúltero como bem lhe aprou- 
vesse. Além de processos legais, cobranças de 
indenizações, podia infligir esse castigo físico. 

306 Aristófanes associa duas idéias diferentes: a 
consequência do castigo brutal recém-mencionado e 
a perversão sexual, usando de um adjetivo expres- 
sivo, mas que traduzido literalmente seria de uma 
vulgaridade intolerável. Procuramos adaptâ-lo, em- 
pregando uma palavra que traduzisse as idéias de 
afronta física, falta de pudor e de vergonha. 

307 Antipnigos — Numa rápida troca de palavras, 
o Injusto ratifica a sua vitória definitiva apelando 
para mais um argumento sofístico: o costume, a 
força da maioria, vv. 1085-1104. E bem cruel o 
juízo do poeta a respeito da sociedade ateniense. 

308 (Os advogados e oradores eram muito satiriza- 
dos. Cf. Cav., 880. 

309 Provável alusão a Eurípides e principalmente a 
Agatão. Cf. Tesmof., 200; R. Flaceliêre, op. cit., 
cap. HI. 


217 


INJUSTO 
Tem razão. E os oradores? 


JUSTO 
Nos esculhambados... 


INJUSTO 
Está aí, então não reconhece que diz 
tolices? Observe no meio dos especta- 
dores, qual é a maioria? 


JUSTO 
Sim, estou observando... 


INJUSTO 
E então, que vê? 


JUSTO 
Pelos deuses, os esculhambados são 
mais numerosos. (Mostrando ao 
acaso.) Eis ali um, bem o conheço, e 
aquele ali, e aquele cabeludo que lá 
Gota qapoao 


INJUSTO 
E então, que diz você? 
JUSTO 
(Resignado.) 
Fomos vencidos. Ó prostituídos! 
Pelos deuses, recebam o meu 
manto?!1, que eu passo para o seu 


lado. (Entra no “pensatório ”) 


INJUSTO 
(A Estrepsíades.)3 12 


E então, você prefere apanhar o séu 
filho e levá-lo de volta, ou vou ensiná- 
lo a falar em seu benefício?313 


310 Eis a triste realidade: todos os individuos à 
testa de cargos públicos e a maioria dos próprios 
espectadores são prostituídos. É a derrota total dos 
antigos ideais. 

311 Atira fora o manto para correr com mais faci- 
lidade. Cf. Xen., Anab., I, 10. 

312 Provavelmente alusão ao cerimonial que prece- 
dera o ingresso de Estrepsíades na escola de Sócra- 
tes. Cf. v. 497. 

313 Pausa, correspondendo a um trecho coral. Ini- 
cia-se depois uma rápida cena cômica de transição. 
Consumada a escolha, Fidípides será discípulo do 
Injusto (vv. 1105-1113). 


1095 


1100 


ttOs 


Ho 


us 


1120 


218 


ESTREPSÍADES 
Ensine-o, castigue-o e lembre-se de 
que me deve afiá-lo bem; de um lado, 
para os pequenos processos e de outro 
lado, afie os seus maxilares para as 
causas mais importantes... 


INJUSTO 
Não se preocupe. Você há de achá- 
lo um hábil sofista. 


FIDÍPIDES 
A meu ver ficarei pálido e infe- 
DIZ E 


CORIFEUS!S 
Então saiam. (A  Estrepsíades.) 
Penso que você há de arrepender-se 
disso. 


- (Ão público.) 


* O lucro que os juízes hão de obter, 
se prestarem algum serviço a este coro, 
conforme o que é justo?! 8, eis o que 
desejamos expor. Em primeiro lugar, 
se desejarem arar os campos na esta- 
ção adequada, choveremos primeiro 
para eles, depois para os outros. Além 
disso, protegeremos as searas e as 
videiras, de modo que não as molestem 
nem as secas nem as chuvas excessi- 
vas... Mas se alguém, sendo mortal, 
ofender-nos 2 nós que somos deusas, 
preste bem atenção aos males que 
padecerá por nossa causa, não co- 
lhendo nem vinho nem qualquer outro 
produto de sua propriedade. De fato, 
assim que florescerem, as oliveiras e as 


videiras serão cortadas, pois havere- 


mos de atirar pedras enormes. Se o vir- 


314 Em correspondência com o v. 504. 
315 Segunda Parábase (vv. 1115-1130). 
316 O Corifeu fala aos espectadores. A mesma 
advertência aparece também em outras comédias, 
prometendo aos juízes recompensas ou castigos. Cf. 
Av. 1101 ss.; Ass., 1154. O povo podia aplaudir, 


vaiar ou pedir bis, todavia a decisão final cabia aos , 


juízes. Note-se que Aristófanes se dirige à parte do 
público que corresponde aos agricultores, direta- 
mente interessados nessas questões de chuvas, 
secas, etc. 


ARISTÓFANES 


mos fabricar tijolos, choveremos e 
arrebentaremos as telhas do seu telha- 
do com granizos redondos. E, se algum 
dia se casar ou ele próprio ou um 
parente ou amigo, choveremos a noite 
inteira?! 7 e, provavelmente, há de pre- 
ferir estar até no Egito a ter feito um 
Julgamento errado... 


ESTREPSÍADES?' 8 
(Sai de casa contando os 
dedos.) 


Quinto, quarto, terceiro, depois 
desse, o segundo??º. E depois, o dia 
que mais temo de todos, que me põe a 
tremer e que abomino; logo depois dele 
vem o dia da lua velha e nova... .320 
Pois cada sujeito, a quem por acaso 
estou devendo, jura e afirma que depo- 
sitará a caução32! para arruinar-me, 
destruir-me, embora eu peça coisas 
justas e moderadas... “Ó. homem, 
não receba esse dinheiro agora, dê-me 
mais um prazo, deixe passar”... E 
dizem que assim nunca receberão o 
dinheiro, e insultam-me, “que eu sou 
culpado, que pretendem processar-me. 
Pois, então, processem agora!... 
Pouco me importa!... Se é verdade 
que Fidípides aprendeu a falar bem .-. 
Mas vou sabê-lo agora mesmo, baten- 


317 As chuvas estragariam toda a festa de bodas, 
com o cortejo luminoso que, ao anoitecer, saía da 
casa da noiva, e se dirigia à casa do noivo. 

318 Cenas cômicas, episódicas, vv. 1131-1302, 
com intermezzos líricos, vv. 1154-1169 e 
1206-1213. Consequências boas e más da decisão 
de Estrepsíades. 

313 Os meses eram divididos em três décadas: Os 9 
ou 10 dias da última década eram contados às aves- 
sas, ou também a partir do vigésimo. 


"820 O 1.º dia de cada mês, dia da lua nova, não 


coincidia com a conjunção do Sol e da Lua, a lua 
nova astronômica. Havia, pois, um intervalo de 
tempo entre a conjunção e o começo da lua nova: 
era o “dia da lua velha e nova”, quando se salda- 
vam as dívidas ou sz pagavam os juros. Cf. Diog. 
Laer., Sólon, 58; Plut., Sol., XXV,3. 

321 Ao iniciar uma causa de dívidas, as partes inte- 
ressadas deviam depositar uma caução cujo mon- 
tante variava, correspondendo mais ou menos a 
10% da quantia reclamada. Essas cauções, pagas a 
título de custas, eram reembolsadas aos vencedores 
pelas partes vencidas. | 


1130 


(1135 


Ho 


AS NUVENS 


do à porta do “pensatório”?. (Bate à 
porta.) O moço, digo, moço, moço ! 


SÓCRATES 
(Saindo.) 


a Saúdo Estrepsiades*22. 


ESTREPSÍADES 

E eu saúdo você. Mas antes receba 
isto aqui? 23. (Oferece-lhe algo.) Pois é 
preciso retribuir ao mestre com algu- 
ma coisa. E o meu filho, o rapaz que 
há pouco você levou lã para dentro, 
diga-me, ele aprendeu aquele tal racio- 
cinio? 


SÓCRATES 
Aprendeu ! 


ESTREPSÍADES | 
Es Muito bem! Viva a Fraude, rainha 


do mundo ! 


SÓCRATES 
Tanto: que você poderia livrar-se de. 
qualquer processo que desejar... 


ESTREPSÍADES 
"Embora houvesse testemunhas 
quando tomei o dinheiro emprestado? 


SÓCRATES 
Tanto melhor. Ainda que sejam mil! 


ESTREPSÍADES 
(Declamando.)*? * 


1155 Clamarei então o altissimo??8 cla- 
mor! Ai, ai, usurários do óbolo3268, 
então chorem, vocês, seus capitais e os 


322 Crítica à nova maneira de saudar, que, prova- 
velmente, vinha substituindo a tradicional, conside- 
rada antiquada pelas classes abastadas. Cf. PL, vv. 
322 ss.; Av. v. 1377; Y. Ehrenberg, The People of 
Aristophanes, 2.2 ed., Oxford, Blackwell, 1955, p. 
209. 

323 Dinheiro ou um saco de farinha. Cf. v. 669. 
324 Intermezzo lírico; paródia do estilo trágico. 
325 Paródia de Eur., Peleu, fr. 1. Aliás esses versos 
já haviam sido imitados por Frínico. 

326 Usurários que emprestavam pequenas quantias 
a juros altíssimos. Era comum a taxa de um óbolo 
diário por mina, o que correspondia a juros de 60% 
ao ano! j 


219 


Juros dos juros! Dano algum já pode- 
rão fazer-me. .. 

Tal é o filho que eu tenho 

nestes palácios, 
reluzente com 
gumes, 

meu baluarte, salvador do lar, ruína 
dos inimigos, 

solvente dos grandes males paternos! 


(A Sócrates.) 


Vá correndo lã: dentro chamá-lo 
para junto de mim. Meu filho, meu 
pequeno, saia de casa, ouça o seu 
pai!327 


1160 


sua língua de dois 


1165 


| SÓCRATES 
(Saindo com Fidípides.) 


Eis o nosso homem. 


ESTREPSÍADES 
(Abraçando o filho.) 


Meu querido ! Querido ! 


SÓCRATES 
Vá-se embora e leve-o com você. 
ESTREPSÍADES 
Oh, meu filho! Viva o meu “mo 
filho!:28 (Observando Fidípides.) 
Como estou contente, primeiro por ver 
a cor de sua pele. .. Agora sim, logo à 


primeira vista, você é um negaceiro € 
contraditor! Com toda a certeza flo- 
resce em você aquela nossa pergunta . 
nacional: “que diz?”,32º para parecer 
ofendido quando é você quem ofende e 7 
age mal, bem o sei... E no seu rosto 
mora o tal “olhar da Ática”. ..330 
Contanto que agora você me salve, de- 

pois que me arruinou!... 


FIDÍPIDES 
Mas o que é que você teme? 


327 Paródia de Eur., Hec., vv. 172. ss. ev. 181. 

s28 Volta ao diálogo habitual, vv. 1171-1205. 

329 Alusão ao hábito das perguntas à queima- 
roupa, para intimidar o contendor. 

330 Eram notórias a impudência e sem-vergonhice 
dos atenienses. 


1180 


1185 


220 


| ESTREPSÍADES 
O dia da “lua velha e nova”. 


FIDÍPIDES 
Pois há um dia da “lua velha e 
nova”? 
ESTREPSÍADES 
Sim, aquele em que dizem que vão 
depositar uma caução contra mim. 


FIDÍPIDES 
Então os depositantes vão perdê- 
la331 pois não seria possível que um só 
dia fossem dois... 


SÓCRATES 
Não seria possível? 


FIDÍPIDES 
De que jeito? A não ser que uma 
mesma mulher fosse ao mesmo tempo 
velha e jovem. 
SÓCRATES 
E, no entanto, é a lei. 


FIDÍPIDES 


Pois em minha opinião eles não. 


sabem ao certo o que significa a lej332, 


ESTREPSÍADES 
E que significa? 
FIDÍPIDES 
(Exclamando.) 
Bem que o velho Sólon era amigo do 
DOMO Le ABS 
ESTREPSÍADES 


Mas isso nada tem que ver com a 
“lua velha e nova”... 


FIDÍPIDES 
Pois bem, ele estabeleceu a citação 


331 Vão perder a causa, pois não conseguirão pro- 
var que um dia possam ser dois. É evidente que 
Fidípides sabe muito bem do que se trata, mas finge 
ignorá-lo para encaminhar o raciocínio sofístico. 
332 Processo normal de refutação, a partir do 
“espírito da lei”. 

333 Sólon era apreciado pelos sentimentos demo- 
cráticos e frequentemente citado pelos oradores. Cf. 
Esquin., Tim., 6; Isocr., 4reop., 16; Dem., Cor., 6. 


ARISTÓFANES 


em dois dias, o da lua velha e o da 
nova, para que as cauções fossem 
depositadas na lua nova?3 4. 


ESTREPSÍADES 
Para que então acrescentou a lua 
velha? 


FIDÍPIDES 
Meu caro, para que os acusados, 
apresentando-se um dia antes pudes- 
sem livrar-se espontaneamente33 8; 
caso contrário, que tivessem aborreci- 
mentos com o raiar da lua nova. 


ESTREPSÍADES 
Mas então como é que as autori- 
dades não recebem as cauções no dia 
da lua nova, e sim no da “lua velha e 
nova”? 


FIDÍPIDES 
Acho que fazem a mesma coisa que 
os provadores oficiais?? 8: para surri- 


pilar as cauções bem depressa, provam. 


com um dia de antecedência. 


ESTREPSÍADES 

Muito bem! (4o público.) Ô infeli- 
zes, por que vocês ficam sentados, seus 
bobos? O lucro é nosso, dos sábios; 
vocês são umas pedras, um número, 
uns carneiros inúteis, um monte de 
ânforas!337 Assim, a mim e a este 
meu filho devo entoar um canto de 


334 O legislador designara o dia da lua nova para 
o depósito das cauções, tendo em vista o caráter 
incerto desse dia da “lua velha e nova”. Todavia, 
suas boas intenções foram prejudicadas pelas auto- 
ridades que costumavam receber as cauções com 
um dia de antecedência. Cf. v. 1109 ss. A propósito 
convém lembrar que esse dinheiro servia para pagar 
os magistrados, os quais, por conseguinte, teriam 
maior pressa de arrecadlá-lo. ; 

335 Saldando as dívidas ou pagando os juros. 


358 Comissão apontada por lei e encarregada de 
provar de antemão a carne dos sacrifícios antes de 
distribuí-la ao povo. Provavelmente alusão ao jan- 
tar celebrado no primeiro dia das Apatúrias, em que 
a referida comissão comemorava a data um dia 
antes do resto da população. 

337 Expressões comuns para designar seres inertes, 
mudos como pedras, coisas sem valor, amontoadas 
em depósitos. 


1190 


1195 


1200 


1205 


1210 


1215 


AS NUVENS 


triunfo em honra de nossa prosperi- 
dade!  Bem-aventurado  Estrepsia- 
des338, 

Você já-nasceu sábio, 

e que filho está criando... 


(Ao Filho.) 


Eis o que dirão os amigos e compa- 
nheiros de bairro, cheios de inveja, 
quando você vencer os processos com 
os seus discursos! Mas vou levá-lo 
para casa, quero oferecer-lhe um ban- 
quete. (Entram pai e filho.) 

(Chega um credor com uma 
testemunha.) 


CREDOR I 

Então, um homem deve desistir do 
que é seu?33º Não, nunca! Mas teria 
sido melhor perder a vergonha desde 
logo naquela ocasião, do que ter essas 
preocupações... (4 testemunha.) 
Agora, por causa do meu próprio 
dinheiro, eu arrasto você para servir de 
testemunha, e, ainda, além disso, vou 
tornar-me inimigo de um homem do 
meu bairro. Mas, enquanto viver, Ja- 
mais envergonharei a minha pá- 
tria!3 4º Vou citá-lo3 “1 em voz alta: 
(Gritando.) Estrepsiades. .. 


ESTREPSÍADES 
(Saindo de casa). 


Quem é esse? 


CREDOR I 
-. para a “lua velha e nova”... 


ESTREPSÍADES 
(A testemunha.) 


Você é testemunha de que ele se 


338 Intermezzo lírico. 

33º Cena cômica: Estrepsíades e os seus credores: 
a) primeiro credor, vv. 1214-1258; b) segundo cre- 
dor, vv. 1259-1302. O primeiro credor provavel- 
mente é Pásias, citado nos vv. 21 ss. 

3*0 Aljusão à mania judiciária dos atenienses. 

321 Antes de apresentar a queixa por escrito ao tri- 
bunal, depositando a respectiva caução, o deman- 
dante devia citar pessoalmente o demandado, em 
presença de testemunhas. Cf. Av., v. 147, Vesp., v. 
1416. 


221 


referiu a dois dias. Por que dinheiro? 


CREDOR I 
Pelas doze minas, que você tomou 
emprestadas para comprar o cavalo 
LOGO a 


ESTREPSÍADES 
Cavalo? Vocês ouviram? Se todos 
sabem que eu detesto a equitação !... 


CREDOR 1 
Por Zeus, você jurou pelos deuses 
que pagaria! 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, mas naquela ocasião 
Fidípides ainda não me tinha apren- 
dido o raciocínio irrefutável... 


CREDOR I 
Mas agora por esse motivo você pre- 
tende negar a dívida? 


ESTREPSÍADES 
Pois que outra vantagem poderia 
tirar desse conhecimento? 


CREDOR I 
Será que você pretende renegar o 
juramento, em nome dos deuses e no 
lugar em que eu mandar? 


ESTREPSÍADES 
(Com desprezo.) 


Que deuses? 


CREDOR I 
Zeus, Hermes, Posidão !3 42 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, e até depositaria 
mais três óbolos para jurar... .3 43 


CREDOR I 
Está bem, tomara você pereça! E 


342 Fra tradicional o juramento tríplice. Aqui os 
três deuses invocados correspondem muito bem à 
natureza da transação: Zeus é o deus dos juramen- 
tos; Hermes, o protetor dos lucros; e Posidão, o 
deus dos cavalos. 

3*3 Estrepsíades acrescentaria à caução mais três 


óbolos, em sinal de desprezo pelo juramento feito. 


1230 


1235 


1240 


1245 


222 
ainda mais pela sua-impudência! 


ESTREPSÍADES 
Enxaguado em salmoura este fulano 
serviria para alguma coisa. ..344 


CREDOR I 
Como você caçoa de mim! 


ESTREPSÍADES 
Nele caberão seis medidas... 


CREDOR 1 
Não, por Zeus poderoso e pelos deu- 
ses, você há de pagar-me! 


ESTREPSÍADES 
Você me diverte admiravelmente, 
com os seus deuses !... Para os enten- 


didos, o Zeus dos seus juramentos é 
ridículo !3 45 


CREDOR 1 
Sim, está bem, com o tempo você há 
de ser castigado por ele. .. Mas vai ou 


não vai pagar o meu dinheiro? Res- 
ponda-me e deixe-me ir. 


ESTREPSÍADES 
Então fique tranquilo, pois já lhe 
responderei de maneira clara. (Sai.) 


CREDOR I 
(4 testemunha.) 


Que pensa você que ele vai fazer? 
Acha que vai pagar?... 


ESTREPSÍADES 
(Volta com uma gamela.) 


Onde está esse homem que me recla- 
ma o dinheiro? (Ao credor.) Diga, que 
é isto? 


344 Pásias, provavelmente gordo e narigudo, é 
comparado com um odre de vinho. Os odres de pele 
eram enxaguados com água salgada para maior 
elasticidade e também para preservá-los do apodre- 
cimento. 

345 Os iniciados nas sutilezas da sofística em 
comparação com os demais, os ignorantes. Cf. 
Plat., Bang., 199. Estrepsíiades sente-se bem escu- 
dado na habilidade retórica do filho, e por isso age 
com impudência. 


ARISTÓFANES 


CREDOR I 
Que é isso? “Um gamelão”. 


ESTREPSÍADES 
E ainda reclama dinheiro, sendo 
desse jeito? Eu não pagaria nem um 1250 
óbolo a ninguém que chame “a game- 
la”? de “gamelão” !3 46 
CREDOR I 
Mas então você não vai pagar? 


ESTREPSÍADES 
Que eu saiba, não ! Então, depressa, 
vá dando o fora de minha porta! 


CREDOR I 
Vou-me embora, e você fique saben- 
do que depositarei minha caução, ou 1255 
não seria mais um homem vivo... 


ESTREPSÍADES 
Está bem; vai jogar fora mais esse 
dinheiro, além das doze minas... E, 


no entanto, não quero que você sofra 
esse prejuízo, só porque disse “o game- 
lão” de maneira errada. .. 


(Sai o primeiro credor, aproxima-se 
um segundo.)3 47" 


CREDOR II 
Ai, ai! Ai de mim! 


" ESTREPSÍADES 
Epa! Quem será esse chorão, não : 126 
seria talvez alguma divindade de 
Carcino? 48 que falou? 


CREDOR IH 
Quê? Você quer saber quem sou eu? 
Um desgraçado! 


ESTREPSÍADES 
Então siga o seu caminho... 


346 Veja vv. 670 ss. Eis a nova sabedoria em 
marcha... 

347 (O segundo credor, possivelmente Amínias (cf. 
v. 31), aproxima-se com lamentos, para despertar 
compaixão e conseguir receber o dinheiro. 

348 Carcino, poeta trágico, e seus filhos Xénocles, 
Xenótimo e Xenarco, frequentemente criticados 
pela poesia cômica. Cf. Vesp., vv. 1501 ss.; Paz., v. 
782; Ras, v. 86. 


AS NUVENS 


CREDOR IH 

Ó divindade cruel! 

quebradora 34º dos carros dos meus 
cavalos! 


1265 O Palas, tu me arruinaste! 


ESTREPSÍADES 
Afinal... que mal lhe fez o Tlepóle- 
mo? 
CREDOR II 


Não me censure, meu caro, mas or- 
dene ao seu filho que me pague o 
dinheiro que recebeu, tanto mais que 
estou mesmo sem sorte! 


ESTREPSÍADES 
Que dinheiro é este? 


CREDOR II 


eo O que tomou emprestado. 


ESTREPSÍADES 
Então você anda mesmo azarado, 
ao que me parece. 


CREDOR II 
Sim, pelos deuses, caí quando guia- 
va meus cavalos! 


ESTREPSÍADES 
Por que então tagarela como se 
tivesse caído de um burro?3 50 


CREDOR II 
Tagarelo? Se quero receber o meu 
dinheiro? 
ESTREPSÍADES 
Não é possível que você esteja 
são... 
CREDOR II 
1275 Quê? 


349 Paródia de Xénocles, Licínio; nessa tragédia, 
narrava-se a morte de Licínio, irmão de Alcmena, 
que caíra sob um golpe de Tlepólemo, filho de Hé- 
racles; daí a alusão do v. 1266. É evidente que o 
credor quer dizer que seus cavalos dispararam, que- 
brando o carro. 

350 Expressão proverbial, significando “insânia, 
perda de juízo”. Plat., Leis, II, 701-C. 


Ó fortuna 


223 


ESTREPSÍADES 
Acho que você ficou com o cérebro 
abalado... 


CREDOR II 
E você, por Hermes, será proces- 
sado por mim, se não me devolver o 
dinheiro. 


ESTREPSÍADES 
Então diga-me a sua opinião! Zeus 
faz chover sempre uma água nova ou o 
Sol puxa novamente de baixo para 
cima sempre a mesma água?? 81 


1280 


CREDOR II 
Não sei como é, nem me interessa! 


ESTREPSÍADES 
Como então tem o direito de receber 
o dinheiro se não sabe nada sobre as 
coisas celestes? 


CREDOR IH 
Mas se você está sem recursos, 12ss 
pague-me os juros do dinheiro... 


ESTREPSÍADES 
Juros? Que bicho é esse? 


CREDOR II 
Que mais há de ser senão isto, que 
cada mês e cada dia o dinheiro sempre 
aumenta mais e mais, com o correr do 
tempo? 


ESTREPSÍADES 
Está bem, você julga por acaso que 
o mar é maior do que era antes?3 82 


1290 


. CREDOR II 
Não, por Zeus, é o mesmo. Pois não 
é natural que se torne maior... .3 53 


351 Problema bastante discutido nessa época. Cf. 
Anaxágoras (Diels-Kranz, A, I, 32); Hipocr., Ar., 
VIII; Aristot., Meteor., II, 2, 10; Ibid., 11. 


352 Cf. Lucr., VI, 608: “principio mare mirantur 
non reddere maius/ naturam, quo sit tantus decur- 
sus aquarum,/ omnia quo veniant ex omni flumina 
parte”. ; 

353 Cf. Heráclito (Diels-Kranz, B, 31-12). 


1300 


1305 


1310 


1315 


224 


ESTREPSÍADES 

E, então, se é assim, infeliz, se ele 
absolutamente não aumenta, embora 
afluam os rios, você pretende aumentar 
o seu dinheiro? Não vai perseguir o 
seu caminho para longe da minha 
casa? (Chama um escravo.) Dê-me a 
vara res 


CREDOR II. 
Eu tomo testemunhas disso... 


ESTREPSÍADES 
(Cutucando-o com a vara.) 


Vá-se embora. Que espera? Ó cava- 
lo de raça, você não anda?3 5 5 


CREDOR II 
Isso não é de fato uma violência? 


ESTREPSÍADES 

Você não vai correr? Eu me encarre- 
go, cutucando-o nas nádegas, seu ca- 
valo de tirante. ..358º Foge? Bem que 
estava para pô-lo em marcha junto 
com as suas rodas e as parelhas! 
(Vai-se o credor.  Estrepsíades 
entra.)3 8? 


CORO 

(Estrofe 1)3 88 Quanto vale amar as 
más ações! Este velho apaixonado 
quer negar-se a pagar o dinheiro que 
tomou emprestado... É impossível 
que ainda hoje não aconteça algo, que 
talvez faça este sofista, de repente, so- 
frer uma desgraça, em troca de suas 
velhacagens! 

(Estrofe II) Creio eu, logo ele há de 
encontrar o que há tempos procurava: 
um filho hábil em sustentar argumen- 


354 Aguilhada, vara comprida com um ferro agudo 
na ponta, usada para instigar bois ou cavalos. 

355 Veja com., v. 122. 

356 O cavalo atrelado por uma correia ao lado de 
dois cavalos de lança. Cf. lat. funalis equus. 

357 Estrepsiades entra a fim de continuar a festejar 
a volta do filho. Cf. v. 1213. 

358" “Choricon”, vv. 1303-1320; canto coral lírico 
(ode e antode). O coro começa a esclarecer sua ver- 
dadeira posição. À pausa coral dá tempo a que a 
ação se desenvolva numa nova etapa: o castigo de 
Estrepsítades. 


ARISTÓFANES 


tos contrários à justiça, vencendo a 
todos com quem negociar, ainda que 
diga coisas abomináveis. .. Mas tal- 


vez, talvez, há de preferir até que o. 


filho seja mudo ! 


(Estrepsíades sai de casa, 
chorando; atrás vem Fidí- 
pides.)3 8º 


ESTREPSÍADES . 

As, ai! Vizinhos, parentes e compa- 
nheiros de bairro ! Ajudem-me de qual- 
quer maneira, eu apanho! Ai, infeliz de 
mim. Ai, a minha cabeça, o meu quei- 
xo! Ó canalha, você bate no seu 
pai?? 60 


FIDÍPIDES 
Sim, meu pai. 


ESTREPSÍADES 
Vocês vêem? Ele concorda que me 
bate! 


FIDÍPIDES 
Por certo! 


ESTREPSÍADES 
Canalha, parricida, bandido ! 


FIDÍPIDES 
Diga-me de novo essas mesmas coi- 
sas e muitas outras... Sabe que até 
me divirto bastante ouvindo tantos 
insultos?* 81 


ESTREPSÍADES 
Imundo ! 
FIDÍPIDES 
Você me polvilha. com muitas 
rosas !3 82 
359 Segundo “Agon" -— Após uma cena introdu- 


tória, o “Pro-Agon” (vv. 1321-1344), desenvolve-se 

o “Agon” propriamente dito, que apresenta a 

seguinte subdivisão: Ode (vv. 1345-1350); Epirrema 

(vv. 1351-1385); Pnigos (vv. 1386-1390); Antode 

(vv. 1391-1396); Antipirrema (vv. 1397-1444); 

Antipnigos (vv. 1445-1451). 

360 Crime abominável, passível de “atimia”. Cf. 
Andoc.. Mist.. 74: Xenof., Mem., £, 2, 49; Esquim,, 

Têm., 28. 

381 Cf. vv. 906 ss.; 1330. ; 

382 Em correspondência com os vv. 910-9i2. | 


1320 


1325 


1330 


Apr) ane a fes 


1335 


1340 


1345 


AS NUVENS 


ESTREPSÍADES 
Você bate no seu pai? 


FIDÍPIDES 
Por Zeus, vou demonstrar até que 
lhe bati justamente... 


ESTREPSÍADES 
Canalhíssima! E como poderia ser 
Justo bater no pai? 


FIDÍPIDES 
Pois vou provar e vencêlo com 
argumentos. 


ESTREPSÍADES 
Vencerá nesse assunto? 


FIDÍPIDES 
Inteiramente e com facilidade! Es- 
colha com qual dos dois raciocínios 
quer falar? 83. 


ESTREPSÍADES 
Que raciocínios? 


FIDÍPIDES 
O forte ou o fraco? 


ESTREPSÍADES 
Sim, por Zeus, Ó infeliz, será que eu 
mandei ensiná-lo a contradizer o que é 
Justo, se você quer convencer de que é 


belo e justo que um pai apanhe de seus 
ilhosti +08 


FIDÍPIDES 
E, no entanto, vou convencê-lo e até 
você mesmo, depois de ouvir, não 
retrucará nada. 


ESTREPSÍADES 
De fato, quero ouvir o que você vai 
dizer... 


CORO 
(Estrofe)3 8º Velho, a sua tarefa é 


363 Alusão à indiferença dos sofistas a respeito das 
causas que deviam defender. 
364 Note-se a tardia amargura de Estrepsiades. Só 
agora O velho começa a compreender a que desgra- 
ças o arrastou a sua própria leviandade. 


365 Ode — O coro dirige-se a Estrepsiades, confir- 


mando a ameaça já antecipada no “Choricon”, 


225 


pensar em como sobrepujá-lo. Se em 

- algo ele não confiasse, tao atrevido 
não haveria de ser. Mas existe algo que 
lhe dá coragem. Bem visível é a sua 
audácia... 


CORIFEU 
Mas por que começou a discussão? 
É preciso dizê-lo diante do coro. E 
você vai fazê-lo de qualquer maneira. 


ESTREPSÍADES 

Bem, vou contar por que começa- 
mos a discutir? 8 8. Pois enquanto ban- 
queteávamos, como vocês sabem, pri- 
meiro mandei-o apanhar a lira para 
cantar? 87 uma poesia de Simôni- 
des? 88, sobre Crio e como foi tosquia- 
do. Ele disse-me que era antiquado 
tocar cítara e cantar, na hora de bebi- 


da, como uma mulher moendo ceva- 
A e 


FIDÍPIDES 
Pois nessa hora você não merecia 
apanhar e ser pisado por mandar-me 
cantar como se tivesse convidado uma 
cigarra para jantar?3 70 


366 Epirrema. Com a palavra Estrepsíades, agora 
transformado em paladino dos ideais da educação 
antiga. Cf. o Discurso do Justo no 1 Agon. 

3€7 Era a parte mais agradável dos banquetes. 
Todo ateniense bem educado devia saber cantar 
poesias dos grandes líricos, trechos dos poemas épi- 
cos e cantos apropriados a essas reuniões, chama- 
dos “escólios”. Cf. Vesp., vv. 1222, 1239; Rãs, v. 
1301. Os convidados revezavam-se nos cantos, pas- 
sando um ao outro um ramo de mirto ou oliveira. 
Cf. v. 1354. Todavia, durante a Guerra do Pelopo- 
neso, esse costume passou a ser considerado fora de 
moda. Cf. Plat., Prot., 347 C. E.; K. Freeman, op. 
.Cit., p. 103. 

368 Simônides de Céos (556-468 a.C.), poeta lírico 
e elegiaco muito prestigiado graças às poesias que 
dedicou aos heróis das Guerras Médicas. Atribui- 
se-lhe um epinício contra Crio de Egina, comparado 
a um carneiro recém-tosquiado, em virtude de um 
trocadilho, entre o nome próprio Crio e a palavra 
grega para designar o “carneiro” (criós). 

369 Em todas as épocas e lugares, as mulheres 
sempre acompanharam os trabalhos manuais com 
cantos.. Cf. Ath., Bang. Sof., 618-C, Polux, Ono- 
masticon, 53, Plut., Sete Sábios, 14. 

370 Os antigos acreditavam que as cigarras po- 
diam cantar sem interrupções, contentando-se com 
uma simples gota de orvalho. Cf. Plat., Fedro, 
259-C; Anacreôntica, 34; Edmonds, Greek Elegy 
and Jambus, Anacreontea, Loeb, Londres, Heine- 
mann,.1927. 


1350 


1355 


1360 


1365 


1370 


1375 


1380 


226 


ESTREPSÍADES 

Ah, eram essas mesmas as palavras 
que ele dizia lá dentro, afirmando que 
Simônides é mau poeta. Eu, embora a 
custo, apesar de tudo, a princípio 
contive-me. Depois, mandei-o apanhar 
ao menos um galho de mirto e recitar- 
me alguma coisa de Ésquilo. E ele logo 
disse: “Pois considero Ésquilo o maior 
poeta barulhento, .incoerente, empola- 
do, criador de palavras escarpa- 
das...2371 Pensem então como o 
meu coração palpitou de raiva! Toda- 
via, depois de engolir a cólera, eu 
disse: “Bem, cante alguma coisa desses 
modernos, algumas dessas bele- 
zas...?2372 E ele jogo cantou uma 
passagem de Eurípides — livre-nos 
Deus — sobre um irmão que violentou 
a própria irmã. ..º73 Não me contive 
mais, e logo acometi com muitas pala- 
vras más e injuriosas. Daí então, como 
era natural, opúnhamos palavra a 
palavra. Depois, ele dã um salto, fere- 
me, espanca-me, estrangula-me e 
acaba comigo!. .. 


| FIDÍPIDES 
Então não é justo, já que você não 
elogia Euripides, o mais sábio? 


ESTREPSÍADES 
O mais sábio ! O... de que chamar 
você? Mas vou apanhar de novo... 


FIDÍPIDES 
Sim, por Zeus, e será justo. 


ESTREPSÍADES 
Justo? E como? Sem vergonha, eu 


371% Alusão ao estilo grandilogiente de Esquilo. Cf.. 


Ras, vv. 836 ss.; vv. 924 ss. etc. 

372 Crítica ao apreço de que gozava Eurípides 
entre os representantes da nova educação. 

373 Cf. Eur., Éolo, referência a Macateu, filho de 
Éolo, que seduziu a própria irmã, Canace. O casa- 
mento de meios-irmãos era permitido em Atenas, 
nunca porém quando se tratava de filhos da mesma 
mãe. Cf. Escol., v. 1371; Andoc., Alcibíades., 33; 
Aristóf., Rãs, vv. 849 ss. 


ARISTÓFANES 


que o criei,é 74 percebendo tudo que 
você queria dizer, quando balbuciava! 
Se você dizia “bru” eu entendia e lhe 
oferecia de beber. Quando pedia 
“mamá? aproximava-me para dar-lhe 
comida. Nem bem você dizia 
“caca?3 75 eu levava-o para fora da 
porta e segurava-o diante de mim... 

Mas você agora me estrangulava 
enquanto eu gritava e berrava que 
tinha vontade de aliviar-me! Canalha, 
nem pensou em levar-me para fora, e, 
sufocado, eu fiz: a “caca” al 
mesmo !3 7 8 


CORO | 

(Antistrofe)3 77 Creio eu, dão saltos 
os corações dos jovens, à espera do 
que ele vai dizer... E se ele, que prati- 
cou esses crimes, convencer o pai com 
suas tagarelices, em troca da pele dos 
velhos, eu não daria nem um grão de 
DIGO see 


CORIFEU 
(A Fidípides.) 


Movimentador e sacudidor de pala- 
vras novas, a sua tarefa é procurar um 
meio de convencer de que parece dizer 
o que é justo? 7º. 


FIDÍPIDES 
Como é doce conviver com idéias 
novas e engenhosas, e poder desprezar 


374 As crianças eram atendidas ou pela mãe ou 
pela ama. Como a esposa de Estrepsítades, vaidosa e 
cheia de luxos, pouco devia importar-se com as 
necessidades do filhinho, o próprio pai, provavel- 
mente para poupar as despesas duma ama, tomava 
conta da criança. É visível o tom de paródia. Cf. 
Hom., Jl., IX, 486-492 (palavras de Fênix a 
Aquiles). 

375 Expressão técnica da linguagem das amas. Cf. 
Escol., v. 1384. 

378 Pnigos — Desespero e suprema humilhação de 
Estrepsíades. 

377 Antode — Confirmada a impudência de Fidi- 
pides, treme o coro na expectativa de novas injusti- 
ças (vv. 1391-1396). 

378 Expressão de sentido obsceno. 

379 Mais uma vez cabe ao coro movimentar a 
ação, dando a palavra a Fidípides. 


1385 


1390 


1395 


1400 


1405 


1410 


1415 


AS NUVENS 


as leis estabelecidas !$8º Quando eu 
preocupava o meu espírito só com a 
equitação*8?, não era capaz de dizer 
nem três palavras sem errar?82. Mas, 
agora, depois que “ele em pessoa”383 
acabou com isso, eu convivo com há- 
beis sentenças, palavras e pensamen- 
tos, e creio que posso provar que é 
justo castigar o pai. 


ESTREPSÍADES 
Pois então, por Zeus, trate de andar 
a cavalo !384 Que para mim é melhor 
sustentar uma quadriga de cavalos do 
que apanhar e ser moido de panca- 
DAS Su 


FIDÍPIDES 
Volto ao ponto em que você me cor- 
tou a palavra. E antes vou dizer-lhe o 
seguinte: quando eu era criança, você 
me batia? 


ESTREPSÍADES 
Sim, porque tinha boas intenções e 
cuidados por você. 


FIDÍPIDES 

Então diga-me: não é justo que eu 
tenha - boas intenções e, da mesma 
forma, lhe bata, já que “ter boas inten- 
ções” é “bater”? Pois como é que o seu 
corpo deve sair ileso dos golpes e o 
meu não? E, no entanto, bem que eu 
nasci livre... “As crianças choram e 
pensas que um pai não deve cho- 
rar??38 5 Mas você dirá que se consi- 
dera esse ato como" próprio das crian- 
ças, e eu responderei que os “Velhos 


380 Ántipirrema — Fidípides, numa nova encarna- 
ção do espírito Injusto, revela seu total desprezo 
pelas leis tradicionais (vv. 1399-1445). 

381 Cf.vv. 1455; 25 ss. 

382 Cf.vv. 87255. 

383 Refere-se a Sócrates; provável alusão ao “ele 
disse” dos pitagóricos; veja nota v. 219. 


384 Já agora Estrepsíades está convicto dos erros 


que cometeu. 

385 Paródia de Eur., Alc., v. 691. Cf. Tesm., v. 
194; Escol., v. 1415. Como se trata de paródia, 
mantivemos a 2.º pessoa do singular na tradução. 


Zo 


são duas vezes crianças”?*8 8 e que é 
natural que os velhos chorem mais do 
que os jovens, tanto quanto é menos 
razoável que cometam erros... 


ESTREPSÍADES 
Mas em lugar algum se admite que o 
pai sofra esse ultraje !38 7 


FIDÍPIDES 

Acaso quem estabeleceu essa lei 
pela primeira vez não foi um homem 
como você e eu, que persuadiu aos 
antigos com suas palavras?388 Então 
é menos razoável que eu, de meu lado, 
para o futuro estabeleça uma nova lei 
para os filhos: que, por sua vez, batam 
nos pais? Todas as pancadas que 
costumávamos receber antes de ser 
estabelecida esta lei, nós deixamos pas- 
sar e lhes damos grátis para serem 
espancados. .. Mas observe como os 
galos e todos esses outros “animais se 
vingam dos seus pais. Ora, em que 
diferem de nós, senão porque não redi- 
gem decretos?38º 


ESTREPSÍADES 
Já que você imita os galos em tudo, 
por que também não come esterco e 
não dorme num poleiro? 


FIDÍPIDES 
Não é a mesma coisa, meu caro; 
nem Sócrates aceitaria isso... .3º90 


ESTREPSÍADES . 
Se é assim, não me. bata. Senão, um 
dia, você também será castigado. .. 


386 Expressão proverbial. 

387 Estrepsiades, representante da velha guarda, 
apóia-se no peso da tradição. 

388 Fidípides argumenta a partir da relatividade 
das leis e dos usos, estabelecidos convencional- 
mente, e apela para as leis naturais, de acordo com 
os ensinamentos dos sofistas. Cf. v. 1427 (alusão 
aos galos); cf. Ehrenberg, op. cit., p. 358 (oposição 
entre “physis” e “nomos”). 

38s Cf.v. 1018, Cav., v. 1383. 

390 TFidípides, em última instância, apela para a 
autoridade do mestre. 


1420 


1425 


1430 


1435 


1440 


228 


FIDÍPIDES 
Como? 


ESTREPSÍADES 
Porque tenho direito de castigá-lo e 
você ao seu filho, se o tiver. 


FIDÍPIDES 
E se eu não tiver filhos? Terei chora- 
do em vão, e'você já estará morto, 
rindo diante do meu nariz ! 


ESTREPSÍADES 
Homens de minha idade*º1, penso 
que ele diz o que é justo ! Creio que se 
deve concordar com os filhos no que é 
razoável... Pois é natural que tam- 
bém choremos, se não fazemos o que é 
Justo. 


FIDÍPIDES 
Reflita ainda sobre um outro pensa- 
mento... 


ESTREPSÍADES 
Não... Pois vou morrer... 


FIDÍPIDES 
E provavelmente você não ficará 
com raiva depois de ter padecido o que 
estã padecendo agora... 


ESTREPSÍADES 
Como? Mostre-me qual o benefício 
que você poderá fazer-me... 


FIDÍPIDES 
Também vou bater na minha mãe, 
assim como lhe bati? *2. 


ESTREPSÍADES 
Que diz? Que diz você? Esse crime 
ainda é maior! 


391 Dirige-se aos espectadores. 

382 O filho esperava agradar ao pai; todavia não é 
bem sucedido, e a reação do velho é violenta. A mãe 
gozava de muito respeito, no seio das famílias, e Só- 
crates recomendava que se lhe devotasse afeição 
ainda que ela não o merecesse. Cf. Xen., Mem, II, 
2. Opiniões contrárias aparecem em Esq., Eum., vv. 
658 ss., e Eurip., Or., vv. 552 ss. Veja V. Ehrenberg, 
op. cit., p. 194. 


— ARISTÓFANES 


FIDÍPIDES 
Por quê? E.se eu vencê-lo com pala- 
vras, sustentando o raciocínio fraco de 
que se deve bater na mãe? 


ESTREPSÍADES:º3 

Que mais há de acontecer, se você 
fizer isso? Nada poderá impedi-lo de 
precipitar-se no Baratro3º*, com Só- 
crates e com esse tal raciocínio fraco! 
(4o Coro.) Nuvens?º 8, eis o que estou 
sofrendo por vossa causa, porque vos 
confiei todos os meus problemas !3º & 


CORO 
Você mesmo foi o causador desses 


males, quando se virou para a perversi- 
dade... 


ESTREPSÍADES 
Por que então naquele tempo vós 
não me dissestes isso, e virastes a cabe- 
ça de um homem velho e ignorante? 


CORO 
É assim que sempre fazemos, quan- 
do reconhecemos que alguém é amante 
das más ações, até que o atiramos na 
desgraça para que aprenda a temer os 
deuses *, 


ESTREPSÍADES 

Ai de mim, é um castigo penoso mas 
justo! Pois eu não devia negar-me a 
pagar o dinheiro que tomei empres- 
tado! (Ão filho) Agora então, meu 
querido, contanto que você venha co- 
migo para destruir aquele canalha do 
Querefonte e Sócrates, eles que me 
enganaram amimea você... 


393 Antipnigos: reação de 
1445-1451). 

394 Abismo a noroeste da Colina das Ninfas, de 
onde se atiravam os condenados à morte. Cf. Cav., 
v. 1362; Ras, v. 574; Hdt., VII, 133. 

395 Éxodo: arrependimento e vingança de Estrep- 
stades. 

396 Cf. vv. 435-462. 

397 Cf.vv. 1303-1320. 


Estrepsíades (vv. 


1445 


1450 


1455 


1460 


1465 


So Do Sa 


1470 


1475 


J480 


AS NUVENS 


FIDÍPIDES 
Mas eu não poderia fazer mal aos 
meus mestres... .3º8 


ESTREPSÍADES 
Sim, sim, respeite o Zeus pater- 
nal!399 


FIDÍPIDES 


Vejam só, Zeus paternal! Como 
você é antiquado! Acaso existe um 
Zeus: +09 


ESTREPSÍADES 
Existe. 


FIDÍPIDES 
Não,- não existe, quem reina é o 
Turbilhão, depois que destronou 
ZEUS sat 


ESTREPSÍADES 
(Aproximando-se de 
pote.) 


Não destronou. Era eu que acredi- 
tava nisso, por causa deste pote. .: 402 
Ai, desgraçado de mim, porque o jul- 
gava um deus, quando você é um 
vaso!... 


um 


FIDÍPIDES 
Fique aí delirando consigo mesmo e 
dizendo tolices. . . (Sai.) 


ESTREPSÍADES 
Ai, que falta de juízo! Como estava 
louco quando quis jogar fora os deuses 
por causa de Sócrates! (Aproxima-se 
de um busto de Hermes *º3.) Mas, meu 


3938 Cf.v. 871. 

399 Epíteto de Zeus, fregiente em outras cidades, 
mas pouco usado em Atenas. Cf. Plat., Butid., 
302-C.D. Aqui invocado como protetor dos pais. 
s00 Cf.v. 818. 

401 Cf. vv. 380 ss.; vv. 827 ss. Com: amargura 
Estrepsiades ouve o filho repetir as suas próprias 
palavras. 

402 Prosseguimento e explicação do mal-entendido 
que se iniciara nos vv. 380 ss. 

“03 Termes “guardião das portas”. Cf. Plut., 1153. 
Passagem semelhante em Paz, v. 658. 


229 


caro Hermes, não fique com raiva de 
mim, não acabe comigo, tenha com- 
paixão, porque enlouqueci com fanfar- 
ronices ! Seja meu conselheiro, se devo 
processá-los depois de escrever uma 
queixa ou o que lhe parece. (Finge 
ouvir o que diz a estátua.) Dá-me um 
bom conselho, não me deixando re- 
mendar processos “*º * mas dizendo-me 
que ponha fogo na casa dos fanfar- 
rões*º5, o mais depressa possível! 
(4os escravos.) Aqui, aqui, Xantias! 
(Xântias acorre.) Saia, apanhe uma es- 
cada e traga uma tocha, e, depois se 
você estima o seu patrão suba ao 
“nensatório” e ponha o teto abaixo, até 
derrubar a casa em cima deles. (A 
outro escravo.) Você, traga-me uma 
tocha acesa e eu hoje vou fazer que 
algum deles me pague, por mais char- 
latães que sejam !4º 6 


(Sobe ao telhado com a 


tocha.) 
DISCÍPULO A 
(De dentro.) 
Ai, ai! 
ESTREPSÍADES 


Tocha, a sua tarefa é lançar grandes 
chamas! 


DISCÍPULO B 
(Saindo, espantado.) 


Homem, que está fazendo? 


ESTREPSÍADES 
Que faço? Que mais há de ser senão 
trocar sutilezas com as traves da casa? 


DISCÍPULO B 
(De dentro.) 


Ai, quem põe fogo em nossa casa? 


“04 Alusão à mania judiciária dos atenienses. 

“05 Epíteto usual com que eram criticados os filó- 
sofos. Cf. fr. 418; Eúpolis, fr. 311; Plat., Fed., 70-C. 
SO fi vi OD 


1485 


1490 


1495 


1500 


230 


ESTREPSÍADES 
Aquele fulano - cujo manto vocês 
roubaram... 407 


DISCÍPULO B 
Vai matar-nos, matar-nos. 


ESTREPSÍADES 
(Desmanchando o telhado.) 


Pois é isso mesmo que eu quero, se a 
tocha não trair as minhas esperanças, 
ou se antes eu não cair e quebrar o 
pescoço... 


SÓCRATES 
(Aparecendo.) 


Homem, que está fazendo? Você aí 
em cima do telhado? !. 


ESTREPSÍADES 


407 Cf.v. 497, v. 856. 


AS NUVENS 


t 


“Ando pelos ares e olho o sol de 
Cima? ms ÃO 


SÓCRATES 
Ai de mim, desgraçado, vou morrer 
sufocado ! 


DISCÍPULO A 

Desgraçado de mim, vou morrer 
queimado ! » 
- ESTREPSÍADES 


Pois, com que sabedoria, vocês 
nsultam os deuses e investigam o 
“assento” da Lua? (Ão escravo.) Ata- 
que, atire, bata, bata por muitas ra- 
zões, e principalmente porque você 
sabe que eles ofendiam os deuses! 

CORO 
(Saindo.) 
Conduzi-nos para fora. 


Hoje o nosso coro já dan- 
çou a sua medida... 


“08 Verso idêntico a 225 (palavras de Sócrates, 
aqui repetidas ironicamente). 


1505 


1510 


Este livro integra a coleção: 
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 
Composto e impresso nas oficinas da 
Abril S. A. Cultural e Industrial, caixa postal 2372, São Paulo